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Posts Relacionados com a(tag):Pensando EAN

postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 31 de Maio de 2016

Em novembro de 2015 foi realizada a 5ª Conferência de Segurança Alimentar e Nutricional com o lema “Comida de verdade no campo e na cidade: por direitos e soberania alimentar”. O evento reuniu mais de 2 mil pessoas dos 26 estados mais o Distrito Federal entre conselheiros, gestores e representantes da sociedade civil.

A abertura do evento contou com a fala inspiradora da indiana Vandana Shiva – filosofa, ativista ambiental e eco feminista - autora de dezenas de livros e premiada internacionalmente por seu protagonismo na luta contra os alimentos geneticamente modificados, agrotóxicos e aquecimento global. Vandana iniciou seu ativismo e pesquisas na área em 1984, quando uma usina produtora de pesticidas se rompeu em Bhopal, Índia matando três mil pessoas de imediato e mais de trinta mil como consequência.

A primeira reflexão que Shiva nos propõem é a dimensão do domínio das empresas multinacionais de agrotóxicos e transgênicos que detém o monopólio da produção agrícola com a falsa premissa de “produzir para acabar com a fome no mundo”. Argumento prontamente rebatido pela oradora que demonstra que estas indústrias concentram monoculturas de soja, milho e algodão com emprego massivo de agrotóxicos, e comenta que na verdade, o que elas produzem não são alimentos para acabar com a fome no mundo, mas sim commodites comerciais e um pacote de produtos químicos.       

O monopólio de sementes transgênicas e pesticidas colocam em risco não apenas a saúde dos trabalhadores e da população, mas também a biodiversidade e a soberania dos agricultores locais. Eles são pressionados de todas as formas a funcionar dentro da lógica deste modelo agrícola industrial dominante conhecido como agronegócio. A ativista não apenas pontua os prejuízos deste modelo, mas apresenta as alternativas para preservar a biodiversidade e garantir a soberania e segurança alimentar dos povos através da agroecologia e da produção orgânica.

Inspire-se com a fala e os caminhos para construção de um sistema alimentar verdadeiramente saudável e sustentável:     

 



postado por Isadora Dias Nunes de Sena em Quarta-feira, 25 de Maio de 2016

Na rotina corrida do dia a dia raramente paramos para pensar da onde vem cada alimento que compramos, e acabamos às vezes financiando multinacionais que não seguem ideais que acreditamos.

Entre os princípios da Educação Alimentar e Nutricional, presentes no Marco de EAN, reforça-se que para pensarmos em sistema alimentar, temos que levar em conta sua integralidade, ou seja, levar em conta também quem produz e como é produzido tais alimentos. Assim sabemos melhor o que estamos ingerindo, mas também como a empresa que o produz se porta diante do mundo, da natureza e da mão de obra que emprega. É sobre esse último que queremos focar no [Pensando EAN] de hoje.

Chocolate nada doce

O Brasil é um dos maiores consumidores de chocolate do mundo, e a maior parte do chocolate consumido aqui é importada de multinacionais. Há quase 15 anos descobriu-se que o abastecimento de cacau de tais empresas, que vem em sua maioria da Costa do Marfim e Gana, é fruto de mão de obra escrava infantil. A miséria dessas regiões faz com que as plantações de cacau sejam um dos principais meios de geração de renda, estimulando assim o trabalho infantil nas pequenas plantações familiares e o tráfico de mão de obra escrava infantil para os grandes latifúndios de cacau. Crianças essas que trabalham sem parar em condições desumanas.

Em 2001 foi criado o Protocolo Harkin-Engel que obriga os fabricantes a tomar atitudes para eliminar tal exploração até 2005, porém, depois de não ter sido bem aplicado e as empresas não terem feito o suficiente, o acordo foi mudado para redução de 70% do trabalho infantil com prazo para 2020. Porém segundo um estudo divulgado em 2015 pela Tulane University, de Nova Orleans, o número de crianças nessa condição só cresce a cada ano, e em 2014 o número já chegava a 2,2 milhões. Veja aqui a lista das empresas envolvidas.

O premiado jornalista dinamarquês, Miki Mistrati, produziu um documentário onde investiga todo esse contexto, chamado "O lado negro do chocolate". Outro bom documentário que investiga o tema de forma mais ampla é o "Slavery: A Global Investigation".

A luta por direitos

Outro caso que repercutiu muito no ano passado e que ainda está gerando frutos, foram as denúncias de inúmeras práticas lesivas aos direitos trabalhistas em nível global contra uma das maiores redes de fast food do mundo: o McDonald's. Tudo começou nos EUA em 2012, quando os funcionários desta e de outras redes de fast-food se reuniram em Nova York para exigir aumento salarial e melhores condições de trabalho. Desde então, outras cidades de várias partes do mundo aderiram aos protestos. Em meados de março, o sindicato da categoria (Sinthoresp) protocolou uma ação no Tribunal de Justiça do Trabalho de São Paulo exigindo o fim do acúmulo de funções e o pagamento do adicional por insalubridade. Houve protesto dos funcionários na Avenida Paulista e a população foi informada sobre a adesão à “greve mundial”, que rolou dia 15 de abril do ano passado e envolveu 40 países. No Brasil, a campanha ganhou o nome #SemDireitosNãoéLegal e tem quase 8 mil curtidas no Facebook.

Os sindicatos dizem que, entre as violações da companhia, está o pagamento de salários inferiores ao mínimo estabelecido por lei, horas extras não remuneradas, supressão dos intervalos para descanso, indícios de fraudes nas folhas de pagamento e no registro de horas trabalhadas, ausência de horários regulares, “dumping social” (por desrespeitar a legislação trabalhista com objetivo de reduzir custos e oferecer preços mais competitivos que os da concorrência) e acúmulo de funções sem devida remuneração, entre outras.

Os efeitos da mobilização já se fizeram sentir em vários terrenos. Em fevereiro de 2015, a multinacional confessou uma queda de 4% nas vendas em suas lojas nos EUA e de 1,7% em sua operação global, segundo reportagem do jornal “The New York Times”, e pela primeira vez na história, ocorreu uma audiência do Comitê Nacional de Relações de Trabalho dos EUA em que a empresa foi acusada formalmente por práticas lesivas aos direitos dos trabalhadores e pela repressão à ação sindical. Antes, o órgão responsabilizava apenas os franqueadores da rede.

Comer como ato político

A partir de problemáticas como essas, ocorreu nos anos 90 uma virada histórica na configuração da alimentação como campo político. Gerou-se um movimento mundial que repensa o potencial de interferência do consumidor nas estruturas de produção de alimentos: a escolha consciente e/ou consumo político. Não é apenas iniciativa individual, mas movimento coletivo que pretende interferir nos paradigmas atuais do sistema alimentar. Essa prática, que tem suas raízes no movimento ambientalista, tem contribuído para dar visibilidade a elos do sistema alimentar aparentemente desconexos e ressignificar as escolhas alimentares. Cada um de nós, no seu ato de consumo, pode demandar por alimentos que tenham sido produzidos localmente, com uso sustentável de recursos naturais, em que, ao longo de todo o processo, a geração de resíduos e o uso da energia de origem fóssil sejam mínimos, e as relações sociais envolvidas sejam éticas, justas e promovam a equidade.

A revista número 4 do Ideias na Mesa trouxe essa questão e entrevistou a nutricionista Elaine Azevedo, referência nesse tema. Elaine defende que "Comer localmente é um ato político quando você pensa no gasto energético despendido na produção dos alimentos, no resgate das tradições alimentares regionais e no apoio ao agricultor que está perto de você que recebe retorno financeiro para investir no local... Do mesmo modo, quando você compra alimento de uma multinacional ou um alimento que degrada o meio ambiente e ignora o processo familiar de produção, você está fazendo uma escolha política também. E isso tem de estar muito claro: quem você está apoiando. A gente precisa se conscientizar desse potencial do consumidor". E destaca que "Mudanças políticas, exigem primeiramente mudanças internas. Mudar primeiro para mudar o mundo. Isso é muito mais desafiante do que mudar a política pública ou mudar a indústria. É preciso desafiar as pessoas a sair da zona de conforto, mudar paradigmas.".



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 10 de Maio de 2016

 

Durante o mês de maio estamos dando ênfase em posts relacionados à temática dos agrotóxicos e transgênicos, e no quadro de hoje, disponibilizamos a visão do jovem Birke Baehr - 11 anos quando gravou - sobre o tema durante o TEDx “nova geração” em Asheville.

Apesar da pouca idade, Birke apresenta os motivos que o levaram a querer ser um produtor orgânico, “abandonando” o seu desejo de ser um jogador profissional da NFL. Após uma viagem pela estrada com seus familiares aos 9 anos, o garoto passou a estudar sobre práticas produtivas orgânicas e sustentáveis e passou a disseminar estes conhecimentos sobre o sistema alimentar com seus colegas.

De maneira direta Birke fala sobre como a indústria alimentícia tenta passar a mensagem, inclusive à crianças de sua faixa estaria, de que produzem com responsabilidade ambiental, quando na verdade se utilizam de práticas para intensificar a produção e massificar seus produtos com o emprego de sementes transgênicas. Neste ponto, o maior exemplo são as plantações de milho dominadas por sementes transgênicas e que servem como subproduto para a maioria dos alimentos ultraprocessados.

Através de sua fala ele também identifica a proximidade do uso de sementes transgênicas e o uso indiscriminado de agrotóxicos. Tais práticas coexistem dentro do sistema do agronegócio com o intuito de aumentar os lucros produtivos em detrimento da saúde ambiental e da população.

O jovem palestrante apresenta alternativas de como podemos contribuir para um sistema mais saudável e sustentável, através de atitudes como comprar alimentos orgânicos de produtores locais, desta forma estamos cuidando da nossa saúde, do meio ambiente e favorecendo um comércio justo.

 




postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 03 de Maio de 2016

Foto: Cecília Bastos

Durante o mês de maio divulgaremos em paralelo as demais atividades do Ideias, textos, notícias e materiais relacionados à temática de agrotóxicos e alimentos transgênicos. Para o texto de hoje, compartilhamos trechos da entrevista feita com a geógrafa Larissa Bombardi para Revista da USP.

A professora coordenadora do Laboratório de Geografia Agrária da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, vem focando há cinco anos sua pesquisa no impacto e intoxicações causadas por agrotóxicos no Brasil. Estes agravos são fruto do modelo produtivo centrado em monoculturas para exportação, levando o país a posição de maior consumidor de agrotóxicos no mundo desde 2008 e o responsável por um quinto de todos os agroquímicos consumidos.  

Larissa contextualiza este consumo extremamente elevado com o modelo de agricultura predominante em nosso território que teve uma guinada no final dos anos 90, a partir do momento que passamos a exportar commodities alimentares, com destaque para soja, milho e cana de açúcar. Estas são as culturas onde são observadas as maiores aplicações de veneno, associado também ao uso de sementes transgênicas. A pesquisadora salienta que alguns agricultores familiares, ainda que em menor escala, também fazem o uso de agrotóxicos, mas que sem dúvida os grandes responsáveis pela utilização massiva são os latifúndios monocultores.          

Em relação às mortes causadas por agrotóxicos, Bombardi constatou que ocorram em média, desde 2007, 148 mortes por ano. O número de intoxicações também é alarmante atingindo inclusive 2181 crianças no mesmo intervalo de tempo. Outro fato que chama atenção é que para cada caso constatado existam outros 50 não notificados. A professora afirma que são incontestáveis os malefícios causados por agrotóxicos, mas que é necessário avançar na constatação dos dados pois as subnotificações são frequentes.

Ao ser questionada sobre a permissibilidade que o Brasil tem com agrotóxicos que já foram inclusive banidos em outros países, Larissa volta a citar o modelo produtivo, que perpassa por distribuição de terras e chega até o congresso que atualmente conta com uma grande bancada conhecida como ruralista ou do agronegócio, que legisla de acordo com os interesses deste sistema produtivo que gera desigualdade, concentração de terras e renda e uso indiscriminado de venenos.

Por fim, Larissa Bombardi salienta que o Brasil perde a chance de se inserir globalmente uma outra agenda com o enfoque na reforma agrária, agroecologia e soberania alimentar.

Confira a entrevista na íntegra.  




postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 26 de Abril de 2016

A edição mais recente da revista Página 22 propõem algumas reflexões sobre a interação entre o ambiente rural e o meio urbano. A primeira delas, apresentada na matéria ‘Sem Cercas’, estabelece um paralelo entre a mudança de paradigma da visão tradicional do que seria o ambiente rural - caricaturado na figura do jeca-tatu – e o novo olhar sobre as contribuições deste ambiente para o nosso cotidiano.

Exemplos reais deste novo arranjo são as pessoas que cada vez mais procuram plantar alimentos para o autoconsumo em suas casas ou se organizam em hortas comunitárias. Outro fenômeno tem sido a volta de indivíduos para ajudar na produção familiar ou até mesmo que ficam no “bate e volta” entre o plantio em sítios, e a comercialização nos centros urbanos em paralelo com outras atividades.

O segundo exemplo ilustra um fenômeno cada vez mais comum, ao passo que famílias vivem entre idas e vindas do rural para o urbano. O professor sociólogo Arilson Favareto, em sua tese de doutorado citada na Revista, atribuiu essa nova configuração entre outros fatores às melhorias das condições de deslocamento entre os dois ambientes. Os impactos de tal interação se fazem presentes na busca por uma vida mais saudável e alinhada com o consumo consciente a fim de preservar os recursos naturais e o comércio justo.

O adensamento da concentração populacional nos centros urbanos em oposição ao rural não se consolidou recentemente, mas a organização em torno do tema da agricultura urbana parece estar mais aceso do que nunca. Na capital federal o Movimento Nossa Brasília criou um grupo de trabalho para debater o tema e articular as inúmeras hortas comunitárias já existentes.

A agricultura urbana dialoga diretamente com a segurança alimentar e nutricional. Ela garante uma maior autonomia da população na produção e consumo de alimentos in natura, saudáveis e livres de agrotóxicos.       




postado por Maína Pereira em Terça-feira, 19 de Abril de 2016

 

peter singer

 

Em conversa ao Café Literário do CPFL, que foi transmitido pela TV Cultura, Peter Singer é convidado a compartilhar sua visão sobre a ética na alimentação.

O bate-papo que teve duração média de 50 minutos, aborda várias das questões da alimentação contemporânea como a influência dos modos de produção dos alimentos e as mudanças climáticas, a relação da alimentação com a pobreza, o bem-estar animal, entre outros.

Estudioso da área, o filósofo comenta o fato de estarmos inseridos em um sistema produtivo baseado no lucro e como é difícil trazer ética para o mercado se temos que lidar com outros produtores que não são éticos.

Para se criar uma arena mais ética em um mercado capitalista, ele enfatiza a importância de termos leis e regulamentações que garantam um consumo mais ético dos alimentos.

Além disso, a mobilização social é incentivada para que as questões éticas da alimentação se tornem uma demanda na agenda política.

Vegano, Singer recomenda e defende que o veganismo seja a prática mais ética dos estilos alimentares do mundo. Ele também sugere que parte da solução alimentar esteja em voltarmos a cozinhar e consumir receitas tradicionais, que além de tudo, são baratas e saudáveis.  

Ele propõe também outros caminhos como a regulação da publicidade de alimentos, o comércio justo e muitos outros.

É, sem dúvida, uma ótima fala para se assistir e refletir. 

 

 




postado por Nathália Bandeira Vilhalva Gheventer em Terça-feira, 12 de Abril de 2016

Já dizia Augusto Cury em seu livro A ditadura da beleza: “As sociedades modernas realmente se tornaram fábricas de pessoas doentes.[...] O culto ao corpo supermagro difundido pela mídia está gerando uma psicose social coletiva que assassina a auto-estima e a auto-imagem de crianças e adultos, inclusive os homens.”

ditadura


O post de hoje vem com a proposta de trazer à tona um assunto extremamente importante de ser discutido e que por sua vez é repleto de preconceitos e barreiras: a obesidade em nutricionistas. Para essa reflexão, foram citados alguns trechos do artigo ”Estigma do nutricionista com obesidade no mundo do trabalho”, publicado em 2015 por Kênya Lima, Paulo Gilvane, Maria do Carmo e Rosa Wanda.


“Problematiza-se aqui o sofrimento do nutricionista que precisa governar o corpo dentro do que defende a racionalidade  médica vigente, de modo  a atender a imagem  que  lhe é socialmente  requerida  e desejada:  para a sociedade  o corpo medido  de um nutricionista  deve atender aos  padrões  antropométricos requeridos  pela ciência.”

 

Sabe-se que atualmente, passa-se por um processo de transição nutricional. Pela mudança nos padrões alimentares, sociais, econômicos e culturais, tem-se o desenvolvimento de diversas doenças crônicas não transmissíveis, inclusive a obesidade. Porém, no geral, a ciência preza pela valorização de um modelo biomédico, dispensando-se a visão de que a obesidade é uma doença multifatorial e que necessita assim, de um olhar humanizado, compreensivo e antropológico. O obeso torna-se um sujeito “apático, preguiçoso, sem iniciativa e força de vontade”. Não só isso, como seu corpo parece refletir em suas relações sociais e profissionais, já que por não se encaixar nos padrões corporais exigidos pela atual ditadura social, torna-se sinônimo de mal sucedido. Para um nutricionista esta relação pode ser ainda mais opressora. 


“Os colegas (professores) diziam que eu não  podia ser nutricionista gorda daquele jeito. Nutricionista é cruel, principalmente se nunca foi gordo - acha que dieta todo  mundo pode  fazer." (Carol, 39 anos)

Fui demitida porque o ficava bem para uma empresa de alimentação ter uma nutricionista gorda. Depois da demissão devido à obesidade tomei a decisão mais difícil de minha vidafiz a  cirurgia  de  redução de estômago, mas  estou  engordando de novo, e se tiver um jeito de corrigir tudo com outra cirurgia, eu faço!.”  (Rita, 62 anos)

 

A questão é que não só a inserção deste profissional no mercado de trabalho torna-se dificultada, mas também sua manutenção e progressão na carreira, o que gera um enorme sentimento de fracasso e culpa.

“O sofrimento vivido por elas advém do sentimento de desqualificação atribuída pelo outro ao não reconhecer a importância do seu trabalho, podendo acarretar no adoecimento físico e psíquico da nutricionista. Esse fato também é presente na vida de outras mulheres, que revelam situações pelas quais passaram no trabalho e nas quais se sentiram menosprezadas, constrangidas e desrespeitadas.”

O ideal de beleza baseado em um corpo magro oprime nutricionistas obesas, que apesar da sua qualificação, podem sofrer julgamento.

“Eu já consultei nutricionistas e elas só querem saber de  cálculo,  de  técnica, de  contar calorias.  Não olham  para a pessoa por inteiro. Calcular dieta é fácil. Difícil é uma  nutricionista - principalmente se for magra e nunca tiver sido gorda,  entender o  que  um  obeso passa” (Diná, 49 anos)

 

Para saber mais, sugerimos a leitura do artigo indicado. Leia-o na íntegra aqui. E lembre-se:

somos diferentes e bonitas

 

Toda beleza é imperfeitamente bela. Jamais deveria haver um padrão, pois toda beleza é exclusiva como um quadro de pintura, uma obra de arte. (Augusto Cury)



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 05 de Abril de 2016

Imagem: Lines of Hope 

A fome no mundo, grave situação que afeta milhões de cidadãos, é um fenômeno que assola principalmente, mas não exclusivamente, países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. Em seu último livro intitulado ‘The Reproach o Hunger’ – ‘A Reprovação da Fome’, livre tradução - o escritor e analista de políticas David Rieff apresenta uma revisão crítica a respeito da maneira com que fundações e ONG’s em parceria com o setor privado encaram a questão.

David contextualiza o tema reconhecendo que o combate para erradicação da fome avançou nas últimas décadas, mas alerta para o fato de que além do inevitável crescimento populacional mundial, as desigualdades continuam a avançar desenfreadamente e são agravadas pelo aquecimento global e seus problemas socioambientais.

Um dos capítulos do livro leva o título “Filantrocapitalismo”, em menção à algumas fundações e ONG’s que trabalham com a agenda humanitária. Nele o escritor faz críticas veementes ao setor privado que em suas palavras, é o que mais incide na política, o menos regulado, e o menos democrático, além de especular com matérias primas. Neste bojo ele cita o Banco Mundial e a fundação de Bill Gates.

A questão estrutural na visão de David é o que ele chama de “antipolítica tecnocrática”, presente como resultado da lógica capitalista. Cria-se um problema resultante de desigualdades, no caso a fome, e ao invés de solucionar este problema por meio de políticas é criado um mecanismo (é aí que entram as corporações privadas) para se apresentar uma solução onde se capitalize em cima. Tal paradoxo se reflete na incapacidade até o momento de se erradicar a fome mundial através de pacotes tecnológicos.          

Rieff para exemplificar seu ponto de vista cita a Revolução Verde que foi encampada sob o pano de fundo de acabar com a fome, mas que na prática significou massivos investimentos e aquisições de tecnologias agrícolas que resultaram na explosão do uso de agrotóxicos e sementes transgênicas e que contribui para o fortalecimento de megacorporações. Ele acrescenta ainda que a fome é, portanto, um problema político, e não estritamente de produção.

David aponta alguns caminhos que não o ‘filantrocapitalismo’ para trabalhar na erradicação da fome como subverter a lógica da especulação financeira, fortalecendo o Estado e a democracia. Em sua visão, os problemas fundamentais do mundo sempre foram morais e não tecnológicos, pensamento consonante com uma citação de Gandhi presente em sua obra: “Na Terra há o suficiente para satisfazer as necessidades de todos, mas não para satisfazer à ganância de alguns“. 


 

 



postado por Ramon da Silva Rodrigues Almeida em Terça-feira, 22 de Março de 2016

Ontem dia 21/01/2016 foi comemorado o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial e o Ideias na Mesa sabe da importância desse dia no combate ao racismo que é um sistema opressor estruturante e estrutural em nossa sociedade e que precisa que combatido. Não faz sentido um país racista quando a maioria de sua população é negra.

Dessa forma pensamos em trazer algo para o [Pensando EAN] de hoje, com essa temática envolvida com a alimentação.

E temos hoje um texto da conselheira do CONSEA e nutricionista Regina Silva,  da coordenadora técnica de MARIA MULHER – Organização de Mulheres Negras Maria Noelci e da nutricionista e membro da Rede de Mulheres Negras para SAN  Fernanda Souza e Regina da Silva que discutem sobre as desigualdades raciais e a segurança alimentar e nutricional na perspectiva do Direito Humano à Alimentação Adequada - DHAA e trazem uma reflexão atual sobre o assunto.

No próprio texto as autoras trazem dados importantes do IBGE (2004) que demonstram que 11,5% da população negra do Brasil viviam em insegurança alimentar e sendo que este percentual cai para 4,1% em relação aos brancos.  

A situação socioeconômica precária da população negra é uma violação aos direitos humanos, incluso a alimentação, por isso ações diárias em combate ao racismo, fortalecidas no dia 21 são mais que necessárias.

Acompanhe logo abaixo algumas reflexões do texto:

"Por muito tempo as ações e políticas públicas para a melhoria de condição de vida não contemplaram de forma específica a população negra. Após contundentes reivindicações de atores da sociedade civil e do movimento negro, a temática racial passou a ser considerada nas discussões sobre as condições de vida dos diferentes grupos na sociedade brasileira.

Diante disso, salienta-se a importância do fator racial como dado a ser incluído na formulação e execução das políticas públicas, pois muitas vezes as diferenças fenotípicas da raça, como por exemplo, a cor da pele, atuam como indicadores para a distribuição diferencial dos direitos, levando como conseqüência à desigualdade racial.

A situação socioeconômica precária em que vive a população negra é a expressão da violação de diversos enfoques do Direito Humano como o direito à moradia, direito ao meio ambiente sadio, direito à educação e o mais fundamental dos direitos humanos, o direito a uma alimentação adequada, com qualidade e quantidade suficiente, respeitando a diversidade cultural sem comprometer o acesso a outras necessidades básicas.

Segundo pesquisa do IBGE (2004), que utilizou pela primeira vez a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia) na Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD), 13.921.000 pessoas passam fome no Brasil e que dos 52.000.000 de domicílios particulares estimados, em 6,5% deles residem pessoas com insegurança alimentar grave.

A insegurança alimentar é visível e reforça a desigualdade econômica entre raças. No Brasil, 11,5% da população negra vivia em situação de insegurança alimentar grave; entre os brancos o percentual é de 4,1%. Em contrapartida, a população que vivia em domicílios com garantia de acesso aos alimentos em termos qualitativos e quantitativos era 71,9% de brancos e 47,7% de negros.

É importante salientar que as diferenças na proporção de insegurança alimentar grave de acordo com a raça (os que realmente passavam fome) se reproduziram em todos os estados brasileiros, com maior magnitude nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste.

Somos o segundo maior país em população negra, a 8ª economia do mundo, o segundo maior produtor de alimentos, um dos maiores exportadores de alimentos e, contraditoriamente, só perdemos em concentração de renda para Serra Leoa. Somos um parque de contradições, onde convivem o melhor bioma para a qualidade de vida humana, a melhor oferta natural de alimentos e água pura, 30% das espécies vivas do planeta estão em nosso território e não conseguimos transformar essas riquezas em qualidade de vida para todos, coabitamos com pessoas em situação de extrema insegurança alimentar entre as quais as populações negras são a maioria.

Ainda cabe-nos superar as grandes desigualdades entre populações negras e brancas, resgate desta dívida histórica que o Brasil tem com o povo negro, pois foi às custas de seu suor e de seu sangue que conquistou destaque na economia mundial. Cumpre-nos editar um novo modelo soberano de desenvolvimento pautado na qualidade de vida das pessoas e dos grupos sociais, focado na reparação das diferenças históricas, seja investidor social, seja fortalecedor da economia interna, seja preservador e recuperador das riquezas naturais.

Repensar um modelo para além do conceito exportador, enriquecedor de poucos e gerador de miséria, achatador dos investimentos sociais e devastador de bens naturais não renováveis e ao mesmo tempo endividante. É inadmissível aceitar que em pleno século 21, milhões de pessoas passem fome, pois essa é a manifestação mais extrema da pobreza e da privação humana. Para Henriques (2001), a pobreza brasileira tem estreita relação com a desigualdade na distribuição de recursos, e não na escassez. Isso significa dizer que o Brasil, tanto em termos absolutos como em relação aos diversos países do mundo, não pode ser considerado um país pobre, mas, sem dúvida alguma, deve ser considerado um país extremamente injusto.

É preciso que as políticas sejam direcionadas e específicas e que contemplem efetivamente a redução das desigualdades raciais. A fim de reduzir essas desigualdades e assegurar à população negra o Direito Humano à Alimentação Adequada, a Comissão de Políticas para Segurança Alimentar e Nutricional das Populações Negras, do Conselho Nacional de Segurança alimentar e Nutricional (Consea), órgão de assessoramento da Presidência da República, apresenta em seus objetivos a incorporação da temática racial à construção da Política de Segurança Alimentar e Nutricional; a potencialização e divulgação de ações já desenvolvidas junto à população negra nesta área; o fortalecimento da produção e comercialização de alimentos por populações remanescentes de quilombos e o aproveitamento da capilaridade das comunidades religiosas de matriz africana".

Leia o texto completo aqui.



postado por Ramon da Silva Rodrigues Almeida em Terça-feira, 15 de Março de 2016

Sabemos que o comer e o cozinhar não são apenas hábitos saudáveis. Os dois atos envolvem uma gama de questões, como autonomia, auto cuidado, escolhas culturais, atitudes, entre outros.

Para o [Pensando EAN] de hoje abordaremos algumas ideias que a jornalista Juliana Dias, editora do site Malagueta traz sobre a pergunta: Comer ou apenas nutrir-se?

"A abordagem da alimentação na escola não deveria se limitar a cultivar hábitos saudáveis, numa visão que coloca o alimento como nutriente e a responsabilidade nos ombros do sujeito que come".

A alimentação é um campo diverso e repleto de signos e significados, portanto reduzí-la somente a visão nutricional é limitante e não compreende todas as suas especificidades.

Essa responsabilidade "culpada" que Juliana aborda acima vai totalmente contra os princípios de autonomia e a geração da capacidade de autocuidado do individuo sobre sua alimentação, preconizados no Marco  de Educação Alimentar e Nutricional para as Políticas Públicas e até mesmo à educação no modo geral.

Juliana aborda a importância do ambiente escolar sobre o desenvolvimento de escolhas culturais e sociais dos indivíduos, principalmente a alimentação. Por isso reflete sobre o papel da alimentação escolar nesse desenvolvimento:

"Portanto, é necessário ampliar os olhares para o valor da Alimentação Escolar. Esta é uma poderosa ferramenta para matar a fome de conhecimento, renovando o entendimento sobre a relação com a comida, a fim de engajar e transformar pessoas, comunidades e sociedades".

Por isso ela cita como um ótimo exemplo a Lei de Alimentação Escolar (11.947) que oficializa o olhar cultural sobre o comer e inclui a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) no processo de ensino-aprendizagem, que deve perpassar o currículo escolar:

 "Essa política pública estimula o respeito às tradições alimentares e à preferência alimentar local saudável; o desenvolvimento biopsicossocial; e amplia a presença de outros profissionais na escola, com proposta interdisciplinar e intersetorial. Também determina que ao menos 30% dos alimentos comprados para a refeição escolar venham da agricultura familiar local, preferencialmente produzidos de forma agroecológica ou orgânica".

O comer e conhecer o que se está comendo, segundo sua visão faz parte do processo educativo da vida e da construção da cidadania:

"Saber o que se come diz respeito à identidade cultural, autonomia e consciência crítica para deliberar sobre o que se coloca no prato e participar das tomadas de decisões sobre o rumo do sistema alimentar moderno".

Juliana também contextualiza toda a importância do cozinhar dentro do processo educativo, como forma de emancipação do próprio individuo:

"Cozinhar é um exercício de autonomia e consciência de si, do outro e do mundo".

Por fim ela afirma que o "casamento" entre alimentação e educação é necessário, assim como pede a Lei de Alimentação:

"Tendo em vista as demandas da Lei de Alimentação Escolar e uma reflexão a respeito da interseção entre alimentação e educação, busco apontar a sinergia entre esses dois campos. É vital estreitar e evidenciar os elos por meio da interdisciplinaridade, visando uma atitude transdisciplinar, considerar a memória, o afeto e os sentidos, seja no refeitório ou na sala de aula".

O texto de Juliana é incrível, por isso convidamos vocês a conferir ele na íntegra no site Outras Palavras.



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