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postado por Ramon da Silva Rodrigues Almeida em Terça-feira, 11 de Agosto de 2015

Valorizando o papel das mulheres roceiras, doceiras, poetisas, feirantes, trabalhadoras rurais e urbanas dentro do contexto da educação alimentar e nutricional o [Pensando EAN] e aproveitando 5ª Edição da Marcha das Margaridas que tem por lema esse ano: “Margaridas seguem em marcha por desenvolvimento sustentável com democracia, justiça, autonomia, igualdade e liberdade”abordará algumas reflexões da AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia: Mulheres roceiras, mulheres doceiras e as muitas mulheres que convivem numa só, sobre o papel dessas mulheres em seus contextos sociais e familiares com a alimentação.

É inegável o papel da mulher, seja nossa avó, mãe ou tias, dentro da cultura e na formação da identidade alimentar de nossas vidas. O papel das mulheres como produtoras de bens, gestoras do ambiente e portadoras de uma lógica não destruidora da natureza, já é visto como fundamental dentro de nossa sociedade e mostrou-se necessário a necessidade do empoderamento destas perante a sociedade, dando-lhes autonomia econômica, cutural e política.

Cora Coralina, doceira, poeta e agricultora, partilhou a ideia de que várias mulheres convivem numa só: “vive dentro de mim a mulher cozinheira (…); a mulher do povo (…); a mulher roceira, (…), trabalhadeira, madrugadeira, bem parideira, bem criadeira (…)”

Cora, escritora exímia e doceira de mão cheia, que sempre trouxe em suas poesias referências e um resgate ao comer, militou em diversas causas a favor da mulher, entre as quais, o voto feminino e sua história é revivida repetidas vezes sem perder a força e graça na vida de mulheres do campo.

"É o caso de Dona Juju, de 69 anos, moradora do município de Magé, Região Metropólitana do Rio de Janeiro. De família de agricultores, nasceu e foi criada na roça. Já foi cozinheira, costureira, garçonete, serviu cafezinho na rádio Tupi, onde até fazia comentários no ar, mas foi na lavoura que encontrou motivação e prazer. Juju conta das dificuldades em ser reconhecida como agricultora tanto pelo sindicato rural como pelas entidades governamentais de assessoria técnica. O caminho para se manter na roça começou pelos doces. Numa cozinha comunitária, junto com as amigas Lourdes e Guida, transformou sua colheita em geleias e compotas". 

"Mesmo em meio aos vários papéis que exercem no dia a dia, essas guerreiras não perdem a força nem o riso. Sempre sorriem quando olham para o futuro. E se são indagadas sobre o que é ser agricultora, as roceiras, doceiras e feirantes, descobrem-se poetas. A poesia também é para comer. Se a comida alimenta o corpo, as palavras alimentam a alma". 

De acordo com Renata Souto, assessora técnica da AS-PTA revela o quanto os quintais domésticos são relevantes para autonomia dessas mulheres e que a agricultura urbana deve ser incentivada: “O quintal é o lugar da segurança alimentar, da tradição, da complementação da renda da família e de estratégias de conservação da biodiversidade”.

"No lugar onde florescem frutos e folhas que alimentam e cuidam de suas casas, florescem as oportunidades para superar as condições desiguais das relações sociais de gênero". 

O reconhecimento da mulher na produção de alimentos vem sendo reivindicada e discutida com maior abrangência tanto nas organizações da sociedade civil e Estado e hoje inúmeras políticas públicas visam diminuir essas disparidades de gênero que existem, principalmente entre mulheres e homens do campo, ressaltando a sua importância em busca da segurança alimentar e nutricional e de uma alimentação saudável e adequada a todos. 

"Essa é uma luta constante, em que as mulheres, tal como escreveu Cora Coralina, vão descobrindo as muitas mulheres que convivem numa só. É a roceira, a doceira, a gestora do ambiente, a empoderada, a militante, a engajada, a guerreira, a batalhadora e vencedora, que estão sempre em marcha".

 
 



postado por Ramon da Silva Rodrigues Almeida em Terça-feira, 04 de Agosto de 2015

O [Pensando EAN] de hoje relembra as comidas de rua do passado que compõem a identidade alimentar e culinária brasileira, baseado no post do blog A Sacola Brasileira.

Hoje é comum comermos nas ruas, sentados em calçadas ou até mesmo em pé de frente à uma barraquinha de comida de rua.

Mas você sabia que essa prática é datada desde os tempos da colonização? As comidas de rua eram uma alternativa de alimentação e trabalho para os pobres e escravos de “ganho”, que trabalhavam fora da casa grande.

“As vendas de comidas na rua constituíram um tipo de comércio que fortaleceu o abastecimento miúdo de alimentos nas cidades, especialmente até a segunda metade do século 19 quando começaram as surgir os primeiros locais para se comer fora de casa, como restaurantes, cafés e confeitarias por influência europeia. O tabuleiro das quitandeiras era preenchido então por frutas, verduras e por refeições rápidas e petiscos. Comida barata, preparada com antecedência ou feita ali, na frente do comprador”.

Essas vendas de comida de rua aconteciam nos grandes centros do país e os escravos eram os principais protagonistas dessas vendas, como conta no post o professor Almir El-Kareh, autor do livro “A vitória da feijoada”:  “Estes escravos, além das tarefas propriamente domésticas, como cozinhar, lavar, passar, limpar e cuidar da pessoa de seus patrões, se entregavam a trabalhos ‘produtivos’, lucrativos, que geravam a renda de sua senhora, ou seja, à produção de bordados e, especialmente, de comidas para serem vendidas na rua, por ambulantes”.

“E com que tipo de comida eram preenchidos os tabuleiros das quitandeiras e doceiras? Fatiada, misturada e remexida por mãos negras, a comida ambulante tinha forte herança africana, especialmente em centros como Salvador e Rio de Janeiro, onde os contingentes de escravos foram historicamente maiores. Daí a ocorrência de muitos preparados identificados com a chamada “comida de santo” que pinçava aspectos da religiosidade com os orixás, com muito óleo de dendê e coco”.

“A combinação de espaço, tempo histórico, oferta de alimentos, diversos grupos etnográficos envolvidos, dentre tantos outros fatores determinaram as escolhas feitas à época para as primeiras comidas de rua do país”.

Depois dessa viagem ao passado alimentar do Brasil, é importante ressaltar a valorização e a contribuição dos diversos povos e suas culturas à culinária brasileira.

A chef Ana Soares propõe uma releitura daqueles antigos tabuleiros de comida e fazê-los voltar às ruas na cozinha de um food truck, até que seria uma ideia genial hein?!

 



postado por Ramon da Silva Rodrigues Almeida em Terça-feira, 28 de Julho de 2015

Você sabia que o Ideias na Mesa lançou recentemente a Revista nº 5: Abastecimento – como chegam os alimentos à nossa mesa?

E o [Pensando EAN] de hoje trará alguns trechos da entrevista com Carlos Eduardo Souza Leite, coordenador-geral da Sasop e coordenador da Comissão de Produção, Abastecimento e Alimentação Adequada e Saudável do Consea para a Revista do Ideias na Mesa.

O conselheiro acompanha o tema do abastecimento alimentar desde 2005, quando o Consea apresentou à Presidência da República a proposta de Política Nacional de Abastecimento Alimentar, demonstrando o quanto o abastecimento alimentar está relacionado com a nossa alimentação e integra a agenda de temas fundamentais de garantia da segurança alimentar e nutricional.

“Vivemos em uma so­ciedade capitalista na qual o mercado dita as normas do consumo e às vezes da produção. Por isso, vemos a importância de uma política de abastecimento alimen­tar discutir o papel regulador do estado nessa políti­ca”.

“Porque hoje nós estamos reféns das propagandas, das empresas transnacionais que definem que tipo de produto chega ao supermercado. E se você não tem o Estado como regulador de quem consome e de quem produz, e do que consumir e o que produzir, não va­mos conseguir chegar a uma política de abastecimento justa e que permita à população alimentar-se de forma saudável. ”

Ele pauta o imperialismo das grandes empresas de alimentos e elas nos ditam aquilo que a gente tem que consumir e o Estado deve criar estratégias de abastecimento, colocar em prática com mais eficácia a regulação e fiscalização da propaganda de alimentos.

“O cidadão tem o direito de escolher o que comprar e o que comer”

Ao final da entrevista Carlos Eduardo relaciona o tema abastecimento com o lema da 5ª Conferência Nacional de SAN: “Comida de verda­de no campo e na cidade”:

“O abastecimento é uma das principais “pontes” para o diálogo e a interação entre o campo e a cidade no que diz respeito a ali­mentação saudável. Criar mecanismos de interação entre quem produz e quem consome e descentralizar dos grandes (super)mercados o abastecimento é de­mocratizar o acesso aos alimentos e evitar o crescen­te monopólio dos grandes grupos que concentram o abastecimento nas cidades”.

Você pode ler esta entrevista completa e várias outras coisas sobre abastecimento alimentar em nossa revista, confira em nossa [Biblioteca do Ideias]

 


postado por Débora Castilho em Terça-feira, 21 de Julho de 2015

O [Pensando EAN] traz hoje o texto escrito pela pesquisadora Daniela Frozzi (PALIN/FioCruz Brasília) para o site da  AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia.

A pesquisadora traz a interpretação do texto de Freire para o universo da alimentação, aproximando os significados de “Eva viu a uva” com as dimensões e relações intrínsecas na leitura do mundo. Para Daniela, “trata-se de um conhecimento aprofundado, amadurecido, buscado e trabalhado, que amplie nossas visões sobre o assunto, e nos instigue questionamentos”.

Confira:

“Eva é uma personagem singular na alfabetização brasileira. Ela é a protagonista da frase que se tornou emblemática no aprendizado infantil: “Eva viu a uva”. O educador Paulo Freire utilizou esse exemplo para mostrar que antes de ler a “palavra” mundo é preciso ler o mundo. Assim, ele chama atenção para o fato de que não basta saber que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho. 

Desde 2009, a Lei de Alimentação Escolar (11.947) aperfeiçoou o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), indicando caminhos para que a escola pudesse ler o mundo a partir dos modos de produzir, distribuir e consumir alimentos. Duas inovações passaram a fazer parte do programa, que completará 60 anos em 2015. A primeira é que 30% dos alimentos para o preparo das refeições escolares devem ser comprados da Agricultura Familiar, de cultivo orgânico e agroecológico. A segunda é que a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) deva perpassar o processo de ensino-aprendizagem.

Assim, Eva tem a chance de descobrir uma diversidade de frutas, verduras e hortaliças saudáveis, livres de agrotóxicos, e que valoriza o trabalho de quem planta, em sua região. Aprenderá também que as feiras orgânicas e agroecológicas e os mercados locais são ambientes férteis para ler o seu mundo e, consequentemente, a sua sociedade. Em 2013, a Lei 11.947 acrescentou outros aspectos que ajudaria Eva a compreender seu contexto social. O alimento passou a ser considerado como uma ferramenta pedagógica (Resolução FNDE Nº 26). No entanto, para que a estudante faça essas conexões, há um longo caminho a percorrer. A começar pelo fato que a agricultura camponesa é invisibilizada por um conjunto de fatores econômicos e sociais, desde a colonização do Brasil e seu auge na modernização e industrialização da agricultura brasileira na década de 70.

Se Eva mora na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, não é fácil encontrar alimentos cultivados na sua refeição escolar. Uma ideia hegemônica é a de que o município do Rio de Janeiro não tem agricultura – ou seja, não há espaço delimitado legalmente para o cultivo local. Com isso, a compra de alimentos da agricultura familiar em espaços urbanos é dificultada. Os gestores da Alimentação Escolar passam a buscar alimentos fora do município e do Estado, conforme a orientação da Lei 11.947. Essa invisibilidade está registrada no Plano Diretor da Cidade do Rio ao excluir a área rural do município e considerá-lo exclusivamente urbano. Se partíssemos somente desta direção, os agricultores da região estariam impossibilitados de fornecer seus alimentos para o PNAE. Isso se dá porque os agricultores familiares precisam obter a Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP), documento de identificação para acessar políticas direcionadas a eles. Se esse obstáculo não estivesse sendo vencido com luta, Eva continuaria vendo somente a uva [...]”

Daniela conclui o texto dizendo:

“Seguindo os ensinamentos de Paulo Freire, não basta Eva ver a uva. A mobilização social vem mostrando a potência de outros modos de ver, produzir, viver e comer”.

Para ler o texto completo clique aqui.

 



postado por Débora Castilho em Terça-feira, 14 de Julho de 2015

O texto dessa semana para o [Pensando EAN] é um trecho da entrevista com Maria Emília Lisboa Pacheco, publicada na Revista Ideias na Mesa nº 2. Maria Emília é presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), é antropóloga e participa do núcleo executivo da Articulação Nacional de Agroecologia.

 

 

Vale a pena conferir suas reflexões:

“O Brasil passou por mudanças profundas na produção, na distribuição e no consumo de alimentos. Não é mais possível compreender a obesidade com a abordagem restrita da medicalização. É preciso compreendê-la como um problema intersetorial. O diálogo com outras percepções ajuda a entender a complexidade da obesidade, quando vemos, por exemplo, a relação entre abastecimento e saúde.

É preciso pensar na prevenção da obesidade do ponto de vista dos sujeitos de direitos. Para promover modos de vida saudável, é preciso entender o significado do excesso de peso para diferentes segmentos: os indígenas, as comunidades tradicionais, a população urbana...

Para a obesidade passar a ser uma preocupação coletiva, é preciso afirmar possibilidades. O foco da mobilização tem de estar num processo educativo, de adesão da sociedade para analisar e refletir: “Como está a minha alimentação?”

A obesidade não pode ser considerada um resultado de escolhas individuais: é uma questão complexa que deve envolver vários campos do saber e setores do governo. Para ser enfrentada, exige mobilização popular e vontade política”.

Veja a entrevista completa e leia mais sobre o assunto na Revista Ideias na Mesa nº 2:

 

 


postado por Ramon da Silva Rodrigues Almeida em Terça-feira, 30 de Junho de 2015

O [Pensando EAN] de hoje traz o TEDxLaçador da jornalista Fernanda Danelon, que propõe uma revolução no Brasil, que já vem acontecendo de forma silenciosa em diversas cidades ao redor do mundo todo, conhecida como “do prato ao prato”.

Essa revolução começa na transformação do próprio lixo em comida através da compostagem dos resíduos orgânicos produzidos em nossas casas, promovendo ações e iniciativas diretas e indiretas de educação ambiental em conjunto com a educação alimentar e nutricional, como por exemplo as hortas urbanas.

“Cada brasileiro produz 1kg de resíduo orgânico por dia, sendo assim são 200 milhões de kgs gerados por dia em todo o Brasil”

A jornalista instiga-nos a não depender de políticas públicas ou ações governamentais para colocarmos em prática ações de mudanças. Entretanto respalda a importância do projeto “Composta São Paulo”, onde a prefeitura da cidade distribuiu 2000 minhocários para as famílias fazerem suas próprias compostagens.

 

E expõe dados de uma pesquisa que avaliou o projeto e revelou que 78% dos participantes mudaram seus hábitos alimentares e passaram a comer mais frutas e verduras, além de 1/3 destes começarem a construção de uma rede de trocas de experiências e o início de hortas comunitárias.

“Essas hortas acabaram virando espaços de convívio, de reocupação de fato da cidade, começou a haver muita troca”

“Começamos a descobrir plantas comestíveis não convencionais também, aquele matinho que cresce no meio da calçada e você não dá valor. Esse matinho não só pode ser muito rico nutricionalmente, como tem uma infinidade de receitas para fazer com ele”

“Nisso você começa a prestar mais atenção no que está comendo”

Fernanda ainda mostra a sua iniciativa de fundar o Instituto Guandu, que tem por missão compartilhar informação e conhecimento sobre meio ambiente e segurança alimentar através de hortas-escolas e da ecogastronomia, além de trazer soluções ambientais para os resíduos orgânicos gerados pelos restaurantes.

“O que nos une invariavelmente é o prato de comida, somos todos diferentes, mas somos completamente interdependentes”

Ela encerra sua participação de forma bela e inspiradora: “A revolução que a gente tanto quer começa na cozinha e comer pode e deve ser um ato político”.

Confira o vídeo da apresentação da jornalista Fernanda Danelon logo abaixo:



postado por Débora Castilho em Terça-feira, 23 de Junho de 2015

Hoje o [Pensando EAN] traz trechos de um artigo cientifico escrito por Rosa Wanda Diez Garcia. No texto a autora discute sobre a comensalidade contemporânea, focalizando particularmente o impacto nas mudanças alimentares urbanas, fundamentando-se em autores das Ciências Sociais que discutem a globalização. No artigo, Rosa Wanda, faz também uma abordagem sobre o processo pelo qual alimentos e serviços são desterritorializados e alcançam um caráter global. O artigo visa contribuir para o estudo sobre as mudanças alimentares e analisar outras dimensões, além das nutricionais, do que se denomina dieta afluente.

Segue alguns trechos do artigo:

“Em decorrência de novas demandas geradas pelo modo de vida urbano, ao comensal foi imposta a necessidade de reequacionar sua vida segundo as condições das quais dispõe, como tempo, recursos financeiros, locais disponíveis para se alimentar, local e periodicidade das compras, e outras. As soluções são capitalizadas pela indústria e comércio, apresentando alternativas adaptadas às condições urbanas e delineando novas modalidades no modo de comer, o que certamente contribui para mudanças no consumo alimentar.

Produto deste modus vivendi urbano, a comensalidade contemporânea se caracteriza pela escassez de tempo para o preparo e consumo de alimentos; pela presença de produtos gerados com novas técnicas de conservação e de preparo, que agregam tempo e trabalho; pelo vasto leque de itens alimentares; pelos deslocamentos das refeições de casa para estabelecimentos que comercializam alimentos – restaurantes, lanchonetes, vendedores ambulantes, padarias, entre outros; pela crescente oferta de preparações e utensílios transportáveis; pela oferta de produtos provenientes de várias partes do mundo; pelo arsenal publicitário associado aos alimentos; pela flexibilização de horários para comer agregada à diversidade de alimentos; pela crescente individualização dos rituais alimentares.

A globalização atinge a indústria de alimentos, o setor agropecuário, a distribuição de alimentos em redes de mercados de grande superfície e em cadeias de lanchonetes e restaurantes. A difusão da ciência nos meios de comunicação e o uso do discurso científico na publicidade de alimentos também exercem seu papel no cenário das mudanças alimentares.

A estandardização de certas instâncias das práticas e do comportamento alimentar facilitam as mudanças na alimentação que vão sendo incorporadas como parte do modo de vida, como conseqüência deste. Pressionadas pelo poder aquisitivo, pela publicidade e praticidade, as práticas alimentares vão se tornando permeáveis a mudanças, representadas pela incorporação de novos alimentos, formas de preparo, compra e consumo.

Para Dória (2002) a nossa culinária, composta pelas culturas indígenas e pelas heranças negra e ocidental ibérica, são por analogia, três línguas diferentes, três sistemas culinários irredutíveis uns aos outros e ainda desconhecemos de fato nosso repertório culinário dos últimos 500 anos por falta de interesse das elites dominantes, cujos olhares sempre se voltaram para a Europa e, mais recentemente, para os Estados Unidos, em uma perspectiva de imitação, reservando desprezo pelo nativo. Ao instigar uma gastronomia sustentada na criação e redescoberta dos sabores brasileiros, o autor coloca como desafio renovar a culinária de uma estrutura formada por sistemas culinários distintos. Este suposto caráter permeável da nossa cultura resultaria, pois, em uma capacidade de importar novas práticas e gostos, de gerar novas demandas, de assumir prontamente mudanças no modo de vida e de abandonar aqueles costumes e práticas que poderiam conformar uma identidade própria. Sejam quais forem as explicações para as mudanças sofridas nas práticas alimentares, é certo que elas engendram um novo padrão alimentar.

Se por um lado tal processo de globalização amplia a diversidade alimentar, por outro também a reduz, uma vez que circula um mesmo leque de opções alimentares próprias da globalização. As mudanças na alimentação devem ser entendidas no contexto sociocultural da urbanidade em seus determinantes objetivos e subjetivos. Como as diferentes culturas e, particularmente a nossa irão absorver em seu cotidiano alimentar essa diversidade de padrões (patterns)? Como eles se acomodarão e quais mudanças podem ser provocadas no repertório culinário de referência são questões que merecem ser investigadas para melhor se delinear a comensalidade contemporânea e assim aprofundar o conhecimento sobre os seus determinantes.”

O texto de Rosa Wanda traz reflexões que se alinham à ideia central do Novo Guia Alimentar para a População Brasileira. As recomendações propostas nos 10 passos para Alimentação Saudável valorizam alimentos regionais e locais, incentivando a redução de consumo de alimentos ultraprocessados (e globais), a importância de preparar seu próprio alimento, assim como comer com regularidade e atenção, em ambientes apropriados e, sempre que possível, com companhia.

Já parou para refletir sobre a influência da globalização na sua alimentação e na do Brasil?

 Leia o artigo na íntegra aqui!



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 02 de Junho de 2015

Hoje apresentamos o texto reflexão escrito pela Camilla Ceylão, Nutricionista, defensora do direito humano à alimentação adequada e integrante do Projeto RAIS/CO, OPSAN-UnB. Nele, é abordado uma reflexão mais profunda sobre o conceito de Alimentação Saudável que tem sido utilizado de maneira oportunista como estratégia de marketing pela indústria alimentar.

Muito se tem falado e polemizado, atualmente, sobre os excessos e absurdos cometidos pelas propagandas de alimentos não saudáveis. Mas por que pegam tanto no pé de algumas empresas que fazem propagandas tão bonitas e divertidas? Qual é o problema delas? Será que tem uma explicação para essa crítica toda?

Vamos tentar explicar citando alguns exemplos, como o daquela empresa que vende alimentos ultraprocessados embutidos e congelados e recentemente vem veiculando uma campanha intitulada “Crônicas da Vida Moderna”. A campanha mostra uma mãe e seu filho. A mãe aparece com um celular na mão, sendo convencida – por dados disponíveis na internet – de que ele pode comer aquele alimento, já que é feito “com 100% de peito de frango”. A criança comemora.

Fonte: MILC

Outro exemplo é a nova campanha da maior marca de refrigerantes do mundo, intitulada “Mesa da felicidade”, que incentiva o compartilhamento de refeições entre família e amigos. A propaganda mostra famílias felizes compartilhando uma refeição, regada pelo refrigerante, produto principal, da empresa.

Mas, afinal, qual é o problema? Bom, o problema é que essas propagandas só ajudam a reforçar um conceito simplista e insuficiente de alimentação saudável, levando as pessoas a acreditarem que alimentos ultraprocessados (cheios de gorduras, açúcares, sódio e aditivos químicos, que endossam um modelo injusto e insustentável de produção de alimentos) podem fazer parte de uma alimentação considerada saudável e, por isso, serem consumidos sem restrições. O que não é verdade.

Veja, no primeiro exemplo, considera-se que uma criança pode comer um alimento ultraprocessado, pois entre seus ingredientes está o peito de frango – alimento considerado saudável. Porém a propaganda omite algumas informações importantes e “esquece” de dizer que o peito de frango não é o único ingrediente do produto – ele contém também vários outros ingredientes que não podem ser considerados saudáveis – que o alimento contém grandes quantidades de sódio e que é pré-frito.

Fica a pergunta: considerando todos esses aspectos, o produto ainda pode ser consumido sem restrições, só porque contém peito de frango?

Já no segundo exemplo, o da campanha do refrigerante, valoriza-se o compartilhamento de refeições, que vem sendo apontado por diversas pesquisas nacionais e internacionais, e inclusive pelo Ministério da Saúde, como uma prática saudável. Porém, a campanha peca ao relacionar esta prática a um produto ultraprocessado e, sabidamente, não saudável.

É importante saber que a alimentação saudável é composta por alimentos de verdade, aqueles que contêm e fornecem nutrientes, que são produzidos de forma social e ambientalmente justa, que estão livres de contaminantes físicos, químicos, biológicos e de organismos geneticamente modificados, que respeitam a cultura popular local, que são combinados e preparados com atenção, consumidos de forma regular e, de preferência, em boa companhia.*

Perceba que todos esses aspectos juntos influenciam a saúde e o bem-estar. Alimentação saudável é muito mais do que a ingestão de calorias e de nutrientes.

Assim, uma vez que se entende a alimentação saudável como algo muito mais complexo e amplo do que vem falando por aí, é possível perceber que o problema dessas propagandas está nos valores e interesses por trás do discurso bonito e divertido – porém insuficiente e pouco honesto – sobre a alimentação.

A utilização desse discurso tem se mostrado como uma boa estratégia de marketing e vendas para a indústria alimentícia, que conquista cada vez mais espaço na mesa das famílias brasileiras. Notícia boa para eles, porém preocupante para a nossa saúde.”

Acesse a fonte da notícia neste link. 


*Para saber mais sobre alimentação saudável, recomendamos a leitura do Guia Alimentar para População Brasileira, elaborado pelo Ministério da Saúde em parceria com o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo e com o apoio da Organização Pan-Americana da Saúde.



postado por Ramon da Silva Rodrigues Almeida em Terça-feira, 26 de Maio de 2015

É indiscutível que o assunto transgênicos, foi  uma das pautas que mais movimentaram as discussões no país nesses últimos dias, por conta da lei que retira o símbolo da transgenia na rotulagem de produtos que contêm componentes transgênicos.

Dessa forma o [Pensando EAN] apresenta uma entrevista dada durante o III Encontro Internacional de Agroecologia, por Vandana Shiva, física, ecofeminista, ativista ambiental e considerada a inimiga número um dos transgênicos.

Na entrevista, Shiva afirma que existe uma ditadura dos alimentos, onde poucas e grandes empresas controlam toda a cadeia produtiva. As quatro faces que determinam a comida, são todas controladas por grandes corporações. As sementes são controladas pela Monsanto por meio dos transgênicos; o comércio internacional é controlado por cinco empresas gigantes; o processamento é controlado por outras cinco; e o varejo está nas mãos de gigantes hipermercados, que tiram o varejo dos pequenos comércios comunitários e com conexões muito diretas entre os produtores de comida e os consumidores. 

Uma das maneiras de combate a esse monopólio  sobre a alimentação mundial é através do ativismo na hora de comer produtos saudáveis e de qualidade, reforçando que o ato de comer também é um ato político.

"A única maneira de reverter essa situação é cada pessoa fazer seu papel de recuperar a liberdade e a democracia do alimento. Afinal, cada um de nós come duas ou três vezes ao dia. E o que nós comemos decide quem somos, se nosso cérebro está funcionando corretamente, ou nosso metabolismo está saudável ou, se por conta de micronutrientes, estamos nos tornando obesos. Isso afeta todo mundo: os mais pobres porque lhes foi negado o direito à comida; mas até os que podem comer porque não estão comendo comida. Chamo isso de anticomida, porque a comida deveria nos nutrir. A comida mortal que as corporações estão trazendo para nós destrói a capacidade da comida de nos nutrir e no lugar disso está nos causando doenças".

Ela acredita que o modo de alimentar o mundo de forma segura é livrando-se das sementes transgênicas e do monopólio que essas empresas impõem aos consumidores.

 O compromisso com as pequenas fazendas e seus agricultores, proteger a biodiversidade, a terra, os próprios fazendeiros e a saúde pública fazem parte das soluções que podem garantir a segurança alimentar e nutricional da população do mundo.

"Essas empresas querem se apropriar da alimentação humana e da evolução das sementes, que são um patrimônio da humanidade e resultado de milhões de anos de evolução das espécies".

Defensora da agroecologia, Vandana enxerga esse movimento como uma saída para esse monopólio alimentar controlado pelas grandes corporações e modelo de valorização à diversidade de alimentos existente no mundo, enfatizando que os mecanismos científicos de produção de alimentos estão defasados.

"Os antigos mecanismo da ciência são como um dinossauro. Temos que ter um olhar que valorize os modos de produção tradicionais. A agroecologia tem os recursos e o mundo está acordando para isso".

Dessa forma propõe o repensar todo o sistema que compõe a produção de alimentos, mudar da agroindústria para a agroecologia, mudar da distribuição global para uma distribuição local e mudar de um sistema violento para um sistema pacífico, que inclua a comunidade nos processos produtivos.

"O modelo agroecológico caracteriza-se  pela diversidade, conhecimento popular, o melhor da ciência, e levando efetivamente a comida às pessoas".

"Podemos ir do industrial e global para ecológico e local".

Veja toda a entrevista no vídeo abaixo: 

 



postado por Maína Pereira em Terça-feira, 19 de Maio de 2015

Ontem foi lançado o novo curso de autoaprendizagem da rede que tem como objetivo estimular o desenvolvimento e a implementação de ações de Educação Alimentar e Nutricional na rede de proteção social básica do SUAS. Se você ainda não conheceu é acessar a página do curso aqui!

Todo o conteúdo do curso foi baseado nos Cadernos Teórico e de Atividades “Educação Alimentar e Nutricional: O Direito Humano à Alimentação Adequada e o Fortalecimento de Vínculos Familiares nos Serviços Socioassistenciais”, disponíveis em formato PDF na Biblioteca do curso.

A fim de estender as reflexões sobre o tema abordado, apresentamos hoje, aqui no [Pensando EAN], um relato de Lélia Nunes* sobre sua experiência em utilizar este material em ações educativas para os usuários do Centro de Referência de Assistência Social de Barbacena, Minas Gerais.

Confira:

“Às vezes militamos por uma causa, no caso pelo “Direito humano à alimentação adequada”, nos conselhos e nas Conferências e quando somos inseridos no serviço e assumimos esse papel no dia a dia, vem uma sensação de impotência diante da responsabilidade de trocarmos experiências e compartilharmos saberes para avançarmos nesta direção. Vivemos uma sensação inicial de não saber por onde começar a realizar o trabalho, quais temas, em quais momentos, como estabelecer as parcerias intersetoriais... é muita vontade de ver as coisas acontecerem e os desafios são muitos. Com o tempo, vamos vencendo cada um deles e torna-se possível vivenciar mudanças gratificantes, inclusive em nós mesmos. Foi isso que senti quando me tornei nutricionista da assistência social de um município do interior de Minas Gerais, e talvez, não seja a única.

O trabalho apresenta-se e, com ele, inicia-se a busca por um caminho, por redes colaborativas, por materiais de apoio ao processo de trabalho. A base teórico-prática para alcançar os objetivos é das mais sólidas, a Educação Alimentar e Nutricional. Começando por aí que encontrei a Rede Ideias na Mesa e que tive contato com o material de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) para serviços socioassistenciais, que estava ainda em consulta pública. Foi um alento encontrar várias formas de abordar os temas, com atividades específicas para cada ciclo da vida, que experimentamos, inicialmente, nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS). As ações foram desenvolvidas por mim e por outra nutricionista, com apoio de toda a equipe do CRAS e eram adaptadas à realidade local e oferecidas aos usuários em formato de oficinas temáticas, grupos e ciclos de intervenções durante as oficinas de artesanato, recreação, capoeira, etc.

Algumas atividades que vivenciamos foram “de onde vem os alimentos”, “descobrindo os alimentos por meio dos sentidos”, “cesto saudável”, “prato saudável”, “mitos e verdades” e “refeições saudáveis”. As estratégias contidas nas abordagens propostas foram de grande valia para a prática de EAN nos CRAS, pois traziam a metodologia e os materiais de forma bem detalhada, o que facilitava a replicação, adaptação e execução da atividade; permitiam trabalhar com todos os ciclos da vida, inclusive com propostas intergeracionais; e eram ativas, o que suscitava uma maior participação e envolvimento, notada por meio da motivação em estarem ali e relatarem suas vivências.

A experiência foi muito positiva, tanto para nós, quanto para os usuários, pois possibilitou e incentivou compartilhamentos de saber e reflexões sobre o ato de comer em toda sua complexidade. Os usuários participavam de forma ativa nas dinâmicas, contavam muitas histórias de suas rotinas alimentares familiares presente e passada, levavam hortaliças não-convencionais regionais e receitas para conhecermos, queriam perguntar tudo sobre alimentação, anotavam os temas que gostariam que fossem abordados nas próximas iniciativas e criavam vínculos conosco. Foi possível notar mudanças nos conceitos relacionados à alimentação e nutrição dos mesmos, em suas falas no decorrer das atividades ou por meio do relato de uma atitude diferente na rotina alimentar, inclusive das crianças.

Foi uma boa escolha aproveitar a leitura e as propostas dos Cadernos Teórico e Metodológico de EAN para uso nos serviços socioassistenciais, espero que minha experiência ajude e/ou incentive outras nutricionistas e ou outros profissionais envolvidos com EAN a replicarem os conceitos e atividades. E espero que, com o tempo, essas publicações possam ser ampliadas com ainda mais ideias, porque são sempre bem-vindas!”   

 

      lanche grupokids

*Lélia Cápua Nunes é nutricionista e foi conselheira suplente dos Conselhos Municipais de SAN de Juiz de Fora e Barbacena. Atuou como nutricionista na Assistência Social na Prefeitura Municipal de Barbacena e atualmente é professora da Universidade Federal de Juiz de Fora-campus avançado de Governador Valadares-MG.

 


 



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