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postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Terça-feira, 08 de Novembro de 2016

No último fim de semana, o Ideias na Mesa foi assistir ao curta metragem “Incondicional”. O filme trata da problemática da alergia alimentar em crianças, abordando o drama de uma mãe desesperada, que persegue uma celebridade que ela acredita ser responsável pela morte de seu filho alérgico.

Após essa exibição participamos de um debate com especialistas sobre a alergia alimentar, os rótulos, a urgência no acesso às canetas de adrenalina e a importância do acolhimento das famílias na sociedade. Inspirados no tema e sensibilizados pela problemática de milhares de pessoas, o [Pensando EAN] de hoje vai discutir as estratégias utilizadas para proteger pessoas que possuem algum tipo de alergia alimentar.

No Brasil, cerca de 8% das crianças e 3% dos adultos possuem alergia alimentar, cujo tratamento demanda um cuidado especial em relação ao que é consumido. Assim, é imprescindível que os rótulos dos produtos industrializados tragam informações claras, legíveis, em língua portuguesa, incluindo dados sobre o risco de contaminação cruzada com outros alimentos, que não os declarados na lista de ingredientes.

Mas uma pesquisa do Datafolha, encomendada pela Aliança de Controle do Tabagismo (ACT), organização que atua na área de promoção da saúde, mostrou que 48% dos brasileiros não têm o costume de ler as informações do rótulo. E entre os 52% que leem o rótulo, é alto o percentual daqueles que afirmam entender apenas "mais ou menos": 35% (outros 14% dizem que entendem bem e 3% dizem que não entendem).

Surge então o debate sobre a reformulação dos rótulos, para que de fato atendam as demandas do consumidor e transmitam informação clara e objetiva.

Para a nutricionista do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), Ana Paula Bortoletto, falta transparência e clareza. “As pessoas já valorizam a informação do rótulo, mas, como há dificuldade de lê-lo, isso desestimula a procura-la”. O Idec fez um levantamento que mostrou ainda que o uso de letras pequenas, de termos técnicos – como chamar açúcar de “sacarose” – e a necessidade de fazer contas são os principais inimigos de quem tenta ler os rótulos.

As entidades de saúde e os movimentos de defesa do consumidor têm agitado essa discussão, e é nesse cenário que o Movimento Põe no Rótulo pressionou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária de tal forma, que a partir desse ano, é obrigatória a inclusão de alertas a alérgicos, caso o produto contenha amendoim, ovos, camarão, entre outros.

A RDC nº26, de 2 de julho de 2015 dispõe sobre os requisitos para a rotulagem obrigatória dos principais alimentos que causam alergias alimentares. Ela obriga a indústria alimentícia a declarar nos rótulos dos seus produtos a presença dos principais componentes que podem causar alergias alimentares. Os alergênicos devem ser destacados nos rótulos dos alimentos embalados na ausência do consumidor.

A medida exige que a informação seja colocada abaixo da lista de ingredientes. O prazo limite para adequação terminou no dia 3 de julho de 2016, mas os produtos que foram fabricados antes da data limite têm até o dia de sua validade para mudar suas embalagens. O objetivo é que os produtos que contenham esses alergênicos apresentem em seu pacote todas as informações necessárias para o cliente. Hoje, o brasileiro pode chegar ao supermercado e saber se o alimento que necessita contém o ingrediente que lhe causa alergia.

Para saber mais assista a essa matéria: 

O informativo da embalagem precisa estar abaixo da lista de ingredientes e dizer se o alimento contém ou possui probabilidade de conter o alergênico. A medida exige ainda, que as empresas coloquem o aviso em negrito e caixa alta.

Em resumo, o que mudou desde o dia 2 de julho foi o seguinte:

Resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), aprovada em junho do ano passado, obriga a indústria alimentícia a informar nos rótulos a presença dos principais alimentos que levam a alergias alimentares. São eles: Oleaginosas; leite; trigo; cevada; centeio e aveia; crustáceos; ovo; soja; peixe.

O Ideias na Mesa sempre lembra que comer é um ato político e que as nossas escolhas podem mudar o ambiente no qual vivemos. Por isso, se encontrar um produto sem a rotulagem adequada à RDC 26/15, mande mensagem para ouvidoria@anvisa.gov.br, ligue nos SACs das empresas e exija essa informação e seja crítico ao escolher um produto que não atende às normas que beneficiam a população!

Depois da vitória dos rótulos para os alérgicos o movimento luta pela disponibilização das canetas de adrenalina. Para saber mais sobre esse movimento acesse o site do “Põe no Rótulo”.

Quanto à rotulagem, continuamos na luta para facilitar a leitura das informações que nos dão autonomia e permitem que façamos escolhas conscientes!



postado por Isadora Dias Nunes de Sena em Terça-feira, 01 de Novembro de 2016

A história da genética agrícola ocidental e moderna nos levou a um cenário estrutural de produção e segurança alimentar bastante problemático: 75% da biodiversidade agrícola acumulada durante milênios pela humanidade foi perdida por causa da grande uniformidade de cultivos tóxicos, obtidos graças a uma grande erosão genética. Hoje o [Pensando EAN] traz um artigo publicado por Sebastian Debenedetti - professor doutor na Universidade de Buenos Aires, docente de genética e melhoramento na licenciatura em agroecologia da Universidade Nacional de Rio Negro-, e traduzido pelo grupo De Olho nos Ruralistas.

O texto nos ajuda a refletir sobre como a mercantilização e a apropriação de conhecimentos acumulados, diretamente ligados à agricultura, modificaram nossa relação com a biodiversidade alimentar e, junto com o modelo alternativo, lança mão do conceito de genética agroecológica. Tudo isso embasado em dados históricos relevantes e esclarecedores.

Veja aqui o texto completo:

"O melhoramento genético é uma disciplina que começou, de modo incipiente, ao mesmo tempo que o desenvolvimento da agricultura, nas primeiras domesticações dos cultivos, dez mil anos atrás. Assim temos, por exemplo, que a partir do Teocintle se passaram milhões de anos para que, com a domesticação dos milhos primitivos, os americanos obtivessem o milho. Da mesma forma, os cereais de inverno (trigo e aveia) foram desenvolvidos no Crescente Fértil do Oriente Médio e o arroz foi cultivado pelos antigos povos assentados nas regiões da atual China e do Sudeste Asiático.

Deste modo a humanidade deve grande parte da existência de seu sistema alimentar agrícola à contribuição anônima e acumulativa que os primeiros povos originários nos deram durante milênios, selecionando e melhorando constantemente as diferentes espécies cultivadas.

A genética agrícola ocidental e moderna têm, como disciplina, pouco mais que um século de existência formal e acadêmica. Esse suposto “avanço racional” na tecnologia foi buscando, em paralelo ao desenvolvimento da mercantilização universal, diferentes mecanismos para obter uma apropriação do conhecimento acumulado.

A primeira grande tentativa bem sucedida de impedir o uso próprio da semente cultivada, forçando a compra anual obrigatória da semente, ocorreu com a aparição dos híbridos comerciais. Ao se cruzarem duas variedades vegetais, potencializavam-se fortemente as características remanescentes de cada uma, enquanto se evitava o uso próprio por causa da segregação que se evidenciava na geração seguinte, tornando agronomicamente inviável o cultivo.

Até o início dos anos 60, apesar disso, a ampla maioria da diversidade genética agrícola mundial se mantinha e se ampliava pelo livre intercâmbio, pelas viagens e pelo comércio de sementes, sua compra e venda, o cruzamento e a seleção vegetal em cada ambiente agrícola particular.

Em 1961, após a instalação da “revolução verde” estadunidense, se legalizou a “Propriedade Intelectual dos Obtentores Vegetais”, com a invenção e adoção, por vários países, do Convênio Internacional para a proteção das Obtenções Vegetais, ditado por uma “Conferência Diplomática” em 2 de dezembro de 1961, em Paris. Desde então se começou a reconhecer legalmente, pelos países, os direitos à propriedade intelectual dos obtentores sobre as variedades, assinando a “criação” das mesmas e o “descobrimento” de outras, apropriando-se da construção coletiva histórica de toda a humanidade, condensada e sintetizada nas sementes agrícolas.

O projeto de capitalização ocidental das culturas fitogenéticas, desenvolvidas e socializadas pelos camponeses e povos originários, foi plasmado nas atas da UPOV (Organização para a Proteção de Obtenções Vegetais), verdadeiras “guias legais” que foram ditando as leis que permitiram a expropriação de mais-valor por parte das grandes empresas de sementes e o lucro, com base em variedades naturais e preexistentes, selecionadas e aperfeiçoadas, sem reconhecimento da contribuição prévia.

A lei de sementes 20.247 na Argentina responde textualmente às atas de modificação, em 1972, do  Convênio Internacional da UPOV. Mas sucessivas emendas (aproximadamente mil) modificam substancialmente a lei. Isto abriu portas para que, hoje, grandes transnacionais como Monsanto, Syngenta, Basf e Bayer utilizem ou possam utilizar qualquer semente de uma variedade conhecida ou desconhecida, ou mesmo outras plantas comestíveis obtidas a partir da biodiversidade regional, como fonte para inserção de seus transgênicos. Desta maneira foram gerados prioritariamente cultivos resistentes a herbicidas ou lepidópteros, transformando-os em verdadeiros veículos de contaminação genética humana  e em fonte de toxicidade alimentar em grande escala.

Assim, 75% da biodiversidade agrícola acumulada durante milênios pela humanidade se perdeu, diante de uma grande uniformidade de cultivos tóxicos, obtidas graças a uma grande erosão genética.

A agroecologia promove o resgate das práticas e saberes camponeses e indígenas, interagindo livremente com o conhecimento obtido pela modernidade por meio de um diálogo dialético onde, do contraste entre visões anteriormente opostas e incompatíveis, surge uma síntese superadora. Esta disciplina implica uma visão oposta ao agronegócio, especialmente aquele baseado na engenharia genética, implicando a volta à propriedade mista, descartando o uso e abuso dos agrotóxicos, lutando por cultivos comestíveis saborosos e livres de fertilizantes e pesticidas, propondo um manejo holístico e equilibrado do ecossistema agrícola (a interação harmônica entre planta, solo, água, ambiente, animais e populações rurais).

Neste contexto, a genética agroecológica, como nova disciplina, tende a propor planos de seleção e melhoramento contextualizados, integrados e ancorados nos territórios, vinculados à interação com animais e insetos locais. Para isso é preciso que estes sejam tolerados pelos cultivos, promovendo não somente o aumento da produtividade, mas também a manutenção do homem no campo e a sustentabilidade socioambiental.

Deste modo, a agroecologia não somente rechaça a nova Lei Monsanto de sementes, baseada no relatório UPOV 1991 – que, ao limitar o uso próprio, também criminaliza as práticas ancestrais de livre circulação de sementes. Mas também rechaça a atual lei de sementes da ditadura militar de Lanusse, modificada pelo Menemismo, que colocou as bases para o atual modelo agroindustrial, expandido em grande escala na última década. A apropriação do conhecimento acumulado e a transformação dos alimentos em armas biotecnológicas foi um projeto de longo prazo. Hoje, com a nova lei de sementes em debate, estamos diante do fim de um amplo processo de mercantilização monopolista da vida.

Não obstante as boas intenções da agroecologia, porém, não ignoramos o fato de que, sem uma mudança social radical na organização da sociedade, é altamente provável que as transnacionais adotem o programa agroecológico, capitalizando-o e esvaziando-o de conteúdo, com propensão para uma transformação de sentido, em uma espécie de programa Capitalista Agroecológico.

Nesse contexto de mobilização contra a Lei Monsanto de sementes, propomos que a semente transgênica seja claramente rotulada, que se promova um plano nacional de estímulo à agricultura camponesa de raiz regional. E que seja desenvolvido um programa nacional muito amplo de conservação e expansão dos recursos genéticos locais, que permite resgatar em primeira instância as sementes locais e crioulas, para então se estimular seu uso e seu melhoramento genético em um marco agroecológico, com a inclusão de uma reforma agrária integral para potencializar uma ampla produção de alimentos saudáveis, socialmente sustentáveis e economicamente viáveis."

Já parou pra pensar sobre isso?



postado por Isadora Dias Nunes de Sena em Terça-feira, 25 de Outubro de 2016

No dia a dia vários dos alimentos que consumimos passam por um processo de polinização para serem produzidos, a maioria, pelos melhores e mais eficientes agentes polinizadores da natureza, que são responsáveis pela reprodução e perpetuação de milhares de espécies vegetais, produzindo alimentos, conservando o meio ambiente e mantendo o equilíbrio dos ecossistemas: as abelhas. Segundo a FAO, 70% de todas as culturas agrícolas dependem dos polinizadores e estima-se que 1/3 de todos os alimentos que chegam à nossa mesa tenham alguma dependência dos polinizadores para serem gerados.

O que muitas pessoas não sabem, é que esse cenário está em crise, nos últimos anos um problema pauta a apicultura em todo o mundo: o desaparecimento e a morte massiva das abelhas. Um problema de proporções expressivas: só nos EUA mais de 1/3 dos enxames têm sido perdidos todos os anos, e o Brasil e a América Latina começam a se mobilizar frente aos diversos relatos de mortalidade de abelhas, de causas ainda controversas.

Estudos científicos indicam que este fenômeno é sintomático e epidêmico, causado por um distúrbio que mundialmente passou a ser denominado CCD (Colony Collapse Disorder – Síndrome do Colapso das Colônias) ou, simplesmente, Síndrome do Desaparecimento das Abelhas.

Sem as abelhas, tanto a renovação das matas e florestas, como a produção mundial de frutas e grãos ficariam comprometidas. O equilíbrio dos ecossistemas e da biodiversidade sofreria um sério impacto, o que afetaria diretamente o ser humano de diversas maneiras.

Tal contexto é, provavelmente, um dos temas que mais intriga a comunidade científica no mundo, por não haver uma razão única. É certo, entretanto, que as múltiplas causas têm, comprovadamente, grande interdependência entre elas. Agrotóxicos, desmatamento, queimadas, doenças, ácaros, mudanças climáticas, déficit nutricional estão entre as inúmeras causas do desaparecimento ou morte das abelhas.

As estatísticas sobre a atividade apícola no Brasil infelizmente são escassas, e um canal para o registro compartilhado do desaparecimento e morte massiva de abelhas apenas começou a ser feito a partir da iniciativa da campanha “Sem Abelha, Sem Alimento”, a maior iniciativa em proteção às abelhas da América Latina, que tem o objetivo de conscientizar a sociedade para a importância destes polinizadores, e alertá-la para os riscos de seu declínio.  O aplicativo Bee Alert, lançado pela campanha, tinha, até fevereiro de 2015, mais de 100 casos documentados na América Latina (sendo 95% deles no Brasil), com aproximadamente 12 mil colmeias afetadas, e cerca de 700 milhões de abelhas exterminadas e o assunto tem ganhado a atenção da mídia, por se apresentar como um problema que evolui e se expande de forma preocupante.

Veja abaixo uma palestra onde a entomologista especialista no assunto faz alguns esclarecimentos, e acesse aqui o site da campanha Sem Abelha, Sem Alimento.

 



postado por Isadora Dias Nunes de Sena em Terça-feira, 18 de Outubro de 2016

No dia 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) fez o alerta: “O clima está mudando. A alimentação e a agricultura também”. O [Pensando EAN] de hoje traz uma reflexão que parte de uma análise de tal problemática com base na ideia de comida como sistema.

O blog jornalístico "Conhecer para Comer" tratou em um artigo a inter-relação entre clima, agricultura e alimentação, indicando dados, fatos e autores que apontam para a emergência de refletir sobre os limites (do planeta, do solo, da água, das pessoas). Veja aqui alguns trechos do texto:

"(...) O chamado da FAO e as consequências visíveis do atual modelo alimentar, nos leva a refletir a partir de uma visão complexa sobre uma das questões levantadas pelo antroposociólogo francês Edgar Morin. Ele destaca o fato de que os sistemas são tratados como objetos. O autor nos incita a conceber exatamente o inverso: os objetos como sistema. Apoiadas nessas reflexões, assim como a ameaça da crise ambiental para a produção de alimentos atualmente e para as gerações futuras, consideramos que devemos compreender o alimento não como um objeto e, sim, como um sistema, inserido no sistema alimentar, ambos sendo sub-sistemas do sistema capitalista, que faz parte do ecossistema e, assim sucessivamente. Deste modo, poderemos entender melhor o alimento e apontar caminhos teóricos e práticos para enfrentar as contradições, antagonismos e complementariedade, inerentes à complexidade de um sistema. (...)

Para falar em alimento como sistema, neste texto, vamos focalizar um dos aspectos da teoria de sistemas. De acordo com Morin e o biólogo austríaco Ludwing von Bertalanffy, um dos maiores teóricos de sistemas, os sistemas estão formados de subsistemas e podem provocar alterações no sistema e vice-versa.  Esta noção, nos leva a pensar nas articulações que existem assim entre o sistema capitalista e sistema alimentar, sendo este último um subsistema do sistema capitalista. (...)

Entender como a alimentação foi capturada pela lógica privada do capital e como o alimento virou mercadoria é uma das chaves para explicar a contribuição do sistema alimentar hegemônico presente no sistema capitalista e as suas consequências no cenário atual de crise ambiental. Nesse sentido, gostaríamos de destacar o trabalho do jornalista Paul Roberts, especializado em economia, tecnologia e meio ambiente. Ele faz um estudo bem amplo sobre o sistema alimentar no livro o fim dos alimentos (2009).(...) Roberts, com postura crítica, volta sua atenção à economia alimentar moderna e descobre que o sistema que deveria satisfazer a nossa necessidade mais básica está falhando.

 Na visão do autor, a crise alimentar é fundamentalmente econômica, pois o alimento não se conforma na categoria de mercadoria. Por ser tão impróprio à produção em massa, Roberts explica que tivemos de reengendrar plantas e animais para torná-los mais eficientes economicamente. E para corrigir os efeitos colaterais, ergueu-se uma indústria de medicamentos, flavorizantes, aditivos e fertilizantes em prol da qualidade, percebida na textura e no sabor de quem compra. (...)

As ambiguidades na produção, distribuição e consumo de alimentos nos conduz à interpretação para o fenômeno da alimentação, considerado por Morin (1973) como um fato humano total, que rearticule ligações indissociáveis, tais como sujeito-objeto; natureza-cultura; e real-simbólico.

O conjunto de crises que marca a civilização – econômica, ambiental e de conhecimento – é um ponto de inflexão para repensar a centralidade da comida em âmbito individual, coletivo e do território. Observamos que as corporações agroalimentares são as maiores beneficiárias das políticas, aumentando, portanto, o volume de produtos alimentares produzidos, sem, contudo, eliminar a fome.(...)

Pensar na ciência ecológica com relação ao alimento nos remete a agroecologia que pode ser definida como uma nova ciência em construção, um novo paradigma de cujos princípios e bases epistemológicas nascem da convicção de que é possível reorientar os cursos alterados dos processos de uso da terra, de forma a ampliar a inclusão social, reduzir danos ambientais e fortalecer a segurança alimentar e nutricional com a oferta de alimentos sadios para todos (CAPORAL, 2009, apud CAMPOS, 2014, p.267). O desafio agroecológico é a complexidade, a procura de um contexto mais amplo. Cada vez um maior número de cientistas se juntam a esta construção, reconhecendo as limitações do método objetivo, entendendo que reducionismo traz danos ecológicos e altos custos sociais.

Morin sinaliza que a um primeiro olhar a complexidade é um tecido (complexo: o que é tecido junto) de constituintes heterogêneas inseparavelmente associadas: ela coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Num segundo momento, a complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem nosso mundo fenomênico (2011, p.13).

Na agroecologia, os sistemas agrícolas tradicionais são valorizados e geram tecnologia e conhecimento. Trata-se de uma tecnologia receptiva à heterogeneidade de condições locais, sem procurar transformá-la, mas sim melhorá-la. Assim o conhecimento agrícola tradicional, mais os elementos da ciência agrícola moderna, não transformam nem modificam radicalmente o ecossistema (ALTIERI, 1999, p.60). Podemos dizer que esta nova ciência está tecendo junto os saberes tradicionais e o conhecimento cientifico. Não significa desprezar os conhecimentos científicos até então acumulados. Ao contrário, significa aprofundar os conhecimentos científicos sobre a natureza, seu comportamento, e verificar, com precaução, aqueles que podem ser alterados sem prejuízos à vida na Terra. (...)

Na agroecologia encontramos a valorização das diferentes dimensões não econômicas do alimento, as técnicas agroecológicas procuram a salvaguarda da vida, da cultura e do planeta. Encontramos assim a valoração do trabalho da natureza e o trabalho social o que se contrapõe a abstração do alimento-mercadoria.

Assim, as técnicas agroecológicas estão em total sintonia com o chamado que faz a FAO para este dia mundial da alimentação, promover políticas públicas que favoreçam a transição a este modo de produção pode permitir maior resiliência e adaptação as mudanças climáticas que estão acontecendo."

E você já tinha parado para pensar na alimentação dessa forma? Veja o artigo completo aqui. 



postado por Marina Morais Santos em Terça-feira, 04 de Outubro de 2016

O nosso sistema de produção de alimentos está quebrado, com fortes perdas na biodiversidade. A solução não é mais produtos químicos de algumas companhias cada vez mais dominantes.

Produtores britânicos de trigo tipicamente tratam cada safra durante seu ciclo de crescimento com quatro fungicidas, três herbicidas, um inseticida e um produto químico para o controle de moluscos. Eles compram sementes que foram pré-tratados com agroquímicos contra insetos. Eles pulverizam a terra com herbicida antes de plantar, e novamente depois.

Eles aplicam reguladores químicos de crescimento que alteram o equilíbrio dos hormônios da planta responsáveis pelo controle da altura e força das hastes dos grãos. Eles pulverizam químicos contra pulgões e bolor. E com frequência logo antes da colheita, eles aplicam o herbicida glifosato para secar a colheita, o que economiza os custos energéticos da secagem mecânica.

A maioria dos produtores ao redor do mundo, independente do tipo de alimento que cultivam, recorrem  a pelo menos uma das seis empresas que dominam o mercado para comprar sementes e todos esses agrotóxicos. A concentração de poder sobre a agricultura primária por parte de um número tão pequeno de corporações  e a habilidade delas de definir preços e determinar a disponibilidade de variedades de sementes já tem causado preocupação entre os produtores. Ainda assim, até o ano que vem, é provável que a competitividade encolha ainda mais.

Os seis gigantes globais dos agrotóxicos e sementes vão se tornar três colossais empresas com ainda maior controle de mercado. Bem quando as mudanças climáticas exigem um sistema mais diversificado, adaptado e resiliente às condições de mudança, a agricultura tem sido arrastada para uma rota agroindustrial ainda mais estreita.

Atualmente, Bayer, Monsanto, Dupont, Dow, Syngenta e BASF representam três quartos do mercado global de agroquímicos e quase dois terços do comércio de sementes. Com a queda dos preços de commodities, seus lucros tem murchado. Os agricultores que estão recebendo menos por suas produções tem tido dificuldade para ganhar dinheiro. Nos Estados Unidos, eles começaram a se afastar das caras sementes geneticamente modificadas, e, na Europa, mais de 3 milhões de fazendas foram perdidas em oito anos. Então, por dois anos, as companhias de agrotóxicos têm estado envolvidas em uma agitação de fusões e aquisições para se tornarem ainda maiores e mais poderosas. As propostas se instalaram, no momento, em um trio de mega-acordos.

O mais recente acordo de fusão, que vale 66 bilhões de dólares, é entre a Monsanto, a controversa gigante sediada nos EUA e maior empresa de sementes do mundo e sétima maior em pesticidas; e a alemã Bayer, a segunda maior em agrotóxicos e sétima maior empresa de sementes.

Para dar uma ideia da dimensão e do impacto desse acordo comercial, a Monsanto, além de ser o fornecedor líder mundial de sementes geneticamente modificadas, controla quase um quarto do mercado de sementes vegetais na Europa e é um grande jogador no mercado de sementes convencional de milho. O herbicida glifosato, o seu grande ganhador, agora tem uso tão comum na Europa que foi detectado na urina de 44% das pessoas em uma pesquisa da Friends of the Earth. Bayer é a líder na maioria dos pesticidas, incluindo os neonicotinóides usados para tratar cerca de 90% dos cereais, açúcar de beterraba e óleo de canola do Reino Unido.

A proposta fusão Bayer-Monsanto é precedida por um acordo de 130 bilhões de dólares entre as empresas americanas DuPont (2° em sementes e 6° em pesticidas) e a Dow Chemicals (5 ° em sementes e 4° em pesticidas). A China, focada em sua própria segurança alimentar, também quer participar um pouco da ação, e a ChemChina, empresa apoiada pelo Estado Chinês, que é também a sétima no comércio global de pesticidas devido a vendas por filias, deu um bem-sucedido lance para comprar a suíça Syngenta por 43 bilhões de dólares. Assim, processos paralelos de concentração estão ocorrendo no setor de fertilizantes químicos.

A narrativa oferecida para justificar esse domínio do mercado supostamente livre é que apenas entidades maiores e mais corajosas podem enfrentar o grande desafio de nosso tempo: alimentar um adicional de 3 bilhões de pessoas até o ano de 2050 sem destruir o planeta. Somos convidados a aceitar o modelo de agricultura intensiva como a marcha heróica da ciência, contra os métodos tradicionais, primitivos e de baixo rendimento. Não há alternativa. Mas, na verdade, é este modelo de produção de alimentos que está preso em um barranco.

No Pós-Guerra, havia de fato grandes avanços em aumentar a quantidade de alimentos produzidos no mundo, graças ao melhoramento genético de espécies e o uso de químicos na forma de fertilizantes e pesticidas artificiais. Mas com os triunfos da revolução verde, suas deficiências a longo prazo estão cada vez mais aparentes.

O uso excessivo de agrotóxicos tem contribuído paras as graves perdas de biodiversidade e de polinizadores vitais para o ecossistema. Os alimentos na resistência a pragas ameaçam reverter os ganhos anteriores em rendimento da produção. As pesquisas descobriram que, por um curto período de tempo, o rendimento por hectare de monoculturas são maiores em sistema de agricultura intensiva. No entanto, em um período de tempo maior, e quanto você olha para a produção agrícola total, a agricultura mais variada e diversificada tem maior produtividade.

Se o principal propósito de um sistema alimentar é nutrir as pessoas para mantê-las saudáveis, esse sistema está falhando. Apesar de a quantidade de comida disponível  ter dobrado em algumas regiões, mais de 750 milhões de pessoas ainda passa fome rotineiramente. Enquanto isso, quase 2 bilhões de pessoas tem sobrepeso ou obesidade.

O sistema agroindustrial que essas companhias sustentam é focado principalmente em um pequeno número de culturas de commodities para exportação. O grupo de pesquisa ETC ressalta que companhias de sementes geneticamente modificadas concentraram seus esforços de desenvolvimento em milho, soja e canola, ao invés de investir na imensa variedade de mais de 7000 alimentos cultivados por agricultores ao redor do mundo. Quebrar essas colheitas de commoditties em partes e revender em forma de açúcar, amidos, óleos acrescenta valor para o acionista da rede, mas esvazia o sistema de valor nutricional. Doenças relacionadas à alimentação já ultrapassam as doenças infecciosas como a maior causa de morte prematura em todo o mundo.

Embora as empresas falem em combater a ameaça que mudança climática representa para a segurança alimentar, o sistema alimentar agroindustrial é uma das mais significativas causas dessa mudança, contribuindo para cerca de 1/3 de todas as emissões de gases de efeito estufa produzidas pelo homem.

A concentração das corporações no sistema alimentar tem sugado o dinheiro produzido pela cadeia para a mão de um punhado de empresas no topo. Ele funciona para alguns, mas não para a maioria. Como se para enfatizar esse ponto, o presidente-executivo da Monsanto está para recolher mais de 135 milhões de dólares  da fusão da empresa com a Bayer em opções de ações e verbas rescisórias. De maneira paradoxal, as três grandes fusões da indústria de agroquímicos revela também a  vulnerabilidade do setor.  A indústria de pesticidas está sob pressão - Bayer e Syngeta são grandes produtores dos três tipos de neonicotinóides recentemente proibidos na União Europeia devido ao seu impacto sobre as abelhas. A União Europeia tem estado sob grande pressão para restringir o uso de glifosinato, desde que foi apontado como "provavelmente carcinogênico" pela OMS no ano passado.

Esse modo de produção do nosso alimento está quebrado e a maioria das pessoas, incluindo aqueles que promovem tal meio, sabem disso. Então por que não há mudança? O ex-relator da ONU sobre o Direito à Alimentação, Olivier de Schutter, descreveu uma série de barreiras que impedem essa mudança. Porque o ganho é revertido um número limitado de atores, o seu poder político e econômico e a capacidade de influencia a política de governo é refoçado.

A última fronteira é a África, onde há uma nova luta para difundir o modelo agroindustrial da agricultura. Pode muito bem ser na África, no entanto, que uma visão diferente e mais ecológica do futuro da produção de alimentos pode emergir. Eu tive um vislumbre disso em uma viagem a uma empresa de exportação de produtos da horticultura em larga escala localizada no Lago Naivasha, no Quênia.

A empresa, Flamingo Homegrown, abandonou o seu uso a longo e pesado de pesticidas químicos, em parte em resposta a uma campanha que destacava os seus efeitos na saúde dos trabalhadores, mas em parte também em reconhecimento de que estavam perdendo controle da resistência de pragas devido a pulverização aérea.

Eles reinventaram sua agricultura fazendo a ciência de agrotóxicos parecer primitiva e obsoleta. Em vez disso, empregam grupos de cientistas africanos altamente treinados para estudar e reproduzir em laboratórios os fungos e microorganismos do solo saudável que forma intricadas ligações com as raízes da planta. Ao invés de fazer guerra química na terra, eles trabalham para aproveitar os ecossistemas extremamente complexos do solo. Eles construíram vastas estufas dedicadas à reprodução e colheita de joaninhas para controlar pragas biologicamente ao invés de quimicamente.

Há uma outra rota para a segurança alimentar - e é o pólo oposto das três gigantes dos agrotóxicos que hoje montam o mundo.

Tradução: Marina Morais

Fonta: Felicity Laurence, https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/oct/02/agrichemicals-intensive-farming-food-production-biodiversity



postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Terça-feira, 27 de Setembro de 2016

Em seu livro “O dilema do onívoro”, lançado há uma década, Michael Pollan diz que se soubéssemos das mentiras contadas pelo agronegócio, com certeza mudaríamos nossos hábitos alimentares.

Hoje podemos dizer que já conseguimos enxergar melhor essas mentiras da indústria, mas Pollan tem se perguntando se esse novo olhar, por si só, é suficiente.

Em uma entrevista, Pollan disse que o maior acesso à informação não mudou a postura dos consumidores quanto às escolhas alimentares, como ele esperava. Embora ele tenha apontado alguns avanços encorajadores, ele também argumentou que nosso sistema alimentar não está tão diferente de como ele descreveu em 2006. Para que o sistema alimentar de fato mude, serão necessárias algumas conversas consideradas difíceis pelo autor. Ainda é muito necessário discutir sobre políticas que levem ao consumo consciente, sobre os preços dos alimentos e sobre o papel daqueles que “advogam” pela causa.

Para comemorar a década de publicação do livro, confira essa entrevista com o autor.

Michael Pollan: A simples questão que me fez iniciar o livro – “De onde vem nossa comida?” – é agora uma questão para diversas pessoas. Mas eu não quero superestimar a influência do livro, pois o sistema alimentar de hoje é bem parecido com o de 10 anos atrás. Já as estratégias usadas pelos consumidores, para escolher seus alimentos, são um pouco diferentes das usadas em 2006.

A economia que abrange a produção de alimentos também tem mudado. Nos Estados Unidos a venda de alimentos orgânicos tem arrecadado 40 bilhões. Os consumidores também têm dado preferência a alimentos locais e artesanais.

A estimativa é de que hoje a economia que vai contra ao atual sistema alimentar movimenta cerca de 50 bilhões de dólares. Claro que isso não quer dizer que as empresas tradicionais não estão lucrando com a venda de orgânicos também, mas o fato é que eles tiveram que alterar a forma de produção, o que mostra novos rumos no ramo alimentício.

Um dos aspectos positivos de ter várias grandes empresas dominando o cenário da produção de alimentos é que os monopólios, às vezes, podem se mover rapidamente para mudar o sistema. Se você força empresas como McDonald’s, Walmart ou KFC, a mudar a forma de produção, você pode trazer mudanças muito rápidas para o sistema alimentar.  

Muitos dos valores que hoje parecem ser alternativos, como comprar ovos de galinhas que não vivem em gaiolas, em breve será um hábito comum. Eu acho que logo muitas redes de fast food vão começar a vender produtos orgânicos por marketing e muitas outras redes vão seguir essa tendência por perceberem que é uma estratégia que funciona.

É assim que a mudança vai chegar aos Estados Unidos, certo?

Nós temos a tendência de progredir a partir dos desafios, ao invés da revolução e da substituição.  

Não há dúvida de que você verá o mercado alimentício alternativo e tradicional se unirem. Resta será saber se as pessoas vão comemorar ou lamentar essa transição.

Eu frequentemente pergunto às pessoas: Como você se sentiria se o McDonald’s decidisse vender apenas produtos orgânicos? Isso seria uma vitória incrível. Imagina todos os campos que deixariam de receber agrotóxicos e todo o gado pastando na grama. Mas algumas pessoas sempre vão se assustar com essa fantasia. O movimento que luta pela comida de verdade é feito pela sociedade civil que busca novas estruturas para o sistema alimentar e, de certo modo, busca mudar o atual contexto econômico.

Algumas pessoas ficarão deprimidas quando os aspectos desse atual movimento social se tornarem comuns, batidos. Outras se sentirão plenamente realizadas – é assim que a mudança acontece nos EUA. Talvez isso seja o que podemos esperar de melhor.

Enquanto a consciência cultural em torno da comida mudou, nós não fizemos muito progresso mudar as coisas em Washington.

O verdadeiro desafio agora é trazer a luta do consumidor para o cidadão: levar as pessoas a votar em questões alimentares, para que os congressistas votem em melhorias para o sistema alimentar.

A indústria ainda tem forte influência sobre os comitês agrícolas no Congresso e a maioria das reformas que temos visto são realmente pequenas mordidas nas bordas.

Há dinheiro destinado para programas de alimentação escolar e de instituições públicas e de incentivo para a produção local. Hoje a lei para produção agrícola tem algumas boas disposições para as pequenas e diversificadas formas de produção, que nunca existiram antes.

Há muito dinheiro para promover a agricultura local.

Mas os legisladores aumentaram o investimento em sistemas alternativos, sem reduzir o incentivo aos métodos de produção tradicionais.

Vivemos um momento interessante, no qual o poder das corporações é tão pleno que o governo encontra problemas para quebrar esse ciclo, sem que haja um escândalo.

Um ponto postivo para esse movimento é que a fraqueza das grandes corporações tem sido a própria marca. É aí que você vê uma interessante atividade política da sociedade civil representada por grupos como a Coalizão de Trabalhadores de Immokalee, a Oxfam América e a Humane Society. Eles têm ido atrás dessas empresas, fazendo com que elas se sintam forçadas a mudar o próprio comportamento por medo de serem ridicularizadas. 

No final, porém, você tem que refletir sobre as mudanças que essas empresas sofrem. É necessário que exista uma regulamentação legal que de fato consagre essas mudanças. Temos muitos exemplos de empresas que fazem promessas atrativas, mas que deixam de ser cumpridas quando o público não está prestando atenção.

O McDonald’s recentemente prometeu que não comercializaria carnes de frango produzidas com antibióticos mas, em seguida, um repórter descobriu que eles tinham feito a mesma promessa há exatos dez anos. Será que a indústria mantém todas as promessas que fez à Michelle Obama, depois que ela está fora do escritório? E existe um mecanismo para garantir que eles de fato cumpram?

É importante votar com seu garfo, não ache que é trivial.

E isso é necessária, mas não suficiente, pois também temos que votar com nossos votos.

Uma coisa positiva que o governo poderia fazer é oferecer à agricultura orgânica, os mesmos subsídios que oferece à agricultura convencional. Ainda assim, é provável que o preço dos alimentos orgânicos não sejam tão competitivos quanto os produzidos pela agricultura tradicional, em parte porque esses preços baixos não refletem o verdadeiro custo do produto.

Nós pagamos pelos alimentos convencionais de outras maneiras: na saúde pública, em danos ao meio ambiente e em subsídios do contribuinte.

À medida que conseguirmos reformar o sistema, eu acho que vamos ver que o baixo custo foi uma ilusão, pois você não pode produzir alimentos mais baratos, sem que alguém pague o custo real. E esse custo tem sido pago pela saúde e meio ambiente.

Minha esperança é que as pessoas comecem a ver os alimentos como algo que vale a pena gastar mais dinheiro, quando possível. Afinal de contas, a maioria dos americanos vive em uma situação confortável e paga centenas de dólares em contas de telefone ou em canais de TV. Eu acho que uma fatia significativa do público consumidor está se acostumando com a ideia de que alimentos produzidos de forma alinhada aos seus valores pessoais, vão custar mais caro. Mas claro, que ainda existem pessoas que não serão capazes de arcar com os preços mais altos dos alimentos sustentáveis e é aí que surge a dificuldade. Como podemos permitir o acesso de todos à esses alimentos?

Penso eu que esse seja o maior desafio do movimento pela comida de verdade: democratizar o acesso à alimentos produzidos de forma sustentável e ética.

É por isso que é muito encorajador ver ativistas pela comida de verdade se envolverem com questões de trabalho, abordando os salários e não apenas a produção de alimentos. Há um reconhecimento de que uma grande quantidade de trabalhadores são empregados da indústria de alimentos e estão sendo explorados por ela. Se pudermos consertar o erro e aumentar os salários de quem não pode pagar por alimentos sustentáveis, isso permitirá que mais de nós sejam capazes de pagar o verdadeiro custo dos alimentos.

 

Tradução: Ana Maria Maya

Fonte: http://newfoodeconomy.com/michael-pollans-new-dilemma/



postado por Isadora Dias Nunes de Sena em Terça-feira, 20 de Setembro de 2016

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, que delineia os direitos humanos básicos, foi adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 10 de dezembro de 1948. Desde então muita coisa mudou no cenário internacional dos direitos humanos, principalmente no contexto do Direito Humano á Alimentação Adequada (DHAA) e outros que estão diretamente ligados com ele e envolvem as lutas por terra e as questões ambientais.

Com base nisso a Via Campesina, uma organização internacional de camponeses composta por movimentos sociais e organizações de todo o mundo, apresentou em 2012 à ONU uma proposta, construída durante quase uma década, de Declaração de Direitos dos Camponeses.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Diego Montón, integrante do Movimento Nacional Campesino y Indígena da Argentina, membro da secretaria operativa da Coordenação Latino-americana das Organizações do Campo Cloc e representante da América Latina no coletivo internacional da Via Campesina que discute a Declaração dos Direitos Camponeses, explica que o avanço das companhias transnacionais gerou uma série de novas violações de direitos humanos, exigindo que as organizações camponesas buscassem uma proteção internacional ao seu modo de vida e trabalho.

Segundo Montón, o debate não interessa só aos camponeses, mas a toda sociedade, já que a agricultura camponesa "garante o direito à alimentação da classe trabalhadora". "Não pode haver democracia sem o direito à alimentação garantido", afirma. Veja aqui alguns trechos da entrevista:

Brasil de Fato - Como surgiu a ideia de uma declaração de direitos humanos específica para camponeses?

Diego Montón - Em primeiro lugar, o que avaliamos é que, com toda ofensiva das corporações transnacionais, foram surgindo novas formas de violação de direitos, que, quando se discutiram os direitos humanos, não havia a percepção de que poderiam ocorrer. Por exemplo, o tema das sementes. Há 50 anos não se poderia imaginar que se poderia privar de um agricultor o direito à semente, mas estamos em um contexto no qual as empresas estão avançando com normas internacionais que permitem a apropriação da propriedade intelectual, através de patentes, das sementes e, desta forma, espoliando direitos históricos dos camponeses. Assim como esse existem muitos outros direitos que devem ser ratificados pelo sistema internacional de proteção aos direitos humanos.

Estamos em uma situação na qual, além da luta cotidiana que se dá nos territórios - pela terra, pela água, pela produção -, as empresas também estão armando uma estrutura internacional de tratados e convenções comerciais que são os seus direitos, blindam as companhias. (...)

Além disso, a própria discussão em torno da Declaração ajuda no debate sobre o papel do campesinato nesta etapa da História da humanidade, como sujeitos econômicos, culturais e sociais fundamentais para se sair da crise estrutural do capitalismo em que estamos. Há essas duas dimensões. (...).

Brasil de Fato - Quais outros eixos a proposta de Declaração toca?

Diego Montón - Há um desenvolvimento do que poderia ser a reforma agrária e a soberania alimentar a partir de direitos específicos: ao uso coletivo e comunitário da terra, à biodiversidade, à água - para consumo e irrigação -, à produção e a um rendimento mínimo que permita uma vida digna, à comercialização dos produtos a preço justo. Há um capítulo sobre o direito das camponesas, que aponta para a questão da igualdade de gênero, e há também uma compilação de direitos já reconhecidos, por exemplo: à saúde, enfrentando o tema dos agrotóxicos e a responsabilidade do Estado em relação a isso, à educação adequada à cultura. (...).

Brasil de Fato - Como a garantia de direitos a camponeses e camponesas afetaria a vida das pessoas nas cidades?

Diego Montón - Diante de alguns problemas que são fatores fundamentais da crise - como a fome, a questão do abastecimento de alimentos saudáveis a preço justo nos mercados locais -, esta Declaração pode gerar um impulso à agricultura camponesa, que garante o direito à alimentação da classe trabalhadora, que, nos parece, é a coluna vertebral de uma democracia real. Não pode haver democracia sem o direito à alimentação garantido. O outro elemento é que a agricultura industrial é a principal fonte de emissões de gases que intensificam o aquecimento global, ante a qual nós propomos a agroecologia, que quase não tem emissões, ou seja, mitiga a crise climática. São alguns dos elementos de uma proposta que beneficia o conjunto da sociedade. Organizações de pastores, pescadores, trabalhadores estão se somando ao apoio a esta Declaração.

Além disso, ele fala sobre a oposição de certos países à Declaração: "(Os países) (...) Se opõe à concepção de direitos coletivos. Nós tivemos uma batalha cultural muito grande, eles entendem direitos de forma individual.".

Ou seja, a partir do surgimento de novas formas e contextos de violação de direitos humanos básicos que afetem a estrutura base da realização de outros direitos, como o DHAA, é demandado novas formas de lidar coletivamente com isso para que sejam efetivadas democracias reais para todos.

Leia aqui a entrevista completa.

 



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 13 de Setembro de 2016

Imagem: Atta Kenare/AFP/Getty Images

O aquecimento global e suas incontáveis consequências que interferem desde geleiras no Ártico até plantações nas cidades é uma seria realidade que as nações precisam enfrentar com seriedade.

Em matéria recente do jornal Britânico The Guardian, que traduzimos alguns trechos e acrescentamos outras informações, o antropólogo Jason Hickel publicou uma série de dados sobre essa temática e mostrou porque a solução pode estar ao alcance das mãos. Estudos recentes demonstram que nos últimos 14 meses os recordes de temperaturas globais foram consecutivamente quebrados e que dificilmente será possível permanecer na faixa de aumento de temperatura de 1,5 graus, mas que ainda é possível manter este incremento abaixo de 2 graus ainda que com um esforço monumental.    

Hickel diz que encontrar uma maneira de fazer a diferença é uma das maiores questões do século 21. Ele salienta que existem várias propostas, incluindo por exemplo capturar o CO2 emitido pelas indústrias, torná-lo líquido e armazená-lo em câmaras no subsolo. Outra seria distribuir ferro nos oceanos para desencadear uma reprodução massiva de algas que absorveriam CO2. Existe ainda uma outra linha de enfrentamento que preconiza colocar gigantes placas espelhadas no espaço para refletirem alguns dos raios solares. Infelizmente, em todos esses casos ou os riscos são muito grandes, ou nós ainda não temos a tecnologia necessária.

Enquanto engenheiros e outras correntes parecem não encontrar soluções através de grandes esquemas tecnológicos, uma alternativa mais simples e menos rebuscada está sendo subestimada: A preservação dos solos.

Os solos são o segundo maior reservatório de carbono do planeta depois dos oceanos, e concentram quatro vezes mais carbono do que todas as plantas e árvores no mundo. No entanto, atividades como o desmatamento e o agronegócio - responsável por intensas modificações no solo, monoculturas e uso intensivo de fertilizantes químicos e agrotóxicos - estão comprometendo nossos solos a uma velocidade alarmante e acabando com a matéria orgânica nele contida. Não por acaso, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) dedicou o ano de 2015 para discutir o tema, e apontou que apesar de 95% de tudo que comemos vir dos solos, este organismo que abriga mais de um quarto de toda a biodiversidade de nosso planeta já teve uma área mundial degradada equivalente a 33% de seu total.

Imagem: Bazuki Muhammad/REUTERS

As práticas de agricultura regenerativa como a agroecologia e sistemas agroflorestais além de serem alternativas ambientalmente sustentáveis e justas do ponto de vista socioeconômico em face ao agronegócio, podem também ajudar diretamente na fixação de carbono nos solos por sequestrá-los da atmosfera. Em outras palavras, a agricultura regenerativa pode ser a nossa melhor chance de frear o aquecimento global. Mesmo assim, grupos e associações que atuam com agriculturas alternativas - Via Campesina - por exemplo, enfrentam enormes batalhas com as poderosas corporações multinacionais que ditam os sistemas alimentares industriais. As corporações mesmo sabendo que os seus métodos centrados em fertilizantes químicos, pesticidas e monoculturas serem também responsáveis pelo aquecimento global, insistem em assegurar seu monopólio para perpetuar seus interesses econômicos.

A disputa aqui não é apenas entre dois modelos diferentes, mas entre duas maneiras distintas de se relacionar com a terra: uma que enxerga os solos como um objeto no qual o lucro deve ser extraído a qualquer custo, e a outra que reconhece a interdependência dos sistemas e honra os princípios de equilíbrio e harmonia. Assim, podemos enxergar os conflitos que causam não apenas os desequilíbrios ambientais como aquecimento global, mas também as violações do Direito Humano a Alimentação Adequada e a Segurança Alimentar e Nutricional.     

Para acessar a matéria na íntegra acesse o link.   


 

 



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 06 de Setembro de 2016

É crescente a procura e o interesse da população por alimentos orgânicos. Dentre as principais razões que tem levado os consumidores a demandar esse tipo de alimentos estão a preocupação com a própria saúde e um aumento da consciência sobre os impactos ambientais e sociais causados pela lógica do sistema alimentar centrado no uso de agrotóxicos e sementes transgênicas.

As vantagens dos sistemas agroecológicos e orgânicos são inúmeras, ainda assim, existe a crença de que os preços desses alimentos são muito mais elevados inviabilizando o consumo. Mas até que ponto essa argumentação se justifica?

O conceito de alimento orgânico, ou pelo menos a palavra, vem sendo cada vez mais difundida seja no ambiente acadêmico, veículos de informação ou em espaços mais informais. Já o termo agroecologia, é pouco conhecido pela maioria das pessoas apesar de ser uma ciência. A agroecologia diz respeito a um modelo de produzir alimentos, onde assim como no orgânico, não são utilizados venenos, fertilizantes químicos ou sementes transgênicas, mas para além dos insumos, também são consideradas a dimensão social com a produção de base familiar e a valorização de saberes e tradições no cultivo.

Essa modalidade expande o olhar e o entendimento da produção orgânica, e a dimensão socioeconômica ganha também importância. Do ponto de vista do consumidor essa diferença é percebida no preço final da venda. Os preços mais elevados de determinados alimentos e produtos orgânicos são uma realidade, entretanto, estudos tem demonstrado que esses alimentos chegam a custar até quatro vezes menos quando comprados em canais alternativos como Centrais de Abastecimento (Ceasa) e feiras orgânicas/agroecológicas em comparação aos supermercados. Foi o que demonstrou a pesquisa que avaliou o preço de orgânicos em diferentes canais em Recife-PE como ilustra a imagem.  

Imagem: Davi Fantuzzi

Em outro estudo mais abrangente de comparação de preços conduzido pelo Instituto Kairós durante 1 ano em 5 cidades brasileiras, a mesma tendência de comportamento de preços foi observada, e em alguns casos, alimentos orgânicos estavam custando inclusive mais baratos do que os com agrotóxicos. A transição agroecológica para uma produção mais sustentável na qual agricultores familiares tem sido inseridos é apontada nos estudos como um dos principais responsáveis pela compra de alimentos ecológicos a um preço mais acessível e competitivo. Outro fator é o escoamento da produção desses agricultores em canais alternativos como feiras e Ceasa. Além do fator certificação que influencia nos preços, a aproximação entre agricultores e consumidores possibilitada por estes canais resulta em preços mais baratos, uma vez que não existem outros encargos colocados pelos supermercados por exemplo. Dessa forma, o agricultor também recebe uma remuneração mais justa, ficando com a maior parte do lucro daquilo que produziu.

O IDEC desenvolveu um mapa com a geolocalização de mais de 600 feiras orgânicas e agroecológicas para auxiliar as pessoas a achar com mais facilidade esses espaços. Outra iniciativa para diminuir os preços de alimentos ecológicos tornando os consumidores em coagricultores são as Comunidades que Sustentam Agricultura (CSA). Através dela, um grupo de interessados paga mensalmente e recebe cestas de alimentos direto do produtor.

Que tal passar a frequentar mais feiras, Centrais de Abastecimentos e grupos de CSA's ? Assim você economiza nas compras e ainda consome alimentos saudáveis e sustentáveis.         




postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 30 de Agosto de 2016

O Chef Barton Seaver em sua participação no TED Talks 2010 apresentou uma visão reflexiva sobre como associamos o consumo de peixes, moluscos e crustáceos a sustentabilidade. Além de chefe, Seave lidera o centro de Sustentabilidade de Frutos do Mar e Pescados no Centro para Saúde e Ambiente Global na Escola de Saúde Pública de Harvard.   

Barton questiona inicialmente o que representa a sustentabilidade em se tratando do consumo de espécies marítimas. O consumo deste tipo de proteína é bastante difundida como uma opção mais saudável e que traz benefícios a saúde, o que de fato é verdadeiro. O chefe ressalta entretanto, que muitas vezes não temos a noção exata dos efeitos provocados por aquilo que comemos. Quando falamos em animais terrestres, o impacto ambiental resultante é mais facilmente observado seja pelo desmatamento ou pelo comprometimento de recursos naturais. No caso dos oceanos, essa percepção é menos clara já que os impactos são causados pela pesca predatória e o consumo em larga escala de espécie do topo da cadeia, como por exemplo o atum amarelo, causando desequilíbrios no ecossistema.

Atuando como chefe, ele se diz na missão de proporcionar relações e também emoções através da comida, e se dedica especialmente a conscientizar as pessoas a saborearem peixes e frutos do com uma maior responsabilidade  ambiental. Um dos caminhos que ele aponta, é o consumo de espécies que não estejam em risco ou que provenham de sistemas de pesca com responsabilidade social e ambiental, mas alerta que só isso não é o bastante. Ele acrescenta de forma muito direta que um caminho é comer mais vegetais. Esse conselho se baseia na importância exacerbada que as pessoas dão para o consumo de carnes, desconsiderando outras fontes alimentares. A diversificação do consumo de espécies é um outro ponto por ele apontado que pode inclusive ajudar na restauração de ambientes marinhos.

As reflexões de (in)sustentabilidade que Barton coloca sobre a forma que comemos e produzimos, apesar de pertinentes ao ambiente marinho, tem um tema condutor central que se aplica a produção animal terrestre, frutas e hortaliças e inúmeros outros alimentos: O sistema alimentar.   

Assista na íntegra a palestra. O áudio esta disponível apenas em inglês, mas para legendas em português basta selecionar no canto inferior direito nas configurações:   


 

 

 

 



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