Ideias na Mesa - Blog


postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Terça-feira, 07 de Fevereiro de 2017

Milhares de organizações que procuram mudar o sistema alimentar têm apontado as consequências ambientais e sociais negativas do nosso sistema atual, que muitos dizem ser apoiado no princípio de que as produções são hiper eficientes e  "muito grandes para falhar". O mandato agrícola, frequentemente citado, da época de Nixon de "ficar grande ou sair" - ponto amplamente usado na agricultura americana, que passou de um sistema de agricultura familiar diversificado para a forma atual de negócios corporativos - refletia o espírito empresarial da época.


Outros sistemas, incluindo nossos sistemas de energia, água e transporte, também tinham esse caráter; Mas ao contrário do sistema alimentar, esses setores estão empreendendo atualizações do século XXI que se comportam melhor com nossas normas e realidades modernas, criando sistemas mais descentralizados e mais adaptados à geografia e à sociologia locais. Os agentes de mudança do sistema alimentar devem aprender com a trajetória de políticas públicas, particularmente com as de energia renovável. A indústria de energias renováveis atualmente emprega 6,5 milhões de pessoas em todo o mundo com US $ 329 bilhões em investimentos em 2015, e vários de suas estratégias eficazes se adaptariam bem à reforma do sistema alimentar.

1.    Utilizar os contratos públicos para expressar os valores públicos e criar mercados para os pequenos produtores.

O ponto de partida para as energias renováveis ??foi a Lei de Políticas Reguladoras dos Serviços Públicos, promulgada durante a crise do petróleo de 1978. Ela abriu as portas para uma nova estrutura do sistema energético, exigindo que as concessionárias fornecessem uma porcentagem de sua energia a produtores independentes. Com base nisso, mais tarde, muitos estados exigiram alvos baseados em métricas (Nevada estabeleceu uma meta inicial de estar usando 25% de energia renovável em 2025) como parte de um conjunto de ferramentas de políticas que apoiam a produção de energia renovável.

Esta abordagem, baseada em metas, encontra-se paralela ao poder de aquisição de alimentos, das instituições públicas. Um exemplo nacional é o Brasil, que aprovou uma lei que exige que as escolas gastem 30% de seus orçamentos para refeições, em alimentos produzidos pelos milhões de pequenos agricultores do país. O programa é creditado a partir da viabilidade econômica do setor de produção de alimentos local, garantindo o relacionamento direto do produtor local com o governo.  

A alimentação escolar também é um grande setor nos Estados Unidos. O Programa Nacional de Almoço Escolar gasta mais de US $ 11 bilhões anuais para alimentar as 30 milhões de crianças cadastradas para receber almoços gratuitos ou com preço reduzido. O programa do “USDA Commodity” prevê um adicional de US $ 200 milhões ou mais por ano em alimentos suplementares para as escolas. Diante disso, metas federais para apoiar os produtores locais na venda de alimentos para as escolas, sem dúvida, faz uma diferença significativa no apoio à economia local, reforçando a importância de circuitos locais oferecendo apoio técnico e subsídios.

Mas tais metas se direcionariam apenas para parte do sistema alimentar. A saúde comunitária e ambiental também são partes importantes de um sistema alimentar moderno. Metas baseadas nesses valores (como metas para lojas saudáveis, compras de alimentos produzidos de forma sustentável e compras de alimentos de produtores e fornecedores justos) impulsionariam o acesso aos alimentos saudáveis, a viabilidade econômica para compra e práticas agrícolas sustentáveis.

Vários programas de aquisição de alimentos já incorporam valores de sustentabilidade ambiental em suas metas, incluindo o “Real Food Challenge” (Desafio da Comida de Verdade) para universidades e “Health Care Without Harm” para hospitais. O Programa de Compras de Alimentos é baseado em cinco valores fundamentais: economia local, sustentabilidade ambiental e nutrição. Ele é projetado para trabalhar o sistema alimentar na forma como a certificação LEED funciona para a eficiência energética em edifícios.

Metas regionais para aquisição de alimentos para escolas, hospitais, bases militares e outros espaços, nos quais a alimentação é financiada pelo governo, movimentariam o mercado de forma positivas para o sistema alimentar. Os objetivos de aprovisionamento regional, em rede, também teriam uma poderosa influência sobre o papel federal no sistema alimentar.

2. Reconhecendo que os governos regionais são líderes ágeis.

A geração de energia renovável acelerou quando muitos estados desenvolveram o padrão de portfólio renovável, juntamente com incentivos fiscais federais e estaduais. O progresso destes estados, em relação às suas várias metas, contribuiu para o atual sucesso mundial das energias renováveis. Os alvos e as motivações de cada estado variam de acordo com seus recursos e atributos. Por exemplo, o Havaí bloqueado pelo mar, está quase a meio caminho da meta mais ambiciosa nos Estados Unidos que planeja alcançar a meta "100% renovável" até 2045. A Califórnia aumentou recentemente seus objetivos de energia renovável para 50% até 2030, aproveitando o sucesso de seu prodigioso ecossistema empresarial e paisagem diversa na criação de mais de 21.000 megawatts de energia limpa e 400.000 empregos de energia limpa.


É claro que a implementação de metas baseadas em valores, desenvolvidas para sistemas alimentares, exigirá mais objetivos, além dos relacionados às compras. Precisamos de políticas e incentivos para apoiá-los. A Califórnia é um bom exemplo. O estado tem se classificado como primeiro colocado no ranking “US Clean Tech Leadership Index” (Índice de Liderança em Tecnologias Limpas nos EUA), Junto a isso, o estado tem a maior quantidade de políticas e de incentivos para desenvolvimento de energia limpa. Estes incluem: descontos; empréstimos com juros baixos ou sem juros; garantias de empréstimos; programas de financiamento; isenções fiscais, títulos, subsídios, padrões favoráveis ??de permissão, servidões de acesso, padrões de construção, códigos de zoneamento e assistência a pequenas empresas.

Um número impressionante de políticas e incentivos alimentares já está em vigor em todo o país (EUA). A bem conhecida, Iniciativa de Financiamento de Alimentos Frescos da Pensilvânia, por exemplo, tornou-se a base para os programas de conversão de pequenos mercados na Filadélfia e a criação do centro de alimentos “Mercado Comum da Filadélfia”, um agregador de alimentos produzidos localmente distribuídos em escolas, hospitais e comunidades, sem fins lucrativos. E o estado de Nova York, recentemente, doou US $ 15 milhões para um centro de alimentos e investiu US$ 20 milhões na cidade de Nova York para implementar seus objetivos de apoiar os agricultores locais.

Outra oportunidade é atualizar os incentivos fiscais para que as doações de alimentos se estendam a programas como o “Tabela Diária de Boston”, que trata do desperdício de alimentos e insegurança alimentar usando produtos desprezados e "imperfeitos" para preparar refeições saudáveis, com pouco orçamento. A Califórnia atualizou recentemente seus incentivos fiscais à agricultura, incluindo a agricultura urbana. A filantropia e os governos locais também poderiam estabelecer fundos de correspondência - modelados segundo os programas de mercado como o “Veggie Voucher” - para escolas e pequenos mercados de bairros que participam de programas regionais de aquisição alimentos de menor valor.

Associar objetivos regionais a uma estrutura nacional de organização, com programas e ferramentas, podem se tornar ainda mais poderosos para o projeto do sistema alimentar.


3. Criação de redes coordenadas para amplificar as melhores práticas.

Grupos de afinidade entre cidades podem compartilhar melhores práticas, operando uma de rede de mudança. Em 2005, o prefeito Ken Livingston, de Londres, lançou o C40, uma rede das 40 maiores cidades do mundo que se reúnem regularmente para lidar com as mudanças climáticas e a eficiência energética. O grupo trabalha para desenvolver e implementar políticas e programas que gerem reduções mensuráveis ??de emissões de gases de efeito estufa e riscos climáticos. Quando as cidades C40 decidem sobre uma boa prática - como a substituição de lâmpadas incandescentes em luzes de rua por LEDs - elas agrupam seu poder de compra combinado para criar um bloco de negociação para obter preços justos para si e, por causa da grade demanda.

A Aliança Urbana de Alimentos Escolares, que inclui os seis maiores distritos escolares dos Estados Unidos, usa a mesma abordagem. Em 2013, pediu que os fabricantes de bandejas desenvolvessem uma bandeja de almoço isenta de isopor. Os fabricantes obedeceram, motivados pela grande demanda. Esta "aliança de alianças" entre seis cidades representa 4.536 escolas, mais de 2.5 milhões de estudantes, 46 bilhões de refeições escolares e um total de US $ 552 milhões em alimentação. Agora, ele voltou sua atenção para a cadeia de fornecimento de aves com o objetivo de obter frango sem antibiótico nas escolas.

Tal como acontece com as energias renováveis, os objetivos regionais relacionados a promoção da alimentação adequada e saudável, apoiam a saúde comunitária, econômica e ambiental, alinhando estrategicamente políticas, programas e organizações em direção a essas metas, bem como acelerarão o progresso e incentivarão o empreendedorismo. Ao atingir a roda do sistema existente, por meio de alvos regionais projetados e bem apoiados, as cidades podem levar uma estrutura flexível, dentro de um mundo global, que forneça a capacidade de resposta e a resiliência que nossas comunidades merecem.

 Traduzido por Ana Maria Maya, do seguinte link: https://ssir.org/articles/entry/designing_a_renewable_food_system



Observatório Opsan UNB
facebook
twitter
Layout e programação do site Identidade visual
Faça o ligin para continuar!

clique aqui