Ideias na Mesa - Blog


postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017

O [Pensando EAN] relembra uma discussão do Hangout do Ideias na Mesa sobre como considerar e incorporar a dimensão cultural na educação alimentar e nutricional. A discussão foi moderada por Luiza Torquato, e contou com a participação de:

- Denise Oliveira, nutricionista que trabalha com antropologia da alimentação;

- Luana Oliveira, nutricionista na prefeitura municipal de Belo Horizonte, integrante de uma equipe multidisciplinar da Secretaria Municipal de Segurança de Alimentar e Nutricional;

 - Luciana, dentista e gestora municipal de SAN do município de Itanhaém, São Paulo.  (“um dos meus grandes inimigos era o açúcar”);

- Renata Menasi, antropóloga, professora na universidade federal de Pelotas, na pós-graduação, e sou professora na pós-graduação em desenvolvimentos na URGS.

A alimentação, com suas particularidades regionais, é uma das expressões do processo histórico e do intercâmbio cultural entre diferentes povos de uma nação. Por isso deve-se respeitar e valorizar as diferentes expressões, além de incorporá-las às ações de EAN. Esse é um dos princípios do Marco de Referência de EAN para Políticas Públicas:

“Valorizar a cultura alimentar local e respeitar a diversidade de opiniões e perspectivas, considerando a legitimidade dos saberes de diferentes naturezas”.


Mas o que percebemos no Brasil e em todo o mundo, é o processo de globalização da alimentação, levando à homogeneização dos hábitos alimentares e favorecendo o aumento de consumo de produtos industrializados, com altos teores de açúcar, sódio, gordura, aditivos etc. Assim surge o desafio de desenvolver estratégias de EAN que resgatem os aspectos culturais da alimentação local e de promover a alimentação saudável da população.

Mas para a antropóloga Renata, o que acontece é que essa homogeneização dos hábitos alimentares é apenas uma impressão, não uma verdade absoluta. As culturas locais tem muita força e vigor, e está presente com toda sua diversidade em todos os cantos. É importante mantermos nossos olhos abertos para isso, porque dá base, por um lado para contrapor o processo de padronização, de tentativa de uma comida que perca sua identidade e passa a ser apenas nutriente; e por outro, para pensar estratégias e políticas de grande alcance.

 

                      

 

Para Renata, também não é possível fazer uma "globalização do bem", com bons hábitos alimentares e com boas práticas nutricionais, pois temos que nos atentar para o que é local e característico das culturas. As ações de EAN não serão eficientes se não dialogarem com a essência das pessoas, com o que elas são e com o que elas acreditam. Então é importante que ao pensar em alimentação saudável, se questione sobre o que é saudável para aquele grupo, e o que é comida de verdade. Assim as pessoas constroem parâmetros, classificam a comida, pensam e vivem a partir daquilo que consideram importante pra sua identidade e sua cultura alimentar.

Para Denise esse resgate não é um processo individual, mas coletivo, e a cultura, por excelência, tem esse caráter. Como pesquisadora, ela percebe que quando se fala de alimentação saudável, ainda existe um forte enfoque biológico e as pessoas não pensam nem agem assim. Nem nutricionistas, que têm uma experiência acadêmica com forte componente erudito sobre a fisiologia e aspectos sobre o corpo de pensar se aquele prato é adequado do ponto de vista calórico e de vitamina e minerais, quando estão diante de um prato. As pessoas comem a simbologia dos alimentos, e a para realizar ações de EAN deve-se levar em consideração essa bagagem.

A cultura é ressignificada o tempo inteiro pela visão que os seres humanos têm sobre a própria vida. Nesse sentido a EAN não deve buscar a resposta naquilo que se constrói no dia a dia, no cotidiano. As ações devem fomentar o diálogo constante, devem valorizar o aprendizado e a multi etnicidade brasileira. O consumo alimentar deve priorizar as culturas que formaram a sociedade brasileira, o hábito de comer cuscuz e tapioca, por exemplo, tem origem indígena e isso deve ser introduzido nas ações de EAN por meio da construção do conceito sobre o que é comida.  

E no Brasil é realmente um grande desafio considerar a cultura nas ações de EAN, tendo em vista a enorme diversidade que encontramos em um município. Luciana traz o exemplo de que no mesmo município podem ser encontradas a etnia guarani, a etnia tupi guarani, populações ribeirinhas, os caiçara etc. E os hábitos tradicionais tem se perdido, nesse sentido as políticas de SAN cumprem um papel importantíssimo de resgate e valorização de alimentos tradicionais.

Segundo Paulo Freire, o resgate não é feito de forma individual, mas em comunhão e isso é importante ao pensar EAN. Denise relembra a contribuição de diversos grupos para a construção da sociedade brasileira como os indígenas e os negros, força de trabalho no país, e como as mulheres negras estiveram presentes na cozinha construindo uma identidade alimentar. Assim, é importante que a EAN não se exile, mas sim produza atividades dinâmicas, participativas, inclusivas, mutáveis e abertas.

Assim, pensar EAN é de fato um desafio já que deve levar em consideração todas as características do hábito alimentar, sejam elas coletivas ou individuais. 

Trazendo esses conceitos para a prática, existem diversas experiências de EAN incríveis que, aliadas à valorização dos hábitos alimentares tradicionais, tiveram sucesso na promoção da saúde de algumas comunidades, uma delas é a experiência realizada pela Luciana, no Banco de Alimentos em Itanhaém, que resultou na produção de um livro de receitas que exemplifica a diversidade cultural e regional e que resgata a culinária caiçara. Esse trabalho se tornou viável graças ao SISAN e às políticas de SAN que incentivavam a agricultura familiar.

Para encerrar o debate, Denise ressalta a importância do cuidado em não se fazer julgamentos sobre as escolhas pessoais. O processo de consumidor/comensal é complexo e tem um grande componente de crescimento a partir da revolução industrial, isso mudou gestão de tempo das famílias e falar de educação é sim falar de tempo, uma temática complexa e custosa, principalmente para as mulheres.

Se pesquisadores estão abertos à discussão para incorporar a cultura às ações de EAN, é importante que esse resgate seja feito de forma humana e respeitosa. Claro que os caminhos não estão dados, mas cabe a nós trabalharmos para que ele esteja em constante construção.

A discussão sobre como associar a cultura alimentar às ações de EAN foi muito rica, para ter acesso à discussão completa acesse aqui.



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