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postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Terça-feira, 07 de Fevereiro de 2017

Milhares de organizações que procuram mudar o sistema alimentar têm apontado as consequências ambientais e sociais negativas do nosso sistema atual, que muitos dizem ser apoiado no princípio de que as produções são hiper eficientes e  "muito grandes para falhar". O mandato agrícola, frequentemente citado, da época de Nixon de "ficar grande ou sair" - ponto amplamente usado na agricultura americana, que passou de um sistema de agricultura familiar diversificado para a forma atual de negócios corporativos - refletia o espírito empresarial da época.


Outros sistemas, incluindo nossos sistemas de energia, água e transporte, também tinham esse caráter; Mas ao contrário do sistema alimentar, esses setores estão empreendendo atualizações do século XXI que se comportam melhor com nossas normas e realidades modernas, criando sistemas mais descentralizados e mais adaptados à geografia e à sociologia locais. Os agentes de mudança do sistema alimentar devem aprender com a trajetória de políticas públicas, particularmente com as de energia renovável. A indústria de energias renováveis atualmente emprega 6,5 milhões de pessoas em todo o mundo com US $ 329 bilhões em investimentos em 2015, e vários de suas estratégias eficazes se adaptariam bem à reforma do sistema alimentar.

1.    Utilizar os contratos públicos para expressar os valores públicos e criar mercados para os pequenos produtores.

O ponto de partida para as energias renováveis ??foi a Lei de Políticas Reguladoras dos Serviços Públicos, promulgada durante a crise do petróleo de 1978. Ela abriu as portas para uma nova estrutura do sistema energético, exigindo que as concessionárias fornecessem uma porcentagem de sua energia a produtores independentes. Com base nisso, mais tarde, muitos estados exigiram alvos baseados em métricas (Nevada estabeleceu uma meta inicial de estar usando 25% de energia renovável em 2025) como parte de um conjunto de ferramentas de políticas que apoiam a produção de energia renovável.

Esta abordagem, baseada em metas, encontra-se paralela ao poder de aquisição de alimentos, das instituições públicas. Um exemplo nacional é o Brasil, que aprovou uma lei que exige que as escolas gastem 30% de seus orçamentos para refeições, em alimentos produzidos pelos milhões de pequenos agricultores do país. O programa é creditado a partir da viabilidade econômica do setor de produção de alimentos local, garantindo o relacionamento direto do produtor local com o governo.  

A alimentação escolar também é um grande setor nos Estados Unidos. O Programa Nacional de Almoço Escolar gasta mais de US $ 11 bilhões anuais para alimentar as 30 milhões de crianças cadastradas para receber almoços gratuitos ou com preço reduzido. O programa do “USDA Commodity” prevê um adicional de US $ 200 milhões ou mais por ano em alimentos suplementares para as escolas. Diante disso, metas federais para apoiar os produtores locais na venda de alimentos para as escolas, sem dúvida, faz uma diferença significativa no apoio à economia local, reforçando a importância de circuitos locais oferecendo apoio técnico e subsídios.

Mas tais metas se direcionariam apenas para parte do sistema alimentar. A saúde comunitária e ambiental também são partes importantes de um sistema alimentar moderno. Metas baseadas nesses valores (como metas para lojas saudáveis, compras de alimentos produzidos de forma sustentável e compras de alimentos de produtores e fornecedores justos) impulsionariam o acesso aos alimentos saudáveis, a viabilidade econômica para compra e práticas agrícolas sustentáveis.

Vários programas de aquisição de alimentos já incorporam valores de sustentabilidade ambiental em suas metas, incluindo o “Real Food Challenge” (Desafio da Comida de Verdade) para universidades e “Health Care Without Harm” para hospitais. O Programa de Compras de Alimentos é baseado em cinco valores fundamentais: economia local, sustentabilidade ambiental e nutrição. Ele é projetado para trabalhar o sistema alimentar na forma como a certificação LEED funciona para a eficiência energética em edifícios.

Metas regionais para aquisição de alimentos para escolas, hospitais, bases militares e outros espaços, nos quais a alimentação é financiada pelo governo, movimentariam o mercado de forma positivas para o sistema alimentar. Os objetivos de aprovisionamento regional, em rede, também teriam uma poderosa influência sobre o papel federal no sistema alimentar.

2. Reconhecendo que os governos regionais são líderes ágeis.

A geração de energia renovável acelerou quando muitos estados desenvolveram o padrão de portfólio renovável, juntamente com incentivos fiscais federais e estaduais. O progresso destes estados, em relação às suas várias metas, contribuiu para o atual sucesso mundial das energias renováveis. Os alvos e as motivações de cada estado variam de acordo com seus recursos e atributos. Por exemplo, o Havaí bloqueado pelo mar, está quase a meio caminho da meta mais ambiciosa nos Estados Unidos que planeja alcançar a meta "100% renovável" até 2045. A Califórnia aumentou recentemente seus objetivos de energia renovável para 50% até 2030, aproveitando o sucesso de seu prodigioso ecossistema empresarial e paisagem diversa na criação de mais de 21.000 megawatts de energia limpa e 400.000 empregos de energia limpa.


É claro que a implementação de metas baseadas em valores, desenvolvidas para sistemas alimentares, exigirá mais objetivos, além dos relacionados às compras. Precisamos de políticas e incentivos para apoiá-los. A Califórnia é um bom exemplo. O estado tem se classificado como primeiro colocado no ranking “US Clean Tech Leadership Index” (Índice de Liderança em Tecnologias Limpas nos EUA), Junto a isso, o estado tem a maior quantidade de políticas e de incentivos para desenvolvimento de energia limpa. Estes incluem: descontos; empréstimos com juros baixos ou sem juros; garantias de empréstimos; programas de financiamento; isenções fiscais, títulos, subsídios, padrões favoráveis ??de permissão, servidões de acesso, padrões de construção, códigos de zoneamento e assistência a pequenas empresas.

Um número impressionante de políticas e incentivos alimentares já está em vigor em todo o país (EUA). A bem conhecida, Iniciativa de Financiamento de Alimentos Frescos da Pensilvânia, por exemplo, tornou-se a base para os programas de conversão de pequenos mercados na Filadélfia e a criação do centro de alimentos “Mercado Comum da Filadélfia”, um agregador de alimentos produzidos localmente distribuídos em escolas, hospitais e comunidades, sem fins lucrativos. E o estado de Nova York, recentemente, doou US $ 15 milhões para um centro de alimentos e investiu US$ 20 milhões na cidade de Nova York para implementar seus objetivos de apoiar os agricultores locais.

Outra oportunidade é atualizar os incentivos fiscais para que as doações de alimentos se estendam a programas como o “Tabela Diária de Boston”, que trata do desperdício de alimentos e insegurança alimentar usando produtos desprezados e "imperfeitos" para preparar refeições saudáveis, com pouco orçamento. A Califórnia atualizou recentemente seus incentivos fiscais à agricultura, incluindo a agricultura urbana. A filantropia e os governos locais também poderiam estabelecer fundos de correspondência - modelados segundo os programas de mercado como o “Veggie Voucher” - para escolas e pequenos mercados de bairros que participam de programas regionais de aquisição alimentos de menor valor.

Associar objetivos regionais a uma estrutura nacional de organização, com programas e ferramentas, podem se tornar ainda mais poderosos para o projeto do sistema alimentar.


3. Criação de redes coordenadas para amplificar as melhores práticas.

Grupos de afinidade entre cidades podem compartilhar melhores práticas, operando uma de rede de mudança. Em 2005, o prefeito Ken Livingston, de Londres, lançou o C40, uma rede das 40 maiores cidades do mundo que se reúnem regularmente para lidar com as mudanças climáticas e a eficiência energética. O grupo trabalha para desenvolver e implementar políticas e programas que gerem reduções mensuráveis ??de emissões de gases de efeito estufa e riscos climáticos. Quando as cidades C40 decidem sobre uma boa prática - como a substituição de lâmpadas incandescentes em luzes de rua por LEDs - elas agrupam seu poder de compra combinado para criar um bloco de negociação para obter preços justos para si e, por causa da grade demanda.

A Aliança Urbana de Alimentos Escolares, que inclui os seis maiores distritos escolares dos Estados Unidos, usa a mesma abordagem. Em 2013, pediu que os fabricantes de bandejas desenvolvessem uma bandeja de almoço isenta de isopor. Os fabricantes obedeceram, motivados pela grande demanda. Esta "aliança de alianças" entre seis cidades representa 4.536 escolas, mais de 2.5 milhões de estudantes, 46 bilhões de refeições escolares e um total de US $ 552 milhões em alimentação. Agora, ele voltou sua atenção para a cadeia de fornecimento de aves com o objetivo de obter frango sem antibiótico nas escolas.

Tal como acontece com as energias renováveis, os objetivos regionais relacionados a promoção da alimentação adequada e saudável, apoiam a saúde comunitária, econômica e ambiental, alinhando estrategicamente políticas, programas e organizações em direção a essas metas, bem como acelerarão o progresso e incentivarão o empreendedorismo. Ao atingir a roda do sistema existente, por meio de alvos regionais projetados e bem apoiados, as cidades podem levar uma estrutura flexível, dentro de um mundo global, que forneça a capacidade de resposta e a resiliência que nossas comunidades merecem.

 Traduzido por Ana Maria Maya, do seguinte link: https://ssir.org/articles/entry/designing_a_renewable_food_system



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 31 de Janeiro de 2017

Na coluna de hoje nós tratamos de um tema essencial para soberania e segurança alimentar e nutricional: a produção e cultivo de sementes.

Em sua tese de doutorado defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, a antropóloga Laura Rodrigues Santonieri investigou a interface entre sistemas agrícolas tradicionais, as instituições públicas de pesquisa e as políticas científicas que operam sobre a diversidade agrícola do país. Ao comentar alguns pontos do estudo em entrevista ao EcoDebate, a pesquisadora levanta entre outros aspectos, o papel da concentração de material genético na produção de sementes para atender aos interesses comerciais do agronegócio, e dessa forma, gera como consequência uma produção voltada para atender a demanda de commodities agrícolas em detrimento da diversidade de culturas.

No outro lado da equação, Santonieri identifica os agricultores familiares e tradicionais que se posicionam historicamente no papel de preservação das sementes e modos de plantio tradicionais, e enxerga a necessidade de aproximação entres estas comunidades e pesquisadores. Em suas palavras:

Imagem: EcoDebate 

"Existe uma clara falta de diálogo entre os atores envolvidos com o tema da agrobiodiversidade. Penso que é preciso construir pontes que permitam uma interlocução mais efetiva entre eles, tendo a conservação da agrobiodiversidade como um objetivo comum e possível”

Uma outra questão debatida é a produção alimentar para garantir o acesso as populações. Laura destaca que a demanda produtiva precisa, de fato, dar conta de garantir o abastecimento para uma significativa parcela da população, com especial atenção às comunidades em situação de insegurança alimentar. No entanto, o que muitas vezes acontece é a modificação genética de sementes para aumentar a produtividade e acrescentar nutrientes gerando como resultado uma semente infértil criando uma dependência de insumos entre os agricultores e os laboratórios que tem a patente das sementes modificadas. Esse paradoxo exemplifica justamente o fato de que comunidades rurais são afetadas pela falta de alimentos e renda.

No começo deste ano, nossa equipe traduziu a notícia de que agricultores da Tanzânia estão sendo proibidos de cultivar e trocar sementes crioulas sobe pena de prisão e pagamento de multas de mais de 200 mil euros. O absurdo resulta da ação de empresas que patenteiam sementes modificadas inférteis obrigando os agricultores a comprar novamente as sementes no início de cada safra. Esse monopólio impositivo é extremamente prejudicial pois tira à autonomia dos agricultores tanto no processo de plantio quanto na preservação da biodiversidade.

Com o intuito de preservar a riqueza, identidade cultural e ancestralidade das sementes e alimentos existem algumas iniciativas como por exemplo os Guardiões e Guardiãs de Sementes que atuam na criação de bancos comunitários para troca de sementes crioulas. Outro exemplo são as ações da Fundação Slow Food para a Biodiversidade como a Arca do Sabor e as Fortalezas de alimentos que valorizam alimentos regionais e ameaçados de extinção assim como criam processos para integrar a produção de  agricultores familiares e pequenos produtores.

Proteger as sementes tradicionais e adquirir alimentos locais advindos da biodiversidade, é garantir a segurança alimentar e nutricional das comunidades e a preservação da diversidade de espécies.             

          


 

 

 

 

 

  



postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2017

A Ministra do Supremo Tribunal de Justiça mexicano, Margarita Luna Ramos, apresentou um projeto de decisão a favor de uma engarrafadora da Coca Cola para se reverter as diretrizes de alimentos e bebidas nas escolas de ensino superior.

O estranho é que esse parecer vem algumas semanas depois de ser decretado que o México vive uma emergência epidemiológica relacionada à obesidade e à diabetes. Em 2015, essas duas doenças mataram mais 96 mil pessoas e hoje, cerca de 10% da população adulta tem diabetes, sendo que 40% não são diagnosticados.

A proposta da Ministra protege a Coca Cola, mesmo quando se sabe que:

- 70% do açúcar, na dieta dos mexicanos, vem de bebidas açucaradas;

- o consumo regular dessas bebidas, hábito comum entre os mexicanos, aumenta em 60% o risco de obesidade e em 20% o risco de diabetes;

- os mexicanos são os maiores consumidores de bebidas açucaradas do mundo, bem como os maiores consumidores da Coca Cola.

Uma outra ministra, Luna Ramos, repete os argumentos que favorecem a engarrafadora da Coca Cola. O curioso é que os argumentos apresentados, são os mesmos que a indústria de refrigerantes usa para lutar contra a regulamentação dessas bebidas no México e no mundo: os produtos em si não estão associados às doenças, na verdade o que deve ser feito é educar a população ao invés de limitar o acesso a esses produtos, pois os consumidores são adultos e têm capacidade de fazer escolhas conscientes, etc, etc.

O que parece é que a Ministra desconhece ou escolheu ignorar as evidências científicas que mostram que os ambientes determinam os hábitos e que no caso do México, o que tem prevalecido é o ambiente obesogênico. As orientações que estão sendo contestadas visavam promover um ambiente mais saudável pelo menos nas instituições de ensino. Não se discute todos os espaços, mas um espaço de ensino sobre o qual o Estado tem poder de regulação.

Nesses locais deve se dar atenção às recomendações nacionais e internacionais, desde as expostas pela própria Organização Mundial de Saúde, até aquelas definidas pela Escola de Saúde Pública de Harvard e pelo Instituto Nacional de Saúde Pública. Os ambientes não saudáveis devem se tornar saudáveis, pelo menos nos espaços nos quais o Estado tem poder.

         

 

Os mexicanos vivem em situação de abandono do setor público, então esses espaços foram tomados pelo setor privado. A corrupção impera nas instituições governamentais e isso se reflete no desenho de políticas públicas, influenciadas pelos conflitos de interesses. Isso tem deixado o país em uma crise profunda: um sistema educacional em grave deterioração, um colapso do sistema de saúde, uma nação com as mais altas taxas de desigualdade social, mergulhada na violência e na impunidade.

O Judiciário deve ser um contrapeso nesse processo, não se deve pagar pela deterioração da saúde, alterando uma das poucas regras que foram estabelecidas para resolver uma epidemia que ultrapassou de longe a capacidade do sistema de saúde. O México já se tornou o país com uma das maiores taxas de sobrepeso, obesidade, diabetes e mortes por diabetes no mundo. 

Estudos da Organização Pan-Americana da Saúde mostram claramente como o aumento do consumo de alimentos e bebidas ultraprocessados (junk food e refrigerantes) é a principal causa desta situação.

 

Quanto maior é o consumo de alimentos ultraprocessados maior é a taxa de sobrepeso e obesidade entre as populações da América Latina e do Caribe. Essa situação pode ser vista na maior instituição de ensino do México, a UNAM, que se transformou no point de junk food, depois de a indústria de alimentos investir milhões de dólares em estratégias de marketing que favoreciam seus produtos e deterioravam alimentos tradicionais da cultura mexicana.

 

A regulação de alimentos e bebidas em instituições de ensino superior é fundamental, já que é entre adolescência e a idade adulta que se percebe maior incidência de sobrepeso e obesidade entre os mexicanos. Por isso, nas instituições de ensino deve se privilegiar a oferta de produtos saudáveis, além de realizar atividades de Educação Alimentar e Nutricional. Lembrando que, educar não tem efeito quando o ambiente só favorece os maus hábitos alimentares.

 

70% dos adultos mexicanos são obesos ou tem sobrepeso e 10% da população sofre de diabetes, cerca de 40% não sabem. As pessoas descobrem quando vão ao médico porque começaram a perder de vista ou têm que tratar uma ferida no pé, que pode levar a amputação. A explicação para a situação na qual 70% dos adultos têm excesso de peso ou obesidade, não é uma soma de más escolhas pessoais, mas a criação de ambientes obesogênicos que favorecem o consumo de alimentos e bebidas não saudáveis.

 

Sabe-se que junk food e bebidas açucaradas prevalecem na maioria das escolas de ensino primário e secundário, além disso, a indústria impera dentro das universidades. No entanto, as orientações são um instrumento para lutar por espaços saudáveis e para que se tornem espaços de educação alimentar e nutricional.

 

A decisão dos ministros do Supremo Tribunal vai contra os apelos apresentados pelo Ministério da Educação e pelo Ministério da Saúde. O parecer apresenta insustentáveis ??argumentos. Segundo a sentença, as orientações que limitam a presença dos ultraprocessados nas instituições de ensino superior, violam os direitos trabalhistas e comerciais da empresa Coca Cola, mas aparentemente, a empresa por sua vez não viola o direito à saúde e isso leva a seguinte reflexão: Será que a indústria tem tantos direitos quanto à população tem o direito à saúde?

 

A situação de saúde do México não justifica a garantia de espaços saudáveis dentro das instituições de ensino superior?

 

Será que a Coca Cola não tem tido liberdade demais para comercializar seus produtos no México?

 

Não tem sido abusiva em sua publicidade, criando diversos ambientes obesogênicos? 

 

A situação epidemiológica do México clama por mudanças e nesse sentido pede aos seus Ministros que repensem seus pareceres e se tornem favoráveis à regulação sobre a oferta de alimentos em instituições de ensino superior.

 

Fonte: https://goo.gl/mzy9f0

Traduzido por Ana Maria Maya, Equipe Ideias na Mesa.



postado por Marina Morais Santos em Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

"Como é possível que estejamos tão afoitos para assistir outras pessoas dourando cubos de carne na tela, mas tão pouco interessados em dourá-las nós mesmos?".

Michael Pollan, autor de "O Dilema do Onívoro", "Cozinhar" - livro que inspirou a série documental homônima da rede Netflix - e "Em Defesa da Comida", foi quem escreveu esta frase há mais de oito anos atrás, para uma matéria no New York Times. Anos depois, o apontamento feito por Pollan ainda se mostra real e, cada vez mais pertinente.

A ascensão de Julia Child como ícone cultural e, posteriormente, o estrelato de chefs como Alex Atala, Jamie Oliver, Paola Carosella, Gordon Ramsay, Anthony Bourdain coincidiu, paradoxalmente com o crescimento da Indústria de Alimentos, do Fast Food e da comida pronta e também com o declínio das refeições caseiras do dia a dia. A verdade é que nunca passamos tão pouco tempo na cozinha e, ainda sim, nossa obsessão com comida nunca foi tão grande.

Em tempos de MasterChef, Tastemade e Instagram, a quantidade de conteúdo na mídia sobre comida que consumimos todos os dias é enorme. Devoramos vídeos e fotos de comida em quase todas as mídias, adicionando também às Redes Sociais nossas próprias contribuições com imagens de cafés "gourmet" que experimentamos e check-ins em restaurantes da moda.

Para um gourmet moderno, não é necessário cozinhar ou ter amplo entendimento sobre a origem dos alimentos e seu modo de preparo. Os pré-requisitos obrigatórios são uma boa câmera no celular, a iluminação adequada e um conhecimento bacana sobre as melhores hashtags e filtros. Assim, ser apaixonado por comida e apaixonado por cozinhar são duas coisas bem diferentes.

O crescimento do tópico "comida" nas redes sociais e mídias com receitas infindáveis no Feed de Notícias, programas de culinária em diversos canais e o estrelato de chefs e cozinheiros deixa claro que nós valorizamos o cozinhar. Ainda sim, há uma desconexão entre o tempo que gastamos na cozinha e a quantidade de conteúdo gastronômico que consumimos. Por que estamos cozinhando menos?

Tempo, custo e falta de habilidade culinária figuram os principais motivos pelos quais deixamos de cozinhar e muitas receitas e dicas aparecem em livros e internet para tentar solucionar essas questões. Nem sempre, essas soluções são suficientes: para quem não tem prática na cozinha, uma receita de "30 minutos" pode demorar horas para ficar pronta, deixando um rastro de louças sujas e dedos queimados e gerando um prato bem menos satisfatório do que o resultado apresentado na televisão. A verdade é que cozinhar é um processo, que exige tempo e dedicação e prevê vários fracassos até se tornar natural.

Cozinhar se tornou opcional para muita gente, quando é possível comprar refeições de quase todas as regiões do mundo até por meio de aplicativos nos celulares, mas isso não significa que perdemos as razões para cozinhar, pelo contrário, elas ficaram ainda mais evidentes. Você já deve imaginar que cozinhar é um caminho para uma alimentação mais saudável, considerando que quando a indústria e redes de fast food cozinham em nosso lugar, elas acabam produzindo alimentos com alto lucro comercial e também altos teores de gordura, sal, açúcar e aditivos químicos. Mas não é somente isso que torna o ato de cozinhar primordial.

Cozinhar é declarar a sua independência das grandes corporações que buscam transformam todos os nossos momentos em situações de consumo; é resgatar uma das artes formadoras da nossa cultura e identidade; é se conectar com as leis da física que química que regem o Universo e as transformações culinárias. O ato de cozinhar tem o poder de transformar não somente os alimentos que manipulamos, mas também de pouco a pouco e sutilmente transformar a nossa identidade e o Sistema Alimentar em que vivemos.

Não é a toa que o Marco de Referência de EAN para as Políticas Públicas aponta o cozinhar como prática emancipatória e princípio para ações de Educação Alimentar e Nutricional. Refletindo sobre essas dimensões, o Cozinhar se torna formador de indivíduos e pode ultrapassar as telas de celulares e televisões, tornando-se uma construção gratificante e muito valiosa! Lembre-se que o melhor jeito de aprender a cozinhar é cozinhando, vivendo um fracasso e conquista de cada vez.



postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017

O [Pensando EAN] relembra uma discussão do Hangout do Ideias na Mesa sobre como considerar e incorporar a dimensão cultural na educação alimentar e nutricional. A discussão foi moderada por Luiza Torquato, e contou com a participação de:

- Denise Oliveira, nutricionista que trabalha com antropologia da alimentação;

- Luana Oliveira, nutricionista na prefeitura municipal de Belo Horizonte, integrante de uma equipe multidisciplinar da Secretaria Municipal de Segurança de Alimentar e Nutricional;

 - Luciana, dentista e gestora municipal de SAN do município de Itanhaém, São Paulo.  (“um dos meus grandes inimigos era o açúcar”);

- Renata Menasi, antropóloga, professora na universidade federal de Pelotas, na pós-graduação, e sou professora na pós-graduação em desenvolvimentos na URGS.

A alimentação, com suas particularidades regionais, é uma das expressões do processo histórico e do intercâmbio cultural entre diferentes povos de uma nação. Por isso deve-se respeitar e valorizar as diferentes expressões, além de incorporá-las às ações de EAN. Esse é um dos princípios do Marco de Referência de EAN para Políticas Públicas:

“Valorizar a cultura alimentar local e respeitar a diversidade de opiniões e perspectivas, considerando a legitimidade dos saberes de diferentes naturezas”.


Mas o que percebemos no Brasil e em todo o mundo, é o processo de globalização da alimentação, levando à homogeneização dos hábitos alimentares e favorecendo o aumento de consumo de produtos industrializados, com altos teores de açúcar, sódio, gordura, aditivos etc. Assim surge o desafio de desenvolver estratégias de EAN que resgatem os aspectos culturais da alimentação local e de promover a alimentação saudável da população.

Mas para a antropóloga Renata, o que acontece é que essa homogeneização dos hábitos alimentares é apenas uma impressão, não uma verdade absoluta. As culturas locais tem muita força e vigor, e está presente com toda sua diversidade em todos os cantos. É importante mantermos nossos olhos abertos para isso, porque dá base, por um lado para contrapor o processo de padronização, de tentativa de uma comida que perca sua identidade e passa a ser apenas nutriente; e por outro, para pensar estratégias e políticas de grande alcance.

 

                      

 

Para Renata, também não é possível fazer uma "globalização do bem", com bons hábitos alimentares e com boas práticas nutricionais, pois temos que nos atentar para o que é local e característico das culturas. As ações de EAN não serão eficientes se não dialogarem com a essência das pessoas, com o que elas são e com o que elas acreditam. Então é importante que ao pensar em alimentação saudável, se questione sobre o que é saudável para aquele grupo, e o que é comida de verdade. Assim as pessoas constroem parâmetros, classificam a comida, pensam e vivem a partir daquilo que consideram importante pra sua identidade e sua cultura alimentar.

Para Denise esse resgate não é um processo individual, mas coletivo, e a cultura, por excelência, tem esse caráter. Como pesquisadora, ela percebe que quando se fala de alimentação saudável, ainda existe um forte enfoque biológico e as pessoas não pensam nem agem assim. Nem nutricionistas, que têm uma experiência acadêmica com forte componente erudito sobre a fisiologia e aspectos sobre o corpo de pensar se aquele prato é adequado do ponto de vista calórico e de vitamina e minerais, quando estão diante de um prato. As pessoas comem a simbologia dos alimentos, e a para realizar ações de EAN deve-se levar em consideração essa bagagem.

A cultura é ressignificada o tempo inteiro pela visão que os seres humanos têm sobre a própria vida. Nesse sentido a EAN não deve buscar a resposta naquilo que se constrói no dia a dia, no cotidiano. As ações devem fomentar o diálogo constante, devem valorizar o aprendizado e a multi etnicidade brasileira. O consumo alimentar deve priorizar as culturas que formaram a sociedade brasileira, o hábito de comer cuscuz e tapioca, por exemplo, tem origem indígena e isso deve ser introduzido nas ações de EAN por meio da construção do conceito sobre o que é comida.  

E no Brasil é realmente um grande desafio considerar a cultura nas ações de EAN, tendo em vista a enorme diversidade que encontramos em um município. Luciana traz o exemplo de que no mesmo município podem ser encontradas a etnia guarani, a etnia tupi guarani, populações ribeirinhas, os caiçara etc. E os hábitos tradicionais tem se perdido, nesse sentido as políticas de SAN cumprem um papel importantíssimo de resgate e valorização de alimentos tradicionais.

Segundo Paulo Freire, o resgate não é feito de forma individual, mas em comunhão e isso é importante ao pensar EAN. Denise relembra a contribuição de diversos grupos para a construção da sociedade brasileira como os indígenas e os negros, força de trabalho no país, e como as mulheres negras estiveram presentes na cozinha construindo uma identidade alimentar. Assim, é importante que a EAN não se exile, mas sim produza atividades dinâmicas, participativas, inclusivas, mutáveis e abertas.

Assim, pensar EAN é de fato um desafio já que deve levar em consideração todas as características do hábito alimentar, sejam elas coletivas ou individuais. 

Trazendo esses conceitos para a prática, existem diversas experiências de EAN incríveis que, aliadas à valorização dos hábitos alimentares tradicionais, tiveram sucesso na promoção da saúde de algumas comunidades, uma delas é a experiência realizada pela Luciana, no Banco de Alimentos em Itanhaém, que resultou na produção de um livro de receitas que exemplifica a diversidade cultural e regional e que resgata a culinária caiçara. Esse trabalho se tornou viável graças ao SISAN e às políticas de SAN que incentivavam a agricultura familiar.

Para encerrar o debate, Denise ressalta a importância do cuidado em não se fazer julgamentos sobre as escolhas pessoais. O processo de consumidor/comensal é complexo e tem um grande componente de crescimento a partir da revolução industrial, isso mudou gestão de tempo das famílias e falar de educação é sim falar de tempo, uma temática complexa e custosa, principalmente para as mulheres.

Se pesquisadores estão abertos à discussão para incorporar a cultura às ações de EAN, é importante que esse resgate seja feito de forma humana e respeitosa. Claro que os caminhos não estão dados, mas cabe a nós trabalharmos para que ele esteja em constante construção.

A discussão sobre como associar a cultura alimentar às ações de EAN foi muito rica, para ter acesso à discussão completa acesse aqui.



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016

As falas de abertura deram o tom da Nobel Week Dialogue - Semana de Dialogo Nobel, 2016 - que aconteceu no dia 8 de dezembro em Estocolmo, Suécia. Ela teve como principal tema o "futuro alimentar" com vistas a responder a pergunta "É possível prover a todas as pessoas alimentos produzidos de maneira sustentável?".

Com um pouco mais de 7 horas de duração resultante de dois dias de exposições, os diálogos foram gravados e apesar de não terem legendas em português, podem ser assistidos diretamente da página do evento. Essa é uma oportunidade de assistir discussões intrigantes, estimulantes e riquíssimas sobre o futuro dos alimentos. O evento reuniu ganhadores de Prêmios Nobel, cientistas e especialistas, líderes mundiais, principais líderes de opinião, formuladores de políticas e público em geral. Cabe destacar a participação de Marion Nestle, autora do blog “Food Politics” e de Eduardo Nilson, da Coordenação Geral de Alimentação e Nutrição, do Ministério da Saúde.

Tara Garnett, fundadora da "Rede de Pesquisa de Alimentação e Clima" da Universidade de Oxford fez a primeira das três exposições de abertura que contou também com as falas de Johan Rockstrom - Centro de Resiliência de Estocolmo - e o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2015 Angus Deaton. Os três palestrantes apresentaram diferentes perspectivas sobre como o sistema e as escolhas alimentares podem tanto influenciar o abastecimento da população e distribuição de renda, quanto levar à impactos negativos ou à proteção de ecossistemas ambientais.

Garnett trouxe o exemplo de seus mais de 25 anos de experiência trabalhando em ONGs e setores acadêmicos e foca suas pesquisas nas interações entre alimentos, clima, saúde e problemas ambientais mais amplos. Ela se dedica a investigar os impactos gerados pela pecuária e como o conhecimento é comunicado e interpretado por gestores, sociedade civil, indústrias e suas diferentes formas de pensar sobre os problemas e soluções alimentares. Já o PhD e principal pesquisador do Centro de Resiliência de Estocolmo, Johan, apresentou o acumulado de seus estudos que resultaram mais recentemente nas "Nove Fronteiras Planetárias". Seu trabalho tem sido utilizado em diferentes painéis e grupos de trabalho da ONU como subsídio para solucionar problemas como os relacionados ao aquecimento global e seus agravos sociais, econômicos e ambientais, por exemplo, a insegurança alimentar. Fechando este bloco, o Prêmio Nobel e PhD, Angus Deaton, falou sobre a pesquisa que lhe rendeu a premiação em 2015, "Análise do consumo, pobreza e riqueza". Ele aborda, entre outros aspectos, a insegurança alimentar como resultante não apenas da falta de acesso aos alimentos, mas destaca também a importância da renda para evitar esse fenômeno. 

Ao longo dos dois dias de exposições, no entanto, foi possível observar em alguns diálogos um debate de opiniões que se traduz também na aplicação e elaboração de ações e estratégias para solucionar problemas globais como a segurança alimentar e nutricional e a produção sustentável de alimentos. Nesse sentido, outros dois Prêmios Nobel, Muhammad Yunus e Richard J. Roberts apresentaram visões, ainda que sobre temas pontuais, destoante da maioria dos que participaram do evento.  

O indiano Yunus citou a parceria de um de seus projetos com a Danone, a qual segundo ele se caracteriza como um exemplo de "social business". O projeto consiste na fortificação de um iogurte específico da marca Danone com micronutrientes e proteína, para que eles sejam comercializados a preços baixos para crianças pobres de Bangladesh com o intuito de combater a fome e desnutrição. Já o químico Richard Roberts, defendeu a utilização de organismos geneticamente modificados (transgênicos) para que a produção de alimentos consiga "atender a demanda de crescimento populacional dos próximos anos".

Essas duas visões vão à contramão dos outros expositores no sentido de reduzir à micronutrientes e à engenharia genética alimentícia os determinantes da fome, desigualdade e distribuição, insegurança alimentar  e produção ecológica. Ademias, nas duas situações os caminhos propostos continuam a terceirizar as soluções mantendo a tomada de decisões e a mercantilização dos insumos nas mãos de multinacionias e indústrias enquanto os interesses da sociedade civil, assim como seu protagonismo na elaboração e tomada de decisões, continuam secundarizados.   

Nesse sentido, Marion Nestle recebe o desafio de responder à seguinte questão: “Quem decide o que comemos?”.

A partir da perspectiva de quem trabalha e pesquisa sistemas alimentares, o foco de sua resposta estava no “advocacy”por uma alimentação adequada e saudável. Para contextualizar, Marion problematiza como fazemos nossas escolhas alimentares e como ambiente em que vivemos influencia nossas escolhas. Ela lembra que a desnutrição afeta 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo, a obesidade afeta 2 bilhões e os danos ambientais afetam o mundo inteiro. Muitos dos danos ambientais foram causados pelo sistema alimentar que construímos ao longo dos anos, quando adotamos dietas baseadas em alimentos ultraprocessados, produzidos pela indústria de alimentos. Hoje vivemos com problemas de saúde e problemas ambientais, relacionados a essas escolhas, mas as orientações para resolução de alguns dos nossos problemas vão contra os interesses da indústria alimentícia. Isso nos mostra algumas ironias encontradas no nosso sistema alimentar e representa uma grande dificuldade que é pensar na contradição que existe quando o Governo diz que metade do seu prato deve ser composto por frutas e vegetais, mas incentiva a produção de soja e milho, produtos que não estão presentes na nossa alimentação.

A professora questiona ainda, a produção norte americana, que produz quase duas vezes mais alimentos do que a população de fato precisa. Para dar evasão a essa produção a indústria criou algumas estratégias, uma delas é aumentar os tamanhos das porções oferecidas. Marion Nestle diz que como educadora alimentar e nutricional, se pudesse ensinar uma coisa ao mundo, seria: “porções maiores têm mais calorias”. Segundo ela, essa informação que parece óbvia, não é.

Além dos produtos de má qualidade nutricional, em porções absurdamente grandes, investe muito dinheiro em estratégias de Marketing, que contribuem para aumentar a venda de seus produtos. Especificamente, a indústria de bebidas doces é muito transparente quanto aos bilhões de dólares investidos no Marketing de seus produtos. A Coca-Cola, por exemplo, tem o plano de investir 17 bilhões de dólares em Marketing dos seus produtos, na África, entre 2010 e 2020.

Então, quando unimos esses fatores que têm construído o nosso ambiente alimentar, é muito difícil fazermos boas escolhas. É aí que entra o “advocacy”, que segundo a Forbes, é a nova ameaça à industria alimentícia. A noticia diz que pessoas relevantes na alimentação saudável direcionam as estratégias de Marketing e o desenvolvimento dos produtos da industria. Marion não concorda com a notícia, diz que as coisas ainda não são bem assim, mas de fato temos percebido algumas mudanças, como o movimento pela taxação das bebidas açucaradas, em alguns lugares do mundo. Marion finaliza sua fala relembrando que comer é um ato político, por isso é tão importante termos um sistema alimentar que nos  permita fazer escolhas alimentares saudáveis.

Depois dessa fala, seguindo com os painéis que discutiam “Porque comemos o que comemos?”, Eduardo Nilson, do Ministério da Saúde, falou um pouco sobre como o Brasil tem caminhado para tentar mudar o sistema alimentar e criar ambientes que favoreçam escolhas alimentares saudáveis. Para isso, nada mais atual e inovador que o Guia Alimentar para a População Brasileira, que não resume a alimentação à ingestão de nutrientes, mas abrange a perspectiva das refeições e da importância da comida de verdade. Isso é muito inovador porque ajuda as pessoas a verem o sistema alimentar, já que mostra para as pessoas o nível de processamento dos alimentos e estabelece um novo padrão de dieta, baseado em alimentos naturais, além de incentivar que as pessoas saibam o que elas estão escolhendo comer ou não.

Os diálogos estão incríveis e vale apena dedicar um tempo para acompanhar essas discussões e refletir sobre as suas escolhas e o ambiente em que vive:



postado por Maína Pereira em Terça-feira, 13 de Dezembro de 2016

aprender a cozinhar

Se a cozinha fosse uma língua, qual seria o seu nível de fluência ou o seu sotaque? O desenvolvimento de habilidades culinárias tem sido recomendado como estratégia de superação dos obstáculos para se obter uma alimentação mais adequada e saudável. Além disso, o ato de cozinhar pode ser um momento prazeroso e de muitas descobertas que marcam histórias e gerações.

Para refletir um pouco sobre a linguagem da cozinha, delicie-se com esta crônica de Nina Horta:

“Só conseguindo reunir as peças da comida em alguma coisa bem aceitável quando se aprende as técnicas básicas, quando se lê muito (melhor dizendo, quando se vive muito), quando se tem o olho vivo e a língua curiosa, quando o erro é o melhor condutor, quando se quebra a cabeça misturando os ingredientes com muita obediência e outras vezes com liberdade total.

Quem se lembra do primeiro semestre da faculdade, quando o sociologês, o filosofês, o antropologês eram um obstáculo desolador, quase impossível de ser resolvido? E, dois anos depois, Deus nos perdoe de jargões tão feios, falávamos felizes em epistemologia, doxa, duração, hubris, como se fosse a lista do supermercado? Ou uma língua como o alemão, que se apresenta como muralha e vai ver é a mais fácil de todas?

A linguagem oculta da cozinha também pode ser um obstáculo. É preciso estuda-la como estudamos qualquer outra matéria. Claro que alguns terão mais facilidade do que outros, alguns vão parecer que nasceram sabendo, alguns vão desistir e mudar de rumo, tudo igualzinho às outras disciplinas do vestibular. É preciso estudo, experiência, memória, imaginação, abertura, prazer, ritmo, astúcia e visão da comida como uma língua a se aprender e que devemos interpretar segundo nossas possibilidades e vivências.

E não é maravilhoso que não exista um cozinhês? Grande vantagem. Um bom feijão grosso todo mundo entende. Quase todo mundo.” (Linguagem da Cozinha, Nina Horta)

E que tal estudar essa matéria tão saborosa? Já parou para pensar em como a cozinha torna-se um ambiente de aprendizagem repleto de ferramentas e materiais para experimentar? Estar na cozinha e se aventurar é uma forma de se conectar com a comida e toda sua simbologia, envolve afeto, emoções, histórias, pessoas em uma variedade de ingredientes culinários. É uma prática que quanto mais exercida gera mais autonomia. E não existe um cozinhês, você vai descobrindo e se expressando da sua maneira, no seu ritmo, do seu jeito. Por isso, vale a pena se arriscar e descobrir sua própria linguagem da cozinha!



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016

O livro Geografia da Fome escrito pelo Médico Sanitarista e premiado estudioso Josué de Castro em 1946 continua a trazer contribuições de extrema relevância para as discussões de Segurança Alimentar e Nutricional na atualidade.

Nesse sentido, o Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares (OBHA) que foi inaugurado recentemente, realizou atividade intitulada "70 anos da obra Geografia da Fome - Josué de Castro" que compartilhamos no [Pensando EAN] de hoje. O Observatório surgiu no sentido de revelar o cenário da alimentação atual e melhor compreender os contextos que envolvem os hábitos alimentares. Ele busca também integrar uma produção acadêmica e ações em sintonia com os anseios da sociedade de forma a cooperar no fortalecimento de políticas públicas e na agenda de Soberania e Segurança alimentar e Nutricional.

Em uma das colunas do blog - "Pitada de Opinião" - a Geógrafa Beatriz Carvalho estabelece um paralelo entre a obra de Josué e o desenvolvimento de práticas sustentáveis. Beatriz sintetiza o pioneirismo de Geografia da Fome que analisou de maneira profunda o fenômeno da fome no território brasileiro, e levou em consideração as especificidades regionais de um país com proporções continentais. Já naquela época, Josué de Castro propunha um debate mais amplo sobre a desnutrição da população, e elevou o debate sobre o grave problema a uma discussão não reducionista sob a perspectiva de falta de nutrientes, mas um problema decorrente da falta de acesso e má distribuição de alimentos.

O diagnóstico e as discussões propostas ainda em 1946 possibilitaram avanços, ainda que os resultados tenham demorado a aparecer. O Brasil recentemente saiu pela primeira vez do Mapa da Fome, de acordo com a ONU, ao adotar políticas e programas que interferiram diretamente nos determinantes da fome. Não por acaso, as conquistas comprovaram o que há mais de meio século já era problematizado.

No contexto atual, temas como a transição agroecológica, agricultura familiar e periurbana e a aproximação entre os produtores e consumidores se mostram como caminhos para continuar os avanços problematizados por Josué de Castro. Pensada sob uma perspectiva mais ampla, a garantia da Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional pressupõe relações socioeconômicas mais justas e ecológicas do ponto de vista ambiental.                   

Assista também ao vídeo do professor Malaquias Batista de Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco que comenta sobre o tema:


 

 



postado por Isadora Dias Nunes de Sena em Terça-feira, 29 de Novembro de 2016

Queijo da serra da canastra, goiabada cascão, palmito juçara, mel de abelha jataí, queijo coalho, pequi, pirarucu, umbu, pitanga. Essa lista não apenas elenca uma série de frutas, produtos e ingredientes tradicionais usados na gastronomia brasileira. Ela é também uma parte da lista de alimentos brasileiros que correm risco de sumir do mercado.

O jornal NEXO divulgou uma matéria com base no projeto Arca do Gosto, conduzido pela ONG Slow Food (uma organização mundial que defende alimentação de qualidade e sustentável), que cataloga produtos gastronômicos - processados ou naturais - que tenham papel importante na cultura, na história e nas tradições de comunidades no mundo todo e cuja produção esteja ameaçada por razões sociais, econômicas ou biológicas.

No Brasil, a lista divulgada pela ONG em 2016 tem 121 alimentos. Entre eles, 35 têm origem na culinária indígena.

Mas por que alimentos desaparecem? E como se pode resgatar um alimento ameaçado? Veja aqui a matéria completa:

 "Por que alimentos desaparecem

Os alimentos podem desaparecer do mercado por vários motivos. De acordo com Glenn Makuta, articulador em redes da Slow Food International, os motivos podem ser a queda na demanda e no consumo, a desestruturação de comunidades produtoras e a diluição de costumes culturais de cultivo.

MODELO DE PRODUÇÃO AGRÍCOLA

Esta é a principal pauta de combate da ONG: o modelo de produção agropecuária que prioriza o plantio e criação massivos de um número limitado de espécies vegetais e animais.

Apenas 12 espécies de plantas correspondem a 75% da produção alimentícia, enquanto mais de 90% da criação global de animais para produção de alimento é composta por apenas 15 espécies de mamíferos e pássaros.

Esse modelo acaba fazendo com que seja mais vantajoso para os produtores o cultivo ou criação de um número limitado de espécies - e, de geração em geração, eles diminuem ou abandonam o cultivo ou produção de determinado alimento.

ALIMENTOS INDUSTRIALIZADOS

O aumento no consumo de alimentos industrializados, puxado pela propaganda das corporações desse segmento, também é um fator que gera queda de demanda por produtos naturais e pratos tradicionais e acaba impactando na produção.

DESEQUILÍBRIO CAUSADO PELO HOMEM

Há também os casos em que a produção ou criação de determinado alimento é impactada por mudanças socioambientais - do desalojamento de comunidades ribeirinhas para a construção de uma hidrelétrica ao fim de uma espécie vegetal devido ao desmatamento.

Além de ameaçarem aspectos fundamentais da construção da identidade cultural dos povos do planeta, o modelo vigente também é prejudicial para o meio ambiente.

A ONU defende que a biodiversidade é fundamental para a segurança alimentar e nutricional, já que o excesso da criação ou cultivo de determinada espécie desequilibra as outras camadas do ecossistema.

Como resgatar um alimento ameaçado

De acordo com Makuta, não há manual para tirar um alimento da lista de ameaçados - cada caso é um caso. Para determinada fruta, talvez a solução seja incentivar seu consumo e plantio, fortalecendo a cadeia produtiva.

Para uma espécie de peixe, no entanto, talvez seja preciso frear o consumo até que as comunidades que o pescam se reestruturem, já que um aumento excessivo de demanda pode ser ainda pior para a cadeia produtiva.

Para cada alimento na lista, a ideia de “consumo sustentável” pode ter um significado diferente. No entanto, o resgate de hábitos de agricultura familiar e o consumo responsável de alimentos in natura pode ser um dos caminhos.

O pomar no fundo do quintal, que perdeu espaço para as varandas gourmet nas grandes cidades, é uma maneira de resgatar o plantio de alimentos como o cambuci, a guabiroba ou a grumixama, por exemplo - frutas típicas do sudeste que estão na lista de alimentos extintos e são desconhecidas das gerações mais novas nas últimas décadas.

Além disso, a compra de alimentos de pequenos produtores e a diminuição no consumo dos alimentos industrializados é uma maneira de diminuir a demanda do plantio de culturas massivas por parte da indústria de alimentos, diversificar a alimentação por meio de produtos locais e contribuir para o reequilíbrio do sistema.

A Slow Food promove um festival para chamar atenção para os ingredientes e alimentos na lista. Este ano, a ONG convidou chefs, nutricionistas, produtores e gastrônomos para ministrarem aulas, oficinas ou jantares usando alguns dos produtos ameaçados, para conscientizar sobre a maneira mais sustentável de consumi-los - seja aumentando o consumo, seja procurando produtores sustentáveis ou então diminuindo a procura."

 E você já tinha pensado em alimentos que sumiram do seu cotidiano, e as razões para tal?



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

O jornalista Mark Bittman, escritor da seção de comida do New York times, fez uma fala durante um TED Talks sobre o que está errado na forma como nos alimentamos nos dias de hoje e as consequências para a saúde e o meio ambiente.

Em suma, sua análise traz a combinação do consumo excessivo de carnes e comidas ultraprocessadas, e a pouca quantidade de alimentos in natura e comidas feitas em casa como os principais fatores que levam ao surgimento das doenças relacionadas a má alimentação e a não sustentabilidade de nosso sistema alimentar. Apesar de realizadas em 2007 e referenciadas no contexto norte-americano, as colocações de Mark continuam atuais e encontram similaridades nas dinâmicas agroalimentares de outros países.

Para além do aspecto da qualidade alimentar, Bittman trata de um tema ainda pouco explorado que é o impacto que determinados padrões alimentares causam em nosso planeta. Ele fala principalmente da criação bovina e de outros animais de médio porte que correspondem com significativa parcela das emissões de gases do efeito estufa e influenciam no aquecimento global. Não apenas na pecuária intensiva, mas agravos ambientais também são observados pelo agronegócio e suas práticas com o uso intensivo de agrotóxicos e sementes transgênicas por exemplo.

Mark aponta que é preciso uma retomada de consciência e atitudes nas escolhas individuais, mas que sem dúvida para um impacto coletivo mais abrangente esse sistema de decisões políticas com fomento a produção não saudável e sem sustentabilidade precisa ser substituída.   

Assista a palestra completa com legendas em português: 




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