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postado por Ideias na Mesa em Terça-feira, 25 de Agosto de 2015

O Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutricional é um grupo de pesquisa da Universidade de Brasília que se se propõe a ampliar e disseminar conhecimento, capacitar recursos humanos e promover o debate pluridisciplinar e intersetorial sobre as políticas públicas e ações governamentais para a garantia da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN). Dentro dessa perspectiva, a economia se caracteriza como importante foco de discussão, uma vez que influencia diretamente o acesso a alimentos de qualidade em quantidade suficiente. No mês de agosto, o observatório se reuniu para discutir economia colaborativa, uma nova forma de pensar a economia que vem crescendo ao redor do mundo. Como inspiração e referência para a discussão foi utilizada a Revista Página 22, categoria 96.

O capitalismo preconiza a escassez. Desde a infância, as pessoas são programadas a competir e um bom exemplo disso é a dança das cadeiras. A cada rodada dessa brincadeira, alguém tem que sair, assim existe sempre um vencedor e vários perdedores. Essas são características do capitalismo, a competição, a falta de recursos, a existência de um vencedor, a exclusão dos “não ganhadores” e a exploração de recursos. Imersos nessa cultura, nos esquecemos de notar que esse sistema tem chegado cada vez mais próximo do abismo. Prova disso, são as oscilações da bolsa de valores, o status do PIB, as tensões sociais e o esgotamento dos recursos naturais.

Alguns já têm estudado novas tendências para reversão dessa grande crise e creem que muitas das soluções estão baseadas em uma economia de redes e ações colaborativas, na qual carros, alimentos, serviços, moradia, informação, entre outros, podem ser compartilhados. Enquanto no mercado tradicional existem margens de lucro praticadas ao longo das cadeias produtivas, a economia colaborativa apresenta a possibilidade de desintermediação, assim os custos tendem a se aproximar do zero. Dessa forma, os projetos colaborativos têm tido cada vez mais força ao redor do mundo, inspirando transformação do atual sistema, mesmo com as adversidades políticas e sociais que encontramos hoje. Essa nova forma de economia cria oportunidades para construção de um mundo colaborativo, no qual as pessoas tenham o suficiente para viver, as comunidades possam expressar o que possuem de melhor, e que o medo da falta não leve ao acúmulo.

Diferentemente do que o capitalismo preconiza, de que individualmente se é capaz de sustentar um sistema e que, por isso, a competição é inevitável, a economia colaborativa é baseada na compreensão de que é necessário que se construa uma rede de relacionamentos de confiança e que a competitividade não é sustentável em longo prazo.

Daí surge um grande desafio, a construção da confiança. Existe uma corrente de pensamento, que conta com o Dalai Lama como um de seus autores e propagadores, que acredita que a maior parte das pessoas é boa e que no mundo existe muito mais amor que ódio. Dentro de uma cultura que estimula a competição e propaga o medo parece difícil à maioria das pessoas acreditarem nisso e esta é uma forma também de gerar imobilização. Claro que é difícil estabelecer esses laços de confiança, mas, às vezes, as pessoas desenvolvem medos de situações inexistentes por imaginar que são verdadeiras quando nem sempre são.

Durante a conversa, foi relatado um caso de uma menina que fazia trabalho voluntário em uma favela carioca e um dia, sozinha, se deparou com o chefe do tráfico local, que lhe perguntou por que ela estava andando sozinha naquele lugar e se ela sabia quem ele era, ela respirou calmamente e respondeu, “Sei, você é o filho da Dona Maria, né?!” e começou uma conversa sobre os famosos doces da mãe do rapaz, que se “desarmou”, ao ser reconhecido não apenas por ser o chefe do tráfico, mas filho de uma senhora influente na comunidade pela sua incrível habilidade de fazer doces. A situação nos lembra que as pessoas são “muitas coisas” além dos rótulos que recebem, além do que está visível e óbvio, e que enxergando para além disso, é possível mobilizar o que têm de melhor, quebrando barreiras e desmistificando preconceitos.

Então, a economia colaborativa estabelece práticas que permitem a construção de novos conceitos e também novos hábitos. O relato de pessoas que buscam viver de forma cooperativa dentro da sua comunidade apresentam aspectos de melhora da qualidade de vida tanto pelo cuidado existente dentro desses grupos quanto pela variedade de suprimentos físicos e abstratos que essa comunidade tem a oferecer.

Todos esses benefícios e transformações levam a reflexão sobre a economia colaborativa ser de fato um “furo” na economia capitalista, e essa é a ideia do texto. Mas será que ela conseguirá reduzir as desigualdades tão profundas, já estabelecidas no mundo por esse sistema? Existe uma impressão de que, nesse momento, esse compartilhamento é entre pessoas “iguais”, ou seja, que possuem o mesmo poder de obtenção de coisas e favores, que se conhecem e que se encontram nas mesmas classes sociais. O modelo de colaboração estabelecido pelo couchsurfing, por exemplo, parte de uma estrutura já existente, na qual as pessoas precisam ter um espaço de troca. Daí, entram questionamentos sobre a acessibilidade ao mundo colaborativo, no qual o compartilhamento entre os desiguais dificilmente acontece e a economia acaba virando uma bolha. A inclusão e expansão da economia colaborativa a outros grupos sociais seria um desafio da inovadora proposta.

Outra reflexão importante é sobre o pressuposto do liberalismo estimulado por esse modelo econômico. Será que a ausência reguladora do Estado, diante essa forma de economia, funcionaria em maior escala, tendo em vista as diversas culturas existentes no mundo? A não intervenção do Estado implica no fazer do povo, pelo povo e para o povo. Mas será que a ausência de lideranças e auto regulação funcionam sempre?

A economia colaborativa exige uma mudança de ótica, uma percepção de que tudo está em constante transformação e que a inovação só acontece quando colaboramos. Essa perspectiva ainda tem muito a ser afinada e as pessoas ainda devem se apropriar dela, pois ela vai além de uma forma de economia, ela prevê mudança de hábitos diários, o que é extremamente difícil quando já se está acomodado a um modelo existente. Na prática, essa economia tem produzido experiências diversas entre diferentes grupos e extratos sociais. Em Brasília, por exemplo, existem as hortas comunitárias, a Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA)Sociedade das Bicicletas, casas colaborativas, feiras de trocas e bazares. Isso mostra que as coisas vão acontecendo em diferentes esferas, de diferentes formas. Os projetos estão acontecendo e sendo disseminados. Talvez o foco seja perceber o potencial de transformação dessas experiências e remar contra a maré, fazendo com que elas alcancem cada vez mais pessoas. Tem gente fazendo coisa boa em tudo quanto é canto, quem é tocado por uma experiência assim acaba mudando seu modo de ser e de viver o mundo.

 Podemos analisar o exemplo de hortas comunitárias como um ambiente de pratica de Educação Alimentar e Nutricional e de inserção no contexto de economia colaborativa. Nas hortas comunitárias, indivíduos de determinada comunidade participam e aprendem técnicas de plantio, compostagem e sobre o valor nutricional dos alimentos, com aqueles que possuem um maior conhecimento a respeito. É um processo de “ganha ganha” onde todos são beneficiados, tanto no aspecto individual, quanto coletivo.  

A Economia Colaborativa se apresenta, portanto como uma maneira de não apenas aperfeiçoar a utilização de bens, mas também de intensificar as relações de confiança entre indivíduos.  

Redação: Ana Maria Maya



 

 



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