Ideias na Mesa - Blog


postado por Isadora Dias Nunes de Sena em Terça-feira, 18 de Outubro de 2016

No dia 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) fez o alerta: “O clima está mudando. A alimentação e a agricultura também”. O [Pensando EAN] de hoje traz uma reflexão que parte de uma análise de tal problemática com base na ideia de comida como sistema.

O blog jornalístico "Conhecer para Comer" tratou em um artigo a inter-relação entre clima, agricultura e alimentação, indicando dados, fatos e autores que apontam para a emergência de refletir sobre os limites (do planeta, do solo, da água, das pessoas). Veja aqui alguns trechos do texto:

"(...) O chamado da FAO e as consequências visíveis do atual modelo alimentar, nos leva a refletir a partir de uma visão complexa sobre uma das questões levantadas pelo antroposociólogo francês Edgar Morin. Ele destaca o fato de que os sistemas são tratados como objetos. O autor nos incita a conceber exatamente o inverso: os objetos como sistema. Apoiadas nessas reflexões, assim como a ameaça da crise ambiental para a produção de alimentos atualmente e para as gerações futuras, consideramos que devemos compreender o alimento não como um objeto e, sim, como um sistema, inserido no sistema alimentar, ambos sendo sub-sistemas do sistema capitalista, que faz parte do ecossistema e, assim sucessivamente. Deste modo, poderemos entender melhor o alimento e apontar caminhos teóricos e práticos para enfrentar as contradições, antagonismos e complementariedade, inerentes à complexidade de um sistema. (...)

Para falar em alimento como sistema, neste texto, vamos focalizar um dos aspectos da teoria de sistemas. De acordo com Morin e o biólogo austríaco Ludwing von Bertalanffy, um dos maiores teóricos de sistemas, os sistemas estão formados de subsistemas e podem provocar alterações no sistema e vice-versa.  Esta noção, nos leva a pensar nas articulações que existem assim entre o sistema capitalista e sistema alimentar, sendo este último um subsistema do sistema capitalista. (...)

Entender como a alimentação foi capturada pela lógica privada do capital e como o alimento virou mercadoria é uma das chaves para explicar a contribuição do sistema alimentar hegemônico presente no sistema capitalista e as suas consequências no cenário atual de crise ambiental. Nesse sentido, gostaríamos de destacar o trabalho do jornalista Paul Roberts, especializado em economia, tecnologia e meio ambiente. Ele faz um estudo bem amplo sobre o sistema alimentar no livro o fim dos alimentos (2009).(...) Roberts, com postura crítica, volta sua atenção à economia alimentar moderna e descobre que o sistema que deveria satisfazer a nossa necessidade mais básica está falhando.

 Na visão do autor, a crise alimentar é fundamentalmente econômica, pois o alimento não se conforma na categoria de mercadoria. Por ser tão impróprio à produção em massa, Roberts explica que tivemos de reengendrar plantas e animais para torná-los mais eficientes economicamente. E para corrigir os efeitos colaterais, ergueu-se uma indústria de medicamentos, flavorizantes, aditivos e fertilizantes em prol da qualidade, percebida na textura e no sabor de quem compra. (...)

As ambiguidades na produção, distribuição e consumo de alimentos nos conduz à interpretação para o fenômeno da alimentação, considerado por Morin (1973) como um fato humano total, que rearticule ligações indissociáveis, tais como sujeito-objeto; natureza-cultura; e real-simbólico.

O conjunto de crises que marca a civilização – econômica, ambiental e de conhecimento – é um ponto de inflexão para repensar a centralidade da comida em âmbito individual, coletivo e do território. Observamos que as corporações agroalimentares são as maiores beneficiárias das políticas, aumentando, portanto, o volume de produtos alimentares produzidos, sem, contudo, eliminar a fome.(...)

Pensar na ciência ecológica com relação ao alimento nos remete a agroecologia que pode ser definida como uma nova ciência em construção, um novo paradigma de cujos princípios e bases epistemológicas nascem da convicção de que é possível reorientar os cursos alterados dos processos de uso da terra, de forma a ampliar a inclusão social, reduzir danos ambientais e fortalecer a segurança alimentar e nutricional com a oferta de alimentos sadios para todos (CAPORAL, 2009, apud CAMPOS, 2014, p.267). O desafio agroecológico é a complexidade, a procura de um contexto mais amplo. Cada vez um maior número de cientistas se juntam a esta construção, reconhecendo as limitações do método objetivo, entendendo que reducionismo traz danos ecológicos e altos custos sociais.

Morin sinaliza que a um primeiro olhar a complexidade é um tecido (complexo: o que é tecido junto) de constituintes heterogêneas inseparavelmente associadas: ela coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Num segundo momento, a complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem nosso mundo fenomênico (2011, p.13).

Na agroecologia, os sistemas agrícolas tradicionais são valorizados e geram tecnologia e conhecimento. Trata-se de uma tecnologia receptiva à heterogeneidade de condições locais, sem procurar transformá-la, mas sim melhorá-la. Assim o conhecimento agrícola tradicional, mais os elementos da ciência agrícola moderna, não transformam nem modificam radicalmente o ecossistema (ALTIERI, 1999, p.60). Podemos dizer que esta nova ciência está tecendo junto os saberes tradicionais e o conhecimento cientifico. Não significa desprezar os conhecimentos científicos até então acumulados. Ao contrário, significa aprofundar os conhecimentos científicos sobre a natureza, seu comportamento, e verificar, com precaução, aqueles que podem ser alterados sem prejuízos à vida na Terra. (...)

Na agroecologia encontramos a valorização das diferentes dimensões não econômicas do alimento, as técnicas agroecológicas procuram a salvaguarda da vida, da cultura e do planeta. Encontramos assim a valoração do trabalho da natureza e o trabalho social o que se contrapõe a abstração do alimento-mercadoria.

Assim, as técnicas agroecológicas estão em total sintonia com o chamado que faz a FAO para este dia mundial da alimentação, promover políticas públicas que favoreçam a transição a este modo de produção pode permitir maior resiliência e adaptação as mudanças climáticas que estão acontecendo."

E você já tinha parado para pensar na alimentação dessa forma? Veja o artigo completo aqui. 



Observatório Opsan UNB
facebook
twitter
Layout e programação do site Identidade visual
Faça o ligin para continuar!

clique aqui