Ideias na Mesa - Blog


postado por Rafael Rioja Arantes em Quinta-feira, 16 de Abril de 2015

Em março foi celebrado mais um dia mundial da água, que foi criado em 1992 pela Organização das Nações Unidas (ONU). Esta data é dedicada à conscientização, reflexão, e problematização de soluções para um uso mais racional e sustentável deste bem natural. Cerca de dois terços do planeta terra é composto por água, entretanto, apenas uma pequena fração desta água, majoritariamente vinda de rios, lagos, e nascentes, é própria para o consumo.

A atividade predatória do homem, como a poluição da água potável e seu desperdício, são fatores que comprometem a viabilidade de um abastecimento sustentável, que caso não repensado, continuará a causar graves consequências. Visando a sensibilização de governos e indivíduos, a ONU elaborou a “Declaração Universal dos Direitos da Água”. 

É importante ter consciência de medidas a nível individual que possibilitem a economia de água, como restringir o uso nas atividades diárias (escovar os dentes, banho, lavar louças, calçadas e carros). Apesar de estas medidas serem necessárias, é fundamental se ter a dimensão de que as atividades socioeconômicas são as principais consumidoras das fontes hídricas.

De acordo com a Food and Agriculture Organazation (FAO), a agropecuária é a campeã no consumo de água, utilizando 70% da água disponível no planeta para irrigação de lavouras. Uma outra questão relacionada a este setor, é a contaminação dos solos e rios por agrotóxicos, comprometendo a qualidade da água. A atividade industrial é o segundo maior responsável pelo consumo, correspondendo a 22% do total. O consumo doméstico se apresenta como o terceiro maior contribuidor.  

Para quantificar o consumo de água vamos aos seguintes exemplos: para cada quilo de soja produzido são utilizados 1,8 mil litros de água. Levando-se em consideração que o Brasil é o maior produtor e segundo maior exportador do alimento no mundo, você pode imaginar a quantidade de água usada. Ainda, para produzir 1 kilo de carne bovina são necessários 15,4 mil litros de água.

Medidas em várias esferas são necessárias para o uso sustentável da água. Neste sentido, práticas e tecnologias que visam o uso consciente no Brasil e no mundo tem surgido. 

Alternativas para o uso sustentável da água: Permacultura e Ecovilas

O termo "Permacultura" foi criado em 1970 pelos ecologistas australianos David Holmgren e Bill Mollison, e resulta da contração das palavras "agricultura permanente". O conceito se estabelece por meio da criação de sistemas humanos que sejam: ambientalmente sustentáveis, socialmente justos e financeiramente viáveis. Desde a sua criação as bases da permacultura ganharam força e se espalharam pelo mundo. Atualmente, o número de sítios de Permacultura e Ecovilas no Brasil vem crescendo significativamente.

Seguem exemplos de algumas organizações governamentais e não governamentais que aplicam os conceitos da permacultura em suas ações.

Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado IPEC: Centro de referência em práticas sustentáveis

A organização não governamental (ONG) Ecocentro IPEC localizada na cidade de Pirenópolis-GO foi fundada em 1998 com a finalidade de criar soluções para os problemas da atual sociedade. O intuito é viabilização de uma cultura sustentável, que oportunize experiências educativas, e dissemine modelos no Brasil. Os idealizadores do projeto são o Permacultor André Soares e a pedagoga e escritora Lucy Legan.

Desde sua fundação o Ecocentro propiciou vivências para brasileiros e estrangeiros nas áreas de saneamento responsável, energia renovável, segurança alimentar, cuidado com a água e processos de educação, além do desenvolvimento e aprimoramento de tecnologias sustentáveis, difundidos por meio de oficinas e cursos.

Várias iniciativas e tecnologias sustentáveis tem sido aplicadas no Ecocentro IPEC, confira algumas que visam otimizar a utilização de água: 

Estação de tratamento natural de água Biorremediação 

Estação de tratamento de água Por meio da cascata de etapas que vão do estágio 1 ao 9, a água utilizada é tratada por agentes naturais incluindo bactérias e outros micro-organismos, que geram como produto intermediário gases capazes de ser reaproveitados na cozinha. Do produto final resulta uma água limpa, que apesar de não ser considerada potável para beber, pode ser utilizada na irrigação ou para retornar aos rios e solo sem prejuízos ambientais    

Sanitários compostáveis 

Sanitário compostável

 

No IPEC o banheiro seco é tido como a solução para o tratamento e início de um novo ciclo para uma questão que é encarada como um problema e o último estágio da alimentação: os dejetos humanos.  Em um banheiro convencional 20 litros de água são não apenas desperdiçados mas poluídos, comprometendo o uso da água que é desperdiçada nos esgotos. Nestes sanitários, além de a água não ser utilizada, as fezes humanas passam por um processo de eliminação de patógenos através do uso da serragem combinado com elevada temperatura. Ao final de um ciclo de seis meses, as fezes estão higienizadas e prontas para servirem de um potente adubo natural. Confira na íntegra o TEDx realizado pelo fundador do IPEC André Soares, que explica a tecnologia e levanta boas reflexões.

  

No site do IPEC você pode encontrar outras tecnologias e experiências que são desenvolvidas. 

Outro exemplo de trabalho desenvolvido pela ONG IPOEMA:

Águas do cerrado – O futuro em nossas mãos 

Emblema da campanha

O projeto visa a recuperação das áreas perto das bacias do Lago Paranoá e do Rio São Bartolomeu por meio do reflorestamento. Estas são as principais fontes de água para o Distrito Federal que se encontra em risco devido ao incipiente processo de degradação de seus córregos resultante do acelerado processo de urbanização. Paralelamente ao programa, são realizadas atividades de educação socioambiental e capacitação de jovens no intuito de aumentar a consciência ambiental, ampliando a capacidade de se discutir políticas públicas voltadas a este tema.

Tecnologia sustentável aplicada a nível governamental:

Programa água para todos – Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) 

Desde 2011 o programa já entregou mais de 804 mil cisternas para armazenamento de água direcionadas a famílias do sertão brasileiro. É um modelo de tecnologia social que além de trazer melhorias na forma com que famílias captam água, anteriormente mulheres e crianças tinham que andar longas distâncias para coletar água em baldes, e que gera renda envolvendo a comunidade na construção das cisternas. A água também pode ser utilizada nas lavouras e para a criação de animais.

Ainda, pra quem se interessar, a Prefeitura de São Paulo disponibilizou um guia de permacultura para administradores de parques. 

A partir de práticas como estas que visam solucionar aquilo que são os problemas crônicos nos grandes centros urbanos, mostra-se possível um caminho para utilização dos recursos naturais de forma ambientalmente sustentável, socialmente justa e financeiramente viável.

 

Foto capa: Caco Araújo



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