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postado por Ramon da Silva Rodrigues Almeida em Terça-feira, 01 de Setembro de 2015


“Pelos campos há fome em grandes plantações

Pelas ruas marchando indecisos cordões 

Ainda fazem da flor seu mais forte refrão 

E acreditam nas flores vencendo o canhão”


Quem nunca ouviu essa música do grande Geraldo Vandré?!

Nessa música de protesto, o cantor retrata a fome e a miséria que assolava as populações rurais do Brasil na época da ditadura e do “milagre econômico brasileiro”

O [Pensando EAN] de hoje traz algumas reflexões sobre fome e consumo de vários alimentos, que foram destacados por meio da música popular brasileira, presente no artigo dos professores Francisco de Vasconcelos, Mariana Perrelli e Iris de Vasconcelos publicado esse ano.

O artigo investiga essas canções na época da ditadura militar no Brasil (1964-1985), com foco na análise das canções de protesto, gênero musical caracterizado por críticas estético-cultural, político-ideológica e social aos governos militares, período no qual surgiram nomes da MPB como, Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Ivan Lins, Milton Nascimento, entre outros.

“Evidenciamos que a canção de protesto retratou elementos dos contextos econômico, político e social, e propiciou a difusão de hábitos e ideologias alimentares saudáveis ou não saudáveis, contribuindo para a construção da identidade alimentar brasileira”.

“ Em 1976, a dupla João Bosco e Aldir Blanc, na canção “O ronco da cuíca”, presenteiam-nos com uma instigante abordagem sobre a origem da fome:

A raiva dá pra parar, pra interromper.

A fome não dá pra interromper.

A raiva e a fome é coisas dos home.

A fome tem que ter raiva pra interromper.

A raiva é a fome de interromper.

A fome e a raiva é coisas dos home (Bosco, Blanc, 1976b) ”.


“ Na canção “Gente”, Caetano Veloso (1977) retrata de forma poética o contexto de miséria e de fome vivenciado por significativa parcela da população de trabalhadores brasileiros no pós-milagre econômico:

Gente lavando roupa, amassando pão,

Gente pobre arrancando a vida com a mão,

No coração da mata, gente quer prosseguir,

Quer durar, quer crescer,

Gente quer luzir ...

Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome (Veloso, 1977) ”.

 

“ Em 1987, os Titãs (Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sergio Brito), compuseram a canção “Comida”, em que a fome ganha dimensão bem apropriada ao contexto de luta pela redemocratização que o país vivenciava – a fome de democracia, cultura, diversão, arte e felicidade:

A gente não quer só comida.

A gente quer comida, diversão e arte.

A gente não quer só comida.

A gente quer saída para qualquer parte.

A gente não quer só comida.

A gente quer bebida, diversão, balé.

A gente não quer só comida.

A gente quer a vida como a vida quer.

Bebida é água! Comida é pasto!

Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?

A gente não quer só comer.

A gente quer comer e quer fazer amor.

A gente não quer só comer.

A gente quer prazer pra aliviar a dor (Antunes, Fromer, Brito, 1987) ”.


O artigo também contextualiza o quanto a luta contra a ditadura e pela redemocratização do país foi importante para o movimento sanitário brasileiro, de forma que foi possível a formulação e construção do SUS (Sistema Único de Saúde) e ampliou o movimento na luta pelo Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA). Contudo para além dessas conquistas na saúde e nutrição, é frisado e analisado nas músicas o quanto o marketing e o consumo de alimentos industrializados ganharam força de consumo em nosso país durante aquela época.

“A canção de protesto “Alegria, alegria”, lançada em 1967, retrata de forma magistral a importância que o consumo do refrigerante Coca-Cola já representava no final dos anos 1960 para os hábitos alimentares dos jovens brasileiros: “Eu tomo uma Coca-Cola / ela pensa em casamento / uma canção me consola / eu vou” (Veloso, 1968)”.


“De fato, a introdução do consumo de Coca-Cola nos hábitos alimentares brasileiros tem sido creditada aos soldados norte-americanos, que no decorrer da Segunda Guerra Mundial (1941-1945) faziam paradas obrigatórias em Pernambuco (Recife) e Rio Grande do Norte (Natal) antes de prosseguir em seus navios e aviões para a Europa”.

“Naquele período foram implantadas as primeiras fábricas do refrigerante no Brasil e a partir de então foram desencadeadas as ricas campanhas publicitárias para a ampliação de seu consumo. Alguns slogans das campanhas tais como “isto faz um bem” (1959), “tudo vai melhor com Coca-Cola” (1966) e “Coca-Cola dá mais vida” (1972) denotam muito bem o apelo de marketing que os produtores desse refrigerante estrategicamente utilizaram para ampliar a adesão ao consumo desse importante símbolo do american way of life entre os jovens brasileiros (Coca-Cola..., 2013) ”.

Ao longo do artigo é possível identificar o quanto essas músicas retratam aquele contexto histórico e denunciam a fome, miséria, violência e outras explorações, ao mesmo tempo que foram veículos de difusão de novos hábitos e ideologias alimentares.

Você pode conferir esse artigo completo na [Biblioteca do Ideias]http://goo.gl/kpCS5n



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