Ideias na Mesa - Blog


postado por Lucas Ferreira em Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

No último Hangout do Ideias na Mesa, convidamos o Marcelo Terça-Nada para falar sobre o novo projeto do Poro - Intervenções Urbanas e Ações Efêmeras, que desenvolveu um guia da comida de rua de Salvador para disseminar a cultura alimentar da cidade. Infelizmente, por alguns problemas técnicos de conexão, Marcelo não pode contar toda a história do projeto. Por isso, a equipe do Ideias na Mesa realizou uma entrevista com o designer para que vocês saibam mais sobre esta experiência de proteger a cultura do Acarajé, da Cocada e do Beiju. 

Confira a Entrevista completa:

Ideias na Mesa: Você poderia compartilhar a experiência de elaborar o Pequeno Guia Afetivo da Comida de Rua de Salvador? 

Marcelo Terça-Nada: O Pequeno Guia Afetivo da Comida de Rua de Salvador foi feito a partir de um convite da Bienal de Arte da Bahia para que o Poro desenvolvesse um trabalho. Já tinha alguns anos que o tema da comida de rua de Salvador me despertava interesse, primeiro porque sou apaixonado por comida, depois pela diversidade e força cultural que o universo da comida de rua tem na cidade. Pensamos em fazer o Guia para que ele servisse ao mesmo tempo como registro do que há na cidade, mas principalmente como estímulo para que as pessoas fossem às ruas descobrir ou redescobrir as comidas e sabores presentes na cidade. A pesquisa para o Guia foi feita a partir de mapeamento durante diversas caminhadas pelas ruas de Salvador. A partir desse levantamento, aprofundei com pesquisa bibliográfica e com conversas com diversas pessoas envolvidas com a questão da alimentação na cidade, especialmente os próprios produtores e vendedores de comida de rua. O resultado do Guia é uma espécie de glossário afetivo ou dicionário informal, que traz a transcrição fonética dos nomes das comidas, a etimologia dessas palavras, um texto contando o que é aquela comida e como ela é comercializada na cidade.


IM: Como sua proposta pode contribuir para a percepção da comida de rua como parte da história e do cotidiano da cidade e um patrimônio que envolve diferentes ingredientes, modos de preparo, significados e pessoas?

MT: A contribuição do Guia em relação a percepção da comida como patrimônio pode ser vista por diferentes ângulos:

- para quem é da cidade ou mora aqui: mostra a importância de se valorizar e preservar a riqueza que existe, incluindo aqui as quituteiras(os), os modos de fazer, os ingredientes, as receitas e a cultura entorno dessas comidas

- para quem é de fora e/ou está de passagem na cidade: convida à diversidade e ao espaço público, ajuda a entender o que é cada comida e expande o imaginário sobre a comida de Salvador para muito além do Acarajé/Cocada.

- para as pessoas envolvidas com a academia e políticas públicas aponta caminhos para pesquisa e desenvolvimento de políticas.

- e por fim, mostra que existe a necessidade de dar valor a quem faz; e marca através de uma publicação a variedade e características desses alimentos.


IM: Como tem sido a reação das pessoas em relação ao Guia – como as pessoas que criam a realidade retratada no Guia o receberam?

MT: A repercussão do Guia está impressionante. Só no lançamento foram 350 pessoas. A primeira edição já está quase acabando. E tivemos 3mil downloads da versão digital em 20 dias (para quem quiser baixar: www.poro.redezero.org/publicacoes/comida-de-rua ). Ficou claro que havia uma grande lacuna sobre esse tema. E o mais interessante é como a publicação tem mexido com a memória afetiva das pessoas, que sempre contam sobre as relações que elas tinham e tem com determinadas comidas de rua. Muita gente também tem relatado sobre as comidas de rua que sumiram. E aí entra uma das forças do guia: valorizar o que existe para que não desapareça. Os vendedores de comida de rua tem gostado muito da publicação e o elogio deles pra mim é  precioso. Durante a pesquisa percebi que, com exceção das baianas de acarajé, os outros vendedores não são muito valorizados, apesar de que comer na rua aqui faz parte da identidade coletiva e do cotidiano das pessoas. Quando os vendedores vêem seus quitutes numa publicação impressa, eles se sentem mais valorizados. Mas o melhor está sendo que toda vez que falo com a imprensa, cito alguns dos vendedores que fazem as comidas com muita qualidade, e essas citações tem sido publicadas. Aos poucos, vai se gerando uma cultura de valor sobre o ofício e saberes dessas pessoas.


 

IM: Já foi planejada alguma versão do guia pra turistas estrangeiros, com tradução em outros idiomas, pra estimular o turismo gastronômico de Salvador?

MT: Estamos estudando como dar continuidade a pesquisa do Guia Afetivo da Comida de Rua de Salvador e quais serão seus desdobramentos. Temos alguns desejos, um deles seria uma versão em inglês ou uma versão bilíngüe. Mas ainda precisamos entender como viabilizar isso. Nossa vontade é que o Guia sirva também para as pessoas de outros países que visitam a cidade de Salvador.


IM: Para você, Quais são os principais desafios e oportunidades para preservar o patrimônio alimentar e as raízes alimentares brasileiras em um contexto cuja soberania alimentar é limitada pelo domínio de grandes corporações?

MT: O desafio é atuar frente a velocidade em que a sociedade brasileira está se transformando e perdendo muito de seu patrimônio alimentar tradicional, ou seja, conseguir valorizar/conservar antes que as coisas desapareçam. Corremos o risco de perder espécies alimentícias e modos de fazer antes mesmo de ficarmos sabendo que eles existem.

A grande oportunidade vem do tanto que se tem por fazer: pesquisar, registrar, valorizar. Isso vai desde a realização de documentação audiovisual até pesquisas dos aspectos nutricionais, históricos, antropológicos e gastronômicos relacionados com o cultivo, extrativismo, processamento, preparos e modos de servir as comidas ligadas às nossas raízes alimentares.


IM: Qual a sua opinião sobre o papel da imprensa gastronômica quanto a propagação e valorização da comida como patrimônio. Atualmente existe a "glamorização da gastronomia", você acha positivo essa tendência?

MT: O papel da imprensa é fundamental, pois quando esse papel é bem executado, ele gera visibilidade, ajuda a formar opiniões e contribui com outras formas de olhar as coisas. Para isso a pesquisa, a boa vontade e o engajamento dos jornalistas é muito importante. A glamorização por outro lado tem um papel negativo, pois ela faz com que a gastronomia pareça distante do cotidiano, criando estrelas de TV ou de premiações para poucos. Ao invés de criar essa glamorização, o melhor caminho seria estimular que todos cozinhem, se alimentem bem e conheçam mais sobre a história e origem dos alimentos.


IM: Que outras iniciativas, vocês conhecem que podem ser utilizadas como meios para incentivar o resgate e reconhecimento de práticas alimentares - tradicionais, regionais, históricas-  como patrimônio cultural?

MT: Conheço o trabalho de pessoas que buscam experimentar, divulgar e valorizar as práticas alimentares, como por exemplo o trabalho da Neide Rigo através do seu blog (www.come-se.blogspot.com.br). Ou o trabalho de instituições como o Museu da Gastronomia Baiana, que foi criado pelo antropólogo Raul Lody e é um museu vivo, com restaurante onde se pode experimentar as receitas resgatadas, mas também conhecer utensílios e modos de fazer. O Museu realiza por exemplo um seminário anual com temas ligados às práticas alimentares. Não poderia deixar de destacar o trabalho do Slow Food, especialmente com a Arca do Gosto, que é uma catalogação de alimentos que correm o risco de desaparecer (www.slowfoodbrasil.com/arca). Ou ainda o trabalho que o IDEC fez junto com entidades que atuam com consumo consciente no mapeamento e divulgação das feiras orgânicas e grupos de consumo (www.idec.org.br/feirasorganicas).

Pensando EAN

Marcelo Terça-Nada é ativista do Slow Food, artista e designer. Faz parte da DoDesign-s, escritório de design que trabalha há 12 anos para cooperativas de agricultores familiares, produtores orgânicos e iniciativas do comércio justo. Como artista e junto com Brígida Campbell, criou o Poro em 2002, e desde então realiza intervenções no espaço público e trabalhos gráficos que tentam despertar outras leituras sobre as cidades e as práticas urbanas atuais. O trabalho mais recente do Poro foi o Pequeno Guia Afetivo da Comida de Rua de Salvador.


 



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