AGROECOLOGIA E NUTRIÇÃO: PRÁTICAS DE EAN SEMEANDO POTÊNCIA ENTRE GRADUANDAS E AGRICULTORAS
Postado 11/08/2018

 
Postado por
Tamiris Pereira Rizzo

Macae - RJ
(22) 998757874 (21) 99235-6960
https://leromundosite.wordpress.com/

Organização/Instituição Promotora da Experiência : Universidade Federal do Rio de Janeiro
Área da Experiência: Agricultura/Abastecimento, Educação, Saúde
Niveis Atuacao: Municipal/Local
Setor da Organização/Instituição: Organização não governamental, Público
Sujeito Idade: 20 a 59 anos, 60 a ou mais,
Número Aproximado de Participantes da Experiência : 0-50
Sujeito Caracteristica : Mulheres, Agricultores
Tipo Local: Espaço público (praça, mercado, centro comunitário, igreja...)
Tipo Experiência: Dinâmica em Grupo, Feira, Material Audio-visual, Roda de Conversa
Temática: Produção agroecológica, Alimentos orgânicos, Alimentos ultraprocessados / alimentos industrializados, Direito Humano à Alimentação Adequada e Segurança Alimentar e Nutricional , Economia solidária / geração de renda, Patrimônio e cultura alimentar, Promoção da Alimentação Adequada e Saudável, Sistema alimentar / sustentabilidade


Sobre A Iniciativa:

O presente relato trata da experiência sistematizada e divulgada por meio de conteúdo audio-visual, produzido no formato de blog, entitulado "Ler o Mundo: Reflexões sobre a prática de EAN por meio da Educação Popular", desenvolvido como produto final e portfólio da disciplina de Educação Alimentar e Nutricional do Curso de Nutrição da UFRJ-Campus Macaé pela graduanda Laís Vargas Botelho. 

A disciplina teórico-prática visa a aproximação dos graduandos de nutrição com o território e o fazer da Educação Alimentar Nutricional em espaços intitucionalizados de saúde, assistência social, educação, como também, de assosiações não-governamentais como ONGs ou associações comunitárias. A experiência aqui descrita é um relato comovente, em primeira pessoa, fruto da vivência de um grupo de graduandas com as mulheres agricultoras responsáveis pela Feira Agroecológica da Enseada das Gaviotas, bairro peri-urbano do município de Rio das Ostras, região norte-fluminense do estado do RJ. 

Na sequência, acompanharemos a trajetória da graduanda e de seu grupo na preparação teórica que antecedeu as vivências práticas de EAN, vislumbrando como o livro Castas a Guiné-Bissau de Paulo Freire; a Metodologia da Problematização com o Arco de Maguerez; entre outros textos, prepararam e orientaram a construção horizontal e dialogada entre as estudantes e as mulheres. Descreveremos tais encontros, seu passo a passo e seus possíveis desdobramentos. Ademais, esse relato têm como objetivo principal expor a reflexão potente sobre como a prática da educação popular, orientada pelo Direito Humano a alimentação Adequada e para a Segurnça Alimentar e Nutricional, pode impactar positivamente na formação crítica, holítica e humanizada de estudantes de Nutrição, como consta, nas próprias reflexões da graduanda. Boa Leitura!



Passo A Passo:

 A IMPORTÂNCIA DA TEORIA

Na disciplina Educação Alimentar e Nutricional (EAN2), nossas aulas teóricas giram em torno de preparação e supervisão de etapas de planejamento de uma atividade educativa em alimentação e nutrição com diferentes grupos populares.

Meu grupo, cuja experiência é aqui narrada partindo da minha perspectiva, ficou responsável por conhecer e aprender mais sobre EAN junto de mulheres da Feira Agroecológica de Enseada das Gaivotas. A primeira atividade preparatória para o início desta prática, foi a leitura compartilhada, seguida de apresentação criativa do livro “Cartas à Guiné Bissau: registros de uma experiência em processo”, do mestre Paulo Freire.

No livro Cartas à Guiné Bissau, Paulo Freire (1978) faz uma detalhada narração descritiva apresentando o país africano Guiné Bissau, como alguém que convida o leitor para adentrar naquele território, conhecer sua história de luta e seu povo. Em outras palavras, seu convite é para que sejamos parte do mundo e das gentes que lá vivam (e sobreviviam) em um cenário de pós libertação do colonialismo português; afinal, foi o que ele mesmo fez ao chegar lá, na década de 70, com o intuito de contribuir para a reformulação do projeto educativo da nação. Ele, claramente, partia do entendimento de que não é possível avançar na educação popular sem fazer parte do mundo do outro, sem se colocar em seu lugar, afinal de contas, o educador popular deve entender que educar não é um fim em si mesmo, mas um instrumento para construir um projeto de sociedade maior.

A nova República de Guiné Bissau tinha acabado de conquistar sua independência, desta maneira, não é difícil imaginar que seus cidadãos vinham sendo educados, ao longo de anos, para enxergar o mundo pela ótica do dominador, ou seja, estavam oprimidos por uma visão de mundo eurocêntrica, imposta como padrão e que fazia crer que os modos de vida produzidos pelo povo guineense, era inferior e devia ser “enbranquecido”: infelizmente a lógica dos colonos estava incutida e naturalizada no pensamento do próprio povo (isso lembra algum outro país de língua portuguesa?), assim, antes de pensar novos modos de alfabetizar os adultos, ou seja, de ensiná-los a ler as palavras, era preciso pensar em como incentivá-los a olhar para sua própria realidade de modo crítico, ou seja, Ler o Mundo. Paulo Freire enxergava a educação como prática de liberdade, desta maneira, pode-se dizer que as experiências de alfabetização, coordenadas naquele país, se constituíam num verdadeiro processo de descolonização (PEREIRA E VITTORIA, 2012; FREIRE, 1978)

Partindo do entendimento de que não existe neutralidade e que, portanto, educar é indiscutivelmente um ato político, a valorização da cultura popular, com seus símbolos do dia a dia, é essencial na construção de uma prática educativa que intenta libertar os oprimidos. A educação popular deve tomar a curiosidade ingênua que as pessoas trazem de forma desorganizada, organizar esses saberes e devolver de modo organizado, a fim de conduzir a uma curiosidade epistemológica, fruto de um novo saber surgido do processo ensino-aprendizado de educadores e educandos entre si, mediatizados pelo mundo (FREIRE, 1996; 2005).

A leitura do livro Cartas à Guiné Bissau foi realizada pela turma, após ter sido dividida em grupos que ficaram responsáveis por compartilhar, de modo criativo, seu entendimento acerca de trechos diferentes da narrativa com os demais colegas. Acerca do primeiro momento do livro (dividido em introdução, quatro momentos e uma coletânea de cartas), produzimos o seguinte poema no intuito de traduzir a essência das reflexões nele contidas (Figura 1).

Essa leitura desperta para o entendimento de que uma prática popular exige do educador a capacidade de se despir dos privilégios inerentes ao seu lugar social – em relação a questões étnicas, de gênero, classe social – para que se coloque no lugar de aprender com os sujeitos e os cenários onde eles vivem e criam vida. Como futuros profissionais de saúde, os nutricionistas devem abrir mão da lógica do biopoder e lançar mão da sabedoria popular como ponto de partida de sua prática educativa, se é que realmente existe interesse em assumir uma posição política de contribuição para a autonomia dos sujeitos e o autocuidado em saúde.

Como futura nutricionista, formada em uma universidade pública que é guiada por diretrizes que destacam a necessidade de uma formação crítica, reflexiva e humanista, sinto-me particularmente impelida a me comprometer em ser parte de um processo de aproximação desse equipamento social com a população que o sustenta através de sua força trabalho, em especial por serem pessoas que não tiveram a oportunidade que estou tendo de estudar (graças ao trabalho delas mesmas).

Dessa maneira, trabalhar com essas feirantes gera uma grande expectativa pela chance de ser contaminada pela sua experiência e apreender as pistas sobre o conhecimento que elas têm, para somente a partir disso eu organizar a minha própria prática: pensar formas de intervir positivamente na vida dessas pessoas a partir daquilo que elas mesmas trazem, é desafiador por exigir estudo e dedicação ao mesmo tempo em que não há roteiros a serem seguidos – muito diferente daquilo que venho experimentando na minha própria educação. Esse processo também gera esperança e conforto em mim, pois sei que somos todos inconclusos e temos a rica possibilidade de nos construirmos mutuamente.

Meu objetivo pessoal é, portanto, conhecer essas mulheres como sujeitos e como coletividade, e então perceber aquilo que elas me trarão de informações sobre seu dia a dia: o que pode ser mais cotidiano do que a alimentação? Ela nos exige a ordenação de todo o nosso dia a dia: não imagino objeto de maior relação com o contexto sociopolítico vivido por todas as pessoas, o que assume significado especial nesse grupo que, apenas por existir, representa um movimento de resistência a tantas ameaças à alimentação adequada e saudável. Assim, vejo um cenário ótimo para atuar na libertação do povo do qual faço parte, ainda que a nível micro, pois prefiro acreditar que as mudanças pequenas, quando somadas, fazem a diferença.

O ARCO DE MAGUEREZ: UM GUIA METODOLÓGICO PARA PROBLEMATIZAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DE AÇÕES EDUCATIVAS

A alimentação envolve necessidades nutricionais, afetivas, sensoriais, culturais, econômicas, psicológicas e sociais, desta maneira, uma alimentação adequada e saudável (AAS) é ter acesso físico e econômico contínuo à alimentação e/ou aos meios necessários para obtê-la, de modo que se garanta a justiça social e a sustentabilidade ambiental, é também ter as necessidades biológicas, sociais e culturais supridas, ser atendido em caso de necessidades alimentares especiais, ter informação e poder escolher não se alimentar com alimentos geneticamente modificados ou com contaminantes físicos, químicos ou biológicos (BRASÍLIA, 2014; BRASIL, 2006).

Todos os indivíduos ou comunidades, por uma questão primordial de dignidade humana, têm o direito a essa AAS determinado no Direito Humano à Alimentação Adequada(DHAA), assinado pelo Brasil em pacto mundial, e também assegurado na Ementa Constitucional nº64 da Constituição brasileira, onde o Estado assume a obrigação de suprir todos os cidadãos quanto a esses aspectos, o que também é reafirmado na Lei orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), conceito intimamente ligado ao de DHAA (BRASÍLIA, 2014).

A Educação Alimentar e Nutricional (EAN), partindo dessa noção ampliada de AAS, é o campo de prática contínua no qual nutricionistas tem a chance de se utilizar de ferramentas participativas vinculadas a metodologia de problematização para ajudar pessoas e grupos populacionais a olharem para a própria realidade e perceber que existe muito mais do que as sombras projetadas na parede da caverna, ou seja, para ver o entrelace entre o sistema alimentar e seus próprios comportamentos alimentares (MREAN: BRASIL, 2012).

Dentre as ferramentas das metodologias problematizadoras, a disciplina EAN II adota o Arco de Maguerez (Figura 2) como referencial para o planejamento dos encontros que constituem a atividade de EAN a ser realizada com um grupo específico, no caso que estou relatando, o grupo de mulheres feirantes. Vejo essa ferramenta como uma orientação sobre a melhor maneira de apontar para a existência de algo além da caverna sem ser agressiva às crenças das pessoas.

A primeira etapa dessa metodologia é a observação da realidade e identificação de problemas, o que envolve delimitar o recorte da realidade vivenciada a ser trabalhada – já que a realidade, como um todo, abarca questões demasiadamente amplas – de modo centrado nas necessidades trazidas (ainda que desorganizadamente) pela comunidade, além de ser um passo que exige empatia e compartilhamento da vivência das pessoas, ou seja, é preciso observar essa realidade em comunhão com a própria comunidade (BRASÍLIA, 2016).

A segunda etapa do Arco é a determinação de pontos chaves, que são os fatores determinantes do recorte da realidade anteriormente eleito, verificação dos entraves ou situações limite e dos aspectos facilitadores, passíveis de intervenção. Também nessa etapa, deve-se identificar se esses pontos realmente procedem ou não e como se articulam entre si (BRASÍLIA, 2016).

A terceira etapa é a teorização, quando se afinam os objetivos da prática com material teórico sobre os assuntos abordados e se define o elenco de estratégias para condução da comunidade à compreensão de cada ponto chave e suas inter-relações. Finalmente, na etapa de elaboração de hipótese de solução, a comunidade se utiliza de criatividade e criticidade para planejar iniciativas que alterem os problemas teorizados, bem como a pertinência dessas estratégias, os instrumentos e as parcerias necessárias à sua viabilização (BRASÍLIA, 2016).

De certa forma, posso dizer que as discussões nas aulas teóricas e as leituras dirigidas na disciplina me geraram certa insegurança e sensação de impotência. Sei que existem desafios estruturais que são intransponíveis imediatamente, e sei que esse tipo de questionamento pode surgir nos momentos de prática, assim, estou tentando me preparar para a tarefa de encontrar, junto com as feirantes, pontos nos quais possa haver alguma intervenção que as empodere e gere alguma transformação local: é um trabalho “de formiguinha”, que exige fé na capacidade que pequenas mudanças tem de mudar as situações a nível macro. É um encontro cercado de incertezas e vazio de garantias, sensações reforçadas pela proposição a trabalhar de maneira crítica, sem roteiros. Ainda assim, sinto que aprenderei muito com essas pessoas e com seu modo de vida que conecta o rural e p urbano e que, por si só, é símbolo de resistência.

OBSERVAÇÃO DA REALIDADE: O I ENCONTRO COM AS MULHERES DA AGROECOLOGIA

no dia 18 de maio de 2017, fomos ao bairro Enseada das Gaivotas, em Rio das Ostras (RO) – RJ, conhecer as mulheres participantes da Feira Agroecológica que acontece no bairro às quintas-feiras. A princípio, sequer sabíamos exatamente como funcionava a feira, o que essas mulheres faziam, se identificavam-se como agricultoras ou feirantes. Preparamos a dinâmica da “cama de gato” para quebrar o gelo e nos apresentarmos umas às outras, partindo do pressuposto de que conhecê-las individualmente e captar a identidade coletiva do grupo seria mais coerente do que buscar respostas diretas para nossas questões sobre a feira, porém a conversa foi tão fluida que não sentimos necessidade de interromper nenhuma fala para fazer a dinâmica.

De fato, nossos questionamentos foram respondidos à proporção em que descobríamos detalhes de suas vidas que, para nós, eram mais importantes do que a feira em si, afinal, a feira faz parte da vida dessas mulheres, mas suas vidas não se limitam à ela. A avidez pelo compartilhamento das histórias e a expectativa pelo nosso movimento de aproximação enquanto universidade também eram evidentes. Ao longo da conversa, pude perceber que existe uma esperança de que a universidade leve para lá a atenção de que sentem falta devido ao descaso por parte do poder público. De qualquer forma, seguimos na roda de conversa para conhecer quem era cada uma delas, partindo do entendimento de que a coletividade de subjetividades é o que constitui a identidade da Feira Agroecológica de Enseada das Gaivotas, desse modo, precisaríamos saber a história de cada uma delas para compreender que articulação é essa e onde ela se situa.

Talvez o bairro deva ser o primeiro personagem a ser apresentado para situar melhor o leitor. O loteamento Enseada das Gaivotas fica na ARIE (Área de Relevante Interesse Biológico) de Itapebussus, que se estende até a Lagoa de Imboassica, em Macaé, e é classificada como uma Unidade de Conservação de Uso Sustentável e, por isso, seus recursos naturais podem ser apenas parcialmente usados, com base no amplo princípio da sustentabilidade, visando a preservação da biodiversidade local.

Grande parte desse loteamento coincide com a antiga fazenda de Itapebussus – cujo nome deriva da lagoa presente neste território, e mesmo após décadas do falecimento do proprietário desta fazenda, a questão fundiária persiste em análise judicial e muitos moradores não tem sua estabilidade garantida, além disso, essa situação representa um dos entraves legais alegados pelos governantes para não ceder um terreno no bairro onde possa ser cultivada uma horta comunitária, assim, os alimentos produzidos e comercializados na feira provém de hortas particulares das mulheres. Outro grande desafio dos moradores socialmente engajado é conter o avanço desordenado da especulação imobiliária que ameaça descaracterizar todo o esforço de preservação na ARIE.

Fomos recebidas na casa de dona Rogéria, assistente social aposentada, notável líder por natureza, que inspira e fortalece essa rede de mulheres e que, rapidamente, se revelou uma informante chave para nosso planejamento educativo. Rogéria é de Nova Iguaçu, RJ, morou por muitos anos em Campos dos Goytacazes e, em 1980 comprou o terreno onde hoje se situa sua casa e seu quintal agroflorestal. Além disso, em 2012 um terreno lhe foi cedido, e é lá onde até hoje existe sua horta. Aprimeira referência em preservação ambiental que teve foi seu avô, e sua primeira inspiração em agroecologia foi Dona Maria Japonesa, moradora antiga do bairro Costa Azul, também em Rio das Ostras. Rogéria viu o loteamento Enseada das Gaivotas transformar-se em um bairro com condições de habitação precárias e, em muitos momentos, a narração de sua história de vida se confundia com a história da Enseada.

Geise é de Mato Grosso do Sul, mas, conforme a descrição das colegas, é uma “nômade”, muda-se constantemente de cidade e estado, de modo que está em Rio das Ostras desde o ano passado; por este motivo, não se reconhece como alguém muito vinculada ao local e engajada na mesma luta das colegas, mas reconhece o trabalho delas e as admira. É mosaicista e boleira artesanal.

Ester é nascida em Cardoso Moreira, também tem horta em casa, como Rogéria, e é cuidadora de idosos,  diz ser habituada a fazer comidas “naturais” por conta das necessidades alimentares especiais ou restrições alimentares em virtude de questões de saúde das pessoas de quem cuidou. Acompanhou uma idosa por 11 anos e a perdeu recentemente, tendo desenvolvido quadro de depressão, cuja superação atribui ao trabalho agroecológico feito por ela em sua horta.

Elisabete, mais conhecida como Bete, é carioca, também é cuidadora de idosos e estudou apenas até a quarta série, mas, após os 40 anos de idade, se formou no ensino médio e chegou a iniciar a faculdade de enfermagem, tendo parado apenas por conta do acompanhamento dos últimos meses de vida da última idosa de quem cuidou. Está em seu segundo casamento e mora no Âncora, bairro vizinho à Enseada. Deseja comprar um terreno para plantar, pois cultiva somente em vasos e diz gostar muito de aprender sobre a natureza. Ela também cozinha, faz pães, bolos caseiros, e vende peixes na feira.

Dona Maria é de Bananeiras, interior da Paraíba, mas mora no estado do Rio há 30 anos, sendo os últimos 20 destes em Rio das Ostras. É filha de agricultores, habituada à luta, é considerada por todas o braço direito de Rogéria na horta e na feira, muito trabalhadora e prestativa. Se orgulha de sua filha, que é aluna de enfermagem.

Maria Auxiliadora, chamada por todos de Iaiá, é nascida em Santa Rita da Floresta, Cantagalo, mas criada em Rio da Pedra, município de Carmo – ambos no Rio de Janeiro. Trabalhou durante 22 anos como auxiliar de enfermagem em Nova Friburgo, mas está há 4 anos em Rio das Ostras. Se descreve como apaixonada pela enfermagem, artesã, pintora e diz que deveríamos voltar no tempo, pois antigamente “ninguém comia essas porcarias de hoje em dia”.

Refletindo sobre o Feminismo e a Segurança Alimentar e Nutricional

Cabe refletir sobre o papel social ocupado pela mulher na garantia da SAN, que se dá de duas formas muito relevantes: numa ponta da cadeia de alimentos – a produção – elas atuam em etapas diversas do cultivo, e na outra – a do consumo – são as principais responsáveis pelo cuidado da família, o que inclui o preparo dos gêneros alimentícios. Embora sejam atividades essenciais e presentes cotidianamente, em ambos os casos, são subvalorizadas.

No campo, seus esforços são considerados ações de caráter complementar – muitas vezes elas nem são reconhecidas como agricultoras, como se o trabalho “de verdade” fosse aquele feito pelos homens, e essa situação fica ainda mais latente no que se refere a iniciativas agroecológicas, pois costumam partir delas e serem ridicularizadas e desestimuladas. Falando especificamente do meio rural, destaca-se que as agricultoras familiares tem participação em mais de 40% da renda familiar, e contribuem significativamente para a reprodução de sementes crioulas e a produção agroecológica (Projeto Mulheres e Agroecologia em Rede, 2014).

No âmbito doméstico, funciona de forma bem parecida, afinal as bases que sustentam essa inferiorização do produto do trabalho feminino são as mesmas, assim, ainda hoje persiste uma divisão sexual do trabalho, sendo o serviço doméstico atribuído às mulheres em caráter de obrigação. Ao mesmo tempo não existe uma cultura de reconhecimento da importância dessas atividades, principalmente do cozinhar, que é uma prática promotora de saúde, SAN e autonomia, especialmente em nossa sociedade ocidental globalizada, na qual observa-se uniformização cada vez maior dos hábitos alimentares e apagamento das memórias e heranças culturais alimentares. Nesse cenário de monotonia alimentar e dependência de tudo que nos é “empurrado” pela indústria alimentícia, o desenvolvimento e partilha de habilidades culinárias deveria ser tema intensamente estimulado, cabendo a nós, profissionais da nutrição, utilizar da EAN como estratégia para promover esse cenário desejado (BRASIL, 2012; 2014).

Ainda que estejamos inseridos em todo esse contexto que torna o trabalho feminino ainda mais digno de valorização, as mulheres são pouco alcançadas pelas políticas públicas. Elas são grandemente afetadas pela desigualdade sexual, com grande impacto na sua renda, tanto que isso se reflete na maior suscetibilidade à pobreza e insegurança alimentar (ISAN) de mulheres e crianças, especialmente as pardas e negras no meio urbano e as rurais, de forma geral. Isso impede um pleno exercício da autonomia delas enquanto sujeitos (CASTRO e LARA, 2015).

Traçado este paralelo entre a contribuição da mulher para a garantia da SAN nas suas atividades cotidianas – no campo e na cidade, cabe refletir acerca do contexto peculiar das feirantes de Enseada das Gaivotas, pois trata-se de um bairro periurbano, ou seja, ele resguarda características rurais ao mesmo tempo em que é invadido pelas consequências do rápido processo de urbanização de Rio das Ostras, porém sem receber atenção apropriada do governo às suas necessidades. Assim, como a realidade do bairro é ambígua, a vida das mulheres da Enseada é afetada por questões comuns a áreas tanto rurais como urbanas.

Percebemos como questões muito latentes nesse grupo o fato de serem pessoas solitárias de alguma forma, e de encontrarem no trabalho agroecológico um espaço de socialização e realização; mas também vimos que existe uma carência muito grande por visibilidade e reconhecimento do grande esforço que vem desprendendo ao resistir contra as obviedades que nos são impostas. Esse desejo por reconhecimento é um ponto comum com o que vem sendo relatado na literatura e nas sistematizações de experiências com mulheres agricultoras no Brasil (CARDOSO e RODRIGUES, 2009; CORDEIRO et al, 2010; OLIVEIRA, 2009) e, portanto, merece ser tomado como ponto de partida no direcionamento de nossas ações educativas, já que podem ajudar as mulheres a perceberem sua própria importância, a se valorizarem e a colaborarem entre si para fortalecer suas próprias ações. Entendemos que a valorização acompanhada da visibilidade é capaz de incentivar a continuidade do trabalho, promover melhoria da auto percepção e fortalecimento mútuo, que são resultados importantes na promoção da saúde e do empoderamento feminino.

O poder público e a agroecologia

A prefeitura, como já mencionado, não dá nenhum suporte à iniciativa agroecológica desse grupo: nem mesmo o espaço onde se cultivam alimentos foi cedido pelos governantes, na verdade os gêneros alimentícios, provém de hortas caseiras e dos quintais produtivos de algumas mulheres do grupo, e poucas são as pessoas que se dispõe a ajudar no trato e no manejo do cultivo.

“Para fins de entendimento, os quintais produtivos são considerados como um sistema de produção de diversas espécies, constituído pelo espaço de terra situado próximo a residência, tornando-o de fácil acesso. Nestes podem existir a combinação de árvores, arbustos, trepadeiras, herbáceas, hortaliças e plantas medicinais, algumas vezes em associação com a criação de animais, crescendo adjacentes à residência” (SILVA, ANJOS e ANJOS, 2016, p. 77-101)

Obs.: Chamo de horta os espaços caracterizados pela presença de canteiros delimitados, e de quintais produtivos, os espaços de configuração mais flexível, como caracterizado acima.

No campo das políticas públicas também é sabido que há necessidade de atualização para acolher a agricultura periurbana, pois ela vem despontando como nova modalidade de produção de alimentos. Atualmente as mulheres da Enseada produzem em pequena escala em virtude dos entraves já expostos, mas é preciso considerar que num futuro não muito distante, no qual sua produção já esteja mais ampliada, haverá dificuldades, por exemplo, para contribuírem com o abastecimento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) no município e adjacências, pois por meio da compra direta no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), é necessário que tenham a Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP) – instrumento de identificação dos(as) agricultores(as) familiares, cadastrado no Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) – e sem que especificidades de produção em áreas periurbanas – que não são legalmente consideradas rurais – sejam reconhecidas nas políticas públicas, pode haver impasses à sua participação nesses programas que fomentam a agroecologia e a agricultura familiar. Tudo que não recebe incentivo e apoio dificilmente se consolida e se multiplica (PRADO, 2015).

Entende-se por agricultura familiar o cultivo da terra realizado por pequenos proprietários rurais, tendo como mão de obra, essencialmente, o núcleo familiar. Agricultor familiar é aquele que explora a pequena propriedade rural na condição de proprietário, posseiro, arrendatário, parceiro, assentado pelo Programa Nacional de Reforma Agrária, e ainda, que utiliza o trabalho familiar como base de exploração da terra. (BRASIL, 2014, 80-81p.)

Vemos que existem muitos entraves à realização da agroecologia em Enseada das Gaivotas, assim, esta iniciativa se constitui em grande resistência. Nesse contexto, vale pensar que a “articulação e cooperação para a SAN” é a nona diretriz da Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN, 2011) que, como o próprio nome indica, tem caráter intersetorial e se conecta diretamente à Política Nacional de SAN (PNSAN, 2006). A PNSAN, por conceito, possui uma vertente de atuação na dimensão alimentar – que engloba da produção ao acesso aos alimentos; e outra na nutricional – que diz respeito às práticas alimentares e à bioquímica dos alimentos em interação com o organismo (Burlandy e Magalhães). O trabalho agroecológico abarca essas dimensões à medida que gera alimentos mais ricos nutricionalmente, livre de contaminantes químicos, e harmônicos com os demais seres vivos no ambiente.

Percebe-se que ações em microesferas como a Enseada das Gaivotas contribuem para o cumprimento do que orientam a PNAN e a PNSAN e, por essa razão, devem ser incentivadas, reconhecidas e subsidiadas pelo governo. As feirantes do bairro são protetoras dos recursos naturais, do meio ambiente e dos animais, e defendem uso sustentável de tudo que temos à nossa disposição, desta forma, são exemplo vivo de defesa do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) e da Soberania Alimentar (SA), especialmente por viverem de modo que considera as necessidades das próximas gerações e por buscarem deixar um legado às mesmas. A lição que fica deste primeiro encontro para nossa vida até mesmo pessoal é que precisamos deixar a posição de conforto e agir, pois “o mal prevalece quando os bons não fazem nada”, como nos disse Dona Geise.

ELENCANDO PONTOS-CHAVE: A CENTRALIDADE DO FEMINISMO E DAS EXPERIÊNCIAS AGROECOLÓGICAS

O saber popular é um conhecimento legítimo e sua sistematização estabelece a possibilidade de surgimento de um conhecimento novo. Comumente, as experiências de sistematização na agroecologia têm uma perspectiva de valorização do homem como protagonista, enquanto que o papel da mulher fica na invisibilidade do “eu ajudo” e os temas que afetam suas vidas são ignorados, assim, elas mesmas não enxergam a dimensão da importância de seu trabalho e, por isso, não se vêem num lugar de protagonistas (CORDEIRO et al,2010; Vídeo Metodologias de Construção e Disseminação de Conhecimentos.

Diante disso, diversas ações articulando feminismo e agroecologia vem sendo desenvolvidas em vários lugares pelo Brasil – embora muito menos do que o desejado – a fim de resgatar a autoestima e valorizar a identidade das mulheres na agricultura, afinal, investir nelas é investir no bem estar e na saúde de toda a sociedade, que é beneficiada pelo produto de seu trabalho. Ler a respeito dessas ações e nos impregnarmos com o relato de algumas delas, foi uma forma de aproximação com as metodologias de sistematização e intercâmbio de experiências para podermos pensar como conduzir nossa atividade (Ver lista de leituras ao final).

No primeiro encontro de supervisão (25 de maio de 2017), organizamos nossas ideias a respeito do que observamos no primeiro encontro e levantamos os pontos chave identificados como facilitadores e entraves à nossa prática: entendemos que a Feira Agroecológica de Enseada das Gaivotas é muito mais do que um mero lugar de comercialização de produtos, ela possui vários  significados para as mulheres que dela participam. Percebemos que, por sentir a relevância do papel desempenhado por este lugar de encontro em suas vidas, as mulheres entendem que seu trabalho merece maior visibilidade a fim de atrair público e parceiros, no entanto, vimos que sua dificuldade reside em traduzir esses significados para que as pessoas de fora do movimento compreendam a grandeza da resistência que elas representam.

A feira no bairro Enseada das Gaivotas ainda não tem uma proporção capaz de contribuir suficientemente para a autonomia financeira das mulheres, mas percebe-se em sua fala que têm importante papel em sua autonomia como pessoas, pois podem escoar sua pequena produção, mostrar seu trabalho no artesanato, na cozinha ou no cultivo, e sentirem-se valorizadas pelo reconhecimento recebido lá. Falando especificamente da parte dos alimentos agroecológicos, vemos que os momentos de feira são pontos culminantes do tempo que passam se dedicando à terra, pois são eventos que, de certa forma, celebram o fato de terem um local de preservação de agrobiodiversidade regional, de memória alimentar e de cultivos medicinais alternativos, de serem capazes de prover parte da alimentação familiar, de terem um local de lazer e socialização em suas casas, semelhante à importância atribuída por mulheres aos quintais agroflorestais de Patizal, comunidade localizada em Morros (MA) (OLIVEIRA, 2009)

Além disso, a permanência da feira no bairro, mesmo com todas as limitações, é vista por elas como oportunidade de chamar atenção para os problemas locais, divulgar o potencial da Enseada em tornar-se um ótimo lugar para viver – desde que haja investimento do poder público e contensão do crescimento desordenado decorrente da especulação imobiliária – e passar aos cidadãos riostrenses, por meio de seu exemplo vivo, uma mensagem de responsabilidade ambiental, afinal, sua visão de preservação ambiental vai ainda além da agroecologia, pois entendem que a poluição e degradação que afeta a ARIE de Itapebussus,  contribui para o avanço de problemas que se refletem na vida de todos.

Entendendo todo o contexto e os significados intrincados, entendemos ser necessário confrontar esses pontos identificados em nossa primeira observação com novos fatos e informações a serem descobertos sobre a realidade local, pois precisamos verificar se nossa percepção é, de fato, coerente para seguirmos, então, planejando nossas ações educativas de acordo com a metodologia do Arco de Maguerez. Para tanto, definimos na supervisão que seria indispensável acolher a empolgação das mulheres em nos levar para conhecer suas hortas/quintais produtivos, e fazer das próprias visitas a nossa metodologia!

Nosso objetivo seria então de conhecer e sistematizar o papel dessas hortas/quintais produtivos na vida das mulheres da Enseada – partindo do pressuposto de que sistematizar é uma forma de levar as pessoas a refletir criticamente sobre si mesmas e incentivar a continuidade do trabalho desenvolvido, no caso, a agroecologia – e relacionar essa importância pessoal com a contribuição para  a sua SAN. Para tanto, utilizaríamos visitas de intercâmbio de experiências, guiadas por um roteiro previamente elaborado com base na temática referida e registradas por fotografia e vídeo, sendo a narração da experiência pessoal nas hortas/quintais produtivos  a própria oportunizadora de questionamentos relacionados ao tema (Boletim Maria Vem com as Outras de novembro de 2014; CARDOSO e RODRIGUES, 2009; CORDEIRO et al, 2010).

Esse encontro de supervisão foi particularmente interessante porque estávamos aprendendo sobre uma nova metodologia de estudo, o intercâmbio e a sistematização de experiências, que tem caráter qualitativo e que, portanto, difere bastante dos métodos aos quais somos mais frequentemente expostos na academia. Outro ponto interessante relacionado, foi o fato de que essa metodologia nos foi apresentada pela professora Vanessa de forma diferente: ao invés de realizar longas discussões sobre sua execução, ela nos encaminhou alguns materiais – que inclusive são citados ao longo dos posts – e discutiu um pouco sobre o método a partir da reflexão sobre essas leituras realizadas. Certamente não teríamos tempo hábil para planejar uma prática perfeitamente estruturada nesses moldes, mas conhecer a sistematização de experiências por meio dessa conversa nos direcionou no caminho que precisávamos percorrer ao longo dos encontros, nos fez compreender que existe uma imprevisibilidade no trabalho com grupos populares que exige capacidade de adaptação, e mostrou que embora seja um trabalho flexível, requer preparo e planejamento.

A TEORIZAÇÃO: O II ENCONTRO COM AS MULHERES E A VISITAÇÃO DOS SEUS QUINTAIS PRODUTIVOS

No dia 1º de junho tivemos nosso segundo encontro com as mulheres. Apesar de tentar fazer uso do Arco de Maguerez para promover uma experiência problematizadora, sabíamos desde o início da disciplina EAN II que precisaríamos trabalhar num período muito curto – o que não é suficiente para atingir plenamente os objetivos em trabalhos com grupos populares – tentando fazer o melhor possível para passar por todas as etapas do arco, ainda que alguns processos se sobrepusessem ao longo do caminho.

Foi o que aconteceu no segundo encontro, pois tínhamos que avançar para a Teorização, ou  seja, unir o que observamos na prática com o material teórico trabalhado, para afinar nossos objetivos e planejar como conduzir uma atividade educativa final – embora as próprias visitas de intercâmbio fossem, por si só, atividades educativas. Ao mesmo tempo, deveríamos continuar observando atentamente a fim de confrontar os pontos chave levantados no primeiro encontro (Observação da Realidade) e consolidados da primeira supervisão (Pontos-Chave) a fim de confirmá-los ou refutá-los, ou ainda acrescentar novos itens que redirecionassem nossos planos.

Particularmente, vejo essa questão de tempo como um obstáculo para nosso aprendizado – embora não seja impeditivo – pois não é simples aprender a lidar com uma metodologia tão desafiadora e diferente (para nós que tivemos uma educação engessada) em tão pouco tempo, principalmente porque envolve outras pessoas e suas expectativas, assim, não há como manter rigidez nos nossos planejamentos.

Digo ainda que, mais do que o curto período de tempo, não ter um tempo de qualidade para sedimentar o aprendizado é mais prejudicial ainda, e isso advém do sistema de educação no qual estamos inseridos: nossas reflexões coletivas se davam nos corredores, durante o almoço, nas redes sociais ou voltando de carro para Macaé, pois estávamos sempre ocupadas em atividades acadêmicas e não tínhamos como conseguir nenhum outro momento, e isso dificultou articular nossas percepções e intenções, porém, felizmente, tivemos auxílio tanto no planejamento quanto na execução das atividades.

Após conversarmos na supervisão e realizarmos a leitura de materiais teóricos, visando a familiarização com a metodologia de intercâmbio de experiências, produzimos um roteiro para guiar nossa visita às hortas/quintais produtivos (Roteiro 1, em anexo), e para uma roda de conversa posterior (Roteiro 2, em anexo), visando provocar autorreflexão a partir da conversa na visita. A princípio, visitaríamos as hortas/quintais de Rogéria, Ester e Cátia. 

As visitas de 1º de junho foram marcadas por grande ansiedade das mulheres, que ficaram muito empolgadas em mostrar e falar muitas coisas e, por fim, não conseguimos executar a maior parte do que planejamos. Visitamos apenas 1) o quintal agroflorestal da casa de Rogéria, onde há principalmente flores, árvores para sombreamento e plantas medicinais (a horta onde produz alimentos fica em outro terreno), e 2) o quintal produtivo agroflorestal de Cátia.

Esse encontro permitiu principalmente confirmar os Pontos Chave que tínhamos levantado e fornecer mais informações para a teorização, no entanto, sentimos que aprendemos muito a partir do que compartilharam sobre as plantas medicinais, as plantas alimentícias não convencionais (PANCs) e os sistemas agroflorestais, mas não conseguimos compartilhar outros saberes com elas, ou seja, obtivemos rico aprendizado, mas não conseguimos manejar toda a energia com que fomos recebidas para suscitar discussões de EAN a partir das falas das mulheres, como havíamos idealizado.

Percebemos que Bete é muito reconhecida pelo que sabe das plantas medicinais: “Ela é sábia”, disse Rogéria, passando para a colega a tarefa de nos apresentar seu quintal. Bete ressaltou a importância de sempre extrair somente aquilo que é necessário e de preparar corretamente os chás, de preferência consultando outras pessoas e fontes confiáveis, já que as plantas que fazem bem também podem “fazer mal, dependendo da dose”. Elas comentaram que vizinhos do bairro frequentemente pedem ervas e/ou informações sobre o uso e o preparo das mesmas, o que é percebido por elas como uma forma de reconhecimento e, de certa maneira, uma ponte para ampliação das relações interpessoais. Perceber isso reforçou nossa ideia de que o trabalho delas favorece o rompimento da solidão e a criação de vínculos sociais importantes para a vida pessoal.

Sobre a questão de reconhecimento, diversas vezes citaram um erveiro, o Sr. Roberto, que se encontra com problemas de saúde, pois temem que sua sabedoria se perca por falta de pessoas interessadas em resgatar e registrar sua história e seus conhecimentos. Isso evidenciou que elas têm noção da relevância do saber popular e veem importância em si mesmas, porém ressaltaram constantemente a preocupação de suscitar nas pessoas interesse em conhecer, entender e abraçar o trabalho delas e de pessoas como o Sr. Roberto, para não quebrar o ciclo de perpetuação desse saber. Pudemos comprovar por meio de todas essas falas que, assim como traz a literatura (SILVA et al, 2006), o trabalho na Enseada tem uma vertente de melhoria da autoestima dos envolvidos, à medida que percebem a possibilidade de deixar um pequeno legado através de suas suas ações cotidiana, que são vistos como referência por outras pessoas na comunidade e que se sentem empoderados para fazer melhores escolhas alimentares.

Várias plantas nos foram apresentadas: a embaúba foi a primeira planta do quintal, pois era nativa e foi mantida; o umbigo da banana é usado em xaropes como expectorante; a vanília é uma orquídea que dá as bagas da baunilha; a erva pombinha é usada para problemas renais; o noni, conhecido como “anti-cancerígeno” e tomado batido junto com suco de uva; também vimos o mandacaru; a baba de boi; a camélia; a pata de vaca; e árvores frutíferas cujas partes também usadas para fins medicinais como graviola, açaí, abiu roxo, amora; dentre tantas outras.

Chegamos na casa de Cátia, que é engenheira florestal e tem no conhecimento da natureza “seu grande prazer” e sustento: sobre seu quintal disse “não preciso de mais nada” e em vários momentos destacou a importância de cultivar alimentos para subsistência, pois são livres de agrotóxicos e têm potencial na promoção de saúde e redução do uso de remédios. Para ela, além de promover economia com remédios, porque a qualidade da alimentação é superior, os quintais também o fazem porque permitem produzir ervas medicinais; além disso, ter alimentos em casa ajuda a continuar comendo bem mesmo em tempos de crise. Essas falas evidenciam que também há uma percepção  da dimensão do acesso e da estabilidade no acesso, que fazem parte da Segurança Alimentar e Nutricional (SILVA et al, 2006).

Além da horta, existe em seu quintal um espaço reservado para um galinheiro. Diz gostar e vibrar com o florescer das flores, os novos ovos postos pelas galinhas: “eu sinto a magiana natureza e nos produtos”. Seu pai e um ajudante trabalham com ela no manejo agroecológico das espécies e já há 32 mudas/pequenas árvores frutíferas.

Saí um pouco desanimada com esse encontro, pois senti que a dispersão nas visitas era fruto de uma expectativa muito grande sobre essa aproximação com a universidade que não poderia ser sanada por nós no âmbito da disciplina EAN II, constituída de somente 4 encontros: comecei a temer a possibilidade de frustração delas com a nossa participação, bem como me decepcionei com minha própria inabilidade para conduzir melhor a atividade, e direcionar a euforia do grupo para alimentar as questões pretendidas.

A professora nos trouxe um olhar um pouco mais otimista sobre esses acontecimentos: nos mostrou que essa facilidade do grupo em se expressar poderia ser bem aproveitada se conseguíssemos criar um mecanismo para ordenar sua energia. Outra observação feita por nós foi o fato de existir certa competição entre mulheres que fazem trabalhos parecidos, pois houve visível insatisfação em determinados momentos do intercâmbio, o que nos fez pensar sobre a necessidade de reforçar a importância da cooperação e reconhecimento mútuo entre as mulheres para fortalecer a agroecologia, como é ressaltado em tantas sistematizações de experiências femininas pelo Brasil.

HIPÓTESES DE SOLUÇÃO: O III ENCONTRO E OS SIGNIFICADOS DOS QUINTAS NA VIDA DAS MULHERES

Como a tarefa da teorização ficou incompleta, preferi aguardar o Encontro 3 para falar de uma só vez sobre conclusões às quais chegamos por meio das vivências em ambos os momentos e que nos conduziram ao planejamento do último encontro. Mantivemos a ideia de terminar as visitas às hortas/quintais produtivos, fazendo desse momento um encontro para autorreflexão a partir da visita, com o fim de ajustar nossos objetivos para o último encontro e unir a vivência com a teoria estudada, e já levantar hipóteses de solução a serem trabalhadas para a atividade prática final.

Fizemos questão de manter o plano inicial em virtude da empolgação das mulheres com o “tour pelas hortas”, como chamaram, porém fazendo pequenas adaptações no planejamento para ajudá-las a manter o foco durante as visitas e assumindo que provavelmente a abrangência e profundidade das discussões seria menor do que o almejado, mas nem por isso menos rica, visto que é mais valioso trabalhar menor variedade de assuntos com maior qualidade e respeitar o tempo de aprendizagem das pessoas.

Passamos rapidamente na casa de Iaiá para ver seus artesanatos e o quintal que está começando a cultivar, então nos encaminhamos à horta de Rogéria. Chegando lá, as mulheres tinham preparado mudas de couve e hortelã e sementes de beterraba e cenoura para plantarmos em mutirão. Mais um exemplo da empolgação do grupo que gerou uma demanda não prevista e que, embora tenha sido maravilhoso,  nos impôs novo desafio para levar adiante a proposta de suscitar reflexões em meio a um cenário turbulento, movimentado e diferente do que imaginávamos. Felizmente foi uma atividade bem sucedida: o mutirão foi ótimo e durante o mesmo conseguimos conversar sobre as questões do roteiro com as mulheres, ainda que não tenha sido com todas interagindo de uma só vez por conta da dinâmica da atividade.

A partir das conversas, finalmente compreendemos a dinâmica da produção de alimentos, pois não perguntamos diretamente em nenhum dos encontros, aguardando que o contexto da vida na Enseada surgisse entremeado aos relatos de vida das mulheres. As que possuem quintais agroecológicos são Rogéria, Iaiá (em construção) e Cátia, além disso, Ester tem horta, bem como Rogéria, sendo esta em terreno cedido na sua vizinhança. Bete e Maria não têm horta, mas ajudam a cuidar da terra e da plantação de Rogéria. Os produtos que saem dessas hortas/quintais, embora sejam produzidos em pequena escala, são comercializados na feira pelas donas dos terrenos, que eventualmente produzem pães e bolos com os mesmos; além disso, Geisa vende bolos e doces, Iaiá vende artesanatos, Bete vende peixes, e produtores da cidade e adjacências, parceiros da iniciativa, se unem para vender seus produtos na Enseada e fomentar a iniciativa.

Rogéria demonstrou maior conhecimento sobre as plantas alimentícias e, mais uma vez, destacou Bete como a maior sabedora sobre as plantas medicinais dentre as mulheres do grupo. Bete diz ter aprendido a usar da natureza para cuidar das pessoas ainda na infância, vendo sua avó: “Me chamam de bruxa por eu saber sobre os benefícios das plantas”. Maria, embora seja filha de agricultores, se mostrou mais introvertida desde o início e especificamente neste encontro falou somente quando foi diretamente questionada, motivo pelo qual a acompanhamos na maior parte do tempo durante o mutirão.

Bete também ressaltou que gosta de plantar para “saber direito o que está comendo”, para ela a “horta é energia” e ela quer ter seu próprio espaço, pois gosta de cultivar com o marido quando ele têm tempo para estar junto, pois é uma atividade que os une. Rogéria contou que todas as suas plantas têm história, como a mangueira, que pensou em cortar, mas floresceu depois de fazer cortes no tronco da árvore. Ela sabe de onde as plantas vieram, de quem ganhou as mudas, com quem já compartilhou ramos de ervas… Ou seja, ressurge mais uma vez os significados de socialização e asmemórias conectadas à agricultura.

Outro exemplo disso é a história do Sr. Fernando, de 97 anos, amigo de Rogéria, que também conhecemos nesse dia: ele perdeu a esposa muito recentemente e tem sido acolhidopelas mulheres a fim de evitar que se sinta sozinho, assim, elas o recebem e conversam sobre suas histórias e sobre os conhecimentos de agricultura e avicultura que traz consigo.

Na visão de Bete, os clientes reconhecem os alimentos da feira como orgânicos e os valorizam por serem bons para a saúde, por outro lado, ela diz que existem pessoas que não se importam com isso, nem com o trabalho que elas fazem, tampouco tem interesse em se juntar à causa “Tem gente que sabe plantar e tem onde plantar, mas prefere ir no sacolão comprar veneno” e que “conhece a feira, mas não tem coragem de comprar um produto da gente”. Rogéria corroborou o pensamento da colega ao afirmar que “As pessoas não querem saber de cultivar, elas querem construir cimento”.

Maria, apesar de mais introvertida, relatou que adora a horta, pra ela “é liberdade, quando triste se apega às flores, aos animais porque eles têm alma”, “se pudesse, vivia [dos alimentos vindos] da lavoura” e também gosta de ajudar no trabalho da feira, pois lá pode conversar e compartilhar com as pessoas. Já seus familiares não participam, pois têm suas próprias atribuições. 

Ao final, retornamos para a casa de Rogéria e fizemos uma roda de conversa onde cada uma respondeu a algumas perguntas visando recapitular o que tínhamos conversado aos pares ou trios durante o mutirão, e socializar as reflexões sobre os significados dos quintais/hortas com os demais. À proporção que surgiam palavras chave que representassem suas falas, estas foram sendo registradas em tarjetas e coladas em um móvel da varanda de Rogéria, a fim de inserir um elemento visual que ajudasse o grupo a manter a atenção da atividade. Como já disse que prevíamos, essa roda de conversa suscitou uma discussão bem menos aprofundada do que gostaríamos, entretanto entendemos que fizemos o melhor possível e ficamos satisfeitas por todos os elementos captados para alimentar nossas ideias para a última prática e pelos momentos que nos proporcionamos mutuamente.

Na roda de conversa, Bete retomou a ideia da que o alimento plantado contribui para o acesso financeiro a uma alimentação adequada, e de que é um alimento seguro do ponto de vista sanitário ao afirmar que “tirar o alimento da terra sem veneno é prazeroso” e que “não temos dinheiro, mas pelo menos temos comida e comida boa!”. Maria também disse que “os alimentos são saudáveis, promovem saúde”, e Cátia, que falou que os “alimentos orgânicos são meu remédio’.

Os aspectos pessoais como memória alimentar, propósito de vida, prazer e reconhecimento também reapareceram nas falas de Cátia, que disse que viver a “agrofloresta é realização, paz, nutrição da alma” e de Rogéria, segundo quem “é prazeroso porque fazendo pouco dá para servir a muitos” e que gosta de “influenciar as pessoas com as atitudes”, ainda salientou que “os pequenos incentivos do dia a dia não nos deixam desistir”. Para  o Sr. Fernando, plantar “traz bem estar, pois desde criança mexo com a terra… Me traz lembranças boas”.

Uma observação relevante feita nesses dois últimos encontros foi sobre o perfil dos lanches com os quais fomos recebidas ao longo dos dias,  pois apesar do trabalho agroecológico, os alimentos preparados para os cafés da manhã sempre continham produtos ou ingredientes industrializados ricos em açúcar, gordura e sódio como parte das receitas. A alimentação é um universo rico e comunica muitas informações acerca da cultura e da história das pessoas, motivo pelo qual esse fato não passou despercebido a nós. Na roda de conversa, ficou claro que elas reconhecem que existe influência positiva da agroecologia sobre a qualidade nutricional de sua alimentação – além das outras dimensões da alimentação adequada e saudável já discutidas, mas ter um quintal produtivo não necessariamente é sinônimo de alimentação saudável, na perspectiva de todos os princípios apresentados no Guia Alimentar para a População Brasileira.

Não houve falas que demonstrassem uma percepção de que a presença desse tipo de alimento em excesso na base de sua alimentação possa ser prejudicial. Em contrapartida, elas falaram que gostariam de saber mais coisas de alimentação e nutrição, assim, concluímos que esse poderia ser um bom caminho: trabalhar a regra de ouro do GAPB, “Faça de alimentos in natura e minimamente processados a base da sua alimentação”, a partir da valorização da diversidade de alimentos – que já é o cotidiano delas – em contraposição à uniformização de sabores promovida pela industrialização dos alimentos.

A abordagem do sistema alimentar de modo integral foi um ponto elencado por nós como fundamental para esta prática, pois situar o trabalho dessas mulheres na agroecologia como uma frente de resistência a indústria alimentícia e ao agronegócio, que geram malefícios identificados por elas mesmas à população, seria um estímulo para cuidarem da própria saúde e para compreenderem até mesmo aspectos políticos das escolhas alimentares, pois aquilo com que nos alimentamos também alimenta a expansão da cadeia de produção desses gêneros.



Considerações:

APLICAÇÃO À REALIDADE: O ÚLTIMO ENCONTRO E A RODA DE CONVERSA SOBRE ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO

Na última supervisão antes da prática final, nos dividimos para contactar as mulheres individualmente por telefone, e elaborar um convite para o grupo de whatsapp da Feira a fim de expandir a atividade para outras pessoas interessadas. Definimos que prepararíamos plaquinhas representativas de alguns dos “Dez passos para uma alimentação adequada e saudável” do Guia Alimentar para a População brasileira, pois seriam a base da atividade educativa – como tínhamos combinado no encontro anterior diante da demanda exposta por elas – e também juntaríamos o maior número possível de embalagens de produtos processados e ultraprocessados para montar um “mini mercado” dos industrializados para a dinâmica.

No dia 29 de junho, nos reunimos pela última vez na varanda da casa da Dona Rogéria, e conhecemos mais pessoas que atenderam ao convite. Fizemos uma roda de conversa e introduzimos o assunto do guia alimentar, falando brevemente sobre sua existência, objetivos, subdivisão e sua abordagem inovadora.

Com as embalagens já dispostas no “mercadinho”, propusemos a dinâmica: cada um deveria ir até as embalagens, e selecionar alguns produtos que utilizariam para fazer um lanche, quer fossem produtos prontos ou ingredientes para uma receita. Com isso, imaginamos que escolheriam alimentos naquele padrão observado em nossos lanches anteriores: embora caseiros, ricos em ingredientes que o Guia recomenda que sejam usados em pequenas quantidades, apenas para temperar as preparações – em especial, o açúcar de mesa.

Assim elas fizeram: pegaram seus produtos e voltaram aos seus lugares. Fizemos então uma rodada para cada uma explicar suas escolhas. Observamos que as preparações que tinham mais memórias envolvidas eram as preparações caseiras, comentadas com muita alegria por aquelas que escolheram ingredientes e falaram das receitas que fariam. Por outro lado, havia também a presença de industrializados como biscoitos, sucos de caixinha, achocolatado, dentre outros, cuja escolha foi justificada pela questão da praticidade. Essa situação evidenciou uma característica interessante do grupo: a comida mais apreciada é realmente a comida de verdade, que tem lembranças associadas, tradições familiares e regionais, nesse caso, nosso desafio seria conduzir a conversa de modo que discutíssemos a freqüência de consumo desses alimentos e a possibilidade de adaptar as receitas, reduzindo a quantidade de ingredientes adicionada, afinal, o próprio Guia trabalha com um discurso não normativo, mas acolhedor, com recomendações.

À medida que elas foram falando, diversos assuntos relacionados aos Passos do Guia e aos princípios do Marco de Referência da Educação Alimentar e Nutricional foram surgindo. Para conversar sobre esses temas, fomos levantando as plaquinhas que os representavam, a fim de parar nos tópicos de discussão, então fomos discorrendo a partir das falas que elas tinham acabado de fazer, buscando dar mais sentido aos assuntos e proximidade com a realidade delas. No fim, terminamos falando de todos os passos, alguns mais explorados do que outros, mas julgamos ter sido satisfatório, pois a abordagem foi leve e descontraída, além de também bastante interativa.

Ao longo da conversa surgiram muitas dúvidas de Nutrição em pontos polêmicos comumente explorados pela mídia – manteiga ou margarina, tipos de óleos vegetais, etc- e achei engraçado, de certa forma, pois estamos (felizmente) tão acostumados a não dar um enfoque meramente biológico sobre a alimentação, que eu não tinha pensado que essas questões poderiam surgir. Na realidade não são questões com respostas tão diretas e unânimes entre estudantes e profissionais, mas tentamos responder de maneira generalista e retomar o foco da discussão para uma visão mais holística dos alimentos e da alimentação, que é trazida no conceito de alimentação adequada e saudável – que permeia nossos encontros desde o início – que opera nas nossas referências, o Guia e o Marco.

Um ponto bastante positivo foi que trabalhamos os graus de processamento dos alimentos a partir das listas de ingredientes dos rótulos das embalagens escolhidas por elas, falando sobre como identificar os ingredientes em maior quantidade; sobre a desconfiança que devemos ter de produtos com componentes que não utilizamos em preparações caseiras e que não sabemos o que são; sobre os riscos de ingerir aditivos químicos; sobre a grande quantidade de diferentes substâncias presentes em alimentos (ou produtos alimentícios?) ultraprocessados (Passo 4); sobre a importância de limitar o consumo de produtos adicionados de sal, açúcar e óleos, os processados (Passo 3); e outras particularidades dos produtos escolhidos.

A dimensão política e sócio cultural também foi explorada ao falar da comensalidade (Passo 5), do estímulo a consumo de alimentos produzidos e comercializados localmente, o que está diretamente relacionado ao trabalho delas (Passo 6), do desenvolvimento e partilha de habilidades culinárias como um ato de resistência contra o avanço da indústria alimentícia e de valorização da cultura e dos regionalismos (Passo 7), e assim por diante.

Depois desse momento, assistimos a um vídeo com fotos dos nossos encontros, feito no intuito de dar visibilidade à iniciativa das mulheres. Ainda precisa ser ajustado e dividido em versões mais curtas, pois nossa ideia é que ele seja compartilhado nas redes sociais a fim de que mais pessoas saibam e acolham esse movimento tão significativo que está sendo feito na Enseada.

Para finalizar, entregamos um mural de fotos como lembrança de nossos encontros e como pequeno agradecimento pela receptividade, nos abraçamos e ouvimos comentários felizes pelo momento de aprendizado. Em especial de Noêmia, que conhecemos somente nesse último dia, mas ressaltou que foi muito esclarecedor e que aprendeu muito conosco. Foi um momento muito gratificante para todas nós!

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Essas vivências na Enseada foram muito engrandecedoras pois a vida de pessoas tão simples foi capaz de alimentar reflexões que vêm sendo instigadas em todas as disciplinas da saúde coletiva. No Brasil, ainda vivemos numa oligarquia se pensarmos que o poder econômico e decisório está concentrado na mão de poucos, que muito fazem para que seus interesses prevaleçam sobre o bem estar e os direitos da grande massa da população.

Esses poucos são os que negam o direito à terra àqueles que nela trabalham e produze; são os que promovem a liberação do uso de substâncias desconhecidas ou sabidamente prejudiciais à saúde frente aos órgãos regulatórios; são os que conseguem que novas espécies sejam inseridas na natureza sem estudos de impacto, mesmo que, para isso, espécies naturais sejam extintas; são os que se apoderam do discurso do nutricionismo aliado à falsa vontade de resolver o problema da fome e da má nutrição no mundo para legitimar o uso de sementes biofortificadas; dentre inúmeros outros absurdos que ameaçam o direito de ter uma alimentação adequada e saudável, que é inerente à condição de ser humano.

Não foi à toa que brinquei nessa última prática, dizendo que cultivar e vender diretamente para a população é quase um ato de rebeldia! É preciso resistir a todas essas forças e ir contra toda a obviedade que empurra cada um de nós a nos conformarmos e alimentarmos esse sistema complexo e poderoso. Para mim, conhecer essas mulheres foi nada menos que uma lição de cidadania e persistência.

”Só o amor vale a pena” (Rogéria)

Texto de Laís Vargas Botelho, supervisão e revisão das docentes Vanessa Schottz e Tamiris Pereira Rizzo







Álbum de Fotos da Experiência



Biblioteca da Experiência
1 - Roteiro 1
2 - Roteiro 2
3 - Referências Bibliográficas


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