Ideias na Mesa - Blog


postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017

O [Pensando EAN] relembra uma discussão do Hangout do Ideias na Mesa sobre como considerar e incorporar a dimensão cultural na educação alimentar e nutricional. A discussão foi moderada por Luiza Torquato, e contou com a participação de:

- Denise Oliveira, nutricionista que trabalha com antropologia da alimentação;

- Luana Oliveira, nutricionista na prefeitura municipal de Belo Horizonte, integrante de uma equipe multidisciplinar da Secretaria Municipal de Segurança de Alimentar e Nutricional;

 - Luciana, dentista e gestora municipal de SAN do município de Itanhaém, São Paulo.  (“um dos meus grandes inimigos era o açúcar”);

- Renata Menasi, antropóloga, professora na universidade federal de Pelotas, na pós-graduação, e sou professora na pós-graduação em desenvolvimentos na URGS.

A alimentação, com suas particularidades regionais, é uma das expressões do processo histórico e do intercâmbio cultural entre diferentes povos de uma nação. Por isso deve-se respeitar e valorizar as diferentes expressões, além de incorporá-las às ações de EAN. Esse é um dos princípios do Marco de Referência de EAN para Políticas Públicas:

“Valorizar a cultura alimentar local e respeitar a diversidade de opiniões e perspectivas, considerando a legitimidade dos saberes de diferentes naturezas”.


Mas o que percebemos no Brasil e em todo o mundo, é o processo de globalização da alimentação, levando à homogeneização dos hábitos alimentares e favorecendo o aumento de consumo de produtos industrializados, com altos teores de açúcar, sódio, gordura, aditivos etc. Assim surge o desafio de desenvolver estratégias de EAN que resgatem os aspectos culturais da alimentação local e de promover a alimentação saudável da população.

Mas para a antropóloga Renata, o que acontece é que essa homogeneização dos hábitos alimentares é apenas uma impressão, não uma verdade absoluta. As culturas locais tem muita força e vigor, e está presente com toda sua diversidade em todos os cantos. É importante mantermos nossos olhos abertos para isso, porque dá base, por um lado para contrapor o processo de padronização, de tentativa de uma comida que perca sua identidade e passa a ser apenas nutriente; e por outro, para pensar estratégias e políticas de grande alcance.

 

                      

 

Para Renata, também não é possível fazer uma "globalização do bem", com bons hábitos alimentares e com boas práticas nutricionais, pois temos que nos atentar para o que é local e característico das culturas. As ações de EAN não serão eficientes se não dialogarem com a essência das pessoas, com o que elas são e com o que elas acreditam. Então é importante que ao pensar em alimentação saudável, se questione sobre o que é saudável para aquele grupo, e o que é comida de verdade. Assim as pessoas constroem parâmetros, classificam a comida, pensam e vivem a partir daquilo que consideram importante pra sua identidade e sua cultura alimentar.

Para Denise esse resgate não é um processo individual, mas coletivo, e a cultura, por excelência, tem esse caráter. Como pesquisadora, ela percebe que quando se fala de alimentação saudável, ainda existe um forte enfoque biológico e as pessoas não pensam nem agem assim. Nem nutricionistas, que têm uma experiência acadêmica com forte componente erudito sobre a fisiologia e aspectos sobre o corpo de pensar se aquele prato é adequado do ponto de vista calórico e de vitamina e minerais, quando estão diante de um prato. As pessoas comem a simbologia dos alimentos, e a para realizar ações de EAN deve-se levar em consideração essa bagagem.

A cultura é ressignificada o tempo inteiro pela visão que os seres humanos têm sobre a própria vida. Nesse sentido a EAN não deve buscar a resposta naquilo que se constrói no dia a dia, no cotidiano. As ações devem fomentar o diálogo constante, devem valorizar o aprendizado e a multi etnicidade brasileira. O consumo alimentar deve priorizar as culturas que formaram a sociedade brasileira, o hábito de comer cuscuz e tapioca, por exemplo, tem origem indígena e isso deve ser introduzido nas ações de EAN por meio da construção do conceito sobre o que é comida.  

E no Brasil é realmente um grande desafio considerar a cultura nas ações de EAN, tendo em vista a enorme diversidade que encontramos em um município. Luciana traz o exemplo de que no mesmo município podem ser encontradas a etnia guarani, a etnia tupi guarani, populações ribeirinhas, os caiçara etc. E os hábitos tradicionais tem se perdido, nesse sentido as políticas de SAN cumprem um papel importantíssimo de resgate e valorização de alimentos tradicionais.

Segundo Paulo Freire, o resgate não é feito de forma individual, mas em comunhão e isso é importante ao pensar EAN. Denise relembra a contribuição de diversos grupos para a construção da sociedade brasileira como os indígenas e os negros, força de trabalho no país, e como as mulheres negras estiveram presentes na cozinha construindo uma identidade alimentar. Assim, é importante que a EAN não se exile, mas sim produza atividades dinâmicas, participativas, inclusivas, mutáveis e abertas.

Assim, pensar EAN é de fato um desafio já que deve levar em consideração todas as características do hábito alimentar, sejam elas coletivas ou individuais. 

Trazendo esses conceitos para a prática, existem diversas experiências de EAN incríveis que, aliadas à valorização dos hábitos alimentares tradicionais, tiveram sucesso na promoção da saúde de algumas comunidades, uma delas é a experiência realizada pela Luciana, no Banco de Alimentos em Itanhaém, que resultou na produção de um livro de receitas que exemplifica a diversidade cultural e regional e que resgata a culinária caiçara. Esse trabalho se tornou viável graças ao SISAN e às políticas de SAN que incentivavam a agricultura familiar.

Para encerrar o debate, Denise ressalta a importância do cuidado em não se fazer julgamentos sobre as escolhas pessoais. O processo de consumidor/comensal é complexo e tem um grande componente de crescimento a partir da revolução industrial, isso mudou gestão de tempo das famílias e falar de educação é sim falar de tempo, uma temática complexa e custosa, principalmente para as mulheres.

Se pesquisadores estão abertos à discussão para incorporar a cultura às ações de EAN, é importante que esse resgate seja feito de forma humana e respeitosa. Claro que os caminhos não estão dados, mas cabe a nós trabalharmos para que ele esteja em constante construção.

A discussão sobre como associar a cultura alimentar às ações de EAN foi muito rica, para ter acesso à discussão completa acesse aqui.



postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Segunda-feira, 09 de Janeiro de 2017

A experiência do [Você no Ideias] de hoje surgiu em 2013, mediante a preocupação das nutricionistas e profissionais da educação que notavam pouco ou nenhum interesse dos estudantes pelo consumo das saladas durante o almoço na escola. 

O nome do projeto desenvolvido é "Saladômetro" para dar a ideia de "medir o consumo de saladas", de forma que os participantes refletissem sobre o quanto de salada estão comendo e descobrissem o quanto seria ideal.

Dentre os objetivos do projeto, destacam-se:

- Incentivar o consumo de alimentos vegetais favorecendo as escolhas saudáveis durante as refeições;

- Demonstrar a importância do consumo de saladas e frutas, especialmente na hora do almoço;

- Possibilitar o contato com diferentes preparações à base de vegetais, mostrando que o sabor e aparência das saladas e frutas podem variar e ampliar suas possibilidades de consumo/aceitação;

- Conscientizar os estudantes a respeito dos cuidados com o refeitório/espaço destinado à alimentação, boas maneiras à mesa e higiene pré e pós refeições;

- Reduzir o desperdício de saladas, frutas e guarnições a base de vegetais durante o almoço nas escolas integrais.

A base do projeto é a formação continuada das professoras, articuladoras e demais profissionais das escolas que ofertam educação em tempo integral, no sentido de sensibiliza-las como multiplicadoras de informações sobre o consumo alimentar saudável e sustentável entre os estudantes da unidade educativa em que atuam.

As formações são baseadas em dinâmicas de trabalho em Alimentação Saudável realizadas com equipe multidisciplinar (professoras, nutricionistas, bióloga, entre outros) e têm como principais pontos de abordagem:

  • Elaboração de planos de ação para EAN ao longo do ano letivo
  • Visita monitorada dos estudantes ao Circuito da Alimentação Saudável no Mercado Municipal de Curitiba e Atividade de EAN na escola realizada pela Unidade Móvel de Segurança Alimentar (parcerias com Secretaria Municipal do Abastecimento)
  • Propostas de revitalização/Boas maneiras no refeitório/Autonomia no servimento dos estudantes
  • Inserção de conceitos da Educação Ambiental/Horta

A princípio, cada multiplicadora recebia também um gráfico para cada turma de sua escola, no qual as crianças colavam uma figura, sobre seu nome, sempre que consumissem todos os itens do almoço. Com o passar do tempo, notou-se que a ferramenta mais eficaz para estimular o consumo de saladas foi  fazer com que cada estudante percebesse o quanto consumia antes e o quanto passou a consumir depois de experimentar mais, produzir seu próprio alimento e receber orientações sobre alimentação saudável. A partir daí, surgiram muitas formas de “medir o consumo de salada”, como os registros fotográficos anteriores e posteriores às abordagens, murais e até mesmo o “Desperdiçômetro”, instrumento utilizado para medir a quantidade de alimentos que os estudantes descartavam e gerar reflexão.

Desde então, anualmente o projeto vêm sendo ampliado e realizado nas unidades educativas de Curitiba.

Para saber mais sobre essa experiência acesse aqui.


Em 2017 vamos continuar valorizando as experiências de Educação Alimentar e Nutricional cadastradas na rede. Assim como a Liziane Mery Laufer Rodrigues, você pode ter a oportunidade de ter sua experiência divulgada aqui no Blog. Cadastre suas experiências de EAN e compartilhe com outros usuários suas vivências, ideias e desafios. Vamos fortalecer e qualificar nossas ações pelo Brasil!




postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Segunda-feira, 09 de Janeiro de 2017

O post do [Você no Ideias] de hoje apresenta uma experiência realizada em uma instituição que abriga crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, que teve como objetivo conscientizar o público alvo sobre a importância de hábitos alimentares saudáveis de forma lúdica e divertida. 

O local de realização da experiência conta com uma horta, na qual são cultivadas hortaliças utilizadas para o consumo.

A primeira etapa da experiência envolveu esse espaço tão especial! Cada participante foi convidado a plantar uma semente na horta, assim puderam aprender sobre a forma de cultivo dos alimentos que vão à mesa. Em seguida, o grupo foi dividido em duas equipes, identificadas por fitas de TNT nas cores laranja e roxa e deu-se início a gincana.  Para cada equipe foi designada uma monitora responsável.

A primeira atividade realizada foi intitulada como: tato e paladar. Os participantes se sentaram no chão, com alternância entre participantes de cada equipe, formando um semicírculo. O primeiro participante recebeu uma bola e, enquanto a música tocava, eles a passavam de um para o outro até que o som da música fosse interrompido. O participante que estivesse segurando a bola no momento da interrupção era convidado a se dirigir a mesa para tentar adivinhar qual era o alimento apresentado, usando apenas o tato ou paladar. Neste momento, os olhos dos participantes foram vendados e suas mãos colocadas nos orifícios de uma caixa que tinha, no seu interior, uma fruta ou hortaliça. Cada acerto resultou em 1 ponto para a equipe.

A 2ª Atividade foi o semáforo das cores. A equipe montou um mural dividido em dois lados, um para cada equipe. Em cada lado havia placas, com as cores do semáforo, dispostas em colunas. As facilitadoras explicaram para as equipes o significado de cada placa:

- cor verde: alimentos liberados para consumo diário;

- cor amarela: alimentos que poderiam ser consumidos de vez em quando;

- cor vermelha: alimentos que não deveriam fazer parte da alimentação no dia a dia.

Após a explicação os participantes receberam revistas e livros, onde deveriam procurar por figuras de alimentos, e folhas brancas, onde poderiam desenhá-los, para colar no mural da sua equipe na coluna contendo a placa que julgassem correspondente para os alimentos selecionados. Ao fim da montagem do semáforo uma das monitoras verificou se os alimentos foram colados corretamente em cada placa, sendo que para cada alimento certo a equipe recebeu 1 ponto. Após a contagem da pontuação as facilitadoras debateram com os participantes sobre a montagem feita por cada equipe, demonstraram como seria a forma correta de dispor os alimentos e explicaram os benefícios dos alimentos saudáveis e prejuízos dos alimentos não saudáveis.

A 3ª Atividade foi uma brincadeira de torta na cara, na qual um participante de cada equipe, era selecionado para responder uma pergunta sobre alimentação adequada e saudável. Nessa brincadeira, quem erra a resposta leva uma torta na cara.

Foram feitas quatro perguntas, sendo elas: Devemos trocar arroz e feijão por bolachas e biscoitos? O cálcio presente no leite, iogurte e queijos é bom para deixar nossos ossos fortes? É importante comer frutas e verduras todos os dias? Devemos evitar refrigerantes, pois contém muito açúcar?

Para encerrar o dia, o grupo praticou a comensalidade e saboreou junto um galinhada,  acompanhada de salada de alface, pepino e tomate e suco de caju, para sobremesa, teve picolé de melancia.

Para saber mais sobre essa experiência acesse aqui.

Em 2017 vamos continuar valorizando as experiências de Educação Alimentar e Nutricional cadastradas na rede. Assim como a Fabiane, você pode ter a oportunidade de ter sua experiência divulgada aqui no Blog. Cadastre suas experiências de EAN e compartilhe com outros usuários suas vivências, ideias e desafios. Vamos fortalecer e qualificar nossas ações pelo Brasil!



postado por Maína Pereira em Segunda-feira, 09 de Janeiro de 2017

Quem não adora assistir a uma série no Netflix hoje em dia, não é mesmo? E quando a série tem tudo a ver com comida? Dica assim não dá pra ficar de fora do Comida na Tela! Eis a nossa sugestão para essa semana: Midnight Diner: Tokyo Stories lançada em outubro de 2016 no Netflix.

master midnight

Midnight Diner é uma série japonesa que retrata a rotina de um pequeno restaurante que fica escondido em uma esquina de Tóquio.

O restaurante que funciona da meia-noite às sete da manhã é conhecido como “Jantar da Meia-Noite”, mesmo nome que intitula a série, e é comandado pelo Mestre, protagonista do programa que tem poucas falas, mas sempre presente.

Os outros personagens são os frequentadores assíduos ou pontuais do Midnight que representam pessoas comuns que vão desde executivos a artistas e que tem suas histórias retratadas.

Em um ambiente intimista e acolhedor que possibilita interação entre todos os presentes no local, histórias de vida são reveladas no balcão. O chef sempre atencioso serve qualquer coisa que pedirem, desde que tenha os ingredientes.

Lámen, Corn Dog, Tonteki, Omuraisu, Tamago, Umeboshi e vinho de ameixa, Fondue chinês, Batata-doce refogada, Presunto empanado e macarrão são receitas servidas no restaurante e que marcam cada um dos dez episódios da temporada.

Com um toque de humor misturado com melancolia, a série é uma boa oportunidade para conhecer melhor a cultura japonesa, seus diferentes pratos e tradições. É bem interessante perceber como o compartilhamento de refeições possibilita aproximação entre pessoas queridas e até desconhecidas, representando o poder da comida em conectar as pessoas.

Além de valorizar a comensalidade, no final de cada episódio são dadas dicas de preparo da receita daquele dia incentivando a prática da culinária pelos telespectadores.

Midnight Diner é uma série de episódios curtos de 24 minutos e cujos episódios não são lineares, possibilitando assistir na ordem que se preferir. Pode ser assistida no Netflix ou no canal Arte1.

 

Assista ao trailer (com legendas em inglês):

 

 

Bom apetite!

 



postado por Marina Morais Santos em Quinta-feira, 05 de Janeiro de 2017

Autor: Jill Neimark

Fonte: https://goo.gl/WFOIJn

Um pequeno amendoim rosa não é um rinoceronte branco. Nem é uma tartaruga verde ou um tigre de Bengala. Mas até alguns anos atrás, o amendoim africano da Carolina - antigamente o amendoim mais elogiado do Sul, repleto de sabor e rico em óleo - era muito parecido com o rinoceronte, a tartaruga e o tigre. Ou seja, estava quase extinta.

O amendoim africano da Carolina, como muitos dos cultivos tradicionais do sul dos Estados Unidos, foi trazido a América no século 17 por africanos ocidentais escravizados, que o cultivavam nos fundos de seus quintais. Era a castanha ancestral do sul, celebrada em canções, tradicionais frituras e sopas de amendoim e no tradicional bolo de amendoim com melaço de Charleston (Carolina do Sul).

De acordo com relatos da época, os vendedores de bolos de amendoim desciam até os cais da cidade quando os barris de melaço estavam sendo descarregados, raspando-os para ferver para os bolos, adicionando manteiga, clara de ovo, amendoim e cascas de limão. Os bolos eram vendidos por um tostão por mulheres negras livres chamadas "maumas" sentadas em banquinhos de três pernas do amanhecer ao anoitecer. Todas as vendas em que as maumas do amendoim se instalavam foram fechados como parte dos esforços locais de saneamento da Primeira Guerra Mundial estabelecidas por Herbert Hoover.

Chloe Jenkins (1843-1899), fotografada em Charleston por volta de 1897, era um chamada "mauma", uma mulher negra livre que vendia bolinhos de amendoim por um centavo cada.

 

Já nos anos da Grande Depressão, os amendoins tradicionais já tinham quase desaparecido - substituídos pelos populares amendoins da Espanha e da Virgínia (os amendoins da Virgínia foram trazidos da Bolívia nos anos 1840).  Apenas 40 sementes do amendoim africano sobreviveram, escondidas pelos na década de 1930 em um banco de sementes em armazenamento frio na Universidade da Carolina do Norte.

Agora, o amendoim africano da Carolina está de volta.

A primeira safra comercial, que contou com 15 milhões de amendoins, foi colhida em novembro passado e foi distribuída a chefes de cozinha e fabricantes artesanais de manteiga e óleo de amendoim.  

"O amendoim", diz o chef Forrest Parker, nomeado chef embaixador da Carolina do Sul em 2016, "é pequeno ao ponto de ser diminutivo, mas quando torrado tem o sabor mais intenso de amendoim que já experimentei e continua a ser uma revelação toda vez que provo".  

O amendoim deve seu avivamento ao historiador gastronômico David Shields, autor de 'Southern Provisions'. "Eu tinha visto uma fotografia do amendoim em uma colação na Biblioteca Britânica" relembra Shields, que perguntou a Tom Isleib, um produtor e pesquisador de amendoins da Universidade da Carolina do Norte, se a universidade tinha o amendoim na sua coleção. "Eles tinham preservado a semente, mas ela era chamada apenas de Carolina N° 4" relembra Shields.

Logo, o horticultor Brian Ward, do Centro de Pesquisa Costeira e Educação da Universidade Clemson, em Charleston (Carolina do Sul) foi encarregado de plantar 20 dessas 40 sementes restantes Doze brotaram. Sabendo que essas 12 eram o remanescente precioso de um amendoim quase extinto, ele cuidou delas de forma especial. "Eu as plantei bem aqui do lado do meu laboratório" lembra Ward, "assim eu era capaz de vigiá-las o dia todo."

Quando os primeiros amendoins floresceram no verão de 2013, Ward e Shields tinham certeza de que haviam recuperado o há muito perdido Amendoim Africano da Carolina. O resultado era exatamente igual às antigas fotos.

"Sabíamos no momento em que vimos a multidão de amendoins pendurados em seus pedicelos", diz Shields.

Naquela ano, 12 sementes se tornaram 1200, e então 60.000 em 2014, 1 milhão em 2015 e, em 2016, 15 milhões. Cerca de 30 pequenos agricultores também produziram pequenas colheitas do amendoim em 2016.

Chef Parker diz que criou um prato inspirado nos bolos de amendoim e melaço tradicionais para um jantar beneficente que teve como objetivo levantar fundos para reviver a culinária de fusão que antes prosperava desde a Carolina do Norte até Jacksonville (Florida). "Nós usamos o bolo de amendoim como inspiração, mas intitulamos nosso doce de 'Veludo Elvis'. Ele era feito de creme de banana assada, amendoim torrados, bacon e uma redução de molho de pimenta e melaço, tudo dentro de uma massa folheada."

Neste ano, segundo Parker, ele está recebendo galões enormes de amendoins produzidos pelo paisagista e agricultor tradicional Nat Bradford que produziu 1000 quilos de amendoim este ano. "O sabor é intenso", disse Bradford. "É como se você tivesse aumentado o volume de um amendoim. Até a fragrância do arbusto do amendoim é incrível."

O avivamento deste amendoim vem em um bom momento para os produtores da Carolina do Sul, que estão se voltando para os tradicionais amendoim da Virgínia e o africano da Carolina do Sul para as colheitas do futuro. "Há uma Renascença do amendoim acontecendo no  estado", disse Ward.

Em 2003, os amendoins foram cultivados em apenas 19 mil acres das terras agrícolas da Carolina do Sul. Hoje, várias variedades de amendoim são cultivadas em 110 mil hectares e o tradicional amendoim da Carolina será adicionado em breve à mistura.

"E pensar que aquelas 40 eram as únicas sementes viáveis no planeta" reflete Ward, "É muito especial trazê-las de volta". 

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No Brasil e no Mundo, vem se fortalecendo o conceito de Comida como Patrimônio. Ele surgiu da necessidade de se perpertuar preparações e métodos de produção extremamente representativos da cultura de um povo. O retorno do amendoim africano da Carolina e a tradição de fazer os bolos de amendoim das maumas devem ser discutidos à luz deste conceito. Reconhecer um alimento como patrimônio é um processo complexo que não ocorre de maneira impositiva, mas sim como resultado do acúmulo cultural em torno de determinada prática ou alimento.

Discutir a relação da dimensão cultural com a segurança alimentar e nutricional é necessário e pode se mostrar estruturante na medida em que nos ajuda a discutir até mesmo o processo de produção dos alimentos. Quando fala-se em alimentos tradicionais e regionais, fala-se de modos de preparos únicos, passados de geração em geração e conectados com a identidade cultural, o bioma local e o cultivo e produção de alimentos. Resgatar o amendoim africano da Carolina só foi possível com a integração de pesquisadores, pequenos produtores, chefs e cozinheiros, que interligaram os aspectos culturais e tradicionais deste alimento com seu potencial gastrônomico e de produção agrícola.



postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Quarta-feira, 04 de Janeiro de 2017

O [Biblioteca do Ideias] de hoje apresenta um artigo científico que teve como objetivo identificar atores sociais e as suas contribuições na consulta pública realizada sobre a proposta obrigatória de rotulagem de alimentos no Brasil com gordura trans. Essa consulta teve início em agosto de 2003 e ficou aberta para contribuições durante 60 dias. 

Segundo as autoras, a nutrição está no meio de um triângulo formado pelo Governo, o setor privado e os consumidores. Por isso é importante analisar essa complexa relação entre as diferentes partes envolvidas no desenvolvimento de políticas voltadas à nutrição, para que possamos entender como essas políticas podem atingir seu real objetivo, garantir o bem estar da população.

Assim, essa pesquisa é caracterizada como uma análise de politicas baseada nas contribuições feitas pelas partes interessadas no assunto no Brasil e que participaram da consulta pública sobre a Lei de Rotulagem de Alimentos em Gordura Trans. Essa análise revelou que houveram 25 contribuições para essan consulta:

- 6 representantes de Universidade e entidades que representavam profissionais de saúde,

- 2 representantes de outras classes profissionais,

- 14 representantes da Indústria de Alimentos,

- 1 representante da Indústria Farmacêutica.

De forma geral, 23 contribuições foram contra a rotulagem, enquanto apenas duas foram a favor. 

A análise qualitiva desse material revelou o uso de três palavras chaves nas contribuições:

1. Consumidores,

2. Análise da quantidade de gordura trans,

3. Rotulagem voluntária.

Com relação ao primeiro tema, "Consumidores", estavam relacionados dois outros pontos relevantes: conhecimento do consumidor e Educação Alimentar e Nutricional (EAN). A análise nostrou que a maioria dos participantes estavam preocupados com o grau de compreensão dos consumidores quanto ao que é gordura trans. Há uma preocupação de que os consumidores confudam gordura trans com transgenia e isso pode levar à depreciação do produto. Houve ainda a argumentação de que a rotulagem da quantidade de colesterol nos alimentos é suficiente para os consumidores, que entendem bem essa informação, mas que ainda não entendem a gordura trans. Como solução, quatro participantes argumentaram que o Governo deve investir em programas de educação para a população sobre esses temas.

O tema "Análise da quantidade de gordura trans" apareceu associado a três principais argumentos contra a rotulagem: a falta de recursos humanos, falta de laboratórios adequados e o alto custo da análise. 

O debate sobre a "Rotulagem voluntária" focou em se o Brasil não deveria ter uma rotulagem voluntária, ao invés da obrigatória ou até mesmo se a rotulagem de alimentos em gordura trabs é necessária. 

Esse artigo mostra que apesar da consulta pública ser aberta a todos, se nota a ausência de associações ou organizações não governamentais que representassem os interesses dos consumidores. Por isso, essa situação deverá ser abordada, nas futuras consultas, por organizações relacionadas ao interesse público e que trabalhem com Doenças crônicas não transmissíveis, para que exista um contrabalanço entre os interesses da sociedade e os da indústria de alimentos, supermercados e redes de fast food.

Além disso, é levantada a necessidade de uma abordagem intersetorial e o estabelecimento de parcerias com a mídia, universidades, profissionais de saúde, escolas e a indústria de alimentos, para o desenvolvimento de programas de EAN eficientes. 

Quanto ao aumento de custos relacionados à análise, as autoras lembraram que um estudo realizado na Dinamarca mostrou que a rotulagem de alimentos em gorduras trans não teve nenhum efeito no preço, disponibilidade ou qualidade dos produtos que continham gordura trans na sua lista de ingredientes.

O artigo está disponível apenas em inglês, mas sua leitura é tranquila e dinâmica. Vale a pena conferir na nossa biblioteca!



postado por Marina Morais Santos em Terça-feira, 03 de Janeiro de 2017

Autor: Steven Heim, do Boston Common Asset Management

Traduzido de: https://goo.gl/6Q3bUa

 


A resistência antimicrobiana, com o aparecimento de superbactérias resistentes aos antibióticos de que a medicina moderna depende, não é uma ameaça futura que se aproxima no horizonte, mas um problema que já está aqui e provavelmente terá um grande impacto nos negócios - especialmente em Setores Farmacêuticos e de Produção de Alimentos.

A Organização Mundial da Saúde estima que já haja 700.000 mortes no mundo todo ano devido a infecções resistentes a antibióticos, e se o problema não for resolvido, isso poderia aumentar para 10 milhões de mortes por ano até 2050.

De acordo com um estudo, 70% das bactérias em todo o mundo já desenvolveram resistência aos antibióticos, incluindo colistina - muitas vezes descrito como antibiótico de medicina de último recurso.

O crescimento da produção industrial se correlaciona estreitamente com o desenvolvimento de bactérias resistentes aos antibióticos. Dois terços do consumo de antibióticos na União Europeia e 70% da utilização de antibióticos nos Estados Unidos ocorre na indústria de criação de animais.

Na maioria das vezes, os antibióticos não são usados para tratar doenças. Em vez disso, eles são preventivos, já que os animais necessitam de doses regulares (muitas vezes diárias) de drogas para permanecerem saudáveis em suas instalações superlotadas. Este uso excessivo pode matar algumas bactérias e manter temporariamente os animais mais saudáveis, mas permite que as bactérias resistentes aos antibióticos se fortaleçam e aumentem em número, enfraquecendo os efeitos dos antibióticos nas doenças humanas.

Os governos começaram a tomar medidas para restringir essas práticas e impedir o surgimento de superbactérias, o que afetará a cadeia produtiva de alimentos. Por exemplo, já vemos uma regulação agrícola mais rigorosa do uso de antibióticos nos Estados Unidos e na União Europeia.

A Dinamarca introduziu a proibição de certas drogas, e a Califórnia aprovou um projeto de lei em 2015 que limita acentuadamente o uso de antibióticos em fazendas industriais. A introdução pela UE de legislação que proíbe produtos que utilizam antibióticos promotores de crescimento levou à banimento de algumas importações de carne bovina dos Estados Unidos, que custaram à indústria norte-americana muitos milhões por ano.


Comida sem antibiótico

Adicionalmente, a preferência dos consumidores passou a tender para a carne sem antibióticos e algumas empresas já começaram a responder a esta demanda. As vendas de frango sem antibióticos aumentaram 34% nos EUA em 2013 e mais 25% em 2014, representando 11% das vendas globais de frango nos EUA.

No Reino Unido, as vendas de produtos orgânicos aumentarem em 6% em 2016, à medida que os consumidores procuram cada vez mais produtos sem antibióticos com um sistema de produção auditado e credível. Se as empresas não conseguirem adaptar-se à evolução das preferências dos consumidores, correm o risco de ficar atrás de seus concorrentes no mercado.
Alguns podem olhar para o setor farmacêutico para soluções, mas apesar da taxa crescente de bactérias resistentes aos medicamentos, o número de novos antibióticos aprovados anualmente pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA caiu drasticamente na última década.

Como antibióticos tendem a ser prescrições de curto prazo, o tempo e os recursos gastos para desenvolvê-los produzem baixos retornos. A falta de inovação expôs o setor farmacêutico a riscos reputacional e financeiro por não atuar à medida que a resistência cresce.

Este ano, a Boston Common Asset Management juntou-se a uma coalizão de investidores no valor de 1 milhão de dólares, pedindo às dez das maiores empresas de alimentos do mundo, incluindo Yum! Brands (KFC, Pizza Hut, Taco Bell) e Domino's, para acabar com o uso rotineiro de antibióticos em suas cadeias mundiais de fornecimento de carnes e aves.

Vimos alguns resultados positivos. Por exemplo, The Restaurant Group (incluindo marcas como Frankie & Benny's e Garfunkel's) comprometeu-se a eliminar gradualmente o uso preventivo e rotineiro de antibióticos em sua cadeia de suprimentos. Perdue, um dos maiores fabricantes de aves nos EUA, anunciou que havia encerrado o uso rotineiro de todos os antibióticos em toda a sua operação. Da mesma forma,o McDonald's prometeu para este verão parar de servir aves tratadas com antibióticos em seus restaurantes nos EUA.

Progresso Lento

Embora as empresas tenham dado os primeiros passos, o ritmo da mudança é muito lento. A grande maioria das políticas corporativas sobre o uso de antibióticos são fragmentadas ou não ambiciosas o bastante em seu escopo.

Enquanto o McDonald's assumiu compromissos para a redução dos antiobióticos em suas aves nos EUA, a gigante multinacional de alimentos também vende carne bovina, suína e produtos lácteos em mais de 100 países. Para que qualquer compromisso seja significativo, ele deve abranger as operações globais da empresa.

A resposta comercial ideal necessária para reduzir a resistência aos antibióticos é em duas vertentes. Todos os principais produtores e retalhistas de alimentos devem comprometer-se a eliminar progressivamente o uso rotineiro de antibióticos em todas as suas cadeias de abastecimento.

Simultaneamente, a indústria farmacêutica deve ajudar a mitigar a crise gastando mais recursos no desenvolvimento de novas cepas de antibióticos como velhos tornam-se ineficazes.

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Para freiar o uso abusivo de antibióticos na agricultura e pecuária, é necessário cobrar ações dos governos e da indústria de alimentos, além de fazer escolhas conscientes que apoiem os sistemas alimentares sustentáveis. Consumir alimentos produzidos de maneira sustentável de empresas auditadas e credíveis é uma maneira de estimular o mercado a deixar seus modos de produção convencional, que, por submeter os animais a péssimas condições de vida, acabam sendo viáveis apenas com o uso de antibióticos. Propostas de produções de alimentos mais sustentáveis, orgânicas e agroecológicas propoem modelos que permitem o banimento dos antibióticos, dos agrotóxicos e outras técnicas não-sustentáveis. Em 2017, reflita sobre como as suas escolhas alimentares podem impactar o Sistema Alimentar e contribua com sistemas de produção mais sustetáveis e justos. 



postado por Equipe Ideias na Mesa em Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2016

A rede Ideias na Mesa encerra mais um ano com muitas conquistas e realizações!

Desejamos que em 2017 possamos contribuir com muito mais ideias e possibilitar muito mais momentos de troca de experiências em Educação Alimentar e Nutricional!

Nossa equipe estará de recesso entre os dias 21 de dezembro de 2016 e 02 de janeiro de 2017.

Aproveite e confira os melhores momentos de 2016 da rede Ideias na Mesa: https://goo.gl/9WZAaI

Boas festas e até 2017 com muito mais novidades pra vocês! 



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016

As falas de abertura deram o tom da Nobel Week Dialogue - Semana de Dialogo Nobel, 2016 - que aconteceu no dia 8 de dezembro em Estocolmo, Suécia. Ela teve como principal tema o "futuro alimentar" com vistas a responder a pergunta "É possível prover a todas as pessoas alimentos produzidos de maneira sustentável?".

Com um pouco mais de 7 horas de duração resultante de dois dias de exposições, os diálogos foram gravados e apesar de não terem legendas em português, podem ser assistidos diretamente da página do evento. Essa é uma oportunidade de assistir discussões intrigantes, estimulantes e riquíssimas sobre o futuro dos alimentos. O evento reuniu ganhadores de Prêmios Nobel, cientistas e especialistas, líderes mundiais, principais líderes de opinião, formuladores de políticas e público em geral. Cabe destacar a participação de Marion Nestle, autora do blog “Food Politics” e de Eduardo Nilson, da Coordenação Geral de Alimentação e Nutrição, do Ministério da Saúde.

Tara Garnett, fundadora da "Rede de Pesquisa de Alimentação e Clima" da Universidade de Oxford fez a primeira das três exposições de abertura que contou também com as falas de Johan Rockstrom - Centro de Resiliência de Estocolmo - e o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2015 Angus Deaton. Os três palestrantes apresentaram diferentes perspectivas sobre como o sistema e as escolhas alimentares podem tanto influenciar o abastecimento da população e distribuição de renda, quanto levar à impactos negativos ou à proteção de ecossistemas ambientais.

Garnett trouxe o exemplo de seus mais de 25 anos de experiência trabalhando em ONGs e setores acadêmicos e foca suas pesquisas nas interações entre alimentos, clima, saúde e problemas ambientais mais amplos. Ela se dedica a investigar os impactos gerados pela pecuária e como o conhecimento é comunicado e interpretado por gestores, sociedade civil, indústrias e suas diferentes formas de pensar sobre os problemas e soluções alimentares. Já o PhD e principal pesquisador do Centro de Resiliência de Estocolmo, Johan, apresentou o acumulado de seus estudos que resultaram mais recentemente nas "Nove Fronteiras Planetárias". Seu trabalho tem sido utilizado em diferentes painéis e grupos de trabalho da ONU como subsídio para solucionar problemas como os relacionados ao aquecimento global e seus agravos sociais, econômicos e ambientais, por exemplo, a insegurança alimentar. Fechando este bloco, o Prêmio Nobel e PhD, Angus Deaton, falou sobre a pesquisa que lhe rendeu a premiação em 2015, "Análise do consumo, pobreza e riqueza". Ele aborda, entre outros aspectos, a insegurança alimentar como resultante não apenas da falta de acesso aos alimentos, mas destaca também a importância da renda para evitar esse fenômeno. 

Ao longo dos dois dias de exposições, no entanto, foi possível observar em alguns diálogos um debate de opiniões que se traduz também na aplicação e elaboração de ações e estratégias para solucionar problemas globais como a segurança alimentar e nutricional e a produção sustentável de alimentos. Nesse sentido, outros dois Prêmios Nobel, Muhammad Yunus e Richard J. Roberts apresentaram visões, ainda que sobre temas pontuais, destoante da maioria dos que participaram do evento.  

O indiano Yunus citou a parceria de um de seus projetos com a Danone, a qual segundo ele se caracteriza como um exemplo de "social business". O projeto consiste na fortificação de um iogurte específico da marca Danone com micronutrientes e proteína, para que eles sejam comercializados a preços baixos para crianças pobres de Bangladesh com o intuito de combater a fome e desnutrição. Já o químico Richard Roberts, defendeu a utilização de organismos geneticamente modificados (transgênicos) para que a produção de alimentos consiga "atender a demanda de crescimento populacional dos próximos anos".

Essas duas visões vão à contramão dos outros expositores no sentido de reduzir à micronutrientes e à engenharia genética alimentícia os determinantes da fome, desigualdade e distribuição, insegurança alimentar  e produção ecológica. Ademias, nas duas situações os caminhos propostos continuam a terceirizar as soluções mantendo a tomada de decisões e a mercantilização dos insumos nas mãos de multinacionias e indústrias enquanto os interesses da sociedade civil, assim como seu protagonismo na elaboração e tomada de decisões, continuam secundarizados.   

Nesse sentido, Marion Nestle recebe o desafio de responder à seguinte questão: “Quem decide o que comemos?”.

A partir da perspectiva de quem trabalha e pesquisa sistemas alimentares, o foco de sua resposta estava no “advocacy”por uma alimentação adequada e saudável. Para contextualizar, Marion problematiza como fazemos nossas escolhas alimentares e como ambiente em que vivemos influencia nossas escolhas. Ela lembra que a desnutrição afeta 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo, a obesidade afeta 2 bilhões e os danos ambientais afetam o mundo inteiro. Muitos dos danos ambientais foram causados pelo sistema alimentar que construímos ao longo dos anos, quando adotamos dietas baseadas em alimentos ultraprocessados, produzidos pela indústria de alimentos. Hoje vivemos com problemas de saúde e problemas ambientais, relacionados a essas escolhas, mas as orientações para resolução de alguns dos nossos problemas vão contra os interesses da indústria alimentícia. Isso nos mostra algumas ironias encontradas no nosso sistema alimentar e representa uma grande dificuldade que é pensar na contradição que existe quando o Governo diz que metade do seu prato deve ser composto por frutas e vegetais, mas incentiva a produção de soja e milho, produtos que não estão presentes na nossa alimentação.

A professora questiona ainda, a produção norte americana, que produz quase duas vezes mais alimentos do que a população de fato precisa. Para dar evasão a essa produção a indústria criou algumas estratégias, uma delas é aumentar os tamanhos das porções oferecidas. Marion Nestle diz que como educadora alimentar e nutricional, se pudesse ensinar uma coisa ao mundo, seria: “porções maiores têm mais calorias”. Segundo ela, essa informação que parece óbvia, não é.

Além dos produtos de má qualidade nutricional, em porções absurdamente grandes, investe muito dinheiro em estratégias de Marketing, que contribuem para aumentar a venda de seus produtos. Especificamente, a indústria de bebidas doces é muito transparente quanto aos bilhões de dólares investidos no Marketing de seus produtos. A Coca-Cola, por exemplo, tem o plano de investir 17 bilhões de dólares em Marketing dos seus produtos, na África, entre 2010 e 2020.

Então, quando unimos esses fatores que têm construído o nosso ambiente alimentar, é muito difícil fazermos boas escolhas. É aí que entra o “advocacy”, que segundo a Forbes, é a nova ameaça à industria alimentícia. A noticia diz que pessoas relevantes na alimentação saudável direcionam as estratégias de Marketing e o desenvolvimento dos produtos da industria. Marion não concorda com a notícia, diz que as coisas ainda não são bem assim, mas de fato temos percebido algumas mudanças, como o movimento pela taxação das bebidas açucaradas, em alguns lugares do mundo. Marion finaliza sua fala relembrando que comer é um ato político, por isso é tão importante termos um sistema alimentar que nos  permita fazer escolhas alimentares saudáveis.

Depois dessa fala, seguindo com os painéis que discutiam “Porque comemos o que comemos?”, Eduardo Nilson, do Ministério da Saúde, falou um pouco sobre como o Brasil tem caminhado para tentar mudar o sistema alimentar e criar ambientes que favoreçam escolhas alimentares saudáveis. Para isso, nada mais atual e inovador que o Guia Alimentar para a População Brasileira, que não resume a alimentação à ingestão de nutrientes, mas abrange a perspectiva das refeições e da importância da comida de verdade. Isso é muito inovador porque ajuda as pessoas a verem o sistema alimentar, já que mostra para as pessoas o nível de processamento dos alimentos e estabelece um novo padrão de dieta, baseado em alimentos naturais, além de incentivar que as pessoas saibam o que elas estão escolhendo comer ou não.

Os diálogos estão incríveis e vale apena dedicar um tempo para acompanhar essas discussões e refletir sobre as suas escolhas e o ambiente em que vive:



postado por Marina Morais Santos em Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2016

Com o Ideias na Prática, a equipe do Ideias na Mesa também realiza experiências de Educação Alimentar e Nutricional! Em parceria com a webtv Na Calçada, o Ideias realizou na Universidade de Brasília (UnB) em setembro uma intervenção chamada "Tenda da Felicidade".

O objetivo da ação foi sensibilizar as pessoas sobre alimentação saudável e sobre a influência da publicidade nas escolhas alimentares. A medida que a tenda foi sendo montada alguns passantes observavam com curiosidade, e ao longo de três horas, a ideia foi surpreendê-los com a pergunta: "Você conhece a receita da felicidade?", convidando-os a viver uma experiência cheia de conteúdo, ironia e bom humor.

A ação se propôs a mostrar o que realmente está sendo vendido por trás dessas imagens emocionais que cativam os consumidores, ou seja, a bebida em si e as complicações que seu consumo em excesso pode causar. Baseada em uma ação já realizada e divulgada pelo Center for Science in the Public Interest (CSPI) (veja aqui), ela consistiu em uma simulação, de forma interativa, do conteúdo de uma lata de refrigerante (para tal utilizou-se água com gás, corante e açúcar) seguido da explanação de informações sobre o produto e o marketing associado. Após cada apresentação, foram entregues panfletos informativos sobre açúcar e sua associação à obesidade e doenças crônicas não transmissíveis, marketing publicitário e a importância da taxação de bebidas açucaradas e experiências nesse sentido em outros países. Confira o vídeo da Tenda da Felicidade!

 

Como resultados, cabe citar as reações dos participantes durante a ação, que em sua maioria foram positivas e de surpresa: além de conseguir chamar a atenção de várias pessoas que passavam no local, houve grande interesse pelas informações passadas, e também um feedback positivo pela iniciativa. Muitas pessoas pararam para pensar sobre a questão e algumas classificaram como impactantes as informações passadas durante a Tenda. Quer saber mais sobre essa eperiência? Confira o passo a passo, fotos e resultados aqui.

Em 2016 buscamos valorizar ainda mais as experiências de Educação Alimentar e Nutricional cadastradas na rede. Você pode ter a oportunidade de ter sua experiência divulgada aqui no Blog. Cadastre suas experiências de EAN e compartilhe com outros usuários suas vivências, ideias e desafios. Vamos fortalecer e qualificar nossas ações pelo Brasil!



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