Ideias na Mesa - Blog


postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Quarta-feira, 05 de Outubro de 2016

Elaborado por pesquisadores do Brasil, Chile, México e da Alemanha, o "Atlas da carne - fatos e números sobre os animais que comemos" apresenta uma pergunta inquietante:

"você sabia que a produção de carne está relacionada ao desmatamento da Amazônia?"

A publicação mapeia a produção industrial de carne no mundo e como ela atinge recursos hídricos e solos, influencia as mudanças climáticas e aumenta a desigualdade. 

O Atlas registra ainda, como a criação animal em escala industrial traz consequências negativas, como a fome, já que a produção intensiva fica sempre em primeiro plano, em detrimento das necessidades nutricionais de cada país. O cercamento de terras para esse objetivo também causa o deslocamento de pequenos produtores, intensificando problemas sociais. A perda de biodiversidade é outra grave consequência desse avanço sobre as terras. O Atlas, portanto, indica esses e outros impactos do consumo de carne, seja ela bovina, suína, de aves e de outros tipos como búfalos e ovelhas.

 

A publicação busca disseminar o máximo de informação quanto aos efeitos da produção de carne e às alternativas a esse modelo predador.

Se o consumo de carne continuar crescendo, em 2050 agricultores terão que produzir 150 milhões de toneladas extra de carne, agravando os problemas. O Atlas da Carne estimula, assim, reflexões sobre como implementar uma pecuária "ecológica, social e ética" como contraponto ao agronegócio nos Estados Unidos, na União Europeia e na América Latina. Traz também alternativas ao atual modelo, como a de produzir e consumir a carne localmente, evitando o transporte por milhares de quilômetros. Com essas alternativas, o atlas mostra ao consumidor os trajetos que a carne percorre e o sistema que tem sido sustentado com o atual consumo.

No Brasil, gastam-se 15 mil litros de água por cada quilo de carne produzido! Esse é um dado que preocupa uma vez que a crise hídrica já bateu à nossa porta.Além disso, a criação intensiva, visando à exportação, leva ao uso de fármacos para erradicar doenças e acelerar a engorda, mas que acabam contaminando o solo e a água.

Mesmo assim, o consumo de carne tem aumentado mais rapidamente nos países emergentes e de forma cadenciada nos Estados Unidos e na Europa.

Esse material já está em sua terceira edição na Alemanha e já foi publicado em espanhol, inglês e francês.

O Brasil ilustra bem a cadeia de produção, pois é um dos maiores produtores de soja do mundo, grão utilizado sobretudo como ração animal. Ao consumir a carne, o cidadão ingere também agrotóxico, usado no cultivo desse produto agrícola. A sanha por terra de produtores de soja e outros levam, muitas vezes, à grilagem, à expulsão de pequenos agricultores e a assassinatos de líderes camponeses e indígenas no Brasil. A produção da soja também se desdobra em desmatamento na Amazônia, visto, em maior escala, no Cerrado e no Pantanal, que sofrem também com o avanço das áreas de pastagens, pondo em risco importantes biomas. A pecuária intensiva gera quase um terço dos gases de efeito estufa em nível global.

Apesar de toda essa preocupação, o agronegócio tenta abafar os efeitos adversos do nosso alto consumo desses produtos. Propagandas e embalagens  mostram imagens de animais alegres em fazendas felizes. Enquanto na realidade, o sofrimento dos animais, os danos ecológicos e os impactos sociais são varridos para debaixo do tapete. A realidade é que uma em cada sete pessoas no mundo não possui acesso adequado à comida. Nós estamos longe de garantir o direito internacionalmente reconhecido à comida suficiente tanto quantitativamente como qualitativamente.

Em muitos países, consumidores estão fartos de serem enganados pelo agronegócio. Ao invés do dinheiro público ser utilizado para subsidiar fazendas industriais, consumidores querem políticas razoáveis que promovam uma pecuária realmente ecológica, social e ética. Enquanto governos no mundo desenvolvido têm que mudar radicalmente de curso e enfrentar o poder do lobby da agricultura, países em desenvolvimento podem evitar repetir os erros cometidos em outros lugares. Conhecer os efeitos da produção intensiva de carne possibilita o planejamento para uma produção orientada ao futuro que seja social, ética e ambientalmente responsável. Ao invés de tentar exportar seu modelo falho, a Europa e os Estados Unidos deveriam tentar mostrar que a mudança é necessária e possível.

Há alternativas! A carne pode ser produzida mantendo os animais em pastos ao invés de confinados, produzindo e consumindo localmente ao invés de transportá-la por milhares de quilômetros. O esterco não precisa pesar sobre a natureza e na saúde da população local, ele pode ser espalhado pelos campos do próprio fazendeiro enriquecendo o solo.

Esse atlas convida você a viajar ao redor do mundo e oferece informações sobre as conexões globais feitas quando nós comemos carne. Somente consumidores informados e críticos podem tomar a decisão certa e demandar a mudança política necessária.

Confira a publicação completa aqui!



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