Ideias na Mesa - Blog


postado por Marina Morais Santos em Quarta-feira, 05 de Abril de 2017

Comida não nutre apenas o corpo, mas também a alma, as memórias, o coração. Mas o que alimenta a sua alma?

Para mim, filha de goianos que sempre gostaram da culinária tradicional e de explorar sabores de outras culturas, comfort food é um frango ao molho de açafrão da terra servido com um angu de milho bem quente e uma saladinha de tomate com repolho picadinhos. Não, espera, acho que comfort food mesmo é um belo prato de macarrão com molho de tomate e carne moída bem temperadinha, minha mãe sempre fez muito esse prato quando eu era criança. Ou melhor aquele carinho que um mingau de aveia com maçã e canela faz na gente colherada por colherada? A verdade é que não sei escolher apenas um prato que represente o meu jeito de comer. Já até tentei.

"Se tivesse que escolher um prato para comer o resto da vida, qual seria?" Já ouviu essa pergunta? Me fizeram este questionamento uma vez, em tom de brincadeira obviamente, mas eu devo confessar que levei a pergunta à sério. Me veio uma sensação de pânico ao tentar escolher uma resposta, um sentimento de terror em ter que abrir mão de sabores, aromas e texturas que formam minha identidade para resumir tudo em um só prato. Concluí que é um trabalho impossível (e torturante).  

O que cozinhamos e o que comemos é uma acumulação de experiências, já pensou nisso? O que aprendemos, a nossa família, os lugares onde moramos ou destinos que visitamos, os amigos acumulados durante os anos são todos formadores do nosso conhecimento e do nosso gosto. Ao longo da vida, construímos o nosso jeito de pensar, o nosso jeito de vestir e também o nosso jeito de comer.

Na infância, quando somos apresentados aos primeiros sabores, começamos o nosso repertório. Entram as frutas cheirosas e maduras comidas depois do almoço de baixo do pé, o feijão com caldo grosso e tão quente que chega sai "fumacinha"  da panela quando tira-se a tampa, as verduras batidinhas e refogadas com bastante cheiro verde para colorir... Comida simples, comida de mãe e de vó, comida que tem afeto e que faz carinho do estômago quando a gente come.

Quando deixamos a casa da nossa infância e passamos a integrar o grande mundo que nos esperava, começamos a deixar de lado um pouco dessa nossa "cultura-mãe". De acordo com Jennifer Berg, pesquisadora do assunto na Universidade de Nova York, alguns aspectos dessa cultura-mãe perdem-se mais rápido do que outros: "O primeiro a ser influenciado é a maneira como nos vestimos, porque queremos nos misturar ou ser parte de uma cultura maior. As coisas que são mais visíveis são as mais facilmente modificadas." Segundo ela, com a comida a história é diferente: "Comer é algo que se faz pelo menos três vezes ao dia, existem mais oportunidades de se conectar com a memória, família e lugar. É mais difícil abrir mão disso."

Eu diria ainda mais: a comida da nossa infância, que formou nosso paladar e nossas memórias nunca serão deixadas de lado, elas são a base da construção do nosso gosto e hábitos alimentares. O que experimentamos mais tarde e adicionamos ao repertório são feitos sobre essa fundação de memórias alimentares afetivas, ligadas a nossa identidade como família, comunidade e povo. Comer é cultura, porque comer é um ato social também. A primeira experiência social que temos é quando somos amamentados. O ato social do comer é parte do que nos faz humanos e assim aprender a comer é aprender a ser humano.

Escolher o que vamos comer, preparar os alimentos, aprender receitas com a família e comer ao redor de uma mesa com outros é exercer essa identidade. É trazer a tona quem somos, quem fomos e o quem esperamos ser também. Abrir mão da sua herança alimentar, das receitas da sua família, das escolhas alimentares que você faz com consciência, da partilha da comida com outras pessoas é abrir mão de um pedacinho da gente. E, infelizmente, isso tem ficado cada vez mais comum. 

As escolhas alimentares do dia a dia têm ficado cada vez mais distantes deste desejo de expressar identidade, de agradar o estômago e também a alma. Ao invés disso, muitas vezes, as escolhas alimentares do nosso povo estão mais ligadas à praticidade e ao apelo publicitário daquela refeição. Trocamos o feijão com arroz por um sanduíche em um fast food ou por uma lasanha congelada, comidas essas que não expressam nem a nossa cultura brasileira nem a de ninguém. Esquecemos que cada refeição realizada é uma oportunidade de expressar nossa identidade e até mesmo descobrirmos algo novo em nós mesmos. 

Se você se vê nessa posição, não precisa se preocupar: existe solução. E ela começa na reflexão, passando pela memória e chegando a escolhas alimentares mais verdadeiras. O resultado é uma alimentação cheia da comida que não alimenta apenas o seu corpo, mas também a sua alma. 

Por isso, eu pergunto de novo: o que alimenta a sua alma? É massa fresca feita pela nonna? É açaí e farinha de peixe? Moqueca com urucum ou com dendê? É roubar um pé de moleque ainda morno do tabuleiro? Ou o cheirinho da cuca saindo do forno? É a receita que você aprendeu com um amigo em um intercâmbio? Ou será que é a velha e incansável dupla de feijão com arroz? 



Observatório Opsan UNB
facebook
twitter
Layout e programação do site Identidade visual
Faça o ligin para continuar!

clique aqui