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postado por Nathália Bandeira Vilhalva Gheventer em Terça-feira, 20 de Outubro de 2015

Durante o próximo ano, cerca de 795 milhões de pessoas continuarão a enfrentar a fome ou em termos biológicos, a desnutrição. Outros 2 bilhões de pessoas continuarão malnutridas devido a dietas desbalanceadas – outra forma de fome, que afeta principalmente crianças e mulheres em idade reprodutiva.

Paradoxalmente, enquanto isso ocorre, mais de meio bilhão estará sofrendo de obesidade e doenças crônicas não transmissíveis associadas, como o diabetes e o câncer, e mortes prematuras evitáveis. Não gosto de considerar o copo – talvez prato fosse mais apropriado – meio vazio, porém o Dia Mundial da Alimentação pouco parece ser um dia para celebrações.

Todos esses “números” têm nome e cara. Estas ocorrências e mortes são previsíveis – a maioria de fato é evitável – e são tão inaceitáveis quanto o caso da criança refugiada de dois anos, Aylan que morreu afogada após o naufrágio de sua embarcação. Tais situações não são naturais ou acidentais, são resultado de políticas equivocadas, ações e omissões por parte das autoridades públicas, do conselho local para com a comunidade global. E isso inclui o fracasso de efetivamente regular as ações de corporações transnacionais.

Desde a Cúpula da Terra, ocorrida no Rio em 1992, a retórica empresarial tem repercutido cada vez mais na arena política internacional, e especificamente nas Nações Unidas. Corporações têm se posicionado como parte da solução para os desafios globais, como a mudança climática, destruição ambiental, pobreza e fome.

Em 2000, o Compacto Global das Nações Unidas foi criado com a alegação de estimular as Corporações Transnacionais a implementar políticas alinhadas aos direitos humanos, meio-ambiente e anti-corrupção. Um meio de evitar regulações inquestionáveis substituindo-as por iniciativas voluntárias, o Compacto Global não só serviu para mascarar as corporações, mas de fato entregou as chaves e abriu a porta para as Nações Unidas.

Posteriormente, em 2010, o Fórum Econômico Mundial lançou o “Global Redesign Initiative”. Isto explicita a visão de reestruturação da governança mundial, em particular das Nações Unidas, em uma plataforma multissetorial, na qual as corporações governam ao lado de estados e organizações da sociedade civil selecionadas – uma visão que já está chamando atenção do olhar atento das grandes empresas.

E com a crescente influência do setor privado na elaboração de políticas públicas, prioridades das transnacionais têm se infiltrado em áreas cruciais como a alimentação e nutrição. A grande indústria alimentícia e o agronegócio já influenciam significativamente na arena política, incluindo o tipo de solução que deveria ser  tomada  para combater a desnutrição.

Exemplos disso são iniciativas como a “Scaling Up Nutrition” e a “Global Alliance for Improved Nutrition”. Apesar de diferentes em natureza, as duas restringem nutrição como a interação entre o alimento e o corpo humano, com a participação de domínios técnicos e médicos, minimizando assim, o contexto socioeconômico e cultural no qual os seres humanos se alimentam. O perigo desta abordagem é que a compreensão da desnutrição é reduzida a “falta de nutrientes” que só pode ser corrigida com intervenções técnicas. Isso envolve principalmente a indústria de suplementos, nutrientes em cápsulas e pós – que não por acaso implicam em lucro para indústria.

Como levantado pelo “Right to Food and Nutrition WATCH 2015”, por trás da elaboração de políticas estão programas que são fortemente influenciados – e em alguns casos tecnicamente executados - pelo setor corporativo. Isso progressivamente exclui abordagens próximas às comunidades baseadas na promoção da produção local, dietas culturalmente diversificadas, que provaram sua adequação às comunidades de todas as formas.

No México, por exemplo, o governo estabeleceu o chamado “My Sweet Business” – Meu Doce Negócio, livre tradução - um programa de combate à fome no país, o qual foi fundado e tecnicamente apoiado pela Nestlé – uma corporação que não é bem vista pelas organizações de direitos humanos em detrimento de suas atividades.

Através deste programa, a corporação suíça treinou mais de 15 mil mulheres para produzir e vender sobremesas com produtos da Nestlé, os quais são altamente industrializados, e contêm altos níveis de açúcar além de não refletir a cultura alimentar Mexicana. Tudo isso ocorreu em um país onde meio milhão de pessoas morreram de diabetes nos últimos seis anos! Isso é um dos vários exemplos que demonstram as consequências negativas de se priorizar a agenda corporativa em detrimento das intervenções públicas para a nutrição que são firmemente enraizadas no âmbito dos direitos humanos.

Por sorte, existem exemplos que lutam contra esta influência. No Quênia, o governo resistiu ao lobby pesado que objetivava introduzir no país alimentos para bebês altamente industrializados. Ao invés disso, o governo seguiu o chamado da sociedade civil e adotou o “Breast Milk Substitutes (Regulation and Control) Act”. Como resultado, a amamentação exclusiva entre mães quenianas aumentou e contribuiu significativamente na redução da mortalidade infantil no país desde 2008 – de 52 para 39 a cada mil nascidos vivos.

Estamos atualmente em uma encruzilhada. Por um lado, a autoridade das Nações Unidas e da Carta Internacional dos Direitos Humanos requer governos que enfrentem a desnutrição como parte de sua obrigação para realizar o direito à alimentação e nutrição adequadas e garantir a prioridade e supremacia dos direitos humanos em detrimento de outros marcos legais e interesses corporativos. Por outro lado, nós temos poderosos setores, especialmente as transnacionais, que tentam intensificar seu controle sob o governo global, por meio de parcerias público-privado e plataformas multissetoriais – no final das contas – enfraquecendo o papel da ONU e de seus espaços políticos intergovernamentais.

Os setores governamentais precisam colocar em prática garantias que protejam políticas públicas de qualquer influência indevida de interesses comerciais. Os planos estatais devem abordar a produção de alimentos, processamento, fornecimento, comercialização, consumo, segurança e nutrição humana de uma forma coordenada - e isso deve ocorrer em coerência com o quadro dos direitos humanos. Um primeiro passo para os países deve ser o de conceber e implementar políticas abrangentes e programas de apoio para desenvolver e fortalecer sistemas alimentares sustentáveis baseados nos direitos humanos que garantam alimentos do mercado interno e segurança nutricional.

E que compreenda políticas cultural e economicamente alinhadas que reflitam a realidade das comunidades locais, tais como a promoção e proteção dos sistemas alimentares localmente envolvidos em métodos agroecológicos sustentáveis. Isso favoreceria muitos dos 795 milhões, que permanecerão desnutridos se os estados não mudaram drasticamente suas abordagens e estratégias.

De maneira alguma as políticas de alimentação e nutrição favorecerão as comunidades se os grupos da sociedade civil não tomarem frente. Acordos internacionais, especialmente aqueles que impactam os setores de alimentação e agricultura, não devem ser acordados se entram em conflito com a obrigação dos estados de garantir o acesso aos direitos humanos e se são negociados sem – adequada – consulta pública de populações potencialmente afetadas. Interesses privados nunca podem ser permitidos e sobrepostos ao direito humano adequado à alimentação adequada e nutrição.

Estados e povos em todo o mundo precisam levantar suas vozes e defender a longo prazo políticas públicas estruturais que se alinhem com os direitos humanos e a soberania alimentar. A alimentação e nutrição das pessoas não é mercadoria. 

Confira o texto na fonte original escrito por Flavio Valente


 

 



postado por Nathália Bandeira Vilhalva Gheventer em Terça-feira, 13 de Outubro de 2015

O [Pensando EAN] de hoje traz uma reflexão importante não só à prática profissional do nutricionista e de outras áreas da saúde em geral, mas de toda a sociedade, que atualmente, vive um momento de inúmeras dúvidas e anseios a respeito da alimentação.

Escrito por Elaine de Azevedo, e publicado em 2015, “ Liberem a dieta” é um artigo extremamente crítico reflexivo que questiona determinados ideais que a comunidade científica estabelece na população, com a supervalorização de nutrientes em detrimento de alimentos, além de uma imposição de modelo baseado na restrição e na individualização. Muitas vezes, valores que são extremamente importantes na construção de um hábito alimentar, como cultura e história, memória afetiva, territorialidade, sociabilidade, dentre outros, são esquecidos ou não recebem a devida atenção.

“A ciência da Nutrição, influenciada pela perspectiva da reflexividade, abriga incontável número de restrições e práticas alimentares que contribuem significativamente para o campo das controvérsias cientificas. É quase impossível acompanhar a velocidade de surgimento de tais práticas – muitas delas de caráter dietoterápico, restritivo e reducionista – frequentemente desconectadas da dimensão socioambiental e cultural que transpassa o conceito contemporâneo de alimentação saudável. Essa visão, que influencia fortemente a área clínica da ciência alimentar, supervaloriza os nutrientes em detrimento dos alimentos, fomenta a ideia de uma alimentação individualizada e biologicista, desprovida de valores ambientais, culturais, políticos e sociais.”

A autora reforça ainda que essa proibição exacerbada desprovida de prazer e tradições sociais, demoniza alimentos que estão enraizados culturalmente em um povo, podendo gerar angústias, preocupações e reflexões um tanto quanto desnecessárias.

“A ideia de expor analiticamente as partes nutricionais e prejudiciais do alimento expressa uma perspectiva racionalista e pessimista que não cabe na ideia de uma refeição aprazível, significativa e compartilhada. ”

Além disso, ela reflete que muitas proibições e repressões que atualmente fazem parte constante da mídia como o glúten, a lactose e o ovo parecem causar muito mais furor nutricional e impacto do que outros temas importantes, como agrotóxicos, conservantes, estabilizantes e inúmeros aditivos químicos e sintéticos utilizados para baratear custos e aumentar a vida de prateleira dos produtos.

Não só isso, mas como muitas vezes, essas censuras possuem uma origem econômica e de mercado por trás.

“Em terras tupiniquins, na década de 1960, aconteceu a talvez mais peculiar demonização de um alimento – o leite materno. Com o suporte de estudos científicos apoiados pela indústria alimentar e pela agricultura moderna baseada na extensiva monocultura de grãos – base da ração que promovia o aumento da produção de leite bovino – pediatras passaram a recomendar a substituição do leite “fraco” das mamíferas humanas pelo leite desidratado e maternizado. Esse descuido científico foi rapidamente retificado quando o pó passou a ser misturado com água de baixa qualidade e os bebês adoeciam por causa de diarreia e por falta das imunoglobulinas, protetoras da imunidade infantil. Reverteu-se a situação entre os especialistas, mas até hoje o país investe em campanha de aleitamento materno para sensibilizar mamíferas pretensamente esclarecidas que o seu leite é o melhor para seu filho.”

Elaine de Azevedo conclui o texto ressaltando a importância de se repensar no conceito de alimentação saudável. Deve-se também atentar a uma exagerada culpa e temor do comer, que inclusive, podem levar a maiores distúrbios como anorexia e bulimia. Não só isso, como aspectos culturais, sociais, ambientais e históricos devem ser levados em conta.

“Na busca de uma dieta individualizada e especifica para suas necessidades, os seres humanos comem só à mesa e evitam relações sociais com aqueles que não compartilham suas crenças alimentares. Além de estimular a culpa e o medo de comer, esse tipo de ortorexia contribui para a desagregação social e fomenta a intolerância. Alimentos tradicionais e verdadeiramente naturais vêm sendo demonizados sob premissas científicas especulativas, reducionistas e descontextualizadas sem que se questionem os elementos culturais, a origem, a qualidade, as mudanças que sofreram e seu desequilíbrio quantitativo na dieta. As próprias vítimas do sistema agroalimentar são culpabilizadas e promove-se o desequilíbrio ambiental e a exclusão social de agricultores familiares que produzem comida e alimentos tradicionais.”

O diálogo precisa ainda atingir profissionais da saúde, além de outros agentes que participam ativamente na construção e identidade cultural.

“ Isso porque todas as ciências da saúde hoje lidam prioritariamente com a patogênese e com as enfermidades. São essenciais numa sociedade cada vez mais doente, mas é tempo de repensar que para promover alimentação saudável é preciso compartilhar a construção das dietas saudáveis, da salutogênese e da promoção de saúde com agricultores familiares, com povos e comunidades tradicionais, com agricultores ecológicos, com ambientalistas, com cientistas sociais, geógrafos e historiadores, com chefs e cozinheiros e todos aqueles que ainda se propõem a manter algum tipo de vínculo com o conhecimento tradicional, com a comida afetiva e com a ideia de compartilhar alimentos saudáveis do ponto de vista socioambiental.”

Para saber mais, veja o texto na íntegra: http://goo.gl/Rp9Dha



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 06 de Outubro de 2015

Apresentamos no quadro de hoje um artigo escrito pela Lígia Amparo Santos - Doutora em Ciências Sociais - e publicado na Revista de Nutrição em 2013. Nele, Lígia propõe uma reflexão sobre avanços e desdobramentos para EAN a partir do lançamento do Marco de Referência. Dentre os aspectos positivos a serem destacados no marco, Santos comenta a respeito da construção coletiva do documento que contou com significativa contribuição da sociedade civil.

Ela também valoriza em seu artigo a dimensão cultural da alimentação:

“No que se refere aos aspectos culturais da alimentação, a compreensão do ato alimentar como uma prática social que traz à tona as dimensões socioculturais, valores simbólicos, afetivos e sensoriais da alimentação, do alimento e do comer, bem como a valorização das diferentes expressões de identidade e cultura alimentar e do fortalecimento de hábitos alimentares regionais, já é assegurada no corpus das políticas públicas de alimentação e nutrição produzidas particularmente no decorrer da primeira década deste século.”

No trecho seguinte, Lígia contextualiza o fortalecimento do conceito de tradições alimentares no âmbito da nutrição, ao passo que gastronomia e a nutrição como ciência reconhecem e valorizam esta importante dimensão:

“O que mais interessa neste processo de alargamento das formas de ver e pensar a tríade do comer, alimentar e nutrir é como elas dialogam com as dimensões forjadas pela biomedicina, eixo central da Ciência da Nutrição desde seu nascimento. Em outras palavras, como promover mudanças nas práticas alimentares dos sujeitos sob a ótica do saudável e, ao mesmo tempo, respeitar os seus hábitos alimentares, as tradições e a cultura alimentar de um povo? Essa questão, um dilema talvez, que percorre as políticas e as práticas, irá encontrar na educação alimentar e nutricional um nó górdio; cabe, portanto, refletir sobre o tema. Dentre inúmeros outros aspectos, compete também pensar que o principal "instrumento" da educação alimentar e nutricional é o diálogo, elemento fundante de existência humana coletiva, e que seu sucesso depende fundamentalmente da agência dos sujeitos. Para além dos corpos-máquinas, norteados pelo conhecimento biomédico, são sujeitos que vivem em relação, produtos e produtores do seu tempo e do seu lugar no mundo. A existência humana concreta desafia os saberes disciplinares tal como a ciência hegemônica se estruturou, compartimentalizando os conhecimentos em categorias excludentes, a exemplo de natureza versus cultura, social versus biológico, comer versus nutrir. Ao considerar que a EAN se configura no encontro entre sujeitos e que tais dimensões se apresentam entrelaçadas no cotidiano das nossas práticas, pode-se inferir que esse diálogo de saberes se constitui uma das maiores provocações que o Marco traz para a sociedade brasileira. É desse modo que o cenário das práticas educativas dá visibilidade à insuficiência do cartesianismo e se torna um terreno fértil que produz objetos de estudos da EAN. Assim, um desafio é construir uma Ciência da Nutrição que dê conta ao mesmo tempo das diferentes dimensões implicadas nas práticas alimentares dos sujeitos.”

Em relação ao papel da EAN dentro da Universidade, é abordado a inserção dentro do tripé Ensino, Pesquisa e Extensão, e foi observado a necessidade de se trabalhar a EAN como uma prática mais participativa e emancipatória por parte dos educadores. O Marco como o próprio nome diz, serve como um elemento norteador dentro de diferetes esferas para se desenvolver a temática. 

Lígia conclui o artigo da seguinte forma:

“Os comentários aqui traçados são esperançosos e têm como perspectiva que o Marco de Referência de EAN para Políticas Públicas possa vir a ser um documento vivo para o campo e que essa culminância seja um começo. Espera-se que ainda possa ser tratado como também um"marco" divisor de águas no qual nós, astrônomos e cartógrafos da alimentação e da nutrição, possamos navegar com mais segurança. Que seja uma bússola que, com frequentes ajustes, assegure a possibilidade de desbravar novas terras e que possa contribuir para o nosso objetivo: garantir à sociedade brasileira o direito a uma alimentação adequada e saudável”.

O Marco de Referência foi lançado no final de 2012 e este artigo publicado em um momento inicial ao lançamento do mesmo, contextualizando o cenário da época. Três anos se passaram desde o lançamento, e de que maneiras o Marco contribuiu e continuará a contribuir para a consolidação das práticas em Educação Alimentar e Nutricional referidas?      

Clique aqui para acessar o artigo na íntegra.


 

 



postado por Ramon da Silva Rodrigues Almeida em Terça-feira, 29 de Setembro de 2015

Passados quase dois meses da V Marcha das Margaridas, que aconteceu em nos dias 11/12 de agosto e reuniu em Brasília, cerca de 70 mil mulheres em marcha por um desenvolvimento sustentável com democracia, justiça, autonomia, igualdade e liberdade, o [Pensando EAN] vem trazendo uma entrevista reflexiva sobre o papel das mulheres na construção de um novo modelo desenvolvimentista, ambiental e alimentar.

Esse modelo baseia-se na agroecologia e em suas práticas, subsequentemente com produção e consumo sustentáveis de alimentos, que atenda os princípios da segurança alimentar e nutricional e principalmente na autonomia social, política e cultural da mulher.

A Marcha das Margaridas completa dez anos no ano de 2015 e ainda se consagra como um dos principais movimentos de mulheres que articulam e dão visibilidade às questões das mulheres rurais frente à temas como cidadania, direitos à saúde, segurança alimentar e nutricional além do reconhecimento legal dos seus trabalhos produtivos dentro do roçado, quintais, hortas e outras áreas de cultivo.

 

A mulher ainda é a grande promotora da alimentação dentro de suas famílias, portanto a luta pela agroecologia tem seu protagonismo na busca de garantir uma alimentação saudável e adequada às suas famílias, na luta contra os agrotóxicos, transgênicos e ao modelo do agronegócio que monopoliza a questão alimentar no Brasil. 

Acompanhe logo abaixo a entrevista feita pela assessora de comunicação da ASA (Articulação Semiárido Brasileiro) Catarina de Angola dada por Beth Cardoso, integrante Grupo de Trabalho de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e do Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata de Minas Gerais (CTA-ZM) e coordena a Marcha das Margaridas:

Asacom - Por que estamos em Marcha?

Beth Cardoso – Até que todas sejamos livres a gente tem que estar em marcha! Estamos aqui na Marcha das Margaridas, principalmente, na luta pelo desenvolvimento sustentável, pela democracia, pela autonomia econômica das mulheres. Porque ainda assim temos muitas conquistas para as mulheres, principalmente para as mulheres rurais. Vivemos numa sociedade patriarcal, machista, onde o trabalho dos homens vale mais que o trabalho das mulheres, onde existe uma certa invisibilidade em relação ao trabalho das mulheres, as pessoas não reconhecem esse trabalho delas na agricultura. Existe uma confusão muito grande do que é o trabalho produtivo e reprodutivo das mulheres na agricultura camponesa, na agricultura familiar. O trabalho produtivo é o que gera dinheiro e o reprodutivo é aquele que garante a reprodução da vida, como lavar passar, cozinhar. A gente tem algumas conquistas, esta é a quinta Marcha das Margaridas e tivemos vários avanços, mas ainda temos muito que avançar. As mulheres ainda estão excluídas da maioria das políticas do campo. Precisamos de crédito, assistência técnica e extensão rural para as mulheres, precisamos de fomento pras mulheres cuidarem das suas hortas. Da produção do autoconsumo, que isso é a grande dádiva das mulheres pras famílias agricultoras, porque elas produzem para o autoconsumo e não recebem nada por isso e nem são valorizadas por isso. Então, acho que o governo tem que intervir nisso também, se falamos de um programa [como o] Brasil Sem Miséria, e quer acabar com a fome tem que ter um investimento nessa produção do autoconsumo, que pra mim é o que garante a agricultura familiar no campo até hoje. E temos que garantir muito mais, como creches. Não tem nenhuma creche rural até hoje, urbanas também não temos muitas, mas rurais são zero. Esse número é absurdo. As mulheres terem que levar os filhos para a roça, para a lavoura para poder trabalhar ou não ir pra lavoura e ter que ficar se virando para trabalhar enquanto o filho dorme é uma situação muito complicada ainda. Outra questão que eu acho que faz a gente marchar é a violência contra as mulheres. Se hoje nas cidades temos pouco atendimento às mulheres vítimas de violência, no campo isso é inexistente. Isso é uma dívida que a sociedade e que o governo tem com essas mulheres rurais.

Asacom – A Marcha reafirma que “Sem Feminismo não há Agroecologia!”. Por que é importante garantir essa discussão?

Beth – Sem Feminismo não há Agroecologia. Sabemos que são as mulheres que têm a iniciativa pela transição agroecológica. As mulheres têm preocupação com o alimento da família, dos filhos e por isso elas acabam mudando o sistema e mudam todo o sistema da família e da propriedade. E o cerceamento do direito das mulheres acaba também atrasando esse processo de transição agroecológica. Quando a gente [a ANA] sistematizou as experiências de mulheres no Brasil, vimos muitas experiências de mulheres que são simplesmente sabotadas pelos maridos e de uma forma violenta. Na sistematização de experiências do Nordeste, teve uma mulher que falou que ela começou com sua horta agroecológica, aí foi chamada para participar de uma feira e aí ela já estava envolvida numa rede de agroecologia, participando de intercâmbios e, num desses intercâmbios, o marido dela foi lá e colocou veneno na horta dela. Esse é a típica violência que as mulheres estão sujeitas quando praticam agroecologia, porque se isso fosse um sistema convencional de produção esse marido estava apenas ajudando ela. E, no entanto, não. Ele quis dizer: ‘olha, vamos acabar com essa palhaçada de agroecologia porque eu quero você dentro de casa e quero você submissa a mim’. Então, a violência também atrasa esse processo. E a gente tem que mudar o modelo. Não mudamos as coisas pela metade se queremos romper com esse modelo de sociedade. E assim como sem feminismo não há socialismo, sem feminismo também não tem agroecologia. Porque falamos da mesma coisa, é a gente romper com o modelo capitalista, romper com o modelo de desenvolvimento, é romper com o modelo de agricultura. E não fazemos isso sem olhar para as mulheres, sem valorizar o trabalho das mulheres, sem lutar contra a violência. São coisas que estão muitos ligadas. Por isso a gente sempre reafirma que Sem Feminismo não há Agroecologia, não tem jeito. Ou a gente olha para as mulheres, cria políticas públicas voltadas para as mulheres, valoriza o trabalho dessas mulheres do campo ou também não é agroecologia. Não é isso pelo menos que a gente prega enquanto agroecologia. Porque agroecologia não é a mudança do pacote convencional para o pacote orgânico, a gente está falando de mudanças nas relações, da forma também de como as pessoas se relacionam com a natureza. E aí não vai ser excluindo as mulheres que vamos mudar.

Asacom – Refirmando todos esses aspectos que você falou, a Marcha das Margaridas de 2011 também pautou o governo sobre a criação da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO). Como a gente olha para a Marcha mais uma vez como um espaço importante pra continuarmos pautando a implementação dessa política, mas também outras questões do campo da agroecologia?

Beth – Eu acho que isso é uma luta antiga, mas realmente 2011 foi quando foi feito o anúncio, na Marcha das Margaridas, da Política Nacional de Agroecologia. E como a agroecologia ela é muito importante para as mulheres, ela continua sendo pauta da Marcha das Margaridas. Esta é a maior manifestação do Brasil, maior manifestação de rua. Não tem uma passeata com mais de 70 mil mulheres em nenhum outro lugar do país. Um movimento que de quatro em quatro anos vem pra cá [Brasília-DF] e pauta o governo e o governo tem que dar sua resposta, porque na verdade não são quaisquer mulheres. Estamos falando das trabalhadoras rurais que alimentam este país. Hoje até o pessoal falou pra um editorial de um jornal e disse assim:  ‘se não fossem as margaridas a gente estava comendo era soja’. Porque quem se preocupa com a produção de alimentos realmente são as mulheres. Então, essa resposta que o governo dá para a Marcha das Margaridas demonstra a importância dessa categoria também para o governo. E eu acho que a Marcha continua sendo esse espaço, onde a gente tem que aproveitar e continuar pautando os avanços na Política Nacional de Agroecologia. Estamos atualmente na construção do Planapo 2, o segundo Plano Nacional de Agroecologia, e essa é a oportunidade que temos de pautar isso. Porque pautamos isso na CNAPO [Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica], pautamos nas conferências, em diversos espaços. Mas aqui a gente tem mobilização, aqui a pressão é muito maior. Pra mim aqui é um espaço privilegiado da gente negociar as políticas pra agroecologia no Brasil.

Asacom - Você acha que, de fato, é importante a gente continuar reafirmando o que a gente construiu nos últimos 15 anos com relação às políticas de convivência com o Semiárido?

Beth – Sem dúvida, porque se não conseguimos, de fato, oferecer ao Semiárido as políticas necessárias para produção da agricultura estamos esvaziando essa vocação agrícola que o Semiárido tem e teve durante todos esses anos. O povo do Sertão está produzindo e produzia mesmo antes de qualquer política pública voltada para lá. Eu acho que a gente tem que cada vez mais garantir o acesso da agricultura do Semiárido às políticas e a toda necessidade que essa agricultura tem. E essas políticas como, por exemplo, o PAA [Programa de Aquisição de Alimentos] foi uma política fundamental para as mulheres. Várias mulheres começaram a comercializar seus produtos a partir dessa política e do PNAE [Programa Nacional de Alimentação Escolar]. São políticas públicas de comercialização institucionais fundamentais para garantir a renda das mulheres. Essas políticas têm ajudado na autonomia econômica das mulheres. A gente tem muita dificuldade das mulheres que beneficiam produtos garantir a comercialização desse seu produto por conta das normas de Vigilância Sanitária, que não são adequadas para produção artesanal. Até hoje todas as normas de Vigilância Sanitária foram voltadas para as grandes indústrias de alimento e isso também não garante uma qualidade de alimento bom. O pessoal se preocupa tanto com a agricultora que está fazendo o doce, enquanto isso a Parmalat coloca formol dentro do seu leite e eles têm SIF [Serviço de Inspeção Federal], o empreendimento deles é totalmente legalizado e continuam fazendo isso. Acho que precisamos, e é urgente, que o governo reveja as normas de Vigilância Sanitária e que elas sejam adequadas à produção artesanal. A França é conhecida como o país dos queijos, tem mais de 300 tipos de queijo. Eu falo que se fosse no Brasil só iam ter dois. Porque aqui em vez de você se preocupar com a qualidade final do produto, a pessoa padroniza o processo de produção. Então, por exemplo, queijo de leite cru não é permitido pelo SIF. Se criou uma lei estadual em Minas Gerais que lá você pode vender, mas o queijo não pode atravessar a barreira do estado. Então, o queijo mineiro, o queijo da Serra da Serra da Canastra é um queijo de leite cru e você não pode consumir ele em São Paulo, porque o Queijo Canastra é produzido com leite cru. E, no entanto, a gente importa queijo francês de leite cru. Na legislação você não pode vender leite cru de Minas Gerais em São Paulo, mas você pode vender o queijo de leite cru que vem da França. Tem umas lógicas perversas nas normas de Vigilância Sanitária que têm que ser revistas. Eu acho que essas políticas precisam ser aprofundadas, já tiveram muitos avanços, mas precisamos avançar mais e pra isso temos que garantir as conquistas que tivemos e ampliá-las.

Asacom – Como continuamos marchando quando voltamos para os nossos estados?

Beth – Voltamos e nas organizações, nos municípios, nos movimentos, nos grupos de mulheres a gente continua marchando. Aqui é uma grande reunião de mulheres, têm mulheres do Brasil todo, com realidades de biomas completamente diferentes, de realidades de vidas totalmente diferentes. A partir dessa reflexão e de todo esse debate que foi feito aqui, essas mulheres têm que voltar para os seus municípios um pouco levando um pedacinho do que foi a Marcha das Margaridas. É importante voltar e discutir com os grupos de mulheres, com as comissões municipais de mulheres dos sindicatos, com as quilombolas, com as quebradeiras de coco, com as pescadoras, com todas as categorias de mulheres que estão aqui. Esse debate tem que continuar lá. Tem que continuar pautando, reivindicando e cobrando aquilo que a gente apresenta aqui, que sabemos que a pauta não se resolve aqui. Sabemos que tem muita coisa que precisamos continuar batendo e reivindicando e precisamos que esse processo seja lá também. Precisamos também que o movimento sindical perceba que cada vez mais tem que abrir esse espaço para as mulheres, porque é um espaço também que sempre foi negado, o espaço público. O espaço de representação política sempre foi negado às mulheres e isso é inadmissível. Isso é uma coisa que não dá mais. A sociedade precisa mudar, essas mudanças têm que acontecer, porque não é democrático, não é mais possível aceitarmos uma sociedade onde as mulheres vivem na situação de exclusão que nós vivemos hoje, com as mulheres ganhando menos, com menos acesso às políticas públicas, com menos acesso à crédito, à assistência técnica, não tem fomento. Várias dívidas que a sociedade e o governo têm com as mulheres rurais e isso tem que ser mudado e só vai mudar com a gente marchando e temos muito que marchar ainda. Esta é a quinta marcha e temos muito pra marchar pra fazer essa sociedade mudar!



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 22 de Setembro de 2015

Em meio a crescente necessidade de se discutir e implantar modelos de agricultura alternativos ao modelo atual, a coluna de hoje apresenta o texto de Juliana Dias – editora do site Malagueta News - Jornalista e mestre em Educação em Ciências e Saúde.  

Juliana reúne dados que apontam as incoerências e problemas resultantes do modelo do agronegócio atual, e nós selecionamos alguns trechos de seu artigo:

“A agricultura moderna posiciona-se no centro do cenário da crise ecológica mundial, num duplo papel de algoz e vítima. De acordo com Paulo Petersen, coordenador-executivo da AS-PTA, organização que atua no fortalecimento da agricultura familiar e agroecologia há 30 anos, essa dualidade explica-se pela fato de que a monocultura industrializada e os mercados agroalimentares estão entre as principais atividades geradoras da degradação ambiental e das mudanças climáticas mas, ao mesmo tempo, são vulneráveis aos efeitos do uso indiscriminado dos recursos naturais.

A ambiguidade do sistema industrial de produção também pode ser observada nos resultados sociais e econômicos da crise em curso. O relatório O Estado de Insegurança Alimentar no Mundo (SOFI, sigla em inglês), divulgado pela FAO em setembro, informa que existem 805 milhões de pessoas com fome no planeta. Petersen salienta que o número de famintos e subnutridos iguala-se ao de pessoas sujeitas à epidemia de sobrepeso e obesidade – que muito frequentemente acompanha a subnutrição. A insegurança alimentar é o elo mais evidente na articulação entre a crise econômico-social e a crise ecológico-climática.”

Nos parágrafos seguintes a Jornalista apresenta uma experiência de sucesso de um agricultor familiar que voltou a produzir através da agroecologia:

“Compreender a Agricultura Familiar é “um caminhar lentamente”. Foi assim que Francisco, hoje presidente do Consea-Rio (Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do município) definiu sua trajetória, enquanto subíamos o Parque Estadual da Pedra Branca (PEPB), em direção ao seu sítio. Durante a caminhada, desviando de obstáculos, apreciando paisagem e os pequenos frutos espalhados pela trilha, (como cambucá, camboatá e grumixama), acenando para a vizinhança, dando passagem a cavalos e motos e identificando os frutos mais apreciados pelos pássaros da região, ouvimos sua experiência e vivenciamos, em parte, a intimidade que tem com a floresta onde vive.

De família de agricultores em Santa Maria Madalena, município do Estado do Rio, e casado com Angélica Caldeira há 34 anos, cuja família está há cinco gerações cultivando alimentos no Maciço da Pedra Branca, ele diz que já nasceu agricultor. Mas a dureza da caminhada o fez desistir da lavoura. “Não conseguia trabalhar, não tinha assistência técnica, a terra não correspondia devido aos usos indevidos do solo. Era uma atividade muito rudimentar. Não tinha reconhecimento”, lembra. Saiu, então, em busca de melhores oportunidades na cidade, mas continuou insatisfeito. Trabalhou por oito anos em feiras livres na Zona Oeste, entretanto, permanecia inquieto. “Quando você tem um umbigo enterrado nessa história, às vezes, você sai dela, mas ela não sai de você”, concluiu o seu desconforto em desistir de seu ofício.

No Consea, Francisco comemora o fato de ter levado as questões da Agricultura Familiar Agroecológica para a pauta. Em sua opinião, o desafio é contribuir para elaboração de políticas públicas que contemplem o modo de produção local como fundamental para combater a insegurança alimentar. “Temos péssimos hábitos alimentares, com o pensamento de que tudo é produzido na gôndola do supermercado. Tudo vem das caixinhas. Até as sementes tradicionais estão sendo substituídas pelas transgênicas. Precisamos desconstruir esse modelo de produção agrícola que não respeita o meio ambiente e as pessoas. É um modelo que produz commodities para exportar. Temos que desconstruir esse modelo que é bom para alguns e que tem empobrecido o agricultor, que é aquele que produz comida”, declara.”

Juliana conclui sobre o papel central que a Agricultura Familiar e a Agroecologia possuem para superar o atual modelo:

“Essas populações, vistas por muitos como atrasadas e condenadas à extinção, têm hoje importantes aliados na cidade. A Agricultura Familiar está tentando descobrir novas alternativas para situações difíceis. Por isso, afirma o professor Van der Ploeg, cada passo, não importa o quão pequeno, será sempre útil. Daí a importância de fortalecer as organizações civis e movimentos rurais, e compartilhar as experiências bem sucedidas, como é o caso da história do Francisco e seu engajamento às redes (Agrovargem, Rede CAU, Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro/AARJ e Consea). São passos de uma caminhada que inspira, lentamente. Afinal, estamos falando de comida na mesa não só para hoje, mas para as próximas gerações.”

Para leitura do texto na íntegra acesse aqui.


 

 



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 15 de Setembro de 2015

Na coluna de hoje apresentamos o texto de Raul Lody, antropólogo, museólogo, curador, escritor; especialista em antropologia da alimentação e criador do Blog “Sobre o Brasil Bom de Boca”. Raul escreve sobre o aumento da procura por ingredientes de bases produtivas mais naturais e sustentáveis e a influência e os significados de um alimento arraigado na cultura alimentar brasileira.


Nos cenários nacionais e internacionais vive-se uma busca por alimentos saudáveis procedentes da agricultura familiar, da pesca; e de outras formas de criatórios como aves, suínos, bovinos e caprinos; e que se unem a um crescente desejo de valorização dos hábitos alimentares a partir dos ingredientes locais.

Nessa busca pela preservação e pela continuidade dos diferentes processos produtivos, e das receitas que trazem representações culinárias e atestam a diversidade e as identidades culturais, vigora um sentimento dominante de terroir.

No caso brasileiro, a mandioca tem destaque dentro da nossa biodiversidade.  Com os sabores desta raiz americana, construiu-se diferentes sistemas alimentares que há milhares de anos fazem parte da vida dos povos nativos.

A mandioca tem um sentido nacional, e a partir das muitas farinhas que existem é possível identificar lugares e/ou regiões do Brasil.  E além do consumo das suas folhas, a maniva, na saborosa maniçoba; também são utilizados outros produtos derivados da mandioca como: tucupi, goma, puba, massa de mandioca, farinha de tapioca entre tantos.

Cada ingrediente, conforme o seu uso e interpretação simbólica, determina um estilo de se relacionar com o homem, pois comer é uma auto-representação cultural.

Essas grandes bases alimentares que chegam da mandioca estão presentes na composição de cardápios do cotidiano, e nos hábitos alimentares de milhares de brasileiros.

O brasileiro se identifica como um comedor e apreciador de farinha seca – farinha-de-guerra, farinha-da-terra, farinha-de-mesa, farinha-de-pau, farinha-d’água –; e de farinhas com marcas autorais na sua forma de ser torrada artesanalmente, momento em que se revela o estilo autoral dentro da tecnologia tradicional da “casa de farinha”.  Algumas farinhas são temperadas no próprio momento da sua produção, na casa de farinha, com pimentas, açafrão-da-terra, entre outros ingredientes.

As farinhas estão integradas às refeições e, em especial, para complementação de pratos como o clássico “feijão com arroz”; além de muitas outras receitas que só estarão completas se acrescidas com farinha de mandioca. Destaque para o preparo de pirões e farofas, exemplos de realizações telúricas e verdadeiramente   nativas.

Com a “goma”, outro produto de destaque da mandioca, faz-se grandes beijus com mais de um metro de diâmetro, e que são secos ao sol sobre as grandes ocas, e que fazem parte do sistema alimentar de muitos povos indígenas, e são acompanhados com peixe seco, caça, e preparos à base de diferentes pimentas nativas.

Outra importante tradição culinária que surge a partir da goma é a tapioca, seja nos preparos domésticos ou, em especial, como comida de rua, em um tradicional e consagrado fast food da mandioca.

As vendedoras de tapioca, “tapioqueiras”, oferecem delícias que usam a alvíssima goma que, depois de assada, é recheada com queijo coalho, coco ralado; doces de frutas, chocolate, banana, ou apenas a tão tradicional manteiga.

Já a “massa” de mandioca quando misturada com coco seco, que deve ser ralado na hora, é a base para se fazer o “cuscuz de massa”, um cuscuz que pode ser doce ou salgado e que marca as mesas do Nordeste.

Foto: Jorge Sabino

As invenções gastronômicas que surgem a partir da mandioca determinam uma verdadeira marca do nosso hábito alimentar, em dimensão nacional, e assim é possível manter as referências desta nossa memória de paladar.

Porém, está no pirão um tema quase épico da obra de Gilberto Freyre. O pirão integra diferentes cardápios que ampliam as possibilidades de se comer à brasileira.

A farinha está na memória, e presente à mesa, quando se tem um cardápio com cozido, seja com legumes, carnes frescas e salgadas, embutidos; ou que tragam outras variadas opções de sabores especiais para que seus caldos quando unidos à farinha de mandioca faça nascer o tão apreciado “pirão do cozido”.

Há também o pirão que nasce a partir do caldo em que é cozido diferentes tipos de peixes, com o acréscimo de cebola, tomate, “cheiro-verde” (coentro e cebolinho); e ainda, legumes, raízes; frutas, como banana-da-terra; ovos, pimentas frescas, para formar o “caldo” que é misturado com a farinha de mandioca para se fazer o celebrado “pirão da peixada”.

Preparar o pirão é um momento especial e delicado em que a farinha deve cair suavemente sobre o caldo de forma habilidosa.  Deve-se derramar a farinha e mexer sem parar o pirão até que ele chegue à consistência desejada; para uns ele deve ser mais mole; para outros ele deve ser mais consistente.

Outro exemplo é o pirão de leite, uma boa oportunidade de sentir e apreciar este preparo que pode ser combinando as carnes de gado vacum, de gado caprino, de suíno, preparadas com sal e sol, é a “carne de sol”. Está é uma técnica tradicional usada para conservar a carne, e com isso criar receitas regionais.  Este pirão de leite se integra a estes tipos de carnes. Muitas destas carnes são amanhecidas no leite para amaciar, segundo o costume do Sertão.

Além de valorizar os pirões nas suas inúmeras formas de preparo, Gilberto Freyre louva o pirão como uma realização da cozinha brasileira, uma comida patrimonial brasileira.  E assim ele declara seu quase amor ao pirão: “ Divino pirão! ”.

“ Nunca no Brasil se pintou um quadro nem se escreveu um poema nem se plasmou uma estátua nem se compôs uma sinfonia que igualasse em sugestões de beleza a um prato de pirão. ”  In Arte de comer, Jornal Diário de Pernambuco, anos 1920.

Sem dúvida, a comida vai muito além do ato mecânico de se nutrir, de encher o “bucho”. A comida possibilita o ato humano e sensível de simbolizar.  A comida possibilita um sentimento estético, palatal, e de prazer à boca.  A comida ainda possibilita um desejo de adoração, de reconhecimento, e de quase sacralidade.

Acesse aqui o texto no blog do autor.  




postado por Ramon da Silva Rodrigues Almeida em Terça-feira, 08 de Setembro de 2015

Você consegue relacionar as mudanças climáticas com Segurança Alimentar e Nutricional?

Segundo a FAO, um dos impactos mais relevantes das mudanças climáticas é sobre a produção de alimentos e consequente escassez a nível mundial.

"Uma escassez mundial de alimentos está se tornando três vezes mais provável, em função das mudanças climáticas, afirma o relatório da Força-Tarefa sobre Eventos Climáticos Extremos e Resiliência do Sistema Alimentar Global. O grupo, que reuniu cientistas dos EUA e Reino Unido, alertou, na semana passada, que a comunidade internacional deve estar pronta para responder a uma futura elevação potencialmente dramática dos preços agrícolas".

“O clima está mudando e recordes meteorológicos estão sendo quebrados o tempo todo”, disse David King, representante especial para as Alterações Climáticas do ministro das Relações Exteriores do Reino Unido. “Os riscos de um evento grave estão crescendo — e ele pode ter escala e alcance sem precedentes.”

Os modelos e sistemas agrícolas usados atualmente pelo agronegócio são predatórios ao meio ambiente e à saúde humana, seja pela poluição de rios e do ar até o uso de agrotóxicos nos alimentos, e tudo isso interfere na intensificação do processo de mudanças do clima, portanto prática e sistemas agrícolas sustentáveis são necessários ao equilíbrio ecológico e à Segurança Alimentar e Nutricional.

O [Pensando EAN] aborda essa questão por meio de uma entrevista* dada pela ativista alimentar Tiffany Finck-Haynes, da Friends of the Earth, para o jornal da Al Jazeera sobre a alarmante morte das abelhas, que coloca em risco os ecossistemas ligados à produção de alimentos.

As abelhas são responsáveis por ajudar a produzir cerca de um terço dos alimentos do mundo, por ser um potencial polinizador, e segundo a ONU das 100 espécies de lavouras que abastecem 90% dos alimentos em todo o mundo, 71% são polinizados por abelhas.

Mas um fenômeno global ocorrido na última década, conhecido como Desordem do Colapso das Colônias (CCD, na sigla em inglês), viu um número alarmante de colônias de abelhas desapareceram, criando uma séria preocupação sobre o futuro da sustentabilidade no mundo”

Acompanhe a entrevista logo abaixo publicada no site Outras Palavras:

Qual a importância das abelhas na produção de alimentos e produtos ligados a necessidades básicas?

As abelhas são essenciais para dois terços das culturas alimentares que os humanos comem diariamente. Uma em cada três garfadas que comemos é de alimentos produzidos graças à contribuição de insetos polinizadores.

Quão grave é a redução nos números de abelhas?
Elas estão morrendo em taxas alarmantes, em todo o mundo. Nos EUA, os apicultores perderam uma média de 30% de suas colmeias nos últimos anos, sendo que alguns tiveram perda de todas as suas colmeias e muitos deixaram o setor. No ano passado, os apicultores perderam quase metade de sua produção – a segunda maior perda registrada até o momento. Isso é alto demais para ser sustentável.

Como esse declínio está afetando o ecossistema e a produção de alimentos?
As enormes perdas recentes estão tornando difícil para os apicultores manter-se no negócio e já prejudicam os cultivadores de alimentos como amêndoas e frutas. Sem abelhas para polinizar as culturas e plantas que dão flores, todo o sistema alimentar – e nosso próprio frágil ecossistema – está em risco.

Quais as principais causas do declínio?
Pragas, doenças, perda de forragem e de habitat e as mudanças climáticas foram identificados como possíveis fatores que contribuem para as insustentáveis perdas de abelhas. Um grupo cada vez maior de cientistas responsabiliza os pesticidas neonicotinoides – um dos tipos mais utilizados no mundo, fabricado pela Bayer e Syngenta – como um fator-chave.

Os neonicotinoides podem ou eliminar as abelhas, ou torná-las mais vulneráveis a pragas, agentes patogênicos e outros fatores de estresse, ao mesmo tempo em que prejudicam sua capacidade de se alimentar, reprodução e memória. Os neonicotinoides são amplamente utilizados nos EUA em 140 culturas e para uso cosmético na jardinagem. Podem permanecer no solo, na água e no ambiente durante meses ou anos.

Os transgênicos são um fator importante na crise?

A maioria das sementes convencionais de milho, soja, trigo e canola – muitas delas transgênicas – são pré-tratadas com neonicotinoides. Basta uma semente tratada com neonicotinoide para matar um pássaro.

Em que regiões do mundo estão crescendo movimentos para proteger abelhas?
Têm surgido movimentos para protegê-las em várias regiões do mundo, inclusive América do Norte e do Sul, Europa, Ásia, África e Austrália.

Como os governos estão respondendo a esses movimentos?
Diante das evidências cada vez maiores e das demandas dos consumidores, um número crescente de empresas e agências governamentais decidiu ser parte da solução da crise das abelhas e está tomando medidas para eliminar os pesticidas prejudiciais a elas.

Por exemplo, no Reino Unido, os maiores varejistas de jardinagem pararam voluntariamente de vender neonicotinoides. Com base nas recomendações do Órgão Europeu para a Segurança dos Alimentos, a União Europeia (UE) votou a favor de uma suspensão, em todo o continente, de vários neonicotinoides. A medida entrou em vigor em 1º de dezembro de 2013.

Nos EUA, no ano passado, mais de vinte grandes produtores de mudas vegetais, empresas de paisagismo e varejistas tomaram medidas para eliminar os pesticidas que prejudicam abelhas de suas plantas de jardim e de suas lojas. O Serviço de Peixes e Vida Selvagem dos EUA anunciou em 2014 que irá banir o uso de neonicotinoides em todos as áreas nacionais que são refúgio da vida selvagem até 2016.

Em junho de 2014, o presidente Barack Obama criou uma Força Tarefa para a Saúde da Polinização para desenvolver uma estratégia nacional. Em abril, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (ETA, na sigla em inglês) anunciou que era improvável que aprovasse usos novos ou ampliados de neonicotinoides, enquanto avalia os riscos que estas substâncias representam para os polinizadores.

A agroecologia pode ajudar a salvar as abelhas?
Precisamos reimaginar o modo como produzimos alimentos e incentivar práticas agrícolas locais, sustentáveis e justas. Para a Universidade de Oxford, a agricultura orgânica preserva as espécies polinizadoras 50% mais que a agricultura convencional intensiva em produtos químicos.

*Por Ryan Rifai, na Al Jazeera | Tradução: Inês Castilho



postado por Ramon da Silva Rodrigues Almeida em Terça-feira, 01 de Setembro de 2015


“Pelos campos há fome em grandes plantações

Pelas ruas marchando indecisos cordões 

Ainda fazem da flor seu mais forte refrão 

E acreditam nas flores vencendo o canhão”


Quem nunca ouviu essa música do grande Geraldo Vandré?!

Nessa música de protesto, o cantor retrata a fome e a miséria que assolava as populações rurais do Brasil na época da ditadura e do “milagre econômico brasileiro”

O [Pensando EAN] de hoje traz algumas reflexões sobre fome e consumo de vários alimentos, que foram destacados por meio da música popular brasileira, presente no artigo dos professores Francisco de Vasconcelos, Mariana Perrelli e Iris de Vasconcelos publicado esse ano.

O artigo investiga essas canções na época da ditadura militar no Brasil (1964-1985), com foco na análise das canções de protesto, gênero musical caracterizado por críticas estético-cultural, político-ideológica e social aos governos militares, período no qual surgiram nomes da MPB como, Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Ivan Lins, Milton Nascimento, entre outros.

“Evidenciamos que a canção de protesto retratou elementos dos contextos econômico, político e social, e propiciou a difusão de hábitos e ideologias alimentares saudáveis ou não saudáveis, contribuindo para a construção da identidade alimentar brasileira”.

“ Em 1976, a dupla João Bosco e Aldir Blanc, na canção “O ronco da cuíca”, presenteiam-nos com uma instigante abordagem sobre a origem da fome:

A raiva dá pra parar, pra interromper.

A fome não dá pra interromper.

A raiva e a fome é coisas dos home.

A fome tem que ter raiva pra interromper.

A raiva é a fome de interromper.

A fome e a raiva é coisas dos home (Bosco, Blanc, 1976b) ”.


“ Na canção “Gente”, Caetano Veloso (1977) retrata de forma poética o contexto de miséria e de fome vivenciado por significativa parcela da população de trabalhadores brasileiros no pós-milagre econômico:

Gente lavando roupa, amassando pão,

Gente pobre arrancando a vida com a mão,

No coração da mata, gente quer prosseguir,

Quer durar, quer crescer,

Gente quer luzir ...

Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome (Veloso, 1977) ”.

 

“ Em 1987, os Titãs (Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sergio Brito), compuseram a canção “Comida”, em que a fome ganha dimensão bem apropriada ao contexto de luta pela redemocratização que o país vivenciava – a fome de democracia, cultura, diversão, arte e felicidade:

A gente não quer só comida.

A gente quer comida, diversão e arte.

A gente não quer só comida.

A gente quer saída para qualquer parte.

A gente não quer só comida.

A gente quer bebida, diversão, balé.

A gente não quer só comida.

A gente quer a vida como a vida quer.

Bebida é água! Comida é pasto!

Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?

A gente não quer só comer.

A gente quer comer e quer fazer amor.

A gente não quer só comer.

A gente quer prazer pra aliviar a dor (Antunes, Fromer, Brito, 1987) ”.


O artigo também contextualiza o quanto a luta contra a ditadura e pela redemocratização do país foi importante para o movimento sanitário brasileiro, de forma que foi possível a formulação e construção do SUS (Sistema Único de Saúde) e ampliou o movimento na luta pelo Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA). Contudo para além dessas conquistas na saúde e nutrição, é frisado e analisado nas músicas o quanto o marketing e o consumo de alimentos industrializados ganharam força de consumo em nosso país durante aquela época.

“A canção de protesto “Alegria, alegria”, lançada em 1967, retrata de forma magistral a importância que o consumo do refrigerante Coca-Cola já representava no final dos anos 1960 para os hábitos alimentares dos jovens brasileiros: “Eu tomo uma Coca-Cola / ela pensa em casamento / uma canção me consola / eu vou” (Veloso, 1968)”.


“De fato, a introdução do consumo de Coca-Cola nos hábitos alimentares brasileiros tem sido creditada aos soldados norte-americanos, que no decorrer da Segunda Guerra Mundial (1941-1945) faziam paradas obrigatórias em Pernambuco (Recife) e Rio Grande do Norte (Natal) antes de prosseguir em seus navios e aviões para a Europa”.

“Naquele período foram implantadas as primeiras fábricas do refrigerante no Brasil e a partir de então foram desencadeadas as ricas campanhas publicitárias para a ampliação de seu consumo. Alguns slogans das campanhas tais como “isto faz um bem” (1959), “tudo vai melhor com Coca-Cola” (1966) e “Coca-Cola dá mais vida” (1972) denotam muito bem o apelo de marketing que os produtores desse refrigerante estrategicamente utilizaram para ampliar a adesão ao consumo desse importante símbolo do american way of life entre os jovens brasileiros (Coca-Cola..., 2013) ”.

Ao longo do artigo é possível identificar o quanto essas músicas retratam aquele contexto histórico e denunciam a fome, miséria, violência e outras explorações, ao mesmo tempo que foram veículos de difusão de novos hábitos e ideologias alimentares.

Você pode conferir esse artigo completo na [Biblioteca do Ideias]http://goo.gl/kpCS5n



postado por Ideias na Mesa em Terça-feira, 25 de Agosto de 2015

O Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutricional é um grupo de pesquisa da Universidade de Brasília que se se propõe a ampliar e disseminar conhecimento, capacitar recursos humanos e promover o debate pluridisciplinar e intersetorial sobre as políticas públicas e ações governamentais para a garantia da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN). Dentro dessa perspectiva, a economia se caracteriza como importante foco de discussão, uma vez que influencia diretamente o acesso a alimentos de qualidade em quantidade suficiente. No mês de agosto, o observatório se reuniu para discutir economia colaborativa, uma nova forma de pensar a economia que vem crescendo ao redor do mundo. Como inspiração e referência para a discussão foi utilizada a Revista Página 22, categoria 96.

O capitalismo preconiza a escassez. Desde a infância, as pessoas são programadas a competir e um bom exemplo disso é a dança das cadeiras. A cada rodada dessa brincadeira, alguém tem que sair, assim existe sempre um vencedor e vários perdedores. Essas são características do capitalismo, a competição, a falta de recursos, a existência de um vencedor, a exclusão dos “não ganhadores” e a exploração de recursos. Imersos nessa cultura, nos esquecemos de notar que esse sistema tem chegado cada vez mais próximo do abismo. Prova disso, são as oscilações da bolsa de valores, o status do PIB, as tensões sociais e o esgotamento dos recursos naturais.

Alguns já têm estudado novas tendências para reversão dessa grande crise e creem que muitas das soluções estão baseadas em uma economia de redes e ações colaborativas, na qual carros, alimentos, serviços, moradia, informação, entre outros, podem ser compartilhados. Enquanto no mercado tradicional existem margens de lucro praticadas ao longo das cadeias produtivas, a economia colaborativa apresenta a possibilidade de desintermediação, assim os custos tendem a se aproximar do zero. Dessa forma, os projetos colaborativos têm tido cada vez mais força ao redor do mundo, inspirando transformação do atual sistema, mesmo com as adversidades políticas e sociais que encontramos hoje. Essa nova forma de economia cria oportunidades para construção de um mundo colaborativo, no qual as pessoas tenham o suficiente para viver, as comunidades possam expressar o que possuem de melhor, e que o medo da falta não leve ao acúmulo.

Diferentemente do que o capitalismo preconiza, de que individualmente se é capaz de sustentar um sistema e que, por isso, a competição é inevitável, a economia colaborativa é baseada na compreensão de que é necessário que se construa uma rede de relacionamentos de confiança e que a competitividade não é sustentável em longo prazo.

Daí surge um grande desafio, a construção da confiança. Existe uma corrente de pensamento, que conta com o Dalai Lama como um de seus autores e propagadores, que acredita que a maior parte das pessoas é boa e que no mundo existe muito mais amor que ódio. Dentro de uma cultura que estimula a competição e propaga o medo parece difícil à maioria das pessoas acreditarem nisso e esta é uma forma também de gerar imobilização. Claro que é difícil estabelecer esses laços de confiança, mas, às vezes, as pessoas desenvolvem medos de situações inexistentes por imaginar que são verdadeiras quando nem sempre são.

Durante a conversa, foi relatado um caso de uma menina que fazia trabalho voluntário em uma favela carioca e um dia, sozinha, se deparou com o chefe do tráfico local, que lhe perguntou por que ela estava andando sozinha naquele lugar e se ela sabia quem ele era, ela respirou calmamente e respondeu, “Sei, você é o filho da Dona Maria, né?!” e começou uma conversa sobre os famosos doces da mãe do rapaz, que se “desarmou”, ao ser reconhecido não apenas por ser o chefe do tráfico, mas filho de uma senhora influente na comunidade pela sua incrível habilidade de fazer doces. A situação nos lembra que as pessoas são “muitas coisas” além dos rótulos que recebem, além do que está visível e óbvio, e que enxergando para além disso, é possível mobilizar o que têm de melhor, quebrando barreiras e desmistificando preconceitos.

Então, a economia colaborativa estabelece práticas que permitem a construção de novos conceitos e também novos hábitos. O relato de pessoas que buscam viver de forma cooperativa dentro da sua comunidade apresentam aspectos de melhora da qualidade de vida tanto pelo cuidado existente dentro desses grupos quanto pela variedade de suprimentos físicos e abstratos que essa comunidade tem a oferecer.

Todos esses benefícios e transformações levam a reflexão sobre a economia colaborativa ser de fato um “furo” na economia capitalista, e essa é a ideia do texto. Mas será que ela conseguirá reduzir as desigualdades tão profundas, já estabelecidas no mundo por esse sistema? Existe uma impressão de que, nesse momento, esse compartilhamento é entre pessoas “iguais”, ou seja, que possuem o mesmo poder de obtenção de coisas e favores, que se conhecem e que se encontram nas mesmas classes sociais. O modelo de colaboração estabelecido pelo couchsurfing, por exemplo, parte de uma estrutura já existente, na qual as pessoas precisam ter um espaço de troca. Daí, entram questionamentos sobre a acessibilidade ao mundo colaborativo, no qual o compartilhamento entre os desiguais dificilmente acontece e a economia acaba virando uma bolha. A inclusão e expansão da economia colaborativa a outros grupos sociais seria um desafio da inovadora proposta.

Outra reflexão importante é sobre o pressuposto do liberalismo estimulado por esse modelo econômico. Será que a ausência reguladora do Estado, diante essa forma de economia, funcionaria em maior escala, tendo em vista as diversas culturas existentes no mundo? A não intervenção do Estado implica no fazer do povo, pelo povo e para o povo. Mas será que a ausência de lideranças e auto regulação funcionam sempre?

A economia colaborativa exige uma mudança de ótica, uma percepção de que tudo está em constante transformação e que a inovação só acontece quando colaboramos. Essa perspectiva ainda tem muito a ser afinada e as pessoas ainda devem se apropriar dela, pois ela vai além de uma forma de economia, ela prevê mudança de hábitos diários, o que é extremamente difícil quando já se está acomodado a um modelo existente. Na prática, essa economia tem produzido experiências diversas entre diferentes grupos e extratos sociais. Em Brasília, por exemplo, existem as hortas comunitárias, a Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA)Sociedade das Bicicletas, casas colaborativas, feiras de trocas e bazares. Isso mostra que as coisas vão acontecendo em diferentes esferas, de diferentes formas. Os projetos estão acontecendo e sendo disseminados. Talvez o foco seja perceber o potencial de transformação dessas experiências e remar contra a maré, fazendo com que elas alcancem cada vez mais pessoas. Tem gente fazendo coisa boa em tudo quanto é canto, quem é tocado por uma experiência assim acaba mudando seu modo de ser e de viver o mundo.

 Podemos analisar o exemplo de hortas comunitárias como um ambiente de pratica de Educação Alimentar e Nutricional e de inserção no contexto de economia colaborativa. Nas hortas comunitárias, indivíduos de determinada comunidade participam e aprendem técnicas de plantio, compostagem e sobre o valor nutricional dos alimentos, com aqueles que possuem um maior conhecimento a respeito. É um processo de “ganha ganha” onde todos são beneficiados, tanto no aspecto individual, quanto coletivo.  

A Economia Colaborativa se apresenta, portanto como uma maneira de não apenas aperfeiçoar a utilização de bens, mas também de intensificar as relações de confiança entre indivíduos.  

Redação: Ana Maria Maya



 

 



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 18 de Agosto de 2015

Agricultores familiares ponderam que as normas sanitárias vigentes no país acabam dificultando ou inviabilizando sua produção. Dentre as principais dificuldades está o fato de produções artesanais de pequena escala serem comparadas e avaliadas como as gigantescas indústrias da cadeia produtiva.

Em entrevista para a Articulação Nacional de Agroecologia, Luis Roberto Carrazza, secretário executivo da Rede Cerrado e Rodrigo Noleto, assessor do ISPN - que participaram da construção por parte da sociedade civil da Resolução da Diretoria Colegiada RDC 49/2013 que regulamenta o setor – comentaram sobre o tema.

Confira:   

Quais os principais entraves que os agricultores familiares enfrentam em relação às normas sanitárias?

É um conjunto de entraves que acaba atrapalhando ou dificultando o desenvolvimento de vários empreendimentos comunitários. A maior dificuldade é em função da inadequação das normas para pequena escala de produção. Todas foram elaboradas pensando em grandes indústrias. O modelo brasileiro é espelhado no americano, que preza muito pela estrutura e excessiva pasteurização ou esterilização do ambiente e dos equipamentos envolvidos no processo. É importante, mas as boas práticas adotadas pelas comunidades possibilitam fazer produtos de qualidade em ambientes às vezes não tão grandes ou estruturados como exige a legislação.

Temos também um problema muito sério com os fiscais da vigilância sanitária e do Ministério da Agricultura (MAPA), que não têm um olhar diferenciado e sensibilidade para lidar com agroindústrias comunitárias. Tem fiscais mais sensíveis e outros menos, mas no geral eles vão com o poder de autuar e olhar o que está errado. Esses órgãos são muito punitivos e pouco orientadores, talvez isso seja um ponto político importante para batalhar.

E como os agricultores fazem para entender essas legislações?

Os empreendimentos têm uma dificuldade muito grande para entender o emaranhado e a complexidade dessas normas e como funcionam os diversos subsistemas. Parte dos produtos que são dos estabelecimentos de agroindústria é de competência de registro do MAPA: Produtos de origem animal (queijo, mel, carnes e embutidos); Bebidas, que inclui a polpa de fruta; E os Vegetais in natura. Todos os demais vegetais processados como geleias, doces e frutas desidratadas é de competência do SNVS (Sistema Nacional de Vigilância Sanitária), cujo o órgão central do sistema é a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Porém, em razão da descentralização do sistema, estados e municípios executam e também regulam de maneira independente e complementar a legislação sanitária.

Então, existe uma duplicidade de órgãos que tratam do assunto, e como a agricultura familiar se viabiliza na diversificação da produção é muito comum que o mesmo empreendimento faça um doce, uma geleia e tenha polpa de fruta para os sucos. A rigor, ele teria de ter duas agroindústrias ou dois registros e as regras e olhares dos órgãos são diferentes.

De alguns anos para cá um grupo de organizações, articuladas pelo ISPN (Instituto, Sociedade, População e Natureza) que está em Brasília, fizeram uma cartilha de normas e foram realizados seminários e encontros com a vigilância sanitária. Esse processo ajudou na construção da Resolução 49/ANVISA (RDC 49/2013). A Anvisa funciona como uma agência reguladora dos órgãos estaduais, todo o processo de agroindústrias de produtos vegetais é feito com a vigilância sanitária nos seus estados. A Anvisa, que é a agência nacional, regula e normatiza. Essa resolução 49 prevê uma condição diferenciada de registro do estabelecimento da agroindústria para agricultura familiar e a economia solidária. Tivemos a conquista da norma, que inclusive prevê a isenção de pagamento de taxa de registro para a agricultura familiar e a economia solidária para o microempreendedor individual também. Porém, a prefeitura ou o estado precisa criar uma lei orgânica para isentar das taxas que são uma obrigatoriedade. Mas o importante é que a sociedade civil se mobilizou e subsidiou o governo para uma resolução que prevê que a vigilância sanitária, no registro de empreendimentos de agricultura familiar, deve fazer um olhar mais sensível em relação à escala.

Por que cada região tem suas especificidades locais e não dá para aplicar um padrão de controle nacional?

Porque é muito diferente você pegar uma agroindústria que processa milho durante 20h por dia e com jornada de vários funcionários, do que outra família que funciona duas vezes por semana. A dinâmica é diferente, então a resolução vem equacionar um pouco isso. Só que tem uma resistência muito grande dos técnicos nos estados, porque são formados com um olhar viciado para a indústria e são muito exigentes em relação às estruturas da agroindústria.

Isso implica em custos e em tempo, no sentido de ter pessoas dedicadas exclusivamente a fazer esse acompanhamento de gestão, que para o pequeno é muito mais difícil.

Temos que centrar nalguma estratégia de incidência política para ir criando por dentro do MAPA, a partir desses técnicos sensíveis, propostas para devagarzinho ir galgando essas mudanças. Grupos defendem que a competência das agroindústrias familiares passe para o Ministério do Desenvolvimento Agrário, mas o próprio consultor do órgão nesse tema que ajudou a elaborar a lei do SUASA e foi uma conquista que comemoramos, embora os resultados na prática não tenham se efetivado por uma série de razões, reconhece que não tem estrutura para assumir toda a parte de inspeção sanitária. As delegacias estaduais de agricultura familiar do MDA têm no máximo um delegado e dois ajudantes, e para você tratar do assunto a nível nacional precisaria de uma megaestrutura. Eu defendo que vá tudo para a vigilância sanitária, e incidir para que lá tenha profissionais específicos para lidar com a agricultura familiar e não o mesmo fiscal que trabalha nas indústrias. Um profissional que tenha um olhar mais adequado, inclusive com equipes multidisciplinares: antropólogos, sociólogos e outros profissionais que não engenheiros de alimentos, nutricionistas ou químicos. Pessoas com um olhar mais sensível para essas realidades e a diversidades.

Fotos:Bento Viana/ISPN.





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