Ideias na Mesa - Blog


postado por Marina Morais Santos em Quinta-feira, 05 de Janeiro de 2017

Autor: Jill Neimark

Fonte: https://goo.gl/WFOIJn

Um pequeno amendoim rosa não é um rinoceronte branco. Nem é uma tartaruga verde ou um tigre de Bengala. Mas até alguns anos atrás, o amendoim africano da Carolina - antigamente o amendoim mais elogiado do Sul, repleto de sabor e rico em óleo - era muito parecido com o rinoceronte, a tartaruga e o tigre. Ou seja, estava quase extinta.

O amendoim africano da Carolina, como muitos dos cultivos tradicionais do sul dos Estados Unidos, foi trazido a América no século 17 por africanos ocidentais escravizados, que o cultivavam nos fundos de seus quintais. Era a castanha ancestral do sul, celebrada em canções, tradicionais frituras e sopas de amendoim e no tradicional bolo de amendoim com melaço de Charleston (Carolina do Sul).

De acordo com relatos da época, os vendedores de bolos de amendoim desciam até os cais da cidade quando os barris de melaço estavam sendo descarregados, raspando-os para ferver para os bolos, adicionando manteiga, clara de ovo, amendoim e cascas de limão. Os bolos eram vendidos por um tostão por mulheres negras livres chamadas "maumas" sentadas em banquinhos de três pernas do amanhecer ao anoitecer. Todas as vendas em que as maumas do amendoim se instalavam foram fechados como parte dos esforços locais de saneamento da Primeira Guerra Mundial estabelecidas por Herbert Hoover.

Chloe Jenkins (1843-1899), fotografada em Charleston por volta de 1897, era um chamada "mauma", uma mulher negra livre que vendia bolinhos de amendoim por um centavo cada.

 

Já nos anos da Grande Depressão, os amendoins tradicionais já tinham quase desaparecido - substituídos pelos populares amendoins da Espanha e da Virgínia (os amendoins da Virgínia foram trazidos da Bolívia nos anos 1840).  Apenas 40 sementes do amendoim africano sobreviveram, escondidas pelos na década de 1930 em um banco de sementes em armazenamento frio na Universidade da Carolina do Norte.

Agora, o amendoim africano da Carolina está de volta.

A primeira safra comercial, que contou com 15 milhões de amendoins, foi colhida em novembro passado e foi distribuída a chefes de cozinha e fabricantes artesanais de manteiga e óleo de amendoim.  

"O amendoim", diz o chef Forrest Parker, nomeado chef embaixador da Carolina do Sul em 2016, "é pequeno ao ponto de ser diminutivo, mas quando torrado tem o sabor mais intenso de amendoim que já experimentei e continua a ser uma revelação toda vez que provo".  

O amendoim deve seu avivamento ao historiador gastronômico David Shields, autor de 'Southern Provisions'. "Eu tinha visto uma fotografia do amendoim em uma colação na Biblioteca Britânica" relembra Shields, que perguntou a Tom Isleib, um produtor e pesquisador de amendoins da Universidade da Carolina do Norte, se a universidade tinha o amendoim na sua coleção. "Eles tinham preservado a semente, mas ela era chamada apenas de Carolina N° 4" relembra Shields.

Logo, o horticultor Brian Ward, do Centro de Pesquisa Costeira e Educação da Universidade Clemson, em Charleston (Carolina do Sul) foi encarregado de plantar 20 dessas 40 sementes restantes Doze brotaram. Sabendo que essas 12 eram o remanescente precioso de um amendoim quase extinto, ele cuidou delas de forma especial. "Eu as plantei bem aqui do lado do meu laboratório" lembra Ward, "assim eu era capaz de vigiá-las o dia todo."

Quando os primeiros amendoins floresceram no verão de 2013, Ward e Shields tinham certeza de que haviam recuperado o há muito perdido Amendoim Africano da Carolina. O resultado era exatamente igual às antigas fotos.

"Sabíamos no momento em que vimos a multidão de amendoins pendurados em seus pedicelos", diz Shields.

Naquela ano, 12 sementes se tornaram 1200, e então 60.000 em 2014, 1 milhão em 2015 e, em 2016, 15 milhões. Cerca de 30 pequenos agricultores também produziram pequenas colheitas do amendoim em 2016.

Chef Parker diz que criou um prato inspirado nos bolos de amendoim e melaço tradicionais para um jantar beneficente que teve como objetivo levantar fundos para reviver a culinária de fusão que antes prosperava desde a Carolina do Norte até Jacksonville (Florida). "Nós usamos o bolo de amendoim como inspiração, mas intitulamos nosso doce de 'Veludo Elvis'. Ele era feito de creme de banana assada, amendoim torrados, bacon e uma redução de molho de pimenta e melaço, tudo dentro de uma massa folheada."

Neste ano, segundo Parker, ele está recebendo galões enormes de amendoins produzidos pelo paisagista e agricultor tradicional Nat Bradford que produziu 1000 quilos de amendoim este ano. "O sabor é intenso", disse Bradford. "É como se você tivesse aumentado o volume de um amendoim. Até a fragrância do arbusto do amendoim é incrível."

O avivamento deste amendoim vem em um bom momento para os produtores da Carolina do Sul, que estão se voltando para os tradicionais amendoim da Virgínia e o africano da Carolina do Sul para as colheitas do futuro. "Há uma Renascença do amendoim acontecendo no  estado", disse Ward.

Em 2003, os amendoins foram cultivados em apenas 19 mil acres das terras agrícolas da Carolina do Sul. Hoje, várias variedades de amendoim são cultivadas em 110 mil hectares e o tradicional amendoim da Carolina será adicionado em breve à mistura.

"E pensar que aquelas 40 eram as únicas sementes viáveis no planeta" reflete Ward, "É muito especial trazê-las de volta". 

__________________________________________________________________________________________________________________________

No Brasil e no Mundo, vem se fortalecendo o conceito de Comida como Patrimônio. Ele surgiu da necessidade de se perpertuar preparações e métodos de produção extremamente representativos da cultura de um povo. O retorno do amendoim africano da Carolina e a tradição de fazer os bolos de amendoim das maumas devem ser discutidos à luz deste conceito. Reconhecer um alimento como patrimônio é um processo complexo que não ocorre de maneira impositiva, mas sim como resultado do acúmulo cultural em torno de determinada prática ou alimento.

Discutir a relação da dimensão cultural com a segurança alimentar e nutricional é necessário e pode se mostrar estruturante na medida em que nos ajuda a discutir até mesmo o processo de produção dos alimentos. Quando fala-se em alimentos tradicionais e regionais, fala-se de modos de preparos únicos, passados de geração em geração e conectados com a identidade cultural, o bioma local e o cultivo e produção de alimentos. Resgatar o amendoim africano da Carolina só foi possível com a integração de pesquisadores, pequenos produtores, chefs e cozinheiros, que interligaram os aspectos culturais e tradicionais deste alimento com seu potencial gastrônomico e de produção agrícola.



Observatório Opsan UNB
facebook
twitter
Layout e programação do site Identidade visual
Faça o ligin para continuar!

clique aqui