PRÁTICAS DE EAN ENTRE ESTUDANTES E PACIENTES DIABÉTICOS: DESAFIOS PARA UMA EDUCAÇÃO POPULAR
Postado 12/08/2018

 
Postado por
Tamiris Pereira Rizzo

Macae - RJ
(11) 95442-0020 (21) 981950951
Organização/Instituição Promotora da Experiência : Universidade Federal do Rio de Janeiro
Área da Experiência: Educação, Saúde
Niveis Atuacao: Municipal/Local
Setor da Organização/Instituição: Público
Sujeito Idade: 20 a 59 anos, 60 a ou mais,
Número Aproximado de Participantes da Experiência : 0-50
Sujeito Caracteristica : Trabalhadores, Profissionais da saúde
Tipo Local: Unidade Básica de Saúde
Tipo Experiência: Dinâmica em Grupo, Material Impresso, Roda de Conversa
Temática: Direito Humano à Alimentação Adequada e Segurança Alimentar e Nutricional , Envelhecimento, Gastronomia / culinária, Prevenção/controle de obesidade e doenças crônicas não transmissíveis (diabetes, hipertensão, câncer, doenças cardíacas, doenças respiratórias...), Promoção da Alimentação Adequada e Saudável


Sobre A Iniciativa:

Este relato trata da experiência de um grupo de estudantes de Nutrição no desenvolvimento de atividades educativas dirigidas aos pacientes frequentadores do Centro de Referência ao Diabético (CRD), situado no Centro de Especialidades Jorge Caldas, no município de Macaé, região norte-fluminense do estado do RJ.

A disciplina teórico-prática visa a aproximação dos graduandos de nutrição com o território e o fazer da Educação Alimentar e Nutricional em espaços intitucionalizados de saúde, nos diversos níveis de atenção do SUS, com objetivo do exercício da prática educativa vinculada a reflexão sobre o processo-saúde doença e o cuidado nutricional dirigidos à pacientes adoecidos.

A experiência aqui descrita é um relato do itnerário deste grupo de graduandos, na busca por tercer vínculos e um processo educativo horizontal com os pacientes do CRD, para a realização de práticas educativas promotoras da alimentação adequada e saudável, orientadas pela metodologia da Educação Popular em Saúde. 

Na sequência, acompanharemos a trajetória do grupo na preparação teórica que antecedeu as vivências práticas de EAN, vislumbrando como o livro Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire; a Metodologia da Problematização com o Arco de Maguerez; entre outros textos, prepararam e orientaram a busca por uma construção horizontal e dialogada entre os estudantes e os pacientes diabéticos. Descreveremos tais encontros, seu passo a passo, suas dificuldades e seus possíveis desdobramentos. Esperamos que a leitura do material possa por luz aos desafios que temos para realização de práticas autonomas de alimentação e nutrição em contextos de adoecimento e; como o referencial teórico metodologico da Educação Popular pode ser um importante aliado nessa empreitada.

Boa Leitura!



Passo A Passo:

ANTECEDENTES

A Diabetes Mellitus (DM) é uma síndrome de etiologia múltipla, decorrente da falta de insulina e/ou da incapacidade da mesma de exercer adequadamente seus efeitos, resultando em resistência insulínica. Caracteriza-se pela presença de hiperglicemia crônica, frequentemente acompanhada de dislipidemia, hipertensão arterial e disfunção endotelial (SBD, 2002). Essa enfermidade representa um considerável encargo econômico para o indivíduo e para a sociedade, especialmente quando mal controlada, sendo a maior parte dos custos diretos de seu tratamento relacionada às suas complicações, que comprometem a produtividade, a qualidade de vida e a sobrevida dos indivíduos, e que, muitas vezes, podem ser reduzidas, retardadas ou evitadas (IDF, 1999. MACLELLAN, et al, 2006).

A programação do atendimento para tratamento e acompanhamento das pessoas com DM na Atenção Básica deverá ser realizada de acordo com as necessidades gerais previstas no cuidado integral e longitudinal do diabetes, incluindo o apoio para mudança de estilo de vida (MEV), o controle metabólico e a prevenção das complicações crônicas (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2013).

O Centro de Referência ao Diabético (CRD) oferece atendimento multidisciplinar aos diabéticos do município de Macaé. O objetivo é proporcionar uma melhor qualidade de vida e diminuição dos agravos ocasionados pela doença e internações hospitalares. Para que o paciente tenha um acolhimento no local é necessário que o mesmo tenha o encaminhamento de um médico, logo pessoas encaminhadas com o diagnóstico fechado. No CRD são recebidos usuários de insulina, gestantes diabéticas, crianças e pessoas com diabetes graves de difícil controle (CENTRO DE REFERÊNCIA DO DIABÉTICO - MACAÉ, 2015).

O REFERENCIAL TEÓRICO METODOLÓGICO DA EDUCAÇÃO POPULAR

Iniciamos a disciplina pensando teóricamente as situações de adoecimento a luz da leitura da Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire (1987), acompanhada de uma apresentação teatral, desenvolvida pelo Teatro Ciênica (UFRJ Campus Macaé). Em vários trechos do capítulo 1 (Justificativa da pedagogia do oprimido) são descritos como é a relação oprimido-opressor e vice versa e resumidamente a peça, baseada na obra de Freire, retratou situações do cotidiano e como fazemos o papel de opressor no meio em que iremos atuar como profissionais.

Como problemas centrais relacionados a opressão, a apresentação demonstrou o abuso de poder dos médicos em relação aos enfermeiros, a falta de respeito com a religião do outro e o mau tratamento dos pacientes pelos enfermeiros. Ao analisarmos essas situações, creio que a mais marcante para todos foi a que retratou a senhora que utilizava um crucifixo no pescoço e foi hostilizada pela sua médica, uma ateia. Por ser uma pessoa com muita fé naquela momento a senhora remeteu minha mãe e imaginá-la passar por aquele constrangimento não foi positivo.

Essa cena vem para ratificar o quão significativo e crucial é o respeito a crença do outro, seja ele quem for. Vemos constantemente atos inadmissíveis relacionados a intolerância religiosa e quando transferimos isso para o âmbito da nutrição, percebemos o quanto a religião e alimentação andam juntas. A identidade religiosa é, muitas vezes, uma identidade alimentar. Ser judeu ou muçulmano, por exemplo, implica, entre outras regras, não comer carne de porco. Ser hinduísta é ser vegetariano. O cristianismo ordena sua cerimônia mais sagrada e mais característica em torno da ingestão do pão e do vinho, como corpo e sangue divinos. A própria origem da explicação judaico-cristã para a queda de Adão e Eva é a sua rebeldia em seguir um preceito religioso: não comer do fruto proibido, cita Carneiro (2005).

Ao tocar nessa tecla, esbarramos em como nosso conduta opressora sendo profissionais da nutrição podem tornar nossos pacientes oprimidos. Sim, há situações em que a expressão "é uma faca de dois gumes" cabe corretamente. Paulo Freire (1987) cita em sua obra "Pedagogia do Oprimido", que os oprimidos, acomodados e adaptados, "imersos" na própria engrenagem da estrutura dominadora, temem a liberdade, enquanto não se sentem capazes de correr o risco de assumi-la. E a temem, também, na medida em que, lutar por ela, significa uma ameaça, não só aos que a usam para oprimir, como seus "proprietários" exclusivos, mas aos companheiros oprimidos, que se assustam com maiores repressões.

Colocando esse pensamento a uma simples ideia de retirar a mandioca do café da manhã de um nordestino, por exemplo, e dizer que em seu plano alimentar esse alimento não poderá ser incluído pois é fonte de carboidrato simples, não é também um meio de opressão? Penso que ele, leigo, não teria argumento científico para rebater minhas ordens, totalmente impostas. Logo, o que restaria? Acatar e fim de consulta. Passar bem.

É esse tipo de situação que EAN nos coloca, frente a frente, fazendo com que observemos tais colocações refletindo no campo da saúde, com o propósito de começarmos a desenvolver um modelo de educação dialógico, voltado para a prática da liberdade, valorizando o outro, suas experiências, vontades e desejos, hábitos, cultura, ambiente, a fim de aproximar ainda mais o povo com suas raízes.

As ações de Educação Popular em Saúde impulsionam movimentos voltados para a promoção da participação social no processo de formulação e gestão das políticas públicas de saúde direcionando-as para o cumprimento efetivo das diretrizes e dos princípios do SUS: universalidade, integralidade, equidade, descentralização, participação e controle social. Ao trabalhar com atores sociais, a Educação Popular contribui para a construção de cenários nos quais os movimentos populares possam se fazer presentes, apresentando novas temáticas, experiências e desejos (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2007).

O Ministério da Saúde (2007) afirma que a Educação Popular na Saúde implica atos pedagógicos que fazem com que as informações sobre a saúde dos grupos sociais contribuam para aumentar a visibilidade sobre sua inserção histórica, social e política, elevar suas enunciações e reivindicações, conhecer territórios de subjetivação e projetar caminhos inventivos, prazerosos e inclusivos. Além disso a Educação Popular busca trabalhar pedagogicamente o homem e os  grupos envolvidos no processo de participação popular, fomentando formas coletivas de aprendizado e investigação de modo a promover o crescimento da capacidade de análise crítica sobre a realidade e o aperfeiçoamento das estratégias de luta e enfrentamento.

Nossos objetivos, assim, englobaram a ambiência do local a ser trabalhado, acompanhamento da prática dos profissionais nesse serviço de saúde para realização do diagnóstico educativo e oficinas de planejamento, execução e desenvolvimento de ações educativas em saúde, alimentação e nutrição.

OBSERVAÇÃO DA REALIDADE: AMBIÊNCIA AO SERVIÇO E ACOMPANHAMENTO DE CONSULTAS COM OS PACIENTES DIABÉTICOS

Compreendendo a primeira etapa do Arco de MAguerez, metodologia da problematização para as ações educativas, estivemos no CRD e percebemos na ambiência que o espaço físico era bem localizado, visto que é no Centro da cidade, no entanto não é sabido amplamente sobre a existência do CRD atualmente no postinho. Outro fato que nos chamou a atenção - sendo discutido com o grupo - foi a diversidade de especialidades presentes no Jorge Caldas e a falta de integração entre eles.

Uma equipe interdisciplinar é um ponto positivamente importante no tratamento de paciente diabéticos por exemplo. A troca entres os profissionais de saúde pode causar modificações e/ou enriquecimento em conceitos das especialidades envolvidas, permitindo a incorporação de novos conhecimento por meio da interação e da construção participativa. Logo o local da ambiência é constituído por uma equipe multiprofissional, ou seja, diferentes profissionais atuando a fim de provocar a mínima interferência possível na melhor estratégia de tratamento para determinado problema, no entanto sem interdisciplinaridade.

Continuamos então na busca da verificação do problema através da observação da realidade segundo o Arco de Maguerez, base para a aplicação da Metodologia da Problematização, acompanhando por uma manhã as atividades realizadas com os diabéticos. Participamos da Oficina do Pé, denominada assim pois verifica o pé diabético, instalado ou não e às consultas ministradas pela nutricionista do serviço.

O que dizer da nossa primeira consulta, onde pudemos assistir a aplicação da teoria de "como ser uma nutricionista que Paulo Freire teria orgulho" com os pacientes? Vimos naquele momento uma inspiração. Elogiamos com brilho nos olhos aquela consulta de quase 50 minutos de duração! Espantoso não? Já é tão comum uma consulta de 15 – 20 minutos que quando olhamos a hora no celular nem tinha reparado o tempo passar. Sabe quando o profissional acorda cedo - à consulta começou 8h da manhã - e conversa com o paciente como se fossem melhores amigos?  Abraça, ri, troca olhares, troca olhares... Eu já disse troca olhares? Isso me remete a um momento de uma das consultas na qual a nutricionista pediu para que o atendido olhasse nos olhos dela e que não precisava ter vergonha. Acho que não precisoamos nos prolongar em relação a essa consulta e dizer o quanto amamos ter pelo menos uma vez na vida assistir a esse exemplo de profissional.

Em um curto espaço de tempo pudemos também presenciar uma oficina – a enfermeira denominava assim – que ensinava como aplicar a insulina, visto que a maioria dos doentes apresentavam DM tipo 1. Para a educadora Vera Maria Candau, (1999), a oficina constitui um espaço de construção coletiva do conhecimento, de análise da realidade, de confronto e troca de experiências. A atividade, a participação, a  socialização da palavra, a vivência de situações concretas através de sociodramas, análise de acontecimentos, a leitura e a discussão de textos, o trabalho com distintas expressões da cultura popular, são elementos fundamentais na dinâmica das oficinas pedagógicas.

Após observação da realidade fomos para a segunda etapa do Arco que consiste na identificação dos pontos-chaves. Percebemos então que naquele público o problema em comum seria a falta de planejamento dos horários das refeições, fazendo com que os pacientes passassem por situações como hiperglicemia e hipoglicemia, aliado aos sintomas característicos. A partir disso fomos nos preparar para a primeira prática que mal sabíamos que futuramente iria ladeira abaixo.

PONTOS-CHAVE: O II ENCONTRO E AS DIFICULDADES PARA PRÁTICA VERDADEIRAMENTE EMANCIPATÓRIA

Atividade prática: Montagem de um plano alimentar (mural).

Objetivo: Buscamos com a prática era descobrir os motivos pelos quais os pacientes não realizavam algumas refeições ao longo do dia e trabalhar em conjunto os horários das refeições.

Descrição: Após realizarmos a ambiência, identificamos que um dos pontos chaves seriam os horários das refeições, pelo qual não estavam sendo realizados adequadamente pelos pacientes de Diabetes Mellitus que frequentam o CRD, ocasionando episódios de hiperglicemia e hipoglicemia, trazendo prejuízos para sua saúde. Para podermos atuar nesse ponto, precisávamos primeiramente, descobrir os principais motivos pelos quais os pacientes não realizam refeições ao longo do dia, para só assim levantarmos hipóteses e soluções que poderiam reverter esse quadro.

A atividade prática proposta foi a elaboração de uma mural onde realizaríamos um mini plano alimentar das últimas refeições feitas pelos pacientes. Primeiramente, entre o grupo, foi realizado um roteiro, onde abordamos todos os materiais utilizados, as nossas falas, a elaboração do mural em si, ou seja, todo o contexto em que iríamos trabalhar. A intenção do mural era que todos participassem em conjunto, dando suas opiniões, relatos de experiências, e a partir do momento em que as pessoas relatassem o por quê "pulavam" as refeições, interviríamos com propostas que trariam benefícios.

Apesar do bom planejamento, não conseguimos atingir os objetivos propostos, devido a alguns erros que cometemos. Primeiramente nem todos os pacientes que ali se encontravam participaram da dinâmica, seja por timidez ou falta de oportunidade, e nós como mediadores da dinâmica, não soubemos integrá-lo, nem conseguimos reverter o quadro. Outro erro, foi que realizamos perguntas "fechadas", induzindo as respostas, ou seja, a atividade não foi participativa e nem dialógica. O mural como recurso utilizado impossibilitou que tivéssemos uma conversa, pois estávamos o tempo todo de costas para o grupo. A atividade ultrapassou o tempo permitido, e como todos os pacientes, supostamente, realizavam as refeições adequadamente (o que não esperávamos), finalizamos a atividade sem apresentar nossas propostas e intervenções, ou seja, sem concluir nossos objetivos. Apenas nos despedimos.

Erros são super bem vindos, principalmente nesse momento que temos a chance de aprender com eles e consertá-los enquanto há tempo. Achei interessante a metodologia de conversar após o fim de cada encontro. Tais discussões permitiram que conseguíssemos enxergar - através do apoio de nossa professora- situações que se não nos colocássemos mais a fundo, deixaríamos passar como algo sem muita importância. Decidimos, então, manter nossa investigação sobre aquele ponto-chave, acreditando que estavamos certos no diagnósticos mas equivocados na forma de abordagem do problema.

TEORIZAÇÃO/HIPÓTESES DE SOLUÇÃO: O III ENCONTRO SUPERANDO OS DESAFIOS COM OS PACIENTES

Atividade Prática: Bate Papo sobre a DM e as situações do cotidiano.

Objetivos: Descobrir se os paciente pulavam refeições. Se sim, por quê? Como agiam em relação a alimentação nas situações colocadas (festas, trabalho, em casa, viagem); Conceder dicas para os problemas apresentados.

Descrição da Atividade: Após verificação dos erros da primeira atividade e com objetivo de corrigi-los pensamos então na segunda atividade. Como desafio, o público no qual trabalhamos não era o mesmo a cada prática, logo tínhamos que ajustar nossas atividades para que todas funcionassem com todos os pacientes com DM que ali frequentavam.

O Mapa de Conversação em Diabetes é uma estratégia educativa criada pela Federação Internacional de Diabetes, desenvolvido a partir de ilustrações lúdicas e interativas, contendo metáforas sobre a condição crônica do diabetes e situações cotidianas vividas pelos usuários dos serviços de saúde. Pode ser utilizado por meio do compartilhamento de experiências pessoais e englobar sentimentos, redes de apoio e práticas saudáveis de vida (CHAVES et al., 2015).

Foi a partir do Mapa, apresentado a nós pela nutricionista do serviço, que tivemos a ideia de utilizar imagens do cotidiano e conversar com esses pacientes como eles se portavam naquelas situações. Festa, viagem, momentos em casa sozinho, com a família, no trabalho, na rua e até mesmo em uma sala de espera foram as situações escolhidas para serem debatidas. Queríamos com isso integrar todos os pacientes e saber se eles pulavam refeições (problema encontrado nas observações das consultas) e como era a relação com a comida.

Conseguimos atingir os objetivos destacados para essa atividade. Dessa vez o uso de perguntas fechadas foi bem reduzido, diferente da primeira atividade, dando as participantes voz e vez para relatar o que queriam em relação as situações abordadas. Participaram do Bate Papo duas mulheres com tempo de diagnóstico da doença avançado. Como em todo prática há sempre alguém que se destaca e na atividade 2 uma participante apresentava-se disposta e confortável o suficiente para relatar sobre sua vida.

Em alguns momentos conseguimos introduzir pequenos cortes, dando vez a outra paciente de relatar suas experiências. Conseguimos descobrir através dos relatos que a participante mais calada ficava um grande tempo sem se alimentar, e a mesma só nos contou depois que a outra paciente relatou ter passado mal, uma vez, durante um culto devido um grande intervalo sem se alimentar. A partir disso a paciente mais calada disse passar frequentemente por situações como tremores nas mãos e tontura. A mesma, doméstica, expressou almoçar na casa dos patrões e não realizar nenhuma refeição depois disso até chegar em casa, no final da tarde.

Com isso aproveitamos o momento para falar da importância de se alimentar nos horários corretos, a fim de evitar situações como essas que a paciente relatou passar. Contamos também com a colaboração da paciente mais falante que concedeu dicas importantes e corretas, como por exemplo ter sempre um lanche dentro da bolsa. Pudemos perceber que a interação entre as duas pacientes foi positiva, visto que as mesmas passam pelos mesmos problemas. A partir dessa prática percebeu-se como "o simples ganha mais" e como dar voz, ou seja, o saber ouvir e falar menos foi importante para que pudéssemos alcançar os objetivos que almejamos para a atividade.

Percebemos a dificuldade que é trabalhar com públicos diferentes ao realizar práticas educativas mas ao mesmo tempo o quão é enriquecedor, já que é esse cenário que iremos encontrar num futuro bem próximo. Em relação a aplicação das etapas do Arco, essas acabam ficando comprometidas pois não há retorno do público inicial, podendo ser realizado até a terceira etapa, sendo essa a teorização. Prado et al (2012) afirmam que esse é o momento em que os sujeitos passam a perceber o problema e indagar o porquê dos acontecimentos observados nas fases anteriores.

Tendo em vista que a sala de espera é um campo de atuação de práticas como essa, resolvemos aceitar o desafio da professora e nos aventurar. Esse território é o lugar onde os clientes aguardam o atendimento dos profissionais de saúde, comumente em unidades básicas, mas também existe em outros espaços de atenção em saúde, como nos hospitais públicos e privados. Percebemos que a sala de espera é um território dinâmico, onde ocorre mobilização de diferentes pessoas a espera de um atendimento de saúde. Apesar de ser um lugar da instituição de saúde, é um espaço popular, onde os profissionais de saúde não permanecem de modo constante. Nesse território, entre o público e o privado, aparecem subjetivações como expressões, vivências, espontaneidade e senso comum (TEIXEIRA; VELOSO, 2006).

APLICAÇÃO A REALIDADE: O IV ENCONTRO, A SALA DE ESPERA E A CULINÁRIA COMO FERRAMENTA PEDAGÓGICA

Atividade Prática: Sala de espera do Jorge Caldas, com o tema "A importância da alimentação e seu papel no contexto social".

Objetivos: Interagir com os pacientes da sala de espera falando sobre alimentação saudável; informar sobre a presença de uma equipe multiprofissional do Jorge Caldas; realizar um lanche da tarde como forma de aproximação a fim de estabelecer um diálogo com as pessoas que ali se encontravam.

Descrição: A atividade foi realizada no pátio entre os corredores do Jorge Caldas, não selecionamos apenas um público que pudesse participar, participaram então os pacientes e funcionários do próprio posto do Jorge Caldas e do CRD.

Foi posta uma mesa com lanche da tarde, realizado e montando por nós próprios: Eram torradinhas feitas de pão de forma integral com orégano, pasta de iorgurte temperada com cheiro verde, alho e um pouco de sal e dois tipos de café, o puro com canela e uma quantidade de açúcar e café com canela e leite. Com o intuito de atrair pessoas daquele local para uma conversa, na qual ouviríamos o motivo de cada um estar ali, saber se tinham o conhecimento do que se trata o CRD e que poderiam ter acesso ao mesmo, quais os profissionais tinham ali e se havia um encaminhamento entre as especialidades, além de, falar de uma forma geral o quanto é importante consumir refeições com uma quantidade menor de gordura, sal e açúcar.  E para completar essa atividade, elaboramos folder com as receitas e pequenas dicas de alimentação.

As preparações estavam agradáveis para a maioria dos que participaram e rapidamente se esgotaram. Levamos 20 folhetos com um pensamento de que iriam sobrar, mas a demanda foi maior e faltou. Isso mostra que a realidade superou nossa expectativa, não apenas no quesito material, mas em toda atividade.

A participação das pessoas foi algo que também nos surpreendeu, convidamos a participarem e foi um grande número de pessoas demonstraram interesse em nos ouvir, em falar, em experimentar e saber mais sobre a alimentação. Nessa prática evoluímos no sentindo de ouvir, falamos mais para convidar e falar das preparações do que necessariamente de saúde ou doença, essa parte ficou por conta do público atendido.

Resolvemos utilizar a alimentação como elo para as pessoas que ali aguardavam atendimento virem até nós e vice versa, com a intenção de divulgar a existência de diferentes profissionais no local, relatar o trabalho do CDR, além da importância da alimentação adequada para patologias como DM e HAS.

Realizar atividades em sala de espera nos exige algo bem aflorado: coragem. Há dúvidas - ainda mais quando é a primeira vez que falamos com diferentes pessoas ao mesmo tempo, as quais apresentam diferentes patologias e permanecem concentradas – olhar fixado literalmente - na hora em que a porta do consultório abrirá.

Foi uma experiência diferente e simbólica, ainda mais para aqueles que prezam por um pouco de atenção na hora de falar. A sala de espera não é assim, não mesmo, é um desafio que nos tira da zona de conforto, colocando em situações que não estamos acostumados a passar. Várias pessoas não nos deram atenção e continuaram com seus olhares fixos para as portas dos consultórios - e sobrevivivemos a isso -, várias vieram até a mesa, uma, duas, três vezes para perguntar como o café foi feito e por fim muitos elogios vindos dos pacientes e dos próprios profissionais do CRD.

A sala de espera é uma verdadeira caixa de bombom, caracterizada por diversos sabores – personalidades – em diferentes embalagens - características físicas -, mas sempre com o mesmo propósito: fazer do nosso dia algo mais feliz e significante até porque não é todo dia que você ganha um bombom.



Considerações:

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A diabetes mellitus é uma patologia que vem causando grande impacto na população em uma forma geral. Prejuízos na saúde que de fato comprometem o bem-estar de todos. E como vimos ela pode estar diretamente relacionada a ingestão inadequada de alimentos assim como hábitos de vida sedentários.

Visto que se tornou um problema de saúde pública importante, estratégias precisaram ser adotadas para ir em contrapartida ao avanço da mesma e o CRD é um exemplo deste na cidade de Macaé. O Centro de Referência do Diabéticos foi criado para tratar especificamente pacientes que se relacionam com esta patologia, assim como encaminhar para outros centros caso necessário.

Percebemos claramente o quão é importante atividades educacionais nestes centros. Visto que podemos não só tratar a doença especificamente, mas também promover a alimentação saudável e um estilo de vida mais ativo aos usuários do mesmo. Assim como integrar as equipes de profissionais que muitas vezes se encontram “afastadas” por motivos individuais.

O tempo de permanência no centro foi considerado por nós insuficiente para poder avaliarmos de fato se houve alguma mudança de hábito alimentar entre os usuários, ou se, as equipes e suas especializadas estariam se comunicando melhor. Seria necessário continuar com atividades e avaliar (feedback) a resposta. Porém ficou claro o interesse da maioria pelas atividades elaboradas e o benefício que a mesma pode trazer para os diversos centros de saúde encontrados hoje em nossa sociedade.

Compreendemos também a importância de um bom planejamento para elaboração de atividades educativas como sempre opções diversas caso a proposta inicial não ocorra da forma esperada. Podemos concluir que esta atividade foi bastante enriquecedora para a prática profissional de todos nós, assim como incentivo para novas práticas no centro. Visto que foi muito bem aceita por todos.

Saímos com o desejo  de nos tornarmos profissionais, em que o respeito entre nós e nossos companheiros de jornada seja mútuo. Que possamos ser uma equipe unida, trabalhando sempre em prol de um ambiente saudável e que nunca nos falte o sorriso e o prazer de levantar todos os dias da cama para fazer aquilo que mais gostamos. Obrigada EAN por nos ensinar que o simples é muito mais do que o elaborado na maioria das vezes, por nos apresentar Paulo Freire e sua metodologia incrível com relação a vida e por colocar em nossos caminhos adultos, crianças, idosos, beijos, abraços, sorrisos e experiências que levaremos e compartilharemos para o resto da vida e acima de tudo OBRIGADA por nos tornar um ser humano melhor, com novos pensamentos e convicções voltados para a importância de(o) ser humano.

Texto Lígia Lins, Ludmila Silva, Michele Souza e Bruno Azevedo, supervisão e revisão Tamiris Pereira Rizzo e Patrícia Beraldi


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CANDAU, V.M. Oficinas Aprendendo e Ensinando Direitos Humanos. Educação em Direitos Humanos: uma proposta de trabalho. Novameria/PUC-Rio. 1999. Disponível em. Acesso em 15 de novembro de 2016.

CARNEIRO, H.S. Comida e sociedade: significados sociais na história da alimentação. História: Questões & Debates. Editora UFPR. Curitiba. N 42, p.71-80. 2005.

CENTRO DE REFERÊNCIA DO DIABÉTICO - MACAÉ (2015). Disponível em: <http://www.macae.rj.gov.br/noticias/leitura/noticia/centro-de-referencia-ao-diabetico-oferece-atendimento-multidisciplinar-a-populacao>. Acesso em 15 de novembro de 2016.

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CHAVES, F.F., et al. Mapa de conversação em diabetes: estratégia educativa na visão dos profissionais da saúde. Revista Mineira de Enfermagem. Vol. 19, ed.4, págs. 854-858. 2015.

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro. Editora: Paz e Terra. 1987.

INTERNACIONAL DIABETES FEDERATION. Diabetes health economics; fatcs, figures, and Forecasts. Brussels: IDF. 1999.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa. Departamento de Apoio à Gestão Participativa. Caderno de educação popular e saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2007.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus. Brasília: Ministério da  Saúde. 2013. Disponível em: . Acesso em 15 de novembro de 2016.

MOREIRA, J. et al. Educação Popular em Saúde: a educação libertadora mediando a promoção da saúde e o empoderamento. Contrapontos – vol. 7, n. 3, pág. 507-521. Itajaí. 2007.

PRADO, M.L. et al . Arco de Charles Maguerez: refletindo estratégias de metodologia ativa na formação de profissionais de saúde. Esc. Anna Nery,  Rio de Janeiro ,  v. 16, n. 1, p. 172-177,  Mar. 2012. Disponível em: . Acesso em 16 de novembro de 2016.

TEIXEIRA, E.R.; VELOSO, R.C. O grupo em sala de espera: território de práticas e representações em saúde. Texto contexto - enferm.,  Florianópolis ,  v. 15, n. 2, p. 320-325,  Jun. 2006 . Disponível em: . Acesso em 16 de novembro de  2016.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES (SBD). Consenso Brasileiro sobre Diabetes 2002. São Paulo. 2003.   






Álbum de Fotos da Experiência



Biblioteca da Experiência
1 - Referências Bibliográficas


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