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postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Terça-feira, 07 de Fevereiro de 2017

Milhares de organizações que procuram mudar o sistema alimentar têm apontado as consequências ambientais e sociais negativas do nosso sistema atual, que muitos dizem ser apoiado no princípio de que as produções são hiper eficientes e  "muito grandes para falhar". O mandato agrícola, frequentemente citado, da época de Nixon de "ficar grande ou sair" - ponto amplamente usado na agricultura americana, que passou de um sistema de agricultura familiar diversificado para a forma atual de negócios corporativos - refletia o espírito empresarial da época.


Outros sistemas, incluindo nossos sistemas de energia, água e transporte, também tinham esse caráter; Mas ao contrário do sistema alimentar, esses setores estão empreendendo atualizações do século XXI que se comportam melhor com nossas normas e realidades modernas, criando sistemas mais descentralizados e mais adaptados à geografia e à sociologia locais. Os agentes de mudança do sistema alimentar devem aprender com a trajetória de políticas públicas, particularmente com as de energia renovável. A indústria de energias renováveis atualmente emprega 6,5 milhões de pessoas em todo o mundo com US $ 329 bilhões em investimentos em 2015, e vários de suas estratégias eficazes se adaptariam bem à reforma do sistema alimentar.

1.    Utilizar os contratos públicos para expressar os valores públicos e criar mercados para os pequenos produtores.

O ponto de partida para as energias renováveis ??foi a Lei de Políticas Reguladoras dos Serviços Públicos, promulgada durante a crise do petróleo de 1978. Ela abriu as portas para uma nova estrutura do sistema energético, exigindo que as concessionárias fornecessem uma porcentagem de sua energia a produtores independentes. Com base nisso, mais tarde, muitos estados exigiram alvos baseados em métricas (Nevada estabeleceu uma meta inicial de estar usando 25% de energia renovável em 2025) como parte de um conjunto de ferramentas de políticas que apoiam a produção de energia renovável.

Esta abordagem, baseada em metas, encontra-se paralela ao poder de aquisição de alimentos, das instituições públicas. Um exemplo nacional é o Brasil, que aprovou uma lei que exige que as escolas gastem 30% de seus orçamentos para refeições, em alimentos produzidos pelos milhões de pequenos agricultores do país. O programa é creditado a partir da viabilidade econômica do setor de produção de alimentos local, garantindo o relacionamento direto do produtor local com o governo.  

A alimentação escolar também é um grande setor nos Estados Unidos. O Programa Nacional de Almoço Escolar gasta mais de US $ 11 bilhões anuais para alimentar as 30 milhões de crianças cadastradas para receber almoços gratuitos ou com preço reduzido. O programa do “USDA Commodity” prevê um adicional de US $ 200 milhões ou mais por ano em alimentos suplementares para as escolas. Diante disso, metas federais para apoiar os produtores locais na venda de alimentos para as escolas, sem dúvida, faz uma diferença significativa no apoio à economia local, reforçando a importância de circuitos locais oferecendo apoio técnico e subsídios.

Mas tais metas se direcionariam apenas para parte do sistema alimentar. A saúde comunitária e ambiental também são partes importantes de um sistema alimentar moderno. Metas baseadas nesses valores (como metas para lojas saudáveis, compras de alimentos produzidos de forma sustentável e compras de alimentos de produtores e fornecedores justos) impulsionariam o acesso aos alimentos saudáveis, a viabilidade econômica para compra e práticas agrícolas sustentáveis.

Vários programas de aquisição de alimentos já incorporam valores de sustentabilidade ambiental em suas metas, incluindo o “Real Food Challenge” (Desafio da Comida de Verdade) para universidades e “Health Care Without Harm” para hospitais. O Programa de Compras de Alimentos é baseado em cinco valores fundamentais: economia local, sustentabilidade ambiental e nutrição. Ele é projetado para trabalhar o sistema alimentar na forma como a certificação LEED funciona para a eficiência energética em edifícios.

Metas regionais para aquisição de alimentos para escolas, hospitais, bases militares e outros espaços, nos quais a alimentação é financiada pelo governo, movimentariam o mercado de forma positivas para o sistema alimentar. Os objetivos de aprovisionamento regional, em rede, também teriam uma poderosa influência sobre o papel federal no sistema alimentar.

2. Reconhecendo que os governos regionais são líderes ágeis.

A geração de energia renovável acelerou quando muitos estados desenvolveram o padrão de portfólio renovável, juntamente com incentivos fiscais federais e estaduais. O progresso destes estados, em relação às suas várias metas, contribuiu para o atual sucesso mundial das energias renováveis. Os alvos e as motivações de cada estado variam de acordo com seus recursos e atributos. Por exemplo, o Havaí bloqueado pelo mar, está quase a meio caminho da meta mais ambiciosa nos Estados Unidos que planeja alcançar a meta "100% renovável" até 2045. A Califórnia aumentou recentemente seus objetivos de energia renovável para 50% até 2030, aproveitando o sucesso de seu prodigioso ecossistema empresarial e paisagem diversa na criação de mais de 21.000 megawatts de energia limpa e 400.000 empregos de energia limpa.


É claro que a implementação de metas baseadas em valores, desenvolvidas para sistemas alimentares, exigirá mais objetivos, além dos relacionados às compras. Precisamos de políticas e incentivos para apoiá-los. A Califórnia é um bom exemplo. O estado tem se classificado como primeiro colocado no ranking “US Clean Tech Leadership Index” (Índice de Liderança em Tecnologias Limpas nos EUA), Junto a isso, o estado tem a maior quantidade de políticas e de incentivos para desenvolvimento de energia limpa. Estes incluem: descontos; empréstimos com juros baixos ou sem juros; garantias de empréstimos; programas de financiamento; isenções fiscais, títulos, subsídios, padrões favoráveis ??de permissão, servidões de acesso, padrões de construção, códigos de zoneamento e assistência a pequenas empresas.

Um número impressionante de políticas e incentivos alimentares já está em vigor em todo o país (EUA). A bem conhecida, Iniciativa de Financiamento de Alimentos Frescos da Pensilvânia, por exemplo, tornou-se a base para os programas de conversão de pequenos mercados na Filadélfia e a criação do centro de alimentos “Mercado Comum da Filadélfia”, um agregador de alimentos produzidos localmente distribuídos em escolas, hospitais e comunidades, sem fins lucrativos. E o estado de Nova York, recentemente, doou US $ 15 milhões para um centro de alimentos e investiu US$ 20 milhões na cidade de Nova York para implementar seus objetivos de apoiar os agricultores locais.

Outra oportunidade é atualizar os incentivos fiscais para que as doações de alimentos se estendam a programas como o “Tabela Diária de Boston”, que trata do desperdício de alimentos e insegurança alimentar usando produtos desprezados e "imperfeitos" para preparar refeições saudáveis, com pouco orçamento. A Califórnia atualizou recentemente seus incentivos fiscais à agricultura, incluindo a agricultura urbana. A filantropia e os governos locais também poderiam estabelecer fundos de correspondência - modelados segundo os programas de mercado como o “Veggie Voucher” - para escolas e pequenos mercados de bairros que participam de programas regionais de aquisição alimentos de menor valor.

Associar objetivos regionais a uma estrutura nacional de organização, com programas e ferramentas, podem se tornar ainda mais poderosos para o projeto do sistema alimentar.


3. Criação de redes coordenadas para amplificar as melhores práticas.

Grupos de afinidade entre cidades podem compartilhar melhores práticas, operando uma de rede de mudança. Em 2005, o prefeito Ken Livingston, de Londres, lançou o C40, uma rede das 40 maiores cidades do mundo que se reúnem regularmente para lidar com as mudanças climáticas e a eficiência energética. O grupo trabalha para desenvolver e implementar políticas e programas que gerem reduções mensuráveis ??de emissões de gases de efeito estufa e riscos climáticos. Quando as cidades C40 decidem sobre uma boa prática - como a substituição de lâmpadas incandescentes em luzes de rua por LEDs - elas agrupam seu poder de compra combinado para criar um bloco de negociação para obter preços justos para si e, por causa da grade demanda.

A Aliança Urbana de Alimentos Escolares, que inclui os seis maiores distritos escolares dos Estados Unidos, usa a mesma abordagem. Em 2013, pediu que os fabricantes de bandejas desenvolvessem uma bandeja de almoço isenta de isopor. Os fabricantes obedeceram, motivados pela grande demanda. Esta "aliança de alianças" entre seis cidades representa 4.536 escolas, mais de 2.5 milhões de estudantes, 46 bilhões de refeições escolares e um total de US $ 552 milhões em alimentação. Agora, ele voltou sua atenção para a cadeia de fornecimento de aves com o objetivo de obter frango sem antibiótico nas escolas.

Tal como acontece com as energias renováveis, os objetivos regionais relacionados a promoção da alimentação adequada e saudável, apoiam a saúde comunitária, econômica e ambiental, alinhando estrategicamente políticas, programas e organizações em direção a essas metas, bem como acelerarão o progresso e incentivarão o empreendedorismo. Ao atingir a roda do sistema existente, por meio de alvos regionais projetados e bem apoiados, as cidades podem levar uma estrutura flexível, dentro de um mundo global, que forneça a capacidade de resposta e a resiliência que nossas comunidades merecem.

 Traduzido por Ana Maria Maya, do seguinte link: https://ssir.org/articles/entry/designing_a_renewable_food_system



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016

As falas de abertura deram o tom da Nobel Week Dialogue - Semana de Dialogo Nobel, 2016 - que aconteceu no dia 8 de dezembro em Estocolmo, Suécia. Ela teve como principal tema o "futuro alimentar" com vistas a responder a pergunta "É possível prover a todas as pessoas alimentos produzidos de maneira sustentável?".

Com um pouco mais de 7 horas de duração resultante de dois dias de exposições, os diálogos foram gravados e apesar de não terem legendas em português, podem ser assistidos diretamente da página do evento. Essa é uma oportunidade de assistir discussões intrigantes, estimulantes e riquíssimas sobre o futuro dos alimentos. O evento reuniu ganhadores de Prêmios Nobel, cientistas e especialistas, líderes mundiais, principais líderes de opinião, formuladores de políticas e público em geral. Cabe destacar a participação de Marion Nestle, autora do blog “Food Politics” e de Eduardo Nilson, da Coordenação Geral de Alimentação e Nutrição, do Ministério da Saúde.

Tara Garnett, fundadora da "Rede de Pesquisa de Alimentação e Clima" da Universidade de Oxford fez a primeira das três exposições de abertura que contou também com as falas de Johan Rockstrom - Centro de Resiliência de Estocolmo - e o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2015 Angus Deaton. Os três palestrantes apresentaram diferentes perspectivas sobre como o sistema e as escolhas alimentares podem tanto influenciar o abastecimento da população e distribuição de renda, quanto levar à impactos negativos ou à proteção de ecossistemas ambientais.

Garnett trouxe o exemplo de seus mais de 25 anos de experiência trabalhando em ONGs e setores acadêmicos e foca suas pesquisas nas interações entre alimentos, clima, saúde e problemas ambientais mais amplos. Ela se dedica a investigar os impactos gerados pela pecuária e como o conhecimento é comunicado e interpretado por gestores, sociedade civil, indústrias e suas diferentes formas de pensar sobre os problemas e soluções alimentares. Já o PhD e principal pesquisador do Centro de Resiliência de Estocolmo, Johan, apresentou o acumulado de seus estudos que resultaram mais recentemente nas "Nove Fronteiras Planetárias". Seu trabalho tem sido utilizado em diferentes painéis e grupos de trabalho da ONU como subsídio para solucionar problemas como os relacionados ao aquecimento global e seus agravos sociais, econômicos e ambientais, por exemplo, a insegurança alimentar. Fechando este bloco, o Prêmio Nobel e PhD, Angus Deaton, falou sobre a pesquisa que lhe rendeu a premiação em 2015, "Análise do consumo, pobreza e riqueza". Ele aborda, entre outros aspectos, a insegurança alimentar como resultante não apenas da falta de acesso aos alimentos, mas destaca também a importância da renda para evitar esse fenômeno. 

Ao longo dos dois dias de exposições, no entanto, foi possível observar em alguns diálogos um debate de opiniões que se traduz também na aplicação e elaboração de ações e estratégias para solucionar problemas globais como a segurança alimentar e nutricional e a produção sustentável de alimentos. Nesse sentido, outros dois Prêmios Nobel, Muhammad Yunus e Richard J. Roberts apresentaram visões, ainda que sobre temas pontuais, destoante da maioria dos que participaram do evento.  

O indiano Yunus citou a parceria de um de seus projetos com a Danone, a qual segundo ele se caracteriza como um exemplo de "social business". O projeto consiste na fortificação de um iogurte específico da marca Danone com micronutrientes e proteína, para que eles sejam comercializados a preços baixos para crianças pobres de Bangladesh com o intuito de combater a fome e desnutrição. Já o químico Richard Roberts, defendeu a utilização de organismos geneticamente modificados (transgênicos) para que a produção de alimentos consiga "atender a demanda de crescimento populacional dos próximos anos".

Essas duas visões vão à contramão dos outros expositores no sentido de reduzir à micronutrientes e à engenharia genética alimentícia os determinantes da fome, desigualdade e distribuição, insegurança alimentar  e produção ecológica. Ademias, nas duas situações os caminhos propostos continuam a terceirizar as soluções mantendo a tomada de decisões e a mercantilização dos insumos nas mãos de multinacionias e indústrias enquanto os interesses da sociedade civil, assim como seu protagonismo na elaboração e tomada de decisões, continuam secundarizados.   

Nesse sentido, Marion Nestle recebe o desafio de responder à seguinte questão: “Quem decide o que comemos?”.

A partir da perspectiva de quem trabalha e pesquisa sistemas alimentares, o foco de sua resposta estava no “advocacy”por uma alimentação adequada e saudável. Para contextualizar, Marion problematiza como fazemos nossas escolhas alimentares e como ambiente em que vivemos influencia nossas escolhas. Ela lembra que a desnutrição afeta 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo, a obesidade afeta 2 bilhões e os danos ambientais afetam o mundo inteiro. Muitos dos danos ambientais foram causados pelo sistema alimentar que construímos ao longo dos anos, quando adotamos dietas baseadas em alimentos ultraprocessados, produzidos pela indústria de alimentos. Hoje vivemos com problemas de saúde e problemas ambientais, relacionados a essas escolhas, mas as orientações para resolução de alguns dos nossos problemas vão contra os interesses da indústria alimentícia. Isso nos mostra algumas ironias encontradas no nosso sistema alimentar e representa uma grande dificuldade que é pensar na contradição que existe quando o Governo diz que metade do seu prato deve ser composto por frutas e vegetais, mas incentiva a produção de soja e milho, produtos que não estão presentes na nossa alimentação.

A professora questiona ainda, a produção norte americana, que produz quase duas vezes mais alimentos do que a população de fato precisa. Para dar evasão a essa produção a indústria criou algumas estratégias, uma delas é aumentar os tamanhos das porções oferecidas. Marion Nestle diz que como educadora alimentar e nutricional, se pudesse ensinar uma coisa ao mundo, seria: “porções maiores têm mais calorias”. Segundo ela, essa informação que parece óbvia, não é.

Além dos produtos de má qualidade nutricional, em porções absurdamente grandes, investe muito dinheiro em estratégias de Marketing, que contribuem para aumentar a venda de seus produtos. Especificamente, a indústria de bebidas doces é muito transparente quanto aos bilhões de dólares investidos no Marketing de seus produtos. A Coca-Cola, por exemplo, tem o plano de investir 17 bilhões de dólares em Marketing dos seus produtos, na África, entre 2010 e 2020.

Então, quando unimos esses fatores que têm construído o nosso ambiente alimentar, é muito difícil fazermos boas escolhas. É aí que entra o “advocacy”, que segundo a Forbes, é a nova ameaça à industria alimentícia. A noticia diz que pessoas relevantes na alimentação saudável direcionam as estratégias de Marketing e o desenvolvimento dos produtos da industria. Marion não concorda com a notícia, diz que as coisas ainda não são bem assim, mas de fato temos percebido algumas mudanças, como o movimento pela taxação das bebidas açucaradas, em alguns lugares do mundo. Marion finaliza sua fala relembrando que comer é um ato político, por isso é tão importante termos um sistema alimentar que nos  permita fazer escolhas alimentares saudáveis.

Depois dessa fala, seguindo com os painéis que discutiam “Porque comemos o que comemos?”, Eduardo Nilson, do Ministério da Saúde, falou um pouco sobre como o Brasil tem caminhado para tentar mudar o sistema alimentar e criar ambientes que favoreçam escolhas alimentares saudáveis. Para isso, nada mais atual e inovador que o Guia Alimentar para a População Brasileira, que não resume a alimentação à ingestão de nutrientes, mas abrange a perspectiva das refeições e da importância da comida de verdade. Isso é muito inovador porque ajuda as pessoas a verem o sistema alimentar, já que mostra para as pessoas o nível de processamento dos alimentos e estabelece um novo padrão de dieta, baseado em alimentos naturais, além de incentivar que as pessoas saibam o que elas estão escolhendo comer ou não.

Os diálogos estão incríveis e vale apena dedicar um tempo para acompanhar essas discussões e refletir sobre as suas escolhas e o ambiente em que vive:



postado por Rafael Rioja Arantes em Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2016

O documentário americano "Food Choices" (Escolhas Alimentares) é a mais recente produção relacionada ao sistema e escolhas alimentares. Lançado em setembro de 2016 e dirigido e escrito pelo Produtor e Cineasta vencedor de prêmios Emmy Awards Michal Siewierski, o filme com duração de 91 minutos busca problematizar os impactos de nossas escolhas alimentares não apenas no nosso corpo e saúde, mas também no  planeta terra.

Michal Siewierski documentou durante três anos a sua "jornada em busca da verdade" sobre as nossas escolhas alimentares. Este documentário quebra paradigmas ao explorar o impacto das nossas atitudes em relação ao consumo e como isso influencia na nossa saúde, na saúde do planeta e na vida de outras espécies animais. A desinformação relacionada à determinados aspectos alimentares e das dietas também é abordado, oferecendo uma nova perspectiva para refletir sobre os temas. Mais de 25 especialista de diferentes campos foram entrevistados incluindo nutricionistas, doutores, pesquisadores ambientais, bioquímicos, atletas e chefes.        

Dentre as principais reflexões levantadas estão fenômenos que a maior parte das pessoas nunca pensou que poderia ter alguma relação com alimentação. A emissão de gases do efeitos estufa que influenciam no aquecimento global por exemplo não é gerada apenas pela combustão de combustíveis fósseis, mas de igual ou proporções ainda maiores pela atividade pecuária. O desmatamento de florestas, perda da biodiversidade e a contaminação de ambientes aquáticos e reservas hídricas é uma outra consequência que determinadas escolhas alimentares retroalimentam.

O documentário pode ser assistido no Netflix e nas plataformas indicadas na página oficial. Confira o trailer com legendas: 



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

O jornalista Mark Bittman, escritor da seção de comida do New York times, fez uma fala durante um TED Talks sobre o que está errado na forma como nos alimentamos nos dias de hoje e as consequências para a saúde e o meio ambiente.

Em suma, sua análise traz a combinação do consumo excessivo de carnes e comidas ultraprocessadas, e a pouca quantidade de alimentos in natura e comidas feitas em casa como os principais fatores que levam ao surgimento das doenças relacionadas a má alimentação e a não sustentabilidade de nosso sistema alimentar. Apesar de realizadas em 2007 e referenciadas no contexto norte-americano, as colocações de Mark continuam atuais e encontram similaridades nas dinâmicas agroalimentares de outros países.

Para além do aspecto da qualidade alimentar, Bittman trata de um tema ainda pouco explorado que é o impacto que determinados padrões alimentares causam em nosso planeta. Ele fala principalmente da criação bovina e de outros animais de médio porte que correspondem com significativa parcela das emissões de gases do efeito estufa e influenciam no aquecimento global. Não apenas na pecuária intensiva, mas agravos ambientais também são observados pelo agronegócio e suas práticas com o uso intensivo de agrotóxicos e sementes transgênicas por exemplo.

Mark aponta que é preciso uma retomada de consciência e atitudes nas escolhas individuais, mas que sem dúvida para um impacto coletivo mais abrangente esse sistema de decisões políticas com fomento a produção não saudável e sem sustentabilidade precisa ser substituída.   

Assista a palestra completa com legendas em português: 




postado por Isadora Dias Nunes de Sena em Terça-feira, 18 de Outubro de 2016

No dia 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) fez o alerta: “O clima está mudando. A alimentação e a agricultura também”. O [Pensando EAN] de hoje traz uma reflexão que parte de uma análise de tal problemática com base na ideia de comida como sistema.

O blog jornalístico "Conhecer para Comer" tratou em um artigo a inter-relação entre clima, agricultura e alimentação, indicando dados, fatos e autores que apontam para a emergência de refletir sobre os limites (do planeta, do solo, da água, das pessoas). Veja aqui alguns trechos do texto:

"(...) O chamado da FAO e as consequências visíveis do atual modelo alimentar, nos leva a refletir a partir de uma visão complexa sobre uma das questões levantadas pelo antroposociólogo francês Edgar Morin. Ele destaca o fato de que os sistemas são tratados como objetos. O autor nos incita a conceber exatamente o inverso: os objetos como sistema. Apoiadas nessas reflexões, assim como a ameaça da crise ambiental para a produção de alimentos atualmente e para as gerações futuras, consideramos que devemos compreender o alimento não como um objeto e, sim, como um sistema, inserido no sistema alimentar, ambos sendo sub-sistemas do sistema capitalista, que faz parte do ecossistema e, assim sucessivamente. Deste modo, poderemos entender melhor o alimento e apontar caminhos teóricos e práticos para enfrentar as contradições, antagonismos e complementariedade, inerentes à complexidade de um sistema. (...)

Para falar em alimento como sistema, neste texto, vamos focalizar um dos aspectos da teoria de sistemas. De acordo com Morin e o biólogo austríaco Ludwing von Bertalanffy, um dos maiores teóricos de sistemas, os sistemas estão formados de subsistemas e podem provocar alterações no sistema e vice-versa.  Esta noção, nos leva a pensar nas articulações que existem assim entre o sistema capitalista e sistema alimentar, sendo este último um subsistema do sistema capitalista. (...)

Entender como a alimentação foi capturada pela lógica privada do capital e como o alimento virou mercadoria é uma das chaves para explicar a contribuição do sistema alimentar hegemônico presente no sistema capitalista e as suas consequências no cenário atual de crise ambiental. Nesse sentido, gostaríamos de destacar o trabalho do jornalista Paul Roberts, especializado em economia, tecnologia e meio ambiente. Ele faz um estudo bem amplo sobre o sistema alimentar no livro o fim dos alimentos (2009).(...) Roberts, com postura crítica, volta sua atenção à economia alimentar moderna e descobre que o sistema que deveria satisfazer a nossa necessidade mais básica está falhando.

 Na visão do autor, a crise alimentar é fundamentalmente econômica, pois o alimento não se conforma na categoria de mercadoria. Por ser tão impróprio à produção em massa, Roberts explica que tivemos de reengendrar plantas e animais para torná-los mais eficientes economicamente. E para corrigir os efeitos colaterais, ergueu-se uma indústria de medicamentos, flavorizantes, aditivos e fertilizantes em prol da qualidade, percebida na textura e no sabor de quem compra. (...)

As ambiguidades na produção, distribuição e consumo de alimentos nos conduz à interpretação para o fenômeno da alimentação, considerado por Morin (1973) como um fato humano total, que rearticule ligações indissociáveis, tais como sujeito-objeto; natureza-cultura; e real-simbólico.

O conjunto de crises que marca a civilização – econômica, ambiental e de conhecimento – é um ponto de inflexão para repensar a centralidade da comida em âmbito individual, coletivo e do território. Observamos que as corporações agroalimentares são as maiores beneficiárias das políticas, aumentando, portanto, o volume de produtos alimentares produzidos, sem, contudo, eliminar a fome.(...)

Pensar na ciência ecológica com relação ao alimento nos remete a agroecologia que pode ser definida como uma nova ciência em construção, um novo paradigma de cujos princípios e bases epistemológicas nascem da convicção de que é possível reorientar os cursos alterados dos processos de uso da terra, de forma a ampliar a inclusão social, reduzir danos ambientais e fortalecer a segurança alimentar e nutricional com a oferta de alimentos sadios para todos (CAPORAL, 2009, apud CAMPOS, 2014, p.267). O desafio agroecológico é a complexidade, a procura de um contexto mais amplo. Cada vez um maior número de cientistas se juntam a esta construção, reconhecendo as limitações do método objetivo, entendendo que reducionismo traz danos ecológicos e altos custos sociais.

Morin sinaliza que a um primeiro olhar a complexidade é um tecido (complexo: o que é tecido junto) de constituintes heterogêneas inseparavelmente associadas: ela coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Num segundo momento, a complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem nosso mundo fenomênico (2011, p.13).

Na agroecologia, os sistemas agrícolas tradicionais são valorizados e geram tecnologia e conhecimento. Trata-se de uma tecnologia receptiva à heterogeneidade de condições locais, sem procurar transformá-la, mas sim melhorá-la. Assim o conhecimento agrícola tradicional, mais os elementos da ciência agrícola moderna, não transformam nem modificam radicalmente o ecossistema (ALTIERI, 1999, p.60). Podemos dizer que esta nova ciência está tecendo junto os saberes tradicionais e o conhecimento cientifico. Não significa desprezar os conhecimentos científicos até então acumulados. Ao contrário, significa aprofundar os conhecimentos científicos sobre a natureza, seu comportamento, e verificar, com precaução, aqueles que podem ser alterados sem prejuízos à vida na Terra. (...)

Na agroecologia encontramos a valorização das diferentes dimensões não econômicas do alimento, as técnicas agroecológicas procuram a salvaguarda da vida, da cultura e do planeta. Encontramos assim a valoração do trabalho da natureza e o trabalho social o que se contrapõe a abstração do alimento-mercadoria.

Assim, as técnicas agroecológicas estão em total sintonia com o chamado que faz a FAO para este dia mundial da alimentação, promover políticas públicas que favoreçam a transição a este modo de produção pode permitir maior resiliência e adaptação as mudanças climáticas que estão acontecendo."

E você já tinha parado para pensar na alimentação dessa forma? Veja o artigo completo aqui. 



postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Quarta-feira, 05 de Outubro de 2016

Elaborado por pesquisadores do Brasil, Chile, México e da Alemanha, o "Atlas da carne - fatos e números sobre os animais que comemos" apresenta uma pergunta inquietante:

"você sabia que a produção de carne está relacionada ao desmatamento da Amazônia?"

A publicação mapeia a produção industrial de carne no mundo e como ela atinge recursos hídricos e solos, influencia as mudanças climáticas e aumenta a desigualdade. 

O Atlas registra ainda, como a criação animal em escala industrial traz consequências negativas, como a fome, já que a produção intensiva fica sempre em primeiro plano, em detrimento das necessidades nutricionais de cada país. O cercamento de terras para esse objetivo também causa o deslocamento de pequenos produtores, intensificando problemas sociais. A perda de biodiversidade é outra grave consequência desse avanço sobre as terras. O Atlas, portanto, indica esses e outros impactos do consumo de carne, seja ela bovina, suína, de aves e de outros tipos como búfalos e ovelhas.

 

A publicação busca disseminar o máximo de informação quanto aos efeitos da produção de carne e às alternativas a esse modelo predador.

Se o consumo de carne continuar crescendo, em 2050 agricultores terão que produzir 150 milhões de toneladas extra de carne, agravando os problemas. O Atlas da Carne estimula, assim, reflexões sobre como implementar uma pecuária "ecológica, social e ética" como contraponto ao agronegócio nos Estados Unidos, na União Europeia e na América Latina. Traz também alternativas ao atual modelo, como a de produzir e consumir a carne localmente, evitando o transporte por milhares de quilômetros. Com essas alternativas, o atlas mostra ao consumidor os trajetos que a carne percorre e o sistema que tem sido sustentado com o atual consumo.

No Brasil, gastam-se 15 mil litros de água por cada quilo de carne produzido! Esse é um dado que preocupa uma vez que a crise hídrica já bateu à nossa porta.Além disso, a criação intensiva, visando à exportação, leva ao uso de fármacos para erradicar doenças e acelerar a engorda, mas que acabam contaminando o solo e a água.

Mesmo assim, o consumo de carne tem aumentado mais rapidamente nos países emergentes e de forma cadenciada nos Estados Unidos e na Europa.

Esse material já está em sua terceira edição na Alemanha e já foi publicado em espanhol, inglês e francês.

O Brasil ilustra bem a cadeia de produção, pois é um dos maiores produtores de soja do mundo, grão utilizado sobretudo como ração animal. Ao consumir a carne, o cidadão ingere também agrotóxico, usado no cultivo desse produto agrícola. A sanha por terra de produtores de soja e outros levam, muitas vezes, à grilagem, à expulsão de pequenos agricultores e a assassinatos de líderes camponeses e indígenas no Brasil. A produção da soja também se desdobra em desmatamento na Amazônia, visto, em maior escala, no Cerrado e no Pantanal, que sofrem também com o avanço das áreas de pastagens, pondo em risco importantes biomas. A pecuária intensiva gera quase um terço dos gases de efeito estufa em nível global.

Apesar de toda essa preocupação, o agronegócio tenta abafar os efeitos adversos do nosso alto consumo desses produtos. Propagandas e embalagens  mostram imagens de animais alegres em fazendas felizes. Enquanto na realidade, o sofrimento dos animais, os danos ecológicos e os impactos sociais são varridos para debaixo do tapete. A realidade é que uma em cada sete pessoas no mundo não possui acesso adequado à comida. Nós estamos longe de garantir o direito internacionalmente reconhecido à comida suficiente tanto quantitativamente como qualitativamente.

Em muitos países, consumidores estão fartos de serem enganados pelo agronegócio. Ao invés do dinheiro público ser utilizado para subsidiar fazendas industriais, consumidores querem políticas razoáveis que promovam uma pecuária realmente ecológica, social e ética. Enquanto governos no mundo desenvolvido têm que mudar radicalmente de curso e enfrentar o poder do lobby da agricultura, países em desenvolvimento podem evitar repetir os erros cometidos em outros lugares. Conhecer os efeitos da produção intensiva de carne possibilita o planejamento para uma produção orientada ao futuro que seja social, ética e ambientalmente responsável. Ao invés de tentar exportar seu modelo falho, a Europa e os Estados Unidos deveriam tentar mostrar que a mudança é necessária e possível.

Há alternativas! A carne pode ser produzida mantendo os animais em pastos ao invés de confinados, produzindo e consumindo localmente ao invés de transportá-la por milhares de quilômetros. O esterco não precisa pesar sobre a natureza e na saúde da população local, ele pode ser espalhado pelos campos do próprio fazendeiro enriquecendo o solo.

Esse atlas convida você a viajar ao redor do mundo e oferece informações sobre as conexões globais feitas quando nós comemos carne. Somente consumidores informados e críticos podem tomar a decisão certa e demandar a mudança política necessária.

Confira a publicação completa aqui!



postado por Rafael Rioja Arantes em Sexta-feira, 30 de Setembro de 2016


 'The Perennial Plate' - O prato Perene livre tradução - é uma série semanal dedicada a compartilhar documentários com responsabilidade social e aventuras alimentares. O projeto é idealizado e conduzido pelo Chefe e ativista Daniel Klein e pela diretora de filmagem Mirra fine que viajam o mundo explorando os desejos, as complexidades e histórias que envolvem o sistema alimentar global.

Daniel aprendeu a cozinhar na pousada de sua mãe, e depois disso passou a trabalhar em restaurantes de renome em países como Espanha, França, Inglaterra, Índia e Nova York. Depois de se formar na Universidade de Nova York, Klein começou a também se aventurar com filmagens. Ele já dirigiu, filmou e editou projetos em várias áreas, e foi premiado pela criação de "O Prato Perene.

Mirra Fine, premiada artista gráfica e produtora nunca cozinhou em restaurantes chiques, mas tem uma paixão pelo assunto e é vegetariana como resultado do primeiro episódio da primeira temporada. Ela já trabalhou para diferentes firmas de marketing, para prefeitura de Nova York e já foi inclusive produtora de queijos antes de começar a filmar e co-produzir a série 'O Prato Perene'.      

O primeiro episódio foi divulgado em 2011, e de lá pra cá já foram gravados mais de 150 curtas divididos em quatro temporadas. Na primeira temporada, durante um ano o Chef Daniel explorou as aventuras culinárias, agricultura e caçadas na cidade de Minnesota. A segunda traz o resultado de uma jornada pelos Estados Unidos da América em busca de apreciar e entender de onde a boa comida vem. Atualmente, a dupla tem viajado para diferentes continentes para contar histórias sobre a comida de verdade.     

Os curtas exibem histórias dos mais diversos contextos, como por exemplo '20 Minutos da Cidade do Cabo' que retrata a história de como as hortas mudaram a vida de duas africanas moradoras de bairros da periferia. 'Um conceito muito antigo' fala da valorização da tradição e do terroir de uma vinícola na Argentina, enquanto 'Para o lugar e para os animais' fala sobre vegetarianismo e práticas animais conscientes.

Apesar dos áudios em inglês, os curtas podem ser assistidos com auto-legendas em português no canto direito inferior na opção "configurações".           

20 Minutos da Cidade do Cabo

Um conceito muito antigo 

Para o lugar e para os animais

Para conferir os mais de 150 episódios acesse o link




postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Terça-feira, 27 de Setembro de 2016

Em seu livro “O dilema do onívoro”, lançado há uma década, Michael Pollan diz que se soubéssemos das mentiras contadas pelo agronegócio, com certeza mudaríamos nossos hábitos alimentares.

Hoje podemos dizer que já conseguimos enxergar melhor essas mentiras da indústria, mas Pollan tem se perguntando se esse novo olhar, por si só, é suficiente.

Em uma entrevista, Pollan disse que o maior acesso à informação não mudou a postura dos consumidores quanto às escolhas alimentares, como ele esperava. Embora ele tenha apontado alguns avanços encorajadores, ele também argumentou que nosso sistema alimentar não está tão diferente de como ele descreveu em 2006. Para que o sistema alimentar de fato mude, serão necessárias algumas conversas consideradas difíceis pelo autor. Ainda é muito necessário discutir sobre políticas que levem ao consumo consciente, sobre os preços dos alimentos e sobre o papel daqueles que “advogam” pela causa.

Para comemorar a década de publicação do livro, confira essa entrevista com o autor.

Michael Pollan: A simples questão que me fez iniciar o livro – “De onde vem nossa comida?” – é agora uma questão para diversas pessoas. Mas eu não quero superestimar a influência do livro, pois o sistema alimentar de hoje é bem parecido com o de 10 anos atrás. Já as estratégias usadas pelos consumidores, para escolher seus alimentos, são um pouco diferentes das usadas em 2006.

A economia que abrange a produção de alimentos também tem mudado. Nos Estados Unidos a venda de alimentos orgânicos tem arrecadado 40 bilhões. Os consumidores também têm dado preferência a alimentos locais e artesanais.

A estimativa é de que hoje a economia que vai contra ao atual sistema alimentar movimenta cerca de 50 bilhões de dólares. Claro que isso não quer dizer que as empresas tradicionais não estão lucrando com a venda de orgânicos também, mas o fato é que eles tiveram que alterar a forma de produção, o que mostra novos rumos no ramo alimentício.

Um dos aspectos positivos de ter várias grandes empresas dominando o cenário da produção de alimentos é que os monopólios, às vezes, podem se mover rapidamente para mudar o sistema. Se você força empresas como McDonald’s, Walmart ou KFC, a mudar a forma de produção, você pode trazer mudanças muito rápidas para o sistema alimentar.  

Muitos dos valores que hoje parecem ser alternativos, como comprar ovos de galinhas que não vivem em gaiolas, em breve será um hábito comum. Eu acho que logo muitas redes de fast food vão começar a vender produtos orgânicos por marketing e muitas outras redes vão seguir essa tendência por perceberem que é uma estratégia que funciona.

É assim que a mudança vai chegar aos Estados Unidos, certo?

Nós temos a tendência de progredir a partir dos desafios, ao invés da revolução e da substituição.  

Não há dúvida de que você verá o mercado alimentício alternativo e tradicional se unirem. Resta será saber se as pessoas vão comemorar ou lamentar essa transição.

Eu frequentemente pergunto às pessoas: Como você se sentiria se o McDonald’s decidisse vender apenas produtos orgânicos? Isso seria uma vitória incrível. Imagina todos os campos que deixariam de receber agrotóxicos e todo o gado pastando na grama. Mas algumas pessoas sempre vão se assustar com essa fantasia. O movimento que luta pela comida de verdade é feito pela sociedade civil que busca novas estruturas para o sistema alimentar e, de certo modo, busca mudar o atual contexto econômico.

Algumas pessoas ficarão deprimidas quando os aspectos desse atual movimento social se tornarem comuns, batidos. Outras se sentirão plenamente realizadas – é assim que a mudança acontece nos EUA. Talvez isso seja o que podemos esperar de melhor.

Enquanto a consciência cultural em torno da comida mudou, nós não fizemos muito progresso mudar as coisas em Washington.

O verdadeiro desafio agora é trazer a luta do consumidor para o cidadão: levar as pessoas a votar em questões alimentares, para que os congressistas votem em melhorias para o sistema alimentar.

A indústria ainda tem forte influência sobre os comitês agrícolas no Congresso e a maioria das reformas que temos visto são realmente pequenas mordidas nas bordas.

Há dinheiro destinado para programas de alimentação escolar e de instituições públicas e de incentivo para a produção local. Hoje a lei para produção agrícola tem algumas boas disposições para as pequenas e diversificadas formas de produção, que nunca existiram antes.

Há muito dinheiro para promover a agricultura local.

Mas os legisladores aumentaram o investimento em sistemas alternativos, sem reduzir o incentivo aos métodos de produção tradicionais.

Vivemos um momento interessante, no qual o poder das corporações é tão pleno que o governo encontra problemas para quebrar esse ciclo, sem que haja um escândalo.

Um ponto postivo para esse movimento é que a fraqueza das grandes corporações tem sido a própria marca. É aí que você vê uma interessante atividade política da sociedade civil representada por grupos como a Coalizão de Trabalhadores de Immokalee, a Oxfam América e a Humane Society. Eles têm ido atrás dessas empresas, fazendo com que elas se sintam forçadas a mudar o próprio comportamento por medo de serem ridicularizadas. 

No final, porém, você tem que refletir sobre as mudanças que essas empresas sofrem. É necessário que exista uma regulamentação legal que de fato consagre essas mudanças. Temos muitos exemplos de empresas que fazem promessas atrativas, mas que deixam de ser cumpridas quando o público não está prestando atenção.

O McDonald’s recentemente prometeu que não comercializaria carnes de frango produzidas com antibióticos mas, em seguida, um repórter descobriu que eles tinham feito a mesma promessa há exatos dez anos. Será que a indústria mantém todas as promessas que fez à Michelle Obama, depois que ela está fora do escritório? E existe um mecanismo para garantir que eles de fato cumpram?

É importante votar com seu garfo, não ache que é trivial.

E isso é necessária, mas não suficiente, pois também temos que votar com nossos votos.

Uma coisa positiva que o governo poderia fazer é oferecer à agricultura orgânica, os mesmos subsídios que oferece à agricultura convencional. Ainda assim, é provável que o preço dos alimentos orgânicos não sejam tão competitivos quanto os produzidos pela agricultura tradicional, em parte porque esses preços baixos não refletem o verdadeiro custo do produto.

Nós pagamos pelos alimentos convencionais de outras maneiras: na saúde pública, em danos ao meio ambiente e em subsídios do contribuinte.

À medida que conseguirmos reformar o sistema, eu acho que vamos ver que o baixo custo foi uma ilusão, pois você não pode produzir alimentos mais baratos, sem que alguém pague o custo real. E esse custo tem sido pago pela saúde e meio ambiente.

Minha esperança é que as pessoas comecem a ver os alimentos como algo que vale a pena gastar mais dinheiro, quando possível. Afinal de contas, a maioria dos americanos vive em uma situação confortável e paga centenas de dólares em contas de telefone ou em canais de TV. Eu acho que uma fatia significativa do público consumidor está se acostumando com a ideia de que alimentos produzidos de forma alinhada aos seus valores pessoais, vão custar mais caro. Mas claro, que ainda existem pessoas que não serão capazes de arcar com os preços mais altos dos alimentos sustentáveis e é aí que surge a dificuldade. Como podemos permitir o acesso de todos à esses alimentos?

Penso eu que esse seja o maior desafio do movimento pela comida de verdade: democratizar o acesso à alimentos produzidos de forma sustentável e ética.

É por isso que é muito encorajador ver ativistas pela comida de verdade se envolverem com questões de trabalho, abordando os salários e não apenas a produção de alimentos. Há um reconhecimento de que uma grande quantidade de trabalhadores são empregados da indústria de alimentos e estão sendo explorados por ela. Se pudermos consertar o erro e aumentar os salários de quem não pode pagar por alimentos sustentáveis, isso permitirá que mais de nós sejam capazes de pagar o verdadeiro custo dos alimentos.

 

Tradução: Ana Maria Maya

Fonte: http://newfoodeconomy.com/michael-pollans-new-dilemma/



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 30 de Agosto de 2016

O Chef Barton Seaver em sua participação no TED Talks 2010 apresentou uma visão reflexiva sobre como associamos o consumo de peixes, moluscos e crustáceos a sustentabilidade. Além de chefe, Seave lidera o centro de Sustentabilidade de Frutos do Mar e Pescados no Centro para Saúde e Ambiente Global na Escola de Saúde Pública de Harvard.   

Barton questiona inicialmente o que representa a sustentabilidade em se tratando do consumo de espécies marítimas. O consumo deste tipo de proteína é bastante difundida como uma opção mais saudável e que traz benefícios a saúde, o que de fato é verdadeiro. O chefe ressalta entretanto, que muitas vezes não temos a noção exata dos efeitos provocados por aquilo que comemos. Quando falamos em animais terrestres, o impacto ambiental resultante é mais facilmente observado seja pelo desmatamento ou pelo comprometimento de recursos naturais. No caso dos oceanos, essa percepção é menos clara já que os impactos são causados pela pesca predatória e o consumo em larga escala de espécie do topo da cadeia, como por exemplo o atum amarelo, causando desequilíbrios no ecossistema.

Atuando como chefe, ele se diz na missão de proporcionar relações e também emoções através da comida, e se dedica especialmente a conscientizar as pessoas a saborearem peixes e frutos do com uma maior responsabilidade  ambiental. Um dos caminhos que ele aponta, é o consumo de espécies que não estejam em risco ou que provenham de sistemas de pesca com responsabilidade social e ambiental, mas alerta que só isso não é o bastante. Ele acrescenta de forma muito direta que um caminho é comer mais vegetais. Esse conselho se baseia na importância exacerbada que as pessoas dão para o consumo de carnes, desconsiderando outras fontes alimentares. A diversificação do consumo de espécies é um outro ponto por ele apontado que pode inclusive ajudar na restauração de ambientes marinhos.

As reflexões de (in)sustentabilidade que Barton coloca sobre a forma que comemos e produzimos, apesar de pertinentes ao ambiente marinho, tem um tema condutor central que se aplica a produção animal terrestre, frutas e hortaliças e inúmeros outros alimentos: O sistema alimentar.   

Assista na íntegra a palestra. O áudio esta disponível apenas em inglês, mas para legendas em português basta selecionar no canto inferior direito nas configurações:   


 

 

 

 



postado por Isadora Dias Nunes de Sena em Sexta-feira, 29 de Julho de 2016

O terceiro princípio do "Marco de Referência de EAN para Políticas Públicas" traz a importância da valorização da cultura alimentar local e respeito à diversidade de opiniões e perspectivas, considerando a legitimidade dos saberes de diferentes culturas. Pensando nisso o [Comida na Tela] de hoje trouxe o documentário "El Origen de la Abundancia", produzido pelo Ministério da Cultura da Colômbia em parceria com a Fundação ACUA e  o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola da ONU (IFIDA).

O filme narra a diversidade da comida amazônica dos índios Uitoto, Ticuna, Yaguas e Boras e foi feito no âmbito das políticas para conhecimento, conservação, proteção e promoção da alimentação tradicional da Colômbia.

Ao longo do curta é passado por meio dos relatos dos indígenas e das belas imagens a abundância e diversidade de comidas, proveniente de como essas culturas vivem em seu meio: a floresta. A importância do resgate e conservação de todo o sistema alimentar vem do lugar que ocupa dentro do conhecimento tradicional, onde tudo está ligado: a língua, as formas de produção e de comer, a estrutura da divisão de trabalho, os rituais e restrições alimentares, o calendário alimentar, entre outros.

Além disso, mostra a importância para os indígenas da comensalidade, e a ênfase na relação entre a comida ser natural e típica e o bem estar e saúde do corpo e da alma.

E você, já parou para pensar em que conhecimentos alimentares tradicionais da sua região podem estar se perdendo atualmente?

Veja aqui o documentário completo (em espanhol):



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