Ideias na Mesa - Blog


postado por Marina Morais Santos em Terça-feira, 04 de Outubro de 2016

O nosso sistema de produção de alimentos está quebrado, com fortes perdas na biodiversidade. A solução não é mais produtos químicos de algumas companhias cada vez mais dominantes.

Produtores britânicos de trigo tipicamente tratam cada safra durante seu ciclo de crescimento com quatro fungicidas, três herbicidas, um inseticida e um produto químico para o controle de moluscos. Eles compram sementes que foram pré-tratados com agroquímicos contra insetos. Eles pulverizam a terra com herbicida antes de plantar, e novamente depois.

Eles aplicam reguladores químicos de crescimento que alteram o equilíbrio dos hormônios da planta responsáveis pelo controle da altura e força das hastes dos grãos. Eles pulverizam químicos contra pulgões e bolor. E com frequência logo antes da colheita, eles aplicam o herbicida glifosato para secar a colheita, o que economiza os custos energéticos da secagem mecânica.

A maioria dos produtores ao redor do mundo, independente do tipo de alimento que cultivam, recorrem  a pelo menos uma das seis empresas que dominam o mercado para comprar sementes e todos esses agrotóxicos. A concentração de poder sobre a agricultura primária por parte de um número tão pequeno de corporações  e a habilidade delas de definir preços e determinar a disponibilidade de variedades de sementes já tem causado preocupação entre os produtores. Ainda assim, até o ano que vem, é provável que a competitividade encolha ainda mais.

Os seis gigantes globais dos agrotóxicos e sementes vão se tornar três colossais empresas com ainda maior controle de mercado. Bem quando as mudanças climáticas exigem um sistema mais diversificado, adaptado e resiliente às condições de mudança, a agricultura tem sido arrastada para uma rota agroindustrial ainda mais estreita.

Atualmente, Bayer, Monsanto, Dupont, Dow, Syngenta e BASF representam três quartos do mercado global de agroquímicos e quase dois terços do comércio de sementes. Com a queda dos preços de commodities, seus lucros tem murchado. Os agricultores que estão recebendo menos por suas produções tem tido dificuldade para ganhar dinheiro. Nos Estados Unidos, eles começaram a se afastar das caras sementes geneticamente modificadas, e, na Europa, mais de 3 milhões de fazendas foram perdidas em oito anos. Então, por dois anos, as companhias de agrotóxicos têm estado envolvidas em uma agitação de fusões e aquisições para se tornarem ainda maiores e mais poderosas. As propostas se instalaram, no momento, em um trio de mega-acordos.

O mais recente acordo de fusão, que vale 66 bilhões de dólares, é entre a Monsanto, a controversa gigante sediada nos EUA e maior empresa de sementes do mundo e sétima maior em pesticidas; e a alemã Bayer, a segunda maior em agrotóxicos e sétima maior empresa de sementes.

Para dar uma ideia da dimensão e do impacto desse acordo comercial, a Monsanto, além de ser o fornecedor líder mundial de sementes geneticamente modificadas, controla quase um quarto do mercado de sementes vegetais na Europa e é um grande jogador no mercado de sementes convencional de milho. O herbicida glifosato, o seu grande ganhador, agora tem uso tão comum na Europa que foi detectado na urina de 44% das pessoas em uma pesquisa da Friends of the Earth. Bayer é a líder na maioria dos pesticidas, incluindo os neonicotinóides usados para tratar cerca de 90% dos cereais, açúcar de beterraba e óleo de canola do Reino Unido.

A proposta fusão Bayer-Monsanto é precedida por um acordo de 130 bilhões de dólares entre as empresas americanas DuPont (2° em sementes e 6° em pesticidas) e a Dow Chemicals (5 ° em sementes e 4° em pesticidas). A China, focada em sua própria segurança alimentar, também quer participar um pouco da ação, e a ChemChina, empresa apoiada pelo Estado Chinês, que é também a sétima no comércio global de pesticidas devido a vendas por filias, deu um bem-sucedido lance para comprar a suíça Syngenta por 43 bilhões de dólares. Assim, processos paralelos de concentração estão ocorrendo no setor de fertilizantes químicos.

A narrativa oferecida para justificar esse domínio do mercado supostamente livre é que apenas entidades maiores e mais corajosas podem enfrentar o grande desafio de nosso tempo: alimentar um adicional de 3 bilhões de pessoas até o ano de 2050 sem destruir o planeta. Somos convidados a aceitar o modelo de agricultura intensiva como a marcha heróica da ciência, contra os métodos tradicionais, primitivos e de baixo rendimento. Não há alternativa. Mas, na verdade, é este modelo de produção de alimentos que está preso em um barranco.

No Pós-Guerra, havia de fato grandes avanços em aumentar a quantidade de alimentos produzidos no mundo, graças ao melhoramento genético de espécies e o uso de químicos na forma de fertilizantes e pesticidas artificiais. Mas com os triunfos da revolução verde, suas deficiências a longo prazo estão cada vez mais aparentes.

O uso excessivo de agrotóxicos tem contribuído paras as graves perdas de biodiversidade e de polinizadores vitais para o ecossistema. Os alimentos na resistência a pragas ameaçam reverter os ganhos anteriores em rendimento da produção. As pesquisas descobriram que, por um curto período de tempo, o rendimento por hectare de monoculturas são maiores em sistema de agricultura intensiva. No entanto, em um período de tempo maior, e quanto você olha para a produção agrícola total, a agricultura mais variada e diversificada tem maior produtividade.

Se o principal propósito de um sistema alimentar é nutrir as pessoas para mantê-las saudáveis, esse sistema está falhando. Apesar de a quantidade de comida disponível  ter dobrado em algumas regiões, mais de 750 milhões de pessoas ainda passa fome rotineiramente. Enquanto isso, quase 2 bilhões de pessoas tem sobrepeso ou obesidade.

O sistema agroindustrial que essas companhias sustentam é focado principalmente em um pequeno número de culturas de commodities para exportação. O grupo de pesquisa ETC ressalta que companhias de sementes geneticamente modificadas concentraram seus esforços de desenvolvimento em milho, soja e canola, ao invés de investir na imensa variedade de mais de 7000 alimentos cultivados por agricultores ao redor do mundo. Quebrar essas colheitas de commoditties em partes e revender em forma de açúcar, amidos, óleos acrescenta valor para o acionista da rede, mas esvazia o sistema de valor nutricional. Doenças relacionadas à alimentação já ultrapassam as doenças infecciosas como a maior causa de morte prematura em todo o mundo.

Embora as empresas falem em combater a ameaça que mudança climática representa para a segurança alimentar, o sistema alimentar agroindustrial é uma das mais significativas causas dessa mudança, contribuindo para cerca de 1/3 de todas as emissões de gases de efeito estufa produzidas pelo homem.

A concentração das corporações no sistema alimentar tem sugado o dinheiro produzido pela cadeia para a mão de um punhado de empresas no topo. Ele funciona para alguns, mas não para a maioria. Como se para enfatizar esse ponto, o presidente-executivo da Monsanto está para recolher mais de 135 milhões de dólares  da fusão da empresa com a Bayer em opções de ações e verbas rescisórias. De maneira paradoxal, as três grandes fusões da indústria de agroquímicos revela também a  vulnerabilidade do setor.  A indústria de pesticidas está sob pressão - Bayer e Syngeta são grandes produtores dos três tipos de neonicotinóides recentemente proibidos na União Europeia devido ao seu impacto sobre as abelhas. A União Europeia tem estado sob grande pressão para restringir o uso de glifosinato, desde que foi apontado como "provavelmente carcinogênico" pela OMS no ano passado.

Esse modo de produção do nosso alimento está quebrado e a maioria das pessoas, incluindo aqueles que promovem tal meio, sabem disso. Então por que não há mudança? O ex-relator da ONU sobre o Direito à Alimentação, Olivier de Schutter, descreveu uma série de barreiras que impedem essa mudança. Porque o ganho é revertido um número limitado de atores, o seu poder político e econômico e a capacidade de influencia a política de governo é refoçado.

A última fronteira é a África, onde há uma nova luta para difundir o modelo agroindustrial da agricultura. Pode muito bem ser na África, no entanto, que uma visão diferente e mais ecológica do futuro da produção de alimentos pode emergir. Eu tive um vislumbre disso em uma viagem a uma empresa de exportação de produtos da horticultura em larga escala localizada no Lago Naivasha, no Quênia.

A empresa, Flamingo Homegrown, abandonou o seu uso a longo e pesado de pesticidas químicos, em parte em resposta a uma campanha que destacava os seus efeitos na saúde dos trabalhadores, mas em parte também em reconhecimento de que estavam perdendo controle da resistência de pragas devido a pulverização aérea.

Eles reinventaram sua agricultura fazendo a ciência de agrotóxicos parecer primitiva e obsoleta. Em vez disso, empregam grupos de cientistas africanos altamente treinados para estudar e reproduzir em laboratórios os fungos e microorganismos do solo saudável que forma intricadas ligações com as raízes da planta. Ao invés de fazer guerra química na terra, eles trabalham para aproveitar os ecossistemas extremamente complexos do solo. Eles construíram vastas estufas dedicadas à reprodução e colheita de joaninhas para controlar pragas biologicamente ao invés de quimicamente.

Há uma outra rota para a segurança alimentar - e é o pólo oposto das três gigantes dos agrotóxicos que hoje montam o mundo.

Tradução: Marina Morais

Fonta: Felicity Laurence, https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/oct/02/agrichemicals-intensive-farming-food-production-biodiversity



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