Ideias na Mesa - Blog


postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 06 de Outubro de 2015

Apresentamos no quadro de hoje um artigo escrito pela Lígia Amparo Santos - Doutora em Ciências Sociais - e publicado na Revista de Nutrição em 2013. Nele, Lígia propõe uma reflexão sobre avanços e desdobramentos para EAN a partir do lançamento do Marco de Referência. Dentre os aspectos positivos a serem destacados no marco, Santos comenta a respeito da construção coletiva do documento que contou com significativa contribuição da sociedade civil.

Ela também valoriza em seu artigo a dimensão cultural da alimentação:

“No que se refere aos aspectos culturais da alimentação, a compreensão do ato alimentar como uma prática social que traz à tona as dimensões socioculturais, valores simbólicos, afetivos e sensoriais da alimentação, do alimento e do comer, bem como a valorização das diferentes expressões de identidade e cultura alimentar e do fortalecimento de hábitos alimentares regionais, já é assegurada no corpus das políticas públicas de alimentação e nutrição produzidas particularmente no decorrer da primeira década deste século.”

No trecho seguinte, Lígia contextualiza o fortalecimento do conceito de tradições alimentares no âmbito da nutrição, ao passo que gastronomia e a nutrição como ciência reconhecem e valorizam esta importante dimensão:

“O que mais interessa neste processo de alargamento das formas de ver e pensar a tríade do comer, alimentar e nutrir é como elas dialogam com as dimensões forjadas pela biomedicina, eixo central da Ciência da Nutrição desde seu nascimento. Em outras palavras, como promover mudanças nas práticas alimentares dos sujeitos sob a ótica do saudável e, ao mesmo tempo, respeitar os seus hábitos alimentares, as tradições e a cultura alimentar de um povo? Essa questão, um dilema talvez, que percorre as políticas e as práticas, irá encontrar na educação alimentar e nutricional um nó górdio; cabe, portanto, refletir sobre o tema. Dentre inúmeros outros aspectos, compete também pensar que o principal "instrumento" da educação alimentar e nutricional é o diálogo, elemento fundante de existência humana coletiva, e que seu sucesso depende fundamentalmente da agência dos sujeitos. Para além dos corpos-máquinas, norteados pelo conhecimento biomédico, são sujeitos que vivem em relação, produtos e produtores do seu tempo e do seu lugar no mundo. A existência humana concreta desafia os saberes disciplinares tal como a ciência hegemônica se estruturou, compartimentalizando os conhecimentos em categorias excludentes, a exemplo de natureza versus cultura, social versus biológico, comer versus nutrir. Ao considerar que a EAN se configura no encontro entre sujeitos e que tais dimensões se apresentam entrelaçadas no cotidiano das nossas práticas, pode-se inferir que esse diálogo de saberes se constitui uma das maiores provocações que o Marco traz para a sociedade brasileira. É desse modo que o cenário das práticas educativas dá visibilidade à insuficiência do cartesianismo e se torna um terreno fértil que produz objetos de estudos da EAN. Assim, um desafio é construir uma Ciência da Nutrição que dê conta ao mesmo tempo das diferentes dimensões implicadas nas práticas alimentares dos sujeitos.”

Em relação ao papel da EAN dentro da Universidade, é abordado a inserção dentro do tripé Ensino, Pesquisa e Extensão, e foi observado a necessidade de se trabalhar a EAN como uma prática mais participativa e emancipatória por parte dos educadores. O Marco como o próprio nome diz, serve como um elemento norteador dentro de diferetes esferas para se desenvolver a temática. 

Lígia conclui o artigo da seguinte forma:

“Os comentários aqui traçados são esperançosos e têm como perspectiva que o Marco de Referência de EAN para Políticas Públicas possa vir a ser um documento vivo para o campo e que essa culminância seja um começo. Espera-se que ainda possa ser tratado como também um"marco" divisor de águas no qual nós, astrônomos e cartógrafos da alimentação e da nutrição, possamos navegar com mais segurança. Que seja uma bússola que, com frequentes ajustes, assegure a possibilidade de desbravar novas terras e que possa contribuir para o nosso objetivo: garantir à sociedade brasileira o direito a uma alimentação adequada e saudável”.

O Marco de Referência foi lançado no final de 2012 e este artigo publicado em um momento inicial ao lançamento do mesmo, contextualizando o cenário da época. Três anos se passaram desde o lançamento, e de que maneiras o Marco contribuiu e continuará a contribuir para a consolidação das práticas em Educação Alimentar e Nutricional referidas?      

Clique aqui para acessar o artigo na íntegra.


 

 



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