Ideias na Mesa - Blog


postado por Marina Morais Santos em Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

"Como é possível que estejamos tão afoitos para assistir outras pessoas dourando cubos de carne na tela, mas tão pouco interessados em dourá-las nós mesmos?".

Michael Pollan, autor de "O Dilema do Onívoro", "Cozinhar" - livro que inspirou a série documental homônima da rede Netflix - e "Em Defesa da Comida", foi quem escreveu esta frase há mais de oito anos atrás, para uma matéria no New York Times. Anos depois, o apontamento feito por Pollan ainda se mostra real e, cada vez mais pertinente.

A ascensão de Julia Child como ícone cultural e, posteriormente, o estrelato de chefs como Alex Atala, Jamie Oliver, Paola Carosella, Gordon Ramsay, Anthony Bourdain coincidiu, paradoxalmente com o crescimento da Indústria de Alimentos, do Fast Food e da comida pronta e também com o declínio das refeições caseiras do dia a dia. A verdade é que nunca passamos tão pouco tempo na cozinha e, ainda sim, nossa obsessão com comida nunca foi tão grande.

Em tempos de MasterChef, Tastemade e Instagram, a quantidade de conteúdo na mídia sobre comida que consumimos todos os dias é enorme. Devoramos vídeos e fotos de comida em quase todas as mídias, adicionando também às Redes Sociais nossas próprias contribuições com imagens de cafés "gourmet" que experimentamos e check-ins em restaurantes da moda.

Para um gourmet moderno, não é necessário cozinhar ou ter amplo entendimento sobre a origem dos alimentos e seu modo de preparo. Os pré-requisitos obrigatórios são uma boa câmera no celular, a iluminação adequada e um conhecimento bacana sobre as melhores hashtags e filtros. Assim, ser apaixonado por comida e apaixonado por cozinhar são duas coisas bem diferentes.

O crescimento do tópico "comida" nas redes sociais e mídias com receitas infindáveis no Feed de Notícias, programas de culinária em diversos canais e o estrelato de chefs e cozinheiros deixa claro que nós valorizamos o cozinhar. Ainda sim, há uma desconexão entre o tempo que gastamos na cozinha e a quantidade de conteúdo gastronômico que consumimos. Por que estamos cozinhando menos?

Tempo, custo e falta de habilidade culinária figuram os principais motivos pelos quais deixamos de cozinhar e muitas receitas e dicas aparecem em livros e internet para tentar solucionar essas questões. Nem sempre, essas soluções são suficientes: para quem não tem prática na cozinha, uma receita de "30 minutos" pode demorar horas para ficar pronta, deixando um rastro de louças sujas e dedos queimados e gerando um prato bem menos satisfatório do que o resultado apresentado na televisão. A verdade é que cozinhar é um processo, que exige tempo e dedicação e prevê vários fracassos até se tornar natural.

Cozinhar se tornou opcional para muita gente, quando é possível comprar refeições de quase todas as regiões do mundo até por meio de aplicativos nos celulares, mas isso não significa que perdemos as razões para cozinhar, pelo contrário, elas ficaram ainda mais evidentes. Você já deve imaginar que cozinhar é um caminho para uma alimentação mais saudável, considerando que quando a indústria e redes de fast food cozinham em nosso lugar, elas acabam produzindo alimentos com alto lucro comercial e também altos teores de gordura, sal, açúcar e aditivos químicos. Mas não é somente isso que torna o ato de cozinhar primordial.

Cozinhar é declarar a sua independência das grandes corporações que buscam transformam todos os nossos momentos em situações de consumo; é resgatar uma das artes formadoras da nossa cultura e identidade; é se conectar com as leis da física que química que regem o Universo e as transformações culinárias. O ato de cozinhar tem o poder de transformar não somente os alimentos que manipulamos, mas também de pouco a pouco e sutilmente transformar a nossa identidade e o Sistema Alimentar em que vivemos.

Não é a toa que o Marco de Referência de EAN para as Políticas Públicas aponta o cozinhar como prática emancipatória e princípio para ações de Educação Alimentar e Nutricional. Refletindo sobre essas dimensões, o Cozinhar se torna formador de indivíduos e pode ultrapassar as telas de celulares e televisões, tornando-se uma construção gratificante e muito valiosa! Lembre-se que o melhor jeito de aprender a cozinhar é cozinhando, vivendo um fracasso e conquista de cada vez.



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