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postado por Equipe Ideias na Mesa em Terça-feira, 16 de Junho de 2015

Neste mês, a equipe do Fórum de Professores universitários escolheu o tema “Comportamento alimentar”, atualmente destacado pelo Novo Guia Alimentar da População Brasileira, como determinante no processo de autonomia dos indivíduos para a escolha das refeições.

Para tal, uma das professoras participantes do Fórum e reconhecida em publicações e pesquisas sobre o tema, Dra. Natacha Toral escreveu a respeito deste assunto. Acompanhe a 1ª parte de três que serão divulgadas ao longo do mês de junho pelo Fórum, que tratará de conceitos importantes que podem ser trabalhados com os alunos em sala de aula, antes que eles possam se preparar para aulas práticas de atendimento individual:


 

estudante nutGrande parte do conteúdo das disciplinas de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) acaba sendo voltado para estratégias direcionadas a grupos de indivíduos, seja pelos materiais disponíveis para os professores, seja pela escassez de orientações práticas para aplicar a teoria, ou mesmo pela falta de experiência deles no trabalho com estratégias direcionadas a indivíduos. Afinal, sabe-se que grande parte dos docentes das disciplinas de EAN não tem formação específica na área, o que pode impactar negativamente no ensino de diferentes formas. Porém, sabe-se que o atendimento individual é hoje um campo importante de atuação do nutricionista, considerando a possibilidade de atuação em consultórios, ambulatórios, academias, etc. Então, como trabalhar com EAN voltada para o indivíduo na formação do estudante de Nutrição?

Muitas aulas são iniciadas com conceitos e, ao abordar este tema, também devem ser listadas algumas definições básicas necessárias para avançar na discussão do assunto. Primeiro, seguem algumas diferenças importantes que muitas vezes são usadas de forma equivocada como sinônimos, mas não são: EAN versus aconselhamento versus orientação.

Educação Alimentar e Nutricional – campo de conhecimento e de prática contínua e permanente que visa promover a prática autônoma e voluntária de hábitos alimentares saudáveis. Faz uso de abordagens que favorecem o diálogo, a formação de valores, a atitude crítica, o despertar do autocuidado e da responsabilidade do paciente sobre si mesmo, sem limitar sua liberdade.

Aconselhamento nutricional – uma abordagem da educação alimentar e nutricional, direcionada para o atendimento individual em consultório ou ambulatório, no qual se estabelece um diálogo – e não monólogo – entre o cliente/paciente, considerando-o como portador de uma história de vida e o nutricionista. Cabe a este profissional desvelar o contexto biopsicossocial do indivíduo a sua frente, identificando soluções para superar problemas alimentares de forma harmônica com a rotina e a saúde do interessado.

Orientação nutricional – aponta para o que fazer de forma imediata, abrange as instruções propriamente ditas que são oferecidas com certo rigor ao paciente, como a prescrição de uma dieta, com seus horários e especificações dos alimentos.

 

Outro aspecto fundamental que deve ser abordado nas aulas de EAN é a estrutura de uma consulta de Nutrição. É possível que isso seja trabalhado em outras disciplinas, mas é difícil limitar-se na orientação sobre o que se deve fazer de EAN dentro de uma consulta, sem falar do contexto global desta. A geração de um ambiente cordial e de confiança, no qual irão se estabelecer os acordos realizados no aconselhamento alimentar e nutricional, inicia-se no momento de abrir a porta do consultório para o paciente/cliente entrar. Rodrigues et al. (2005) apontam para as etapas que compõem uma consulta, as quais exigem diferentes habilidades do nutricionista, a saber:

Descoberta inicial – o nutricionista deve:

- Formar o vínculo entre nutricionista e cliente/paciente.

- Ter empatia, autenticidade, considerações positivas.

- Captar o estado emocional do cliente, declarado verbalmente ou por gestos, posturas, exposições faciais, silêncio.

- Saber ouvir e saber aceitar.

- Criar um ambiente favorável no atendimento.

 

Exploração em profundidade – o nutricionista deve:

- Encorajar o cliente para a formação de “insight”, de forma a criar uma condição de discernimento e discussão sobre os problemas.

- “Despir-se” da figura de autoridade.

- Ser sensível para perceber a necessidade de encorajar o paciente para desvelar os temas relacionados ao seu problema.

- Usar questões abertas e fechadas, diretivas (incentivos quando o cliente não formula a ideia), estímulos não verbais que indicam atenção e compreensão.

 

Preparação para a ação – o nutricionista deve:

- Minimizar a ansiedade em clientes não acostumados a identificar estratégias próprias para solucionar seus problemas.

- Apoiar o cliente ao decidir quanto aos objetivos e ações.

- Oferecer feedback, por meio de elogios, por exemplo.

- Dedicar tempo e ter paciência.

- Avaliar em conjunto as estratégias selecionadas.

 

Na prática, é comum perguntar para o paciente/cliente: qual é o seu objetivo vindo a esta consulta? Para trabalhar com EAN no atendimento ao indivíduo, é fundamental também ter em mente o objetivo do nutricionista com a consulta. O que o nutricionista quer mudar?

Independentemente de o paciente/cliente citar se está lá para a perda de peso, a adoção de uma dieta mais equilibrada ou o controle de uma doença, o objetivo permanecerá sendo comum a todas as situações: o que se quer é mudar comportamentos e atitudes. E aí surgem outras definições importantes, como a diferença entre atitudes e comportamentos, as quais apresentam muitos conceitos distintos na literatura, mas podem aqui ser sucintamente e superficialmente apresentados da seguinte forma:

Atitudes se referem a uma avaliação global que um indivíduo tem sobre determinada prática, como a alimentação. Envolvem as crenças, as emoções e o conhecimento que o indivíduo tem sobre isso. É algo “interno”, não observável. As atitudes podem (mas nem sempre) explicar ou predizer um determinado comportamento.

Exemplo 1: A senhora acredita que frutas orgânicas têm mais nutrientes.

Exemplo 2: O aluno tem o costume de comer pão de queijo porque é de Minas Gerais.

comportamento é uma resposta observável a um estímulo, é uma ação do indivíduo. É algo “externo”, isto é, todos podem ver.

Exemplo 1: A senhora se desloca até uma feira de orgânicos para comprar suas frutas.

Exemplo 2: O aluno sempre come pão de queijo nos intervalos entre suas aulas.

 

Pensando em uma mudança a longo prazo, o foco deve ser as atitudes, que se espera que gerem mudanças nos comportamentos. É algo mais demorado, que exige mais persistência da dupla paciente/cliente e profissional, tendo em vista que implica em mudar valores que fazem parte do indivíduo às vezes há muitos anos. Porém, em situações críticas, em que é necessária uma mudança imediata, o foco do nutricionista pode ser no comportamento, no fazer, no que é observado, isto é, na mudança conjuntural, que, pode, em alguns casos, até levar a mudanças nas atitudes. Mas não cabe aqui esperar uma mudança estrutural, e sim mais pontual.

 estudanteNo ensino da EAN, seja nas disciplinas de Educação Nutricional e de Nutrição da Saúde Pública, assim como nos campos de estágio em saúde coletiva, cabe ao professor e orientador de prática permitir que os alunos aprendam que o nutricionista tem um papel crucial de facilitar a mudança de comportamento, mas ele, por si só, não fará a mudança. Conforme visto no conceito de EAN, a mudança deve ser voluntária e autônoma. Ou seja, depende fundamentalmente do indivíduo. Contudo, para favorecer isso, o nutricionista deve auxiliar o paciente/cliente a definir problemas presentes na sua alimentação e sugerir comportamentos para lidar com eles. Deve-se estabelecer um vínculo, uma relação de confiança com o cliente/paciente, esclarecendo que este não deve esperar que o nutricionista diga o que ele deve fazer, pois será necessário seu envolvimento e trabalho em conjunto para avançar no acompanhamento nutricional.

Na parte 2, serão descritos determinantes que devem ser valorizados na relação nutricionista-paciente/cliente e que são fundamentais no processo de tomada de decisão para a ação.

 


 

Professora Dra. Natacha Toral

Graduada em Nutrição pela Universidade de Brasília (2002), especialista em Adolescência para Equipe Multidisciplinar pela Universidade Federal de São Paulo (2003), Mestre e Doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (2006 e 2010). Atuou como consultora técnica da Coordenação Geral da Política de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde de 2006 a 2010. Atualmente, é professora adjunta do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de Nutrição, com ênfase em Nutrição em Saúde Pública, atuando principalmente nos seguintes temas: comportamento e consumo alimentar, adolescentes, Modelo Transteórico e perfil nutricional de populações.

Bibliografia desta parte:

Rodrigues EM, Soares FPTP, Boog MCF. Resgate do conceito de aconselhamento no contexto do atendimento nutricional. Rev. Nutr. 2005; 18(1):119-128.

 



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