Ideias na Mesa - Blog


postado por Lucas Oliveira Teixeira em Sexta-feira, 03 de Junho de 2016

O Poderoso Chefão, (The Godfather, título orginial) é um longa-metragem ficcional dirigido por Francis Ford Coppola lançado em 1972, inspirado pelo livro O Último Chefão e Poderoso Chefão, Mario Puzo, também roteirista da obra.  O filme é conduzido por personagens de uma dinastia patriarcal que dirige uma organização mafiosa, a família Corleone. Aleivosia, homicídio e soberba dão o tom das atuações icônicas de Marlon Brando (Don Vito “Padrinho” Corleone), Al Pacino (Michael Corleone), James Caan (Santino “Sonny” Corleone), Robert Duval (Tom Hagen), entre outros.

Trailer Oficial, 1971

Nesta publicação do [Comida na Tela] analisamos o caráter ritualístico, cultural e simbólico da alimentação usando o filme O Poderoso Chefão como exemplo de movimentos políticos, filosóficos e sociais que confluem quando ante à mesa, mesmo que de maneiras não muito óbvias.

A película é referenciada por sua fotografia, visceralidade, e espontaneidade. Algumas falas e encenações entraram para o ideário popular de forma poucas vezes evidenciada até então. Há quem mesmo sem tê-lo assistido conheça seus diálogos e plot, o que nos faz pensar, quanto da obra deixamos de perceber? As interfaces com a cultura alimentar são diversas, e o exercício proposto é o elencamento de pensamentos semioticamente enviesados. Numa breve síntese, Alexender Pierce, o cunhador do termo semiotic, se trataria de uma doutrina dos signos que a mente faz uso para o entendimento das coisas. (Minute Semiotic)

Uma das falas mais emblemáticas do longa foi performada por Santino, à mesa de jantar quando um de seus lacaios requisita sua atenção dizendo: “Sonny if you have time, I'd like to talk to you maybe after dinner. I could do a lot more for the family…” , em português, Sonny se você tiver tempo gostaria de falar com você talvez depois do jantar. Eu poderia fazer muito mais pela família… A personagem então o interrompe dizendo: “We don’t discuss business at the table.”, Nós não discutimos negócios à mesa.

Aos 1:03

Diversos fãs e críticos já evidenciaram como as cenas envolvendo alimentação são os grandes palcos de desenvolvimento de personagens, em O Poderoso Chefão, por exemplo, a composição das cadeiras é organizada pela hierarquia recaindo a Santino sentar à cabeceira, seus irmãos e tio em suas adjacências e seus lacaios adiante, Constanzia “Connie” Corleone (Talia Shire), sua irmã é incumbida da tarefa de cozer, reafirmando os papéis de gênero hegemônicos no contexto da Nova Iorque de Hell’s Kitchen dos anos 40, as personagens em sua totalidade expressam suas vontades, objetivos e filosofias em suas falas à mesa, como se portam, onde sentam e como comem. Sonny, marcado por seu temperamento irritadiço e ansioso, amor pela família e rigoridade nos negócios, porta-se como um glutão, a devorar os pratos com velocidade, ignorando os protocolos sociais de como suposta deveria se comportar naquela situação. Don Vito, quando presente, senta-se a cabeceira, a personagem marcada por sua sabedoria e paciência de um ancião, faz questão de que cada uma de suas refeições sejam um deleite aos sentidos e que possam ser reverenciadas no seu ritmo, sempre acompanhado de uma taça de vinho, um dos muitos hábitos de sua cidade natal, Corleone, na Itália, refletindo a cultura alimentar de sua comunidade pregressa. Michael, sóbrio, calculista, um homem letrado, o que, em tempos aqueles, eram méritos notórios, é o mais novo dos irmãos, o mais observado, senta-se ao lado pai e do irmão, revelando o apreço destes pela personagem, ingere as porções calmamente, não interrompe as falas alheias, bem como o irmão mais novo deveria se portar.

Cena d'O Podereso Chefão pt. II (flashback)

A liturgia do comer, a sentença que denomina essa matéria, trata-se de uma reflexão em si, pode-se inferir à ela como um hábito, palco de um habitus, como Bordieu o diria, palco de falas de caráter simbólico, que excitam o expectador a refletir sobre os significantes e significados dos signos da mesa. Pensar sobre como algumas manifestações de poder, hábito, cultura se expressam em um jantar em família,  almoço no trabalho, ou numa mesa de bar.

A comida enquanto signo é comum e boa, mas seus significantes, infinitos ante às intersubjetividades individuais, expressam relações nem sempre mútuas, plausíveis, e constantes, a mesa é um rito diário comumente valorizado, a távola redonda de Artur, o palco das mais minuciosas expressões d’algo podemos chamar de humanidade.

Imagem de capa: Sharang Sharma, Nova Deli, 2013.
 

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