Ideias na Mesa - Blog


postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 26 de Janeiro de 2016

   

O Brasil vem sendo desde 2008 um dos líderes mundiais em consumo de agrotóxicos nas lavouras produtoras, fruto do agronegócio que gastou mais de 7 bilhões de dólares na última safra com tais produtos. Em solo brasileiro são permitidos mais de 500 ingredientes ativos de agrotóxicos, sendo que dos principais utilizados pelo menos 15 são banidos em países europeus e em outros lugares do mundo.

De acordo com dados da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida o crescimento acumulado das vendas de agrotóxico está em 488% desde o ano 2000, com grande contribuição das culturas que mais utilizam os venenos na produção como a soja, milho e algodão, além de frutas e hortaliças. De acordo com estimativas da ONG, cada brasileiro consome atualmente 5,2 Kg de agrotóxicos por ano.

Não por acaso, o mercado de alimentos e produtos orgânicos vem crescendo significativamente no Brasil e no mundo. O crescimento percentual deste segmento em 2015 superou inclusive as tendências globais, gerando valores até 30% maiores do que o ano anterior, apesar do montante bruto ainda ser menor do que os principais consumidores de orgânicos no mundo. Esta tendência revela que cada vez mais as pessoas estão informadas e preocupadas com a própria saúde e também com a sustentabilidade do meio ambiente.

Recentemente, o jornal O POVO online divulgou uma matéria intitulada “Defensivos agrícolas: aliados para produção de alimentos seguros” com o pesquisador da Embrapa João Pratagil Araújo, na qual o pesquisador defende o uso de agrotóxicos e diz que eles não apresentam riscos à saúde justificando em sua argumentação os motivos. A matéria gerou vários comentários e dois dias depois o mesmo jornal publicou outra entrevista com a Professora do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará Raquel Maria Rigotto – “Comer alimentos com agrotóxicos é seguro?” – rebatendo os argumentos apresentados por João Pratagil.

Ela começa pela nomenclatura por ele utilizada em referência aos agentes químicos: “A legislação brasileira define o termo agrotóxicos, e não “defensivos agrícolas”, no intuito de deixar claro seu potencial biocida e tóxico”. O segundo contra-argumento vai de encontro com a informação passada pelo pesquisador de que os agrotóxicos são utilizados de forma correta no Brasil.

“Não é possível o “uso correto” dos agrotóxicos: como implantar ações neste sentido junto às 16.567.544 pessoas ocupadas no setor agrícola? Agricultores familiares não têm acesso adequado à assistência técnica pública nem podem investir em instalações e equipamentos adequados para armazenamento, higienização e destinação das embalagens. Nas grandes empresas, a escala de uso de agrotóxicos é muito elevada e nem sempre “as boas práticas” são respeitadas. Os EPI podem ter efeito contrário e aumentar a exposição dos trabalhadores ao risco. E ainda: no Ceará não há Unidade de Processamento de Embalagens de agrotóxicos.”

Em outro trecho, Pratagil afirma que o Limite Máximo de Resíduos (LMR) garante o consumo de agrotóxicos sem risco à saúde, também colocado em cheque pela professora que aponta o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos da ANVISA como uma iniciativa importante e justifica:

“A avaliação de risco (LMR) é baseada em estudos toxicológicos com animais de laboratório ou in vitro, extrapolando os resultados para a saúde humana; os estudos avaliam em separado cada ingrediente ativo (IA) de agrotóxicos, desconsiderando os efeitos à saúde nas condições de múltipla exposição – que é o mais frequente na prática – e suas possíveis interações; dos 527 ingredientes ativos registrados no Brasil, a Anvisa tem analisado apenas 235, excluindo até o glifosato, que responde por mais de 45% do consumo e que é provável cancerígeno.”

Raquel concluí a entrevista com a seguinte provocação:

“Há, entretanto, duas razões fortes para defender o uso de agrotóxicos: para a indústria química, garantir um mercado que, no Brasil, supera os 11 bilhões de dólares; para os produtores de commodities agrícolas, aumentar a produtividade e engordar seus lucros. Você oferece sua saúde para ajudá-los nesses propósitos? ”. 





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