Ideias na Mesa - Blog


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postado por Nathália Bandeira Vilhalva Gheventer em Terça-feira, 27 de Outubro de 2015

Deve-se ter em mente que os seres humanos não se alimentam somente pelo fator biológico da fome e necessidade de nutrientes. A alimentação passa por um processo de construção cultural, sendo consumida, valorizada e transformada. Sua simbologia é extremamente forte, imprimindo crenças e valores, organizando-se como função estruturante da convivência humana.

O [Pensando EAN] de hoje traz um texto inspirado no livro “Adentrando o espaço social alimentar”: sociologias da alimentação, de Jean-Pierre Poulain, com publicação em 2013.

No primeiro capítulo, têm-se reflexões a respeito do contexto da alimentação no panorama da globalização, onde ocorrem fenômenos como a internacionalização da comida, produção de alimentos em abundância a partir do desenvolvimento do agronegócio e padronização da comida por advento das transnacionais. Apesar disto, há o fortalecimento de movimentos populares e regionais que utilizam a gastronomia como campo de sobrevivência e resistência cultural a estes eventos.Movimentos que lutam pela ressignificação de determinados alimentos e pela patrimonialização de práticas gastronômicas locais tornando-se mais articulados e atuantes.

“A ideia de que habilidades, técnicas, produtos possam ser objetos passíveis de ser protegidos, conservados, supõe o sentimento de seu desaparecimento próximo, pelo menos o medo de seu desaparecimento. A patrimonialização do alimentar e do gastronômico emerge num contexto de transformação das práticas alimentares vividas no modo da degradação e mais amplamente no do risco da perda da identidade. A história da alimentação mostrou que cada vez que identidades locais são postas em perigo, a cozinha e as maneiras à mesa são os lugares privilegiados de resistência.”



No segundo capítulo, o autor evidencia que a industrialização resulta na quebra do vínculo entre a natureza e o alimento, com diminuição de relações como a preparação do alimento e o “sentar-se à mesa”.

 “A mudança da valorização social das atividades domésticas leva as indústrias agroalimentícias a se desenvolver no espaço de autoprodução que representava a cozinha familiar. Propondo produtos cada vez mais perto do estado de consumo, a indústria ataca a função socializadora da cozinha, sem, no entanto, chegar a assumi-la. Assim, o alimento é visto pelo consumidor como “sem identidade”, “sem qualidade simbólica”, como “anônimo”, “sem alma”, “saído de um local industrializado não identificado”, numa palavra, dessocializado.”



 Jean- Pierre discute vários outros temas de extrema importância crítico-reflexiva, como a relação entre a obesidade e a medicalização da nutrição, interpretações a respeitos das mutações da alimentação contemporânea, o papel dos consumidores e sua posição no mercado e na alimentação, dentre outros. O autor evidencia também, em relação à sociologia, que a alimentação não se tornou ainda um campo de estudo propriamente dito, e que necessita de investimento.

A obra assim, possibilita ao leitor uma visão sociológica, simbólica e significativa do que é o ato de comer. Vale a pena a leitura!

Para ler o artigo na íntegra. Acesse:http://goo.gl/hDehXS



postado por Débora Castilho em Terça-feira, 23 de Junho de 2015

Hoje o [Pensando EAN] traz trechos de um artigo cientifico escrito por Rosa Wanda Diez Garcia. No texto a autora discute sobre a comensalidade contemporânea, focalizando particularmente o impacto nas mudanças alimentares urbanas, fundamentando-se em autores das Ciências Sociais que discutem a globalização. No artigo, Rosa Wanda, faz também uma abordagem sobre o processo pelo qual alimentos e serviços são desterritorializados e alcançam um caráter global. O artigo visa contribuir para o estudo sobre as mudanças alimentares e analisar outras dimensões, além das nutricionais, do que se denomina dieta afluente.

Segue alguns trechos do artigo:

“Em decorrência de novas demandas geradas pelo modo de vida urbano, ao comensal foi imposta a necessidade de reequacionar sua vida segundo as condições das quais dispõe, como tempo, recursos financeiros, locais disponíveis para se alimentar, local e periodicidade das compras, e outras. As soluções são capitalizadas pela indústria e comércio, apresentando alternativas adaptadas às condições urbanas e delineando novas modalidades no modo de comer, o que certamente contribui para mudanças no consumo alimentar.

Produto deste modus vivendi urbano, a comensalidade contemporânea se caracteriza pela escassez de tempo para o preparo e consumo de alimentos; pela presença de produtos gerados com novas técnicas de conservação e de preparo, que agregam tempo e trabalho; pelo vasto leque de itens alimentares; pelos deslocamentos das refeições de casa para estabelecimentos que comercializam alimentos – restaurantes, lanchonetes, vendedores ambulantes, padarias, entre outros; pela crescente oferta de preparações e utensílios transportáveis; pela oferta de produtos provenientes de várias partes do mundo; pelo arsenal publicitário associado aos alimentos; pela flexibilização de horários para comer agregada à diversidade de alimentos; pela crescente individualização dos rituais alimentares.

A globalização atinge a indústria de alimentos, o setor agropecuário, a distribuição de alimentos em redes de mercados de grande superfície e em cadeias de lanchonetes e restaurantes. A difusão da ciência nos meios de comunicação e o uso do discurso científico na publicidade de alimentos também exercem seu papel no cenário das mudanças alimentares.

A estandardização de certas instâncias das práticas e do comportamento alimentar facilitam as mudanças na alimentação que vão sendo incorporadas como parte do modo de vida, como conseqüência deste. Pressionadas pelo poder aquisitivo, pela publicidade e praticidade, as práticas alimentares vão se tornando permeáveis a mudanças, representadas pela incorporação de novos alimentos, formas de preparo, compra e consumo.

Para Dória (2002) a nossa culinária, composta pelas culturas indígenas e pelas heranças negra e ocidental ibérica, são por analogia, três línguas diferentes, três sistemas culinários irredutíveis uns aos outros e ainda desconhecemos de fato nosso repertório culinário dos últimos 500 anos por falta de interesse das elites dominantes, cujos olhares sempre se voltaram para a Europa e, mais recentemente, para os Estados Unidos, em uma perspectiva de imitação, reservando desprezo pelo nativo. Ao instigar uma gastronomia sustentada na criação e redescoberta dos sabores brasileiros, o autor coloca como desafio renovar a culinária de uma estrutura formada por sistemas culinários distintos. Este suposto caráter permeável da nossa cultura resultaria, pois, em uma capacidade de importar novas práticas e gostos, de gerar novas demandas, de assumir prontamente mudanças no modo de vida e de abandonar aqueles costumes e práticas que poderiam conformar uma identidade própria. Sejam quais forem as explicações para as mudanças sofridas nas práticas alimentares, é certo que elas engendram um novo padrão alimentar.

Se por um lado tal processo de globalização amplia a diversidade alimentar, por outro também a reduz, uma vez que circula um mesmo leque de opções alimentares próprias da globalização. As mudanças na alimentação devem ser entendidas no contexto sociocultural da urbanidade em seus determinantes objetivos e subjetivos. Como as diferentes culturas e, particularmente a nossa irão absorver em seu cotidiano alimentar essa diversidade de padrões (patterns)? Como eles se acomodarão e quais mudanças podem ser provocadas no repertório culinário de referência são questões que merecem ser investigadas para melhor se delinear a comensalidade contemporânea e assim aprofundar o conhecimento sobre os seus determinantes.”

O texto de Rosa Wanda traz reflexões que se alinham à ideia central do Novo Guia Alimentar para a População Brasileira. As recomendações propostas nos 10 passos para Alimentação Saudável valorizam alimentos regionais e locais, incentivando a redução de consumo de alimentos ultraprocessados (e globais), a importância de preparar seu próprio alimento, assim como comer com regularidade e atenção, em ambientes apropriados e, sempre que possível, com companhia.

Já parou para refletir sobre a influência da globalização na sua alimentação e na do Brasil?

 Leia o artigo na íntegra aqui!



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