Ideias na Mesa - Blog


postado por Marina Morais Santos em Quinta-feira, 06 de Abril de 2017

A Escola Pública Capital City, localizada na capital americana Washington, é uma boa representação da mistura de culturas dos Estados Unidos. Muitos de seus 981 estudantes são a primeira geração de americanos de suas famílias, que vieram de várias partes do globo. Por isso, quando a ONG 826DC decidiu publicar um livro colaborativo escrito pelos alunos do segundo ano do ensino médio, a escolha do tema da obra precisava aproveitar toda essa diversidade. O tema escolhido foi algo com o qual todos os alunos podiam se identificar, além de deixar espaço para sua expressão cultural: comida. 

Os instrutores e professores de escrita que acompanharam os alunos pediram que eles pensassem em uma receita de família com história e depois escrevessem uma redação sobre este prato. As 81 receitas e suas respectivas histórias resultaram em um Livro de Receitas de culinária mundial com um toque afetivo, revelando que a contação de histórias pode ser o passo mais importante de uma receita. 

Alguns alunos compartilharam contos de preparações que amavam e, assim, acabaram descrevendo pratos de dar água na boca "E à medida que o vapor do macarrão subia, o aroma parecia ter caído do Céu," escreveu Mark St. John Pete sobre a receita de macarrão com queijo de sua avó.

Outros acabaram escolhendo preparações que não gostavam tanto assim... "Eu acho que tamales não apodrecem, eles podem ficar na geladeira por semanas e continuarem com a mesma aparência," disse Rolando Fuentes, que acabou enjoando de tamales de tanto comer os bolinhos de milho típicos de El Savador feitos por sua mãe.

Escrever essas histórias foi de grande benefício para os alunos, que se preparam para ir para a faculdade ainda neste ano. Além de se tornarem escritores melhores, os estudantes acabaram tendo também a oportunidade de mergulhar em suas identidades e passarem tempo com suas famílias, reforçando relacionamentos antes da saída deles de casa. 

Para preencher lacunas em suas narrativas, muitos dos jovens escritores tiveram que procurar pelos membros mais velhos de sua família para obter informações. Quando eles não sabiam algum detalhe ou ingrediente da receita, os seus professores os encorajavam a conversar som sua família. "Nós dizíamos 'Vá falar com seu pai sobre isso' e quando eles voltavam nos contavam 'Eu falei com meu pai. Nós conversamos e ele me contou um monte de coisas. Eu não fazia ideia de tudo isso!'" disse Lacey Dunham, que faz parte da ONG 826DC.

No último dia do projeto, os alunos celebraram seu sucesso com um almoço comunitário - cada um levou o prato sobre o qual escreveu com tanta dedicação. Alguns até mesmo leram suas histórias para os outros. "É uma maneira divertida de fazer com que os alunos pensem criticamente sobre quem eles são," disse Zachary Clark, diretor executivo da 826DC, "contar as histórias deles por meio de um mecanismo cujo resultado é algo que todos podem comer." 

Abaixo, seguem três das receitas e histórias dos alunos que escreveram a obra Delicious Havoc!

Sopa de Quiabo, por Chidinma Lantion - Receita da Nigéria

"Minha mãe chegou a este país na noite de Haloween de 1990 (ela ainda não entende o propósito deste feriado); foi uma experiência. Ela era uma garota nigeriana de 18 anos, pequena e com olhos grandes que nunca tinha saído de seu país, mas era corajosa o bastante para ir em direção ao inesperado. Ela estava lutando por outra vida, fora das expectativas de seus pais em seu país-natal. Estava escuro e frio, e ela se sentiu como se as pequenas crianças de máscaras fossem uma projeção do que ela sentia por dentro. Ela foi para a casa de sua prima, em Rockville, Maryland, e a primeira coisa de comer que tentaram dar a ela foi pizza, mas ela não quis. Havia um excesso de sabores novos e não familiares para ela, tudo em uma fatia com a qual ela não soube lidar. O sabor era artificial. Então ela os obrigou a sair no meio da noite para comprar um pouco de Sopa de Quiabo, porque, depois de uma longa jornada para um país estranho, ela precisava de algo que a lembrasse de casa. Ela precisava da leveza do quiabo e da textura da carne de vaca para fazer com que ela soubesse que, não importava o quão longe ela estava de casa ou o quanto as coisas tinham mudado, ela teria o conforto de que a comida continuaria a mesma." 

Atole de Elote (Atole de Milho), por Jose Ricas - Receita de El Salvador

"Por mais que eu tenha nascido em 26 de Março de 1999, eu sinto que a minha vida só realmente começou quando eu tinha 5 anos de idade. Apesar de muitas pessoas dizerem que lembram de tudo desde que estavam no útero - o que, aliás, eu acho um pouco duvidoso - eu tenho algumas lembranças de quando eu era um menininho. Uma das minhas memórias mais vívidas é de beber arole de elote em um pequeno restaurante em El Salvador perto da vizinhança onde eu costumava morar. Atole de etole é feita de milho e leite. Existem algumas crenças culturais sobre o preparo do atole de elote. Crê-se que apenas uma pessoa pode misturar o atole de elote, se não o sabor será ruim, e que mulhereres grávidas e pessoas de mal humor não podem misturar a bebida também porque isso faz com que o atole de etole fique amargo."

Cháo Bòa, por Ana Nguyen - Receita do Vietnã

"Em um país cheio de várias culturas diversas, eu sempre me senti como uma exilada na escola. Quando aconteciam refeições comunitárias no Natal ou Dia de Ações de Graça, eu era aquela criança que levavam um saco de batata frita, não porque eu não podia levar um prato de comida, mas porque eu, de cultura vietnamita, vivia em uma cultura ocidental. Estou em um país principalmente dominado por comidas que minha família não tem o costume de cozinhar. Quando eu era pequena, nunca comida cereal no café da manhã. Eu o comia em raros lanches, sem leite. Nas poucas vezes que levei minha cultura para a escola, eu recebi comentários como "Tem uma cara estranha," "Me deu vontade de vomitar," e "O que é isso?"...

Um dia, dois bons amigos meus vieram a minha casa. Eles eram americanos-hispânicos comuns. Estávamos no meio de julho, em um calor de 32 graus, e era perto de meio dia. Nós três nos sentamos ao redor de uma pequena mesa de jantar na sala adjacente à cozinha. Então, minha mãe trouxe cháo para comermos. As preparações começaram em minha mente: inventei uma desculpa para minha mãe para explicar porque eles não comeriam o prato, e porque eu comeria quase tudo, e o porque eu pediria para ela não cozinhar comida vietnamita para meus amigos. Eu observei enquanto os meus amigos tomavam um pouco da 'sopa alien'. Um longo silêncio encheu a sala - na realidade, foram muitos segundos - e eu perguntei hesitante, "Como está o prato?" Para a minha surpresa, eles amaram." 

Você sabia que o Ideias na Mesa também tem livros colaborativos? O "Mais que Receitas" já tem duas edições: a primeira é composta por receitas de família e lindos relatos e a segunda traz deliciosas receitas e reflexões sobre o Sistema Alimentar. Acesse e baixe ambas gratuitamente na nossa Biblioteca! 

O post acima foi inspirado e adaptado do The Salt. 



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