Ideias na Mesa - Blog


postado por Rafael Rioja Arantes em Sexta-feira, 27 de Novembro de 2015

A Faculdade de Medicina da Universidade do Colorado nos Estado Unidos anunciou nesta última sexta feira (06/11) a devolução de $1 milhão de dólares doados pela Coca-Cola após a revelação de que o dinheiro havia sido usado para estabelecer um grupo de pesquisa com o objetivo de minimizar a relação entre o consumo de refrigerantes e obesidade.

Entenda a notícia

Em 2014 a Coca-Cola doou o dinheiro para ajudar na criação da “Global Energy Balance Network” – Rede Global de Balanço Energético, livre tradução – uma ONG formada por cientistas com o objetivo de recomendar a população para focar mais na prática de exercícios e se preocupar menos com o que eles comem ou bebem. De acordo com a matéria do The New York Times de agosto, a parceria financeira entre a Coca-Cola e o grupo levantou criticas de que a empresa estava financiando cientistas para moldar às pesquisas relacionadas à obesidade.

Em resposta a matéria o Diretor Executivo da Coca, Muhthar Kent, revelou que a empresa gastou quase $120 milhões de dólares desde 2010 para pagar pesquisas acadêmicas na área da saúde e para estabelecer parcerias com associações médicas e grupos da comunidade envolvidos com a epidemia de obesidade. Entre as instituições que se beneficiaram deste investimento se encontram a Academia Americana de Pediatria, que recebeu U$ 3 milhões para lançar o website healthychildren.org, e a Academia de Nutrição e Dietética – a maior associação de nutricionistas dos EUA – que recebeu U$1,7 milhões da Coca. Após a revelação, os dois grupos anunciaram o fim das relações com a empresa.

O vice-presidente da Global Energy Balance Network (GEBN) e Educador físico, Dr. Blair, criticou “a mídia” por responsabilizar as redes de fast-food e bebidas açucaradas pelas altas taxas de obesidade no país e falou que “tecnicamente não existem evidências de que, de fato, elas são a causa”.  Além disto, a GEBN lançou uma campanha virtual promovendo o exercício como uma solução para doenças crônicas e obesidade ignorando a importância de uma alimentação adequada.

A professora de nutrição e Saúde Pública da Universidade de Nova York Marion Nestle alertou para o fato de que os cientistas da GEBN financiados pela Coca-Cola tentam promover a ideia de que a obesidade é causada pela falta de exercício e não pelo consumo excessivo de alimentos ultraprocessados. Ela também disse se sentir orgulhosa com o fato de que as duas associações retornaram o dinheiro e espera que os outros grupos optem pela decisão acertada de interromper este tipo de financiamento.

Leia a matéria do The New York Times. 

O caso brasileiro

Foto: Fernanda Ferrarezi 

No dia 27 de outubro de 2015 a Universidade de Brasília em parceria com o Instituto de Bebidas para Saúde e Bem Estar Coca-Cola e a Faculdade de Educação Física (FEF/UnB) realizaram o 1º Seminário sobre Atividade Física e Esporte na Saúde como atividade de abertura da Semana Universitária.

O evento foi financiado pela Coca-Cola que arcou com os custos técnicos de audiovisual, fornecimento de café da manhã com produtos da empresa, almoço para todos os inscritos no seminário, cachê para os palestrantes e distribuição de cadernos de anotação da Coca-cola.  

Estudantes do Centro Acadêmico de Nutrição (CANUT) julgaram incompatível o financiamento e a presença da multinacional para promover um evento de Saúde dentro da Universidade de Brasília e redigiram uma Nota de Repúdio. Ela foi escrita assim que ficaram sabendo do evento, quatro dias antes, por meio de cartazes que foram afixados na Faculdade de Saúde e panfletos que foram entregues dentro do Centro Acadêmico para que fossem distribuídos.

A nota é estruturada a partir de dois pontos: A alarmante e complexa epidemia de obesidade e sobrepeso com desfecho de doenças presentes no Brasil e no mundo, e o conflito de interesses em uma grande empresa de bebidas açucaradas financiar eventos em parceria com a academia.

Assinaram a Nota os Centros Acadêmicos de Nutrição (CANUT/UnB) e Enfermagem (CAENF/UnB), o Centro de Alimentação Saudável (CASA/UnB), Empresa Júnior de Nutrição (NUTRIR/UnB), Área de Nutrição Social – Departamento de Nutrição (NUT/UnB), Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição (OPSAN/UnB) e a Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN). Leia a nota.

(Mesa de abertura com o Reitor da UnB Ivan Camargo e Diretora da Coca-Cola)

O caso se assemelha ao ocorrido nos Estados Unidos aonde a Coca-Cola vem tentando se aproximar do ambiente acadêmico investindo grandes quantidades de dinheiro em pesquisas e pesquisadores dispostos a desviar o foco da influência de uma má alimentação no sobrepeso e obesidade, justificado a partir de uma visão reduzida do processo saúde doença.

Este discurso que fortalece os interesses da multinacional, e que levou a Universidade do Colorado a devolver o montante, e a Academia Americana de Pediatria e Academia de Nutrição e Dietética a romperem a parceria com a Coca-Cola, reverberou durante o Seminário na Universidade de Brasília.

Ainda que palestrantes de diferentes áreas estivessem presentes, a ideia de que o problema da obesidade é causado predominantemente pelo sedentarismo foi difundida. Tal visão equivale a enxergar a epidemia da obesidade pelo buraco da fechadura, pois desconsidera os prejuízos do consumo de produtos industrializados e a pressão que o marketing da indústria de alimentos exerce em nossas escolhas.

A aproximação entre a indústria de alimentos e a academia seja para o financiamento de pesquisas ou realização de seminários é extremamente preocupante, pois representa a reprodução de conhecimentos que sirvam aos interesses comercias e não da saúde da população.


 

 



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