Ideias na Mesa - Blog


postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017

Se você ainda não conhece, pelo menos já ouviu falar do novo sucesso entre as séries, “Orange is the new black”. A série lançada em 2013 é uma produção original da Netflix e conta a história de Piper Chapman, uma mulher por volta de seus 30 anos que é sentenciada a 15 meses de prisão por envolvimento com lavagem de dinheiro para um cartel de drogas internacional. Piper troca a sua vida confortável de Nova York, com o noivo Larry, pelo macacão laranja e cumpre sua sentença na Penitenciária Feminina de Litchfield. Para sobreviver, ela precisa aprender a conviver com as outras detentas, como Red, Nicky, Taystee e Crazy Eyes.

Subjugadas e desafiadas pelo autoritarismo, as protagonistas de Orange is the new black buscam alternativas para lidar com a opressão que sofrem não só como mulheres, mas também como mulheres negras, idosas, lésbicas e transsexuais. Diante dessa situação, as detentas buscam maneiras de enfrentamento, que vão desde o isolamento, a loucura, o apego religioso e o sexo à formação de guetos raciais, étnicos e etários.

É nesse contexto que a comida e o acesso a seu preparo se transformam em um arsenal identitário, uma ferramenta de pertencimento, poder e controle. Isso pode ser percebido no status social dado aos que trabalham na cozinha. A cozinheira que comanda o espaço usa jaqueta e o chapéu, uniforme dos chefes profissionais, que por sua vez escolhem suas funcionárias, que usam aventais e toucas, o que as diferencia das demais.

No seriado, Red chefia um grupo de presas e se comporta como mãe de todas, ilustrando relações de dominação e submissão devido à sua influência como chefe da cozinha e por seu acesso aos ingredientes. Além disso, sem que os guardas saibam, a chefe tem autoridade para decidir quem vai ou não receber a bandeja de comida: em seu primeiro dia na prisão, Piper comete uma gafe com Red, a chefe da cozinha, e acaba passando dias sem comer.

Diante desse cenário, vários fatos interessantes, relacionados à comida, acontecem nos episódios, como no dia que Piper vê uma galinha no pátio e, sem querer, cria uma comoção entre as detentas, principalmente em Red, que afirma sonhar com uma galinha que sobreviveu ao abate em uma fazenda vizinha da penitenciária. No sonho da cozinheira, a ave aparece temperada e usando uma cartola, e diz à Red que logo estariam juntas. Ao descobrir que as presas criaram uma onda de boatos afirmando que a ave estava recheada com drogas, armas ou doces, Red se decepciona com a competição, dizendo que só queria “comer a galinha que foi mais esperta do que todas as outras galinhas para absorver o seu poder”. Esse episódio mostra a crença de que alguns alimentos transferem ao comensal suas supostas características, como a força e nobreza da carne de boi ou a repugnância e furtividade da carne de rato.

Em outros episódios, o seriado também mostra como usamos a comida para dizer quem somos e a que grupos pertencemos em nosso dia a dia.

Há, como exemplos, o contrabando de guloseimas proibidas e a secreta fabricação de bebida alcóolica de Poussey (Samira Wiley), que usa ketchup, pão mofado e um “ingrediente secreto”. Em outro momento, quando uma manobra corporativa troca a comida preparada na prisão por sacos "cheios de gororoba" que já chegam prontos, as detentas traçam estratégias para melhorar a refeição. Piper, que havia decidido vender calcinhas usadas pelas presas para “pervertidos” na internet, adota como salário envelopes de tempero de macarrão instantâneo para mascarar o sabor das novas receitas. Enquanto isso, algumas detentas fingem ser judias para comer as refeições congeladas casher (ou kosher), preparadas de acordo com as leis alimentares judaicas, cujo sabor é elogiado repetidamente, mas o sentido religioso, completamente ignorado até que a administração chama um rabino para avaliar quem tem ou não direito ao menu especial.

Várias presas são vistas tentando tirar comida da cafeteria para consumi-la mais tarde, onde quiserem, mas a infração é geralmente mediada por um policial, que pode ser proibitivo ou conivente. Nesse cenário, a comida dá o tom da personalidade da quieta e isolada Chang. O episódio que conta parte de seu passado mostra como ela é discreta e autossuficiente ao conseguir retirar ervilhas em conserva da cafeteria sem ser percebida, amassá-las e misturá-las com salgadinhos.

São diversos os episódios que mostram como a comida pode ser usada como moeda de troca, de convencimento e de submissão. O status social dado à cozinheira que comanda a cozinha mostra como o acesso a bens alimentícios pode possibilitar poder e controle. O seriado também mostra como os alimentos podem ser usados para se manifestar, se rebelar e até mesmo se representar.

Pra quem ainda não assistiu vale a pena conferir e pra quem já é fã da série, vale a pena apurar um pouquinho mais o olhar para esses contrastes. O post do [Comida na Tela] de hoje usou como referências a série “Orange is the new black” e o artigo disponível aqui.



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