Ideias na Mesa - Blog


postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 26 de Julho de 2016

A recente associação do renomado chefe internacional Jamie Oliver com a Sadia, gigante brasileira do ramo de alimentos processados, tem levantado uma série de questionamentos.

Jamie é mundialmente conhecido por suas atividades gastronômicas que incluem restaurantes, programas e inúmeros livros de receitas publicados, e nos últimos anos, ganhou ainda mais projeção ao advogar por uma alimentação mais saudável através de sua campanha "Revolução da Comida” incentivando oconsumo de preparações mais naturais e a prática do cozinhar. O chefe também utilizou a sua projeção internacional na defesa dos interesses da saúde pública quando moveu uma ação contra a rede de fast food McDonald’s e saiu vitorioso, e quando recentemente, criou uma mobilização decisiva para taxação de bebidas açucaradas em curso no Reino Unido.          

No Brasil, Jamie desembarcou por consequência de uma parceria de aproximadamente 50 milhões de reais com a Sadia, empresa do ramo de alimentos processados e congelados - a segunda maior produtora de frangos do mundo que responde por quase 20% da produção. A proposta é desenvolver, aproveitando a imagem do chef celebridade, uma linha de produtos mais “saudável” e com melhores instalações para os animais. Desde o anúncio da parceria e com a chegada do chefe para cumprir agendas publicitárias, as reações adversas começaram a repercutir na internet. Embaixadores do movimento por ele criado intitulado ‘Revolução da Comida’ se desligaram de suas funções, além de comentários de seguidores brasileiros que se dizem decepcionados com os acontecimentos recentes. Não por acaso, a Sadia patrocinou duas publicações para tentar melhorar sua imagem no site de entretenimento de grande engajamento BuzzFeed.

Essa semana, o tabloide britânico The Telegraph publicou matéria sobre a repercussão negativa que a parceria está tendo no Brasil (leia a tradução). A polêmica tem se dado no contrassenso entre o discurso de Jamie Oliver em prol de uma alimentação que valorize alimentos naturais e locais e sua parceria com a gigante dos alimentos industrializados. Atuando no Reino Unido ao lado da saúde pública ele foi vitorioso em ação judicial e posteriormente contribuiu para taxação de bebidas açucaradas. Por quê no Brasil ele adotou o caminho inverso e se aliou justamente com a indústria de alimentos?

Em depoimento para a matéria do The Telegraph, Elisabetta Recine, coordenadora do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição e professora do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília, afirmou que “A Sadia é uma empresa ligada a uma forma de produção intensiva. Ele traiu o discurso que vinha construindo. O Jamie Oliver não vai melhorar a Sadia, mas a Sadia vai tornar o Jamie Oliver pior”.  

Temos um Guia Alimentar para População Brasileira que é referência no mundo todo por trazer conceitos inovadores, como por exemplo a regra de ouro: prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados. Temos também um Marco de Referência de Educação alimentar e Nutricional com princípios para promover um sistema alimentar saudável e sustentável. De forma destoante, o discurso de Jamie deseja ecoar saúde, mas a sua escolha de parceiros parece andar na direção oposta.   


 

 



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