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postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 31 de Janeiro de 2017

Na coluna de hoje nós tratamos de um tema essencial para soberania e segurança alimentar e nutricional: a produção e cultivo de sementes.

Em sua tese de doutorado defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, a antropóloga Laura Rodrigues Santonieri investigou a interface entre sistemas agrícolas tradicionais, as instituições públicas de pesquisa e as políticas científicas que operam sobre a diversidade agrícola do país. Ao comentar alguns pontos do estudo em entrevista ao EcoDebate, a pesquisadora levanta entre outros aspectos, o papel da concentração de material genético na produção de sementes para atender aos interesses comerciais do agronegócio, e dessa forma, gera como consequência uma produção voltada para atender a demanda de commodities agrícolas em detrimento da diversidade de culturas.

No outro lado da equação, Santonieri identifica os agricultores familiares e tradicionais que se posicionam historicamente no papel de preservação das sementes e modos de plantio tradicionais, e enxerga a necessidade de aproximação entres estas comunidades e pesquisadores. Em suas palavras:

Imagem: EcoDebate 

"Existe uma clara falta de diálogo entre os atores envolvidos com o tema da agrobiodiversidade. Penso que é preciso construir pontes que permitam uma interlocução mais efetiva entre eles, tendo a conservação da agrobiodiversidade como um objetivo comum e possível”

Uma outra questão debatida é a produção alimentar para garantir o acesso as populações. Laura destaca que a demanda produtiva precisa, de fato, dar conta de garantir o abastecimento para uma significativa parcela da população, com especial atenção às comunidades em situação de insegurança alimentar. No entanto, o que muitas vezes acontece é a modificação genética de sementes para aumentar a produtividade e acrescentar nutrientes gerando como resultado uma semente infértil criando uma dependência de insumos entre os agricultores e os laboratórios que tem a patente das sementes modificadas. Esse paradoxo exemplifica justamente o fato de que comunidades rurais são afetadas pela falta de alimentos e renda.

No começo deste ano, nossa equipe traduziu a notícia de que agricultores da Tanzânia estão sendo proibidos de cultivar e trocar sementes crioulas sobe pena de prisão e pagamento de multas de mais de 200 mil euros. O absurdo resulta da ação de empresas que patenteiam sementes modificadas inférteis obrigando os agricultores a comprar novamente as sementes no início de cada safra. Esse monopólio impositivo é extremamente prejudicial pois tira à autonomia dos agricultores tanto no processo de plantio quanto na preservação da biodiversidade.

Com o intuito de preservar a riqueza, identidade cultural e ancestralidade das sementes e alimentos existem algumas iniciativas como por exemplo os Guardiões e Guardiãs de Sementes que atuam na criação de bancos comunitários para troca de sementes crioulas. Outro exemplo são as ações da Fundação Slow Food para a Biodiversidade como a Arca do Sabor e as Fortalezas de alimentos que valorizam alimentos regionais e ameaçados de extinção assim como criam processos para integrar a produção de  agricultores familiares e pequenos produtores.

Proteger as sementes tradicionais e adquirir alimentos locais advindos da biodiversidade, é garantir a segurança alimentar e nutricional das comunidades e a preservação da diversidade de espécies.             

          


 

 

 

 

 

  



postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2017

O [Você no Ideias] de hoje apresenta uma experiência realizada por uma equipe de residentes em Saúde da Família da Universidade Federal do Paraná, que problematizou a produção de alimentos com participantes de um Centro de Convivência, a partir dos conceitos de Soberania Alimentar e Segurança Alimentar e Nutricional. O objetivo dessa equipe foi estimular a proteção da cultura alimentar, criando ações que viabilizem a troca das sementes crioulas entre guardiões e guardiãs e identificando origens, saberes do cultivo e preparações culinárias.

O grupo de residentes aproveitou a horta do Centro e realizou dois encontros.

Para partilhar e construir conhecimento, o grupo de residentes formou uma “roda de conversa“, partindo-se do pressuposto que cada pessoa traz consigo conhecimentos que podem ser compartilhados, aprofundados e por fim aplicados com base nas suas demandas.

Em um primeiro momento, as participantes relataram experiências anteriores com o cultivo de alimentos, incluindo conhecimentos relacionados ao uso de agrotóxicos e possíveis malefícios, prevenção e controle natural de “pragas”, diversidades dos vegetais cultivados e a propagação de sementes. A fim de desconstruir a concepção benéfica sobre o uso dos agrotóxicos e possibilitar novas práticas e soluções nos seus cotidianos, foi entregue ao grupo um compilado de receitas caseiras de caldos com ingredientes naturais, como alho, pimenta e cinzas de lenha e carvão, para aplicar nas plantas e prevenir doenças.

Em vários relatos foi perceptível sentimentos e sensações que afloraram as lembranças, gerando um “saudosismo coletivo”, já que muitas pessoas afirmaram gostar da época que moravam em sítios, chácaras ou fazendas e, hoje, percebem que os alimentos plantados e colhidos por eles tinham excelente sabor.

O grupo lamentou a vinda para a cidade, que, na maioria dos casos, foi decorrente da compra da área daquela família por empresários e grandes fazendeiros.

O grupo de residentes percebeu o entusiasmo com a temática e propôs a realização de uma feira para troca de sementes crioulas e de mudas de plantas diversas.

A “Feira da mãe Terra para a troca de saberes, sementes e mudas” contou com as seguintes sementes levadas pelas participantes do Centro:

- fava olho de cabra preta,

- fava branca,

- camapu,

- quiabo,

- feijão guandu,

- melão São Caetano,

- café,

- abóbora moranga,

- endro.

Entre as mudas se observou: café, alecrim, citronela, arruda, cebola, coqueiro”.

A maioria das variedades citadas foi colhida pelas participantes em seu próprio quintal.

Muitas das sementes que foram trocadas e partilhadas na Feira foram levadas pelas residentes que conseguiram o máximo de variedades, fazendo contato com amigos, familiares e agricultores.

E ao fim dessas atividades é sempre gratificante perceber o feedback de participantes que percebem mais uma forma de autocuidado e de cuidar do mundo a sua volta. O grupo de residentes percebeu a importância de não limitarem suas ações na prática clínica com ações curativas, mas extrapolarem e começarem a promover saúde.  



Em 2017 vamos continuar valorizando as experiências de Educação Alimentar e Nutricional cadastradas na rede. Assim como a Veridiane Sirota, você pode ter a oportunidade divulgar uma experiência aqui no Blog. Cadastre suas experiências de EAN e compartilhe com outros usuários suas vivências, ideias e desafios. Vamos fortalecer e qualificar nossas ações pelo Brasil! 



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 01 de Março de 2016

Imagem: Rachel Bonino

Você já ouviu falar em sementes crioulas? No quadro de hoje vamos abordar o tema que vai além do ato de plantar alimentos.

O site Sacola Brasileira, dedicado a reunir alimentos e ingredientes assim como métodos tradicionais da nossa cultura alimentar brasileira, escreveu uma matéria esclarecendo os benefícios das sementes crioulas. Por definição, elas são diferentes das sementes comumente comercializadas por não passarem por nenhum tipo de tratamento químico (aplicação de fungicidas) ou modificação genética em laboratório (híbridas ou transgênicas).  

As crioulas estão comumente associadas à agricultura familiar e plantio de alimentos destinados a alimentação orgânica. Elas representam a preservação da biodiversidade de cada região brasileira, pois são fruto do cruzamento induzido de forma natural de plantas que se adaptam as condições do terreno e ambiente local, gerando um alimento com maior produtividade e qualidade. Um exemplo são as variedades de milho não transgênico conhecidas como adelaide, cunha, grande safra, jaboatão branco, ligeirinho ou aracaju, encontrados em comunidades com bancos de sementes.

As sementes crioulas são também conhecidas por outros nomes em diferentes regiões brasileiras, tais como: sementes da paixão, da gente, da resistência, da fartura, da liberdade e da vida. Estes nomes não são mero acaso, assim explica Emanoel Dias da Silva - agrônomo líder do núcleo de sementes da Ong AS-PTA – eles simbolizam uma bandeira de lutas dos agricultores agroecológicos que optam por uma produção alimentar mais saudável e sustentável.

Cultivar e plantar sementes deste tipo são tarefas não muito simples nos dias de hoje. As sementes crioulas foram desaparecendo progressivamente por conta das empresas multinacionais do agronegócio, que através da produção de agrotóxicos e da modificação genética de sementes obrigaram os produtores a se tornarem reféns de seus insumos químicos e sementes modificadas para produção.     

Desta forma, os agricultores que preservam e utilizam sementes crioulas fazem muito mais do que plantar alimentos saudáveis. Eles representam uma verdadeira resistência através da preservação da cultura e biodiversidade alimentar por meio das práticas agroecológicas em oposição ao agronegócio. Desde 2003 com a inclusão destas sementes na Lei de Sementes (n. 10.711), programas federais e estaduais têm financiado estratégias para incentivar os bancos de sementes através de agricultores denominados “guardiões de sementes”.

A preservação de sementes crioulas contribuí para soberania e segurança alimentar e nutricional da população, além de preservar tradições dentro de um sistema de produção socialmente justo respeitando o meio ambiente. 

Acesse a matéria original neste link.  


 

 



postado por Rafael Rioja Arantes em Sexta-feira, 19 de Junho de 2015

O Comida na Tela de hoje exibe o documentário brasileiro que conta a incrível aventura de Manoel Inácio do Nascimento e Ivana Cavalcanti, dois agricultores familiares assentados que resolveram percorrer 10.000 quilômetros de bicicleta em busca de sementes crioulas.

Estes dois destemidos moradores do sertão brasileiro tomaram a decisão de partir após observarem que não se conseguia mais encontrar sementes naturais na região por conta do avanço das monoculturas transgênicas, e que a solução seria pedalar pelo Brasil e outros países vizinhos em busca de trocas.

A escolha da bicicleta como veículo se deu por alguns fatores. Primeiramente o custo, era o único meio de transporte que eles conseguiriam arcar. O hábito de pedalar para resolver as coisas do dia a dia foi outro fator que contribuiu. O principal aspecto que pesou, no entanto, foi a autonomia. Nas palavras de Manoel:

“A bicicleta significa horizontalidade, a não hierarquia, com a bicicleta você se guia”.

Através desta jornada eles buscaram a criação de um banco de sementes crioulas volante, onde cada indivíduo serve como um multiplicador e disseminador. Foi a solução encontrada por eles para lidar com o desafio imposto pela dominação do agronegócio.

“A preservação das sementes é uma forma de resistência contra o agronegócio”.

A iniciativa do casal mostra como a monocultura extensiva e os transgênicos avançam cada vez mais colocando em risco a Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional de comunidades. A boa notícia é que alternativas que visam combater o modelo de produção hegemônica são possíveis.  

Assista:




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