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postado por Carla Tavares de Moraes Sarmento em Sexta-feira, 07 de Outubro de 2016

relato

O Marco de Referência apresenta a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) como um campo de conhecimento e de prática contínua e permanente, transdisciplinar, intersetorial e multiprofissional que visa promover a prática autônoma e voluntária de hábitos alimentares saudáveis. Apesar de ser um componente curricular que precisa perpassar todo o curso de nutrição, na maior parte das situações a Educação (Alimentar e) Nutricional ainda se restringe a uma disciplina. Fica cada vez mais evidente a necessidade de estratégias curriculares e pedagógicas e também um maior envolvimento do corpo docente como um todo para que a EAN esteja presente ao longo do processo de formação do estudante de Nutrição.

Com o intuito de sensibilizar o corpo docente de um curso de nutrição, sobre a importância de se trabalhar os princípios do Marco de Referência, duas professoras realizaram uma oficina de Educação Alimentar e Nutricional durante a Semana Pedagógica da instituição. O resultado foi muito positivo e você poderá encontrar aqui neste post.

A oficina foi realizada com professores e coordenadores de uma Instituição de Ensino Superior de Brasília, DF, durante a semana pedagógica para apresentar a temática de EAN no contexto do Marco de Referência e seus princípios. A atividade foi realizada em Julho de 2016,

As motivações para a realização da oficina foram:

  • Na maior parte das vezes o nutricionista ainda é quem decide pelo seu paciente, não só no consultório, mas nos diferentes campos de atuação e espaços. Então, como construir um ambiente favorável para que as pessoas possam construir seu próprio conhecimento e tomar suas decisões?


  • Necessidade de desconstrução da ideia atual que o nutricionista virou um profissional para "dar dicas". Porém, para desconstruir vem uma pergunta: quais as características que o profissional precisa ter para contribuir com a transformação das pessoas que o procuram?


  • As redes sociais mudaram as relações e não conseguimos saber até que ponto o nutricionista estava preparado para "se jogar nessa rede" sem perder seu objetivo. Será que perdemos o controle? E até mesmo a credibilidade? Parece que nosso espaço e função está sendo dividido com muitos outros profissionais.

 

  • Qual o perfil do profissional que precisamos atualmente? São quase 7 mil novos nutricionistas credenciados nos conselhos a cada ano e, mesmo assim, as prevalências de sobrepeso e obesidade continuam aumentando.

Que tipo de profissional estamos precisando para atuar com EAN lembrando que os estudantes chegam no curso com distintas perspectivas e interesses. Como envolver e formar com excelência?

A partir destas inquietações foi apresentada a proposta à coordenação do curso de Nutrição do qual as realizadoras da oficina fazem parte do corpo docente. A coordenadora aprovou a oficina e agendou para o primeiro dia da Semana Pedagógica com a participação de todos os docentes e orientadores de prática totalizando 19 nutricionistas.

Saiba mais sobre o planejamento e desenvolvimento da oficina neste link aqui!



postado por Carla Tavares de Moraes Sarmento em Sexta-feira, 07 de Outubro de 2016

O Marco de Referência apresenta a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) como um campo de conhecimento e de prática contínua e permanente, transdisciplinar, intersetorial e multiprofissional que visa promover a prática autônoma e voluntária de hábitos alimentares saudáveis. Apesar de ser um componente curricular que precisa perpassar todo o curso de nutrição, na maior parte das situações a Educação (Alimentar e) Nutricional ainda se restringe a uma disciplina. Fica cada vez mais evidente a necessidade de estratégias curriculares e pedagógicas e também um maior envolvimento do corpo docente como um todo para que a EAN esteja presente ao longo do processo de formação do estudante de Nutrição. Relatamos aqui uma oficina que foi realizada com professores e coordenadores de uma Instituição de Ensino Superior de Brasília, DF, durante a semana pedagógica para apresentar a temática de EAN no contexto do Marco de Referencia e seus princípios. A atividade foi realizada em Julho de 2016,

 

            As motivações para a realização da oficina foram.

 

Þ    Na maior parte das vezes o nutricionista ainda é quem decide pelo seu paciente, não só no consultório, mas nos diferentes campos de atuação e espaços. Então, como construir um ambiente favorável para que as pessoas possam construir seu próprio conhecimento e tomar suas decisões?

Þ    Necessidade de desconstrução da ideia atual que o nutricionista virou um profissional para "dar dicas". Porém, para desconstruir vem  uma pergunta: quais as características que o profissional precisa ter para contribuir com a transformação das pessoas que o procuram?

Þ    As redes sociais mudaram as relações e não conseguimos saber até que ponto o nutricionista estava preparado para "se jogar nessa rede" sem perder seu objetivo. Será que perdemos o controle? E até mesmo a credibilidade? Parece que nosso espaço e função está sendo dividido com muitos outros profissionais.

Þ    Qual o perfil do profissional que precisamos atualmente? São quase 7 mil novos nutricionistas credenciados nos conselhos a cada ano e, mesmo assim, as prevalências de sobrepeso e obesidade continuam aumentando.

Que tipo de profissional estamos precisando para atuar com  EAN lembrando que os estudantes chegam no curso com distintas perspectivas e interesses. Como envolver e formar com excelência ?

 

A partir destas inquietações foi apresentada a proposta à coordenação do curso de Nutrição do qual as realizadoras da oficina fazem parte do corpo docente. A coordenadora aprovou a oficina e agendou para o primeiro dia da Semana Pedagógica com a participação de todos os docentes e orientadores de prática totalizando 19 nutricionistas. A oficina foi assim planejada:

 

Objetivos:

            Sensibilizar e capacitar o corpo docente e orientadores de atividades práticas do curso de nutrição quanto à necessidade da realização de mudanças de postura acadêmica em relação à temática da Educação Alimentar e Nutricional, visando sua abordagem transversal.

 

Metodologia: Optou-se por trabalhar com uma metodologia participativa de ensino e aprendizagem. Foi adotada a metodologia da problematização (Arco de Maguerez).

 

Etapas:

 

  1. Observação da realidade (10 minutos)

Pergunta: Baseado na sua experiência pessoal ou relato de outros, como a postura do nutricionista atualmente? Quais as características e sentimentos que vocês percebem?

Anotar no quadro em duas colunas: características e sentimentos

 

  1. Pontos-chave (15 minutos)

De tudo que foi apontado, como podemos agrupar? Qual (is) temas  são mais relevantes?

Estimular o grupo a encontrar a(s) causa (s) – porque está acontecendo?

 

  1. Teorização (15 minutos + 20 minutos)

Apresentação do conceito de EAN.

Divisão dos professores em  grupos para  trabalhar com os Princípios do Marco de Referência e do Guia Alimentar. As atividades definidas foram:

Þ    Estudar os textos, refletir com o grupo e escrever os conceitos principais baseado na seguinte pergunta: “Como os conceitos dos textos se relacionam com as palavras norteadoras”?

Þ    Palavras norteadoras: conhecer /  respeitar / provocar / capacitar para / construir junto

Þ    Apresentação para a turma

 

4. Hipóteses de solução (20 minutos)

 O seguinte questionamento foi feito ao grupo: E nós, o que temos com isso? Qual é o nosso papel? Qual contribuição as disciplinas que cada uma ministra ou estágios que orienta pode dar para que a EAN, apesar de ser apenas um componente curricular, possa perpassar por todo o curso?

Þ    Respostas individuais.

 

Desenvolvimento da Oficina

 

O tempo programado inicialmente não foi suficiente uma vez que os professores participaram ativamente e ficaram bem estimulados a contribuir com suas percepções e experiências.

Na primeira etapa os professores se organizaram em semi círculo e foi feita uma pequena introdução a respeito da ideia inicial, os objetivos e de que maneira seria realizada a oficina. Com a intenção de conhecer a realidade, as perguntas “Como está o postura do nutricionista atuando hoje? Quais as características e sentimentos que vocês percebem?” foram apresentadas e os professores, um a um, foram fazendo suas colocações.

As respostas foram:

-      Distancia da realidade

-      Dietas de gaveta

-      Excesso de exposição na mídia

-      Preguiça de estudar

-      Aluno não se sente provocado

-      Falta postura crítica

-      Medo de não ser bem sucedido por não reproduzir o modismo

-      Individualidade

-      Falta olhar o paciente

-      Carência de visão generalista e interdisciplinaridade

-      Falta de conhecimento sobre os alimentos

-      Falta de respeito com a realidade socioeconômica

-      Nutricionista prescritor é diferente de educador

-      Para emagrecer tem que sofrer

-      Falta de postura ética

-      Falta de encantamento com o professor /nutricionista

 

Na segunda etapa as respostas apresentadas foram agrupadas como pontos-chave, ficando os seguintes agrupamentos:

 

-      Falta postura crítica

-      Falta olhar o paciente

-      Nutricionista prescritor é diferente de educador

-      Para emagrecer tem que sofrer

 

Na etapa de teorização, os participantes foram apresentados ao conceito de EAN, suas principais abordagens e as palavras norteadoras para o próximo passo: conhecer, respeitar, provocar, capacitar e construir.

 

Em seguida, foram divididos em grupos de 3 ou 4 para leitura de alguns princípios do Marco de Referência e as principais recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira.  Os grupos estudaram os textos e apresentaram os principais pontos de acordo com as palavras norteadoras.

 

-      Conhecer – o contexto do indivíduo, os obstáculos e o acesso aos alimentos;

-      Respeitar – a individualidade e a valorização da cultura alimentar;

-      Provocar – a comunicação e o diálogo para gerar reflexão;

-      Capacitar para – gerar autonomia, planejar, monitorar e avaliar;

-      Construir junto – a multidisciplinaridade e também, para que o nutricionista se aproxime da realidade do paciente;

 

            Na quarta e última etapa, os participantes foram convidados a refletir sobre “E nós, o que temos com isso? Qual é o nosso papel? Qual contribuição as disciplinas que ministro/estágios que oriento pode dar para que a EAN, apesar de ser apenas um componente curricular, possa perpassar por todo o curso?

 

            Nesta etapa cada professor teve o seu momento de fala e os principais relatos foram:

 

  1. Metodologia ativa em algum momento da disciplina – vamos construir juntos alguma coisa;
  2. Desenvolver o perfil mais crítico;
  3. Direcionar a elaboração das dietas para os alimentos básicos;
  4. Refletir mais sobre os alimentos ultraprocessados;
  5. Projeto interdisciplinar de desenvolvimento de receitas entre as disciplinas de Técnica Dietética e Tecnologia dos Alimentos;
  6. Em NSP fazer o aluno compreender melhor todas as etapas do sistema alimentar sempre focando a questão da Segurança Alimentar e Nutricional;
  7. Trabalhar mais todos os conteúdos abordados ao longo do curso nos estágios;
  8. Evitar dar todas as respostas para os alunos;
  9. Trabalhar mais a motivação dos alunos;
  10. Procurar incluir mais o contexto da individualidade;
  11. Provocar mais o aluno;
  12. Fazer uma reflexão da responsabilidade do nutricionista de UAN com a saúde da população;
  13. Fazer uma reflexão das atividades de EAN desenvolvidas no estágio de AUAN;
  14. Acompanhar os dados do perfil nutricional dos trabalhos desenvolvidos no estágio de AUAN para verificar o impacto que os anos de estágio na mesma UAN causou na comunidade;
  15. Seguir um plano de aula único para definir atividades de EAN;
  16. Monitoramento dos trabalhos dos estágios;
  17. Aumentar as apresentações dos trabalhos de estágio para provocar os outros alunos que ainda não chegaram;
  18. Parceria entre os dois campi para desenvolver os mesmos trabalhos práticos;
  19. Padronizar fichas técnicas e incluir espaço para relato sobre de que maneira as técnicas desenvolvidas podem contribuir para a saúde da população;
  20. Mais visitas aos supermercados para conhecer os alimentos;
  21. Estimular o interesse do aluno e mostrar que não é ruim estar em alguma disciplina ou no estágio porque eles vão replicar essa informação;
  22. Trabalhar a autonomia no estágio – mostrar que para isso eles devem ser mais críticos e estudar mais;
  23. Tentar submeter o aluno a diferentes realidades e trazer o entendimento das unidades de alimentação e nutrição como um fator preponderante para EAN;
  24. Na nutrição esportiva trazer o empoderamento para o aluno de que ele pode apresentar argumentos para que o paciente siga mais a recomendação que vai fazer bem pra ele;
  25. Desafio com a nutrição clínica no sentido de fazer o aluno conhecer e valorizar a cultura alimentar regional;
  26. Trabalhar na clínica muito mais a Educação Alimentar e Nutricional que a prescrição dietética;
  27. Trabalhar o “provocar” nos alunos e o desafio de que eles respeitem mais a individualidade dos pacientes;
  28. Iniciar o estágio com uma prova prática de alimentos;
  29. Focar no alimento;
  30. Reforçar para os alunos que um nutricionista da área de produção de alimentos deve fazer atividades de EAN;
  31. Treinar o manipulador de alimentos para que ele seja “provocado” quanto as questões de higiene dos alimentos;
  32. Fazer uma dramatização onde cada um cria uma situação e, em seguida, avaliar a conduta;
  33. Trazer casos de pacientes que tiveram problemas de saúde em decorrência de dietas mal elaboradas;
  34. Pedir para os alunos fazerem cálculos das dietas da moda e das monótonas principalmente quanto aos micronutrientes.

 

 

Ao final da oficina, foram observados os seguintes aspectos:

 

-      Observou-se que as participantes demonstraram um desejo grande de modificar sua postura em sala. Porém, nem todas as propostas apresentadas foram direcionadas ao conteúdo apresentado.

-      O tempo destinado à apresentação final de cada grupo, na terceira etapa, não foi suficiente para permitir um amplo espaço para reflexão.

-      É preciso retornar o objetivo da oficina para refletir sobre o resultado alcançado. “o corpo docente e orientadores do curso de nutrição quanto à necessidade da realização de mudanças de postura acadêmica em relação à temática da Educação Alimentar e Nutricional, visando sua abordagem transversal”.

-      As participantes não estavam muito atentas para esta perspectiva mais ampla da EAN Entretanto, houve a sensibilização para a importância da  abordagem transversal dessa temática.

 

Considerações finais

            Sabemos quão grande é o desafio de trabalhar temas transversais na grade curricular, ainda mais quando a temática é constantemente atualizada e redirecionada como tem sido o campo da educação alimentar e nutricional. Existe uma real necessidade de reestruturação da abordagem no curso devido às intensas demandas das novas necessidades e gerações. Espera-se que essa oficina tenha dado um “pontapé” inicial a uma série de debates sobre o tema que ampliem a capacidade de reflexão e de surgimento de ações transformadoras, pois uma única atividade não seria capaz de capacitar o corpo docente e orientadores de práticas para as mudanças necessárias.            As doenças crônicas não transmissíveis continuam sendo a maior causa de morte no Brasil e a nutrição sempre teve um papel relevante na prevenção do agravamento desse quadro. Portanto, avancemos na construção de um profissional cada vez mais capacitado para promover melhorias na saúde e qualidade de vida da população brasileira.

Convidamos aos professores a proporem atividades como essas em seus cursos!



postado por Carla Tavares de Moraes Sarmento em Quarta-feira, 21 de Setembro de 2016

erro

 

O educador, pensador, antropólogo, sociólogo e filósofo Edgar Morin apresenta em seu livro “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, um conjunto de reflexões que nos permitem repensar a educação. Este livro tem influenciado não apenas a prática educacional mas a formação geral de inúmeras categorias profissionais.

Os saberes são:

  1. As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão
  2. Os princípios do conhecimento pertinente
  3. Ensinar a condição humana
  4. Ensinar a identidade terrena
  5. Enfrentar as incertezas
  6. Enfrentar a compreensão
  7. A ética do gênero humano

 Neste texto vamos abordar os dois primeiros princípios.


As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão

Morin afirma que todo conhecimento apresenta o risco do erro e da ilusão. No entanto, a ciência tem construído seus pilares justamente afastando o erro, estimulando dogmas  de saberes e verdades inquestionáveis.

Para Morin, o erro faz parte sim do processo, e bem como a ilusão, ambos estão ligados à percepção, ou seja, cada indivíduo percebe uma mesma informação de maneira diferente. 

Os erros podem ser classificados em:

  • Erro mental - a mente pode ser seletiva e acreditar no que for mais conveniente ou tiver mais afinidade;
  • Erro intelectual - se manifesta quando uma pessoa acredita fortemente em uma teoria sem nenhum tipo de questionamento;
  • Erro da razão - onde a racionalidade é a melhor proteção contra o erro e a ilusão. Porém, é necessário aprender a controlar a razão porque uma “certa dose” de incerteza racional é importante, pois permite aceitar o inesperado sem perder o questionamento.

Todos os saberes são incorporados gradativamente à pessoa desde o seu nascimento sem muita ênfase na possibilidade de que estejam errados, podendo gerar no indivíduo, um comportamento passivo ou até conformado.  Isso significa dizer que as crenças, valores e percepções que vamos acumulando ao longo da vida e que estão diretamente relacionadas com nossas emoções passam a ser nossas verdades que, muitas vezes, não deixam espaço para o novo.

O educador deve estar preparado para despertar nos educandos a infinidade de possibilidades de novos saberes.

Como contextualizar a importância de se compreender o erro como parte do processo da educação alimentar e nutricional? Sabemos que o conhecimento é sempre uma tradução seguido de uma reconstrução e que a percepção do educando interfere na reconstrução do conhecimento. Ou seja, cada educando terá a sua percepção e construirá o seu conhecimento.

Como valorizar os saberes alimentares de um indivíduo, que são baseados na sua experiência de vida? Nesse caso, talvez, não exista o que comumente chamamos de “práticas erradas”, uma vez que toda prática é tradução de um saber aprendido. Temos o desafio de integrar o ”erro” ao processo para que o conhecimento do novo avance. É necessário muito respeito, compreensão, afeto e empatia para que esse novo saber seja incorporado como uma grande possibilidade sem desmerecer o outro e seus saberes e práticas originais.

 

Os princípios do conhecimento pertinente

O conhecimento pertinente é aquele que contextualiza as informações de modo que uma pessoa seja capaz de compreender o todo e não apenas partes fragmentadas do conhecimento. E, para existir de fato, são necessárias as seguintes dimensões:

  • Contexto – uma informação de forma isolada não é eficiente. Deve ocorrer dentro de um contexto para fazer sentido e ser compreendida;
  • Global – são as diversas partes de um conhecimento ligadas de maneira organizada;
  • Multidimensional – não se pode isolar uma parte do conhecimento no momento de contextualizar a informação. O ser humano é um exemplo de unidade complexa porque é ao mesmo tempo biológico, psíquico, social, afetivo e racional;
  • Complexo – são os elementos diferentes que, apesar de apresentarem uma unidade, são inseparáveis do todo. E aqui o ser humano também serve como exemplo porque é um ser complexo.

Na formação de um profissional, o desenvolvimento do conhecimento deve contemplar todas estas dimensões. O conhecimento fragmentado impede que o educando  construa o seu saber e, consequentemente, isso irá se refletir na sua atuação. Um bom exemplo é o ensino da ética profissional. Como o futuro profissional poderá ser capaz de contextualizar a ética se todo conhecimento, em geral é desenvolvido de forma isolada? A valorização da ética e de todas as suas dimensões, desdobramentos e aplicações dependem da compreensão da ciência da nutrição e das áreas de atuação profissional .

Ensinar a pertinência do conhecimento talvez seja um dos maiores desafios para o professor.  É preciso repensar os objetivos do curso em relação a como o processo de conhecimento é desenvolvido e redireciona-lo para um caminho que nos leve ao profissional que queremos formar. Nesse sentido, o professor precisa rever suas estratégias e métodos para despertar no educando a percepção para a necessidade de conhecer o todo. 


 (Fonte foto: paulobraccini-filosofo.blogspot.com)



postado por Carla Tavares de Moraes Sarmento em Quinta-feira, 14 de Julho de 2016

arvore de maos

Em pleno século XXI, nosso país está entre as dez potencias mundiais, no entanto, como todos sabemos, enfrentamos uma crise econômica e social que tem aspectos crônicos, entre eles a educação, que sofre consequências deste momento, mas também é, de certo modo, também fator para esta mesma crise. O censo demográfico de 2010 revela que 4 milhões de crianças e adolescentes estão fora das escolas e metade da população não concluiu o ensino fundamental. Também não existe boa infraestrutura em muitas escolas,  metade dos professores da zona rural tem formação inadequada e as escolas urbanas tem número insuficiente de profissionais. (MANDELLI, 2012).

Atualmente, o conhecimento não está mais restrito aos livros ou personificado no professor. Hoje o saber é ilimitado e totalmente indominável (LEVY, 2000). E o professor deve ser um facilitador da inteligência coletiva, aprendendo junto com o aluno, e não mais um transmissor de conhecimento pré-formatado. Neste cenário, a produção do conhecimento, a reflexão, a análise crítica e as novas ideias acontecem em um processo articulado e simultâneo.

Diante disso, talvez o grande desafio seja como, em sala de aula,  colocar em prática um modelo de educação eficaz, considerando a necessidade de apresentar o conhecimento e a maneira como será percebido e apropriado pelo aluno.

A UNESCO apresenta um modelo de educação centrado em quatro pilares onde um não é mais importante que o outro e sim os quatro se completam na mesma intensidade e complexidade.

Os quatro pilares da educação são:

 

  1. Aprender a conhecer – um pilar que visa o domínio dos próprios instrumentos do conhecimento. O conteúdo não deve ser simplesmente passado para o aluno em uma via de mão única. O professor deve se valer do conteúdo para que o aluno aprenda a perceber a realidade dele e do mundo em que vive.
  2. Aprender a fazer – o aluno aprende a se relacionar, socializar e considerar a importância do trabalho em equipe em prol de um bem maior
  3. Aprender a viver – viver juntos, ou seja, aprender a viver com os outros. O professor deve ser capaz de desenvolver no aluno suas competências para transformar o que aprendeu.
  4. Aprender a ser – finalmente ter o conhecimento de si mesmo para se abrir, em seguida, a relação com o outro. Se o aluno aprende a ser, ele não vai apenas repetir conceitos aprendidos anteriormente.

 

Nesse contexto, é possível questionar se, enquanto docentes de EAN, estamos conseguindo estimular que o futuro nutricionista aprenda a conhecer profundamente a realidade em que vivemos e aprenda a fazer, com os instrumentos existentes, um trabalho voltado às necessidades da nossa sociedade. Também vale a reflexão se estamos promovendo o  viver junto, a compreensão do outro na sua mais profunda vontade. E, por fim, ensinando a ser com sensibilidade, ética, responsabilidade e principalmente, permitindo que o outro também seja.

O pensar dessa maneira, talvez nos leve a criar um espaço em sala de aula que possibilite o crescimento não só do nosso aluno mas também do educador. E, segundo  o sociólogo Edgar Morin, “a revolução do sistema educacional vai passar pela reforma na formação dos educadores. É preciso educar os educadores. Os professores precisam sair de suas disciplinas para dialogar com outros campos de conhecimento. E essa evolução ainda não aconteceu. O professor possui uma missão social, e tanto a opinião pública como o cidadão precisam ter a consciência dessa missão”. [Leia a entrevista aqui]

 

Carla  Tavares de Moraes Sarmento pela equipe Ideias na Mesa

Brasília 14 de julho de 2016

 

 

Referências: 

DELORS, Jacques (org.). Educação um tesouro a descobrir – Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. Editora Cortez, 7ª edição, 2012. Disponível em:

http://unesdoc.unesco.org/images/0010/001095/109590por.pdf

LEVY, Pierre. Cibercultura. Tradução por Carlos Irineu da Costa. 2.ed. São Paulo: Editora 34, 2000. 264 p.

MANDELLI, Mariana. Censo escolar 2011: raio x da educação básica no país. Publicado no site Todos pela Educação em 26/04/2012. Disponível em:  http://www.todospelaeducacao.org.br/comunicacao-e-midia/noticias/22473/censo-escolar-2011-raio-x-da-educacao-basica-no-pais/


 

 



postado por Equipe Ideias na Mesa em Quinta-feira, 19 de Maio de 2016

Este espaço foi criado para facilitar o diálogo entre nós, docentes, sobre a formação em Educação Alimentar e Nutricional nos cursos de graduação em Nutrição.

Se você está conhecendo este blog agora, acho que vale a pena  contar que os temas postados até o momento foram: “comportamento alimentar”; “o guia alimentar e a repercussão na formação do nutricionista em educar”; “sugestão de atividades com indivíduos e coletividades baseadas no guia alimentar”; “a nutrição mais próxima da educação” e “educação: aprender a fazer e aprender a aprender” .

Hoje queremos mostrar um pouco do nosso trabalho com os professores de EAN que já se juntaram a nós.

  1. Grupo no whatsapp para conversas rápidas, marcar encontros no Skype ou divulgar alguma notícia.
  2. Grupo no facebook para postar vídeos, fotos, discutir temas e ideias, compartilhar nossas aulas de sucesso, nossas angústias ou mesmo para tirar dúvidas.
  3. Este blog, que poderá ter uma frequência maior de postagem se você sugerir temas ou mesmo enviar texto para publicarmos.
  4. Encontros mensais via Skype e que serão agendados no grupo do whatsapp. Como é difícil encontrar uma data e horário que atenda a todos os professores, agendaremos pelo maior número de participantes. Mas se você perder, poderá assistir a gravação disponível no site do Ideias na Mesa. Para esses encontros sempre abriremos uma discussão com o tema definido no encontro anterior.
  5. Todas as ideias aqui reunidas serão trabalhadas em uma oficina no CONBRAN 2016, que ocorrerá em outubro em Porto Alegre.  Precisamos reunir o maior número possível de professores de EAN do Brasil para uma oficina colaborativa. A cada dia percebemos mais a necessidade de uma rede de apoio e confiança entre todos.

 

As questões que mais representam nossas ideias atualmente foram construídas por professores que formam esse grupo desde o início e apresentamos a seguir:

  • Como contribuir para que o estudante se sinta capaz e interessado em aprender e refletir, problematizar, pensar e adotar essa mesma lógica na sua atuação profissional? E aqui surge o grande desafio: chegando atualmente com um perfil tão diferenciado, nosso aluno está preparado e consciente dessa necessidade de reflexão? Ou apenas enxerga e valoriza, uma nutrição que se revela como uma “ciência da estética”, com resultados rápidos e sensacionalistas? Diante desse cenário, fica cada vez mais clara a necessidade de aproximação com aluno para conhecer melhor suas necessidades, anseios e desejos diante da profissão e, dessa maneira participar da sua transformação. 
  • Como relacionar a disciplina com outras áreas e também perpassar por todo o curso de nutrição?  Aqui é clara a visão de que o professor de EAN trabalha sozinho e isolado dentro do curso. Como fortalecer esse professor?
  • No encontro via Skype realizado no dia 28 de abril, uma das professoras apontou como uma grande preocupação o fato de termos avançado bastante nas dinâmicas para realizar Educação Alimentar e Nutricional e, por outro lado, essa inovação das dinâmicas leva um conteúdo pronto para o aluno, paciente e usuário dos diferentes serviços onde atuamos. Então, como trabalhar com o aluno para evitar que ele seja mais um nutricionista prescritor de dietas?

 

Professor de EAN, participe!! Junte-se ao nosso grupo para aumentarmos cada vez mais essa rede de apoio e aprendizagem. Se você tiver interesse em entrar no grupo envie uma mensagem para: ideiasnamesa@unb.br

 

docenteean




postado por Equipe Ideias na Mesa em Quarta-feira, 29 de Julho de 2015

Nos meses de junho e julho, a equipe do Fórum de Professores universitários escolheu o tema “Comportamento alimentar”, atualmente destacado pelo Novo Guia Alimentar da População Brasileira, como determinante no processo de autonomia dos indivíduos para a escolha das refeições.

Para tal, uma das professoras participantes do Fórum e reconhecida em publicações e pesquisas sobre o tema, Dra. Natacha Toral escreveu a respeito deste assunto. Acompanhe a última parte do texto que trata das barreiras e dos estágios motivacionais no aconselhamento nutricional:

 

Após identificar a série de determinantes que interferem nas escolhas alimentares dos indivíduos na Parte 2, professores, estudantes de Nutrição e nutricionistas devem refletir quanto à necessidade de se identificar os benefícios e barreiras presentes para a adoção de um comportamento, na visão do paciente/cliente. Assim como no caso dos determinantes, é válido um exercício identificando os benefícios e barreiras vislumbrados para enfrentar a mudança de um comportamento da sua própria alimentação. Recomenda-se o uso de uma matriz, na qual, após identificar o que se quer mudar na alimentação, sejam preenchidas as vantagens e desvantagens de realizar ou não tal modificação. Essa matriz estimula a reflexão do paciente/cliente (e, no caso, do aluno/nutricionista em formação) sobre seu próprio comportamento alimentar, sendo que o professor/nutricionista pode colaborar no seu preenchimento.

 

matriz 

          Já na década de 90, Assis e Nahas apontaram para a necessidade de inclusão de modelos teóricos na atuação do nutricionista em EAN. Na época, pouco se falava sobre o assunto, mas alguns avanços importantes têm surgido nos últimos anos. Vários estudos têm descrito teorias de comportamento que podem ser aplicadas à Nutrição, de forma a explicar e prever como se dá o comportamento alimentar dos indivíduos. Várias já foram descritas, como a teoria do ciclo da vida, a teoria social cognitiva, entre outras, que tem sua interface com a Nutrição. 

Outro exemplo é o Modelo Transteórico, que permite, entre outros aspectos, identificar cinco fases, chamadas de estágios, em que os indivíduos manifestam diferentes graus de motivação para mudar um comportamento de saúde, que pode ser sua alimentação. São elas: pré-contemplação, quando não pretende modificar sua alimentação num futuro próximo; contemplação, quando reconhece suas práticas alimentares como inadequadas, mas ainda visualiza diversas barreiras para modificá-las; preparação, quando está decidido a alterar sua dieta nos próximos dias; ação, quando alterou determinadas práticas alimentares nos últimos meses; e manutenção, quando manteve sua mudança por mais de seis meses.

Apesar de esta teoria ter surgido com foco voltado para indivíduos, no caso, tabagistas, grande parte da literatura científica sobre o assunto que trata da teoria voltada para a alimentação aponta para resultados de pesquisas com grupos. Essa situação gera a dúvida: vale a pena falar de teorias como essa na formação dos Estudantes de Nutrição e Nutricionistas? Como fica a parte prática, como usar isso no dia a dia do nutricionista que atende em consultório? Para cada estágio, cabem ser adotadas estratégias diferentes numa intervenção nutricional. Em sala de aula, os alunos podem tentar identificar o que fazer em cada estágio, considerando as características dos pacientes classificados em cada fase. De forma geral, o quadro a seguir mostra o que fazer com a abordagem individual em cada estágio de mudança.

tabela estágios

           Muitas das dificuldades do professor em trazer esses temas para as aulas de EAN na graduação em Nutrição e dos próprios nutricionistas no campo profissional estão relacionadas com a dificuldade de trabalhar com conceitos de outra ciência, a Psicologia. Contudo, é inevitável passar por ela se o tempo todo estamos falando de comportamento, isto é, do comportamento alimentar dos indivíduos. O receio não exige que o nutricionista se torne um psicólogo, mas que este saiba aspectos importantes que devem ser trabalhados nos indivíduos para que novas atitudes sejam geradas e que comportamentos sejam mudados para adotar uma alimentação mais saudável por mais tempo. Cabe ainda ressaltar que o atendimento multiprofissional, em que o nutricionista, com o apoio de um psicólogo para discutir casos ou pelo menos indicar seus pacientes/clientes e saber sua evolução, é também um ponto muito positivo.


 

Professora Dra. Natacha Toral

Graduada em Nutrição pela Universidade de Brasília (2002), especialista em Adolescência para Equipe Multidisciplinar pela Universidade Federal de São Paulo (2003), Mestre e Doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (2006 e 2010). Atuou como consultora técnica da Coordenação Geral da Política de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde de 2006 a 2010. Atualmente, é professora adjunta do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de Nutrição, com ênfase em Nutrição em Saúde Pública, atuando principalmente nos seguintes temas: comportamento e consumo alimentar, adolescentes, Modelo Transteórico e perfil nutricional de populações.

Bibliografia completa das 3 partes:

Amparo-Santos L. Avanços e desdobramentos do marco de referência da educação alimentar e nutricional para políticas públicas no âmbito da universidade e para os aspectos culturais da alimentação. Rev. Nutr. 2013; 26(5):595-600.

Assis MAA, Nahas MV. Aspectos motivacionais em programas de mudança de comportamento alimentar. Rev. Nutr. 1999; 12(1): 33-41.

Brasil. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Marco de referência de educação alimentar e nutricional para as políticas públicas. Brasília, DF: MDS, 2012.

Esperança LMB, Galisa MS. Empowerment: Magia do Poder na Comunicação. In: Galisa MS. Educação Alimentar e Nutricional - Da Teoria à Prática. São Paulo, SP: Roca, 2014.

Monteiro RA. Influência de Aspectos Psicossociais e Situacionais sobre a Escolha Alimentar Infantil. 2009. [Tese de Doutorado]. Brasília, DF: Universidade de Brasília. Instituto de Psicologia; 2009.

Rodrigues EM, Soares FPTP, Boog MCF. Resgate do conceito de aconselhamento no contexto do atendimento nutricional. Rev. Nutr. 2005; 18(1):119-128.

Story M, Neumark-Sztainer D, French S. Individual and environmental influences on adolescent eating behaviors. J. Am. Diet. Assoc. 2002; 102 (3 Supplement), S40-S51.

 



postado por Equipe Ideias na Mesa em Terça-feira, 07 de Julho de 2015

Nos meses de junho e julho, a equipe do Fórum de Professores universitários escolheu o tema “Comportamento alimentar”, atualmente destacado pelo Novo Guia Alimentar da População Brasileira, como determinante no processo de autonomia dos indivíduos para a escolha das refeições.

Para tal, uma das professoras participantes do Fórum e reconhecida em publicações e pesquisas sobre o tema, Dra. Natacha Toral escreveu a respeito deste assunto. Acompanhe a 2ª parte de três que serão divulgadas ao longo deste período pelo Fórum, que trata das práticas e simulações de atendimento nutricional e os determinantes do comportamento alimentar:

 

Para exercitar as etapas da consulta citadas na Parte 1 do texto (descoberta inicial, exploração em profundidade e preparação para a ação) com os graduandos, é interessante criar roteiros para simulação de consultas de Nutrição em sala de aula e também atendimentos em ambulatórios e comunidades, por meio de projetos de extensão ou estágio. O roteiro deve apresentar um caso clínico de baixa complexidade, como uma orientação para um paciente fictício que tem alta ingestão de sódio e foi diagnosticado recentemente com hipertensão arterial, ou se envolver em campo prático com indivíduos portadores de hipertensão ou outras doenças crônicas. É possível executar a consulta considerada ideal, no qual o nutricionista segue todas as fases previstas e cria um ambiente favorável para o diálogo, e pode exercitar pontos que devem ser evitados na entrevista.

Além de abordar as etapas de uma consulta de Nutrição, o exercício dos acadêmicos pode ser útil para desenvolver habilidades entre os alunos com técnicas de comunicação. Nesse momento, deve-se orientar os graduandos quanto à necessidade de falar com voz audível, num tom adequado e suave, expressando-se claramente, sem o uso de termos técnicos desnecessários e evitando vícios de linguagem.

          Também é interessante apresentar um roteiro para outro aluno, que irá adotar o papel de observador da consulta ou simulação da consulta. Obviamente não é possível determinar como um paciente vai ou deve se portar numa consulta de Nutrição, mas a experiência é válida para que os alunos possam identificar aspectos da comunicação não-verbal. Este é um aspecto fundamental num atendimento individual, considerando que apontará a receptividade do cliente e sua motivação para seguir as orientações transmitidas, interferindo diretamente no sucesso da intervenção.

          Seguem exemplos de roteiros para o exercício das encenações em sala de aula, caso não seja possível o desenvolvimento de uma atividade prática real, ou quando se adota a encenação como parte de um treinamento para a prática:

Papel do nutricionista com atitudes e ambiente inadequados: o aluno deve simular que é um nutricionista e receberá o paciente em seu consultório. Ao receber o paciente, não o olha nos olhos, não o saúda ao chegar e sequer se levanta da cadeira para cumprimentá-lo. Confunde o nome do paciente e mesmo após ser corrigido pelo paciente, continua chamando-o repetidamente pelo nome errado. Enquanto o paciente fala, verifica o relógio e o celular várias vezes. O ambiente também está disposto de modo a que haja uma distância considerável entre o paciente e o nutricionista, com uma mesa grande contendo vários objetos e papéis entre eles.

Papel do paciente que não demonstra interesse na consulta: o aluno deve se portar como o paciente que vai a uma consulta de Nutrição. Responde de forma monossilábica, fala baixo e rápido, não presta atenção no que o nutricionista diz por estar distraído com o celular, consulta o relógio diversas vezes durante a consulta e pergunta se vai demorar muito para terminar, senta-se com os braços cruzados e refere que não conseguirá seguir as orientações do nutricionista.

Podem ser utilizados vídeos gravados previamente sobre tais encenações ou mesmo vídeos desenvolvidos com ferramentas eletrônicas, como o GoAnimate. Para as encenações, sejam estas realizadas em sala de aula ou apresentadas nos vídeos, deve-se adotar um roteiro para análise dos mesmos pelos alunos. Esta análise deve apresentar pontos a serem observados pelos alunos, quanto à postura, receptividade, ambiente e diálogo estabelecidos entre nutricionista e paciente.

Durante esta dinâmica de atendimento, todo comportamento envolve diferentes determinantes, e com a alimentação não é diferente. O aluno de Nutrição deve ser estimulado a identificar os diferentes determinantes presentes em sua própria alimentação como exercício para uma prática que deve ocorrer em qualquer atendimento individual. A pergunta é: por que este indivíduo come assim ou come isto ou come desta forma? A resposta abrangerá uma gama de fatores, sejam estes econômicos, físicos, sociais, culturais, etc. Inúmeras influências podem ser listadas e a literatura as classifica de diferentes maneiras. Story et al. (2002), por exemplo, sugerem a seguinte classificação:

Determinantes intrapessoais: são aqueles relativos ao indivíduo, abrangendo aspectos biológicos, psicossociais e de comportamentos ou estilos de vida, como valores pessoais, crenças, atitudes a respeito dos alimentos, conhecimento e preferências.

Determinantes interpessoais: refere-se ao ambiente social, abrange os processos de relacionamentos com amigos, família e outros atores de relevância para a vida do indivíduo.

Determinantes situacionais: refere-se ao ambiente físico, abrangendo a acessibilidade e a disponibilidade de locais de compra e de escolha de alimentos.

Determinantes societais: inclui aspectos ligados indiretamente ao comportamento alimentar, como a mídia, a propaganda, os sistemas de produção e distribuição de alimentos e políticas públicas de saúde e regulamentação.

          Assim, acredita-se que quanto mais os estudantes, por meio de práticas e simulações de atendimentos, conseguirem se aprofundar nos determinantes da alimentação que estão presentes na vida de um determinado paciente/cliente, maiores as chances de sucesso no atendimento e no processo de mudança de comportamento.

Na última parte do texto, serão explorados os estágios motivacionais para a mudança de comportamento de um indivíduo ou grupo de pessoas numa comunidade. Até breve!

 


Professora Dra. Natacha Toral

Graduada em Nutrição pela Universidade de Brasília (2002), especialista em Adolescência para Equipe Multidisciplinar pela Universidade Federal de São Paulo (2003), Mestre e Doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (2006 e 2010). Atuou como consultora técnica da Coordenação Geral da Política de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde de 2006 a 2010. Atualmente, é professora adjunta do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de Nutrição, com ênfase em Nutrição em Saúde Pública, atuando principalmente nos seguintes temas: comportamento e consumo alimentar, adolescentes, Modelo Transteórico e perfil nutricional de populações.

Bibliografia desta parte:

Story M, Neumark-Sztainer D, French S. Individual and environmental influences on adolescent eating behaviors. J. Am. Diet. Assoc. 2002; 102 (3 Supplement), S40-S51.

 



postado por Equipe Ideias na Mesa em Terça-feira, 16 de Junho de 2015

Neste mês, a equipe do Fórum de Professores universitários escolheu o tema “Comportamento alimentar”, atualmente destacado pelo Novo Guia Alimentar da População Brasileira, como determinante no processo de autonomia dos indivíduos para a escolha das refeições.

Para tal, uma das professoras participantes do Fórum e reconhecida em publicações e pesquisas sobre o tema, Dra. Natacha Toral escreveu a respeito deste assunto. Acompanhe a 1ª parte de três que serão divulgadas ao longo do mês de junho pelo Fórum, que tratará de conceitos importantes que podem ser trabalhados com os alunos em sala de aula, antes que eles possam se preparar para aulas práticas de atendimento individual:


 

estudante nutGrande parte do conteúdo das disciplinas de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) acaba sendo voltado para estratégias direcionadas a grupos de indivíduos, seja pelos materiais disponíveis para os professores, seja pela escassez de orientações práticas para aplicar a teoria, ou mesmo pela falta de experiência deles no trabalho com estratégias direcionadas a indivíduos. Afinal, sabe-se que grande parte dos docentes das disciplinas de EAN não tem formação específica na área, o que pode impactar negativamente no ensino de diferentes formas. Porém, sabe-se que o atendimento individual é hoje um campo importante de atuação do nutricionista, considerando a possibilidade de atuação em consultórios, ambulatórios, academias, etc. Então, como trabalhar com EAN voltada para o indivíduo na formação do estudante de Nutrição?

Muitas aulas são iniciadas com conceitos e, ao abordar este tema, também devem ser listadas algumas definições básicas necessárias para avançar na discussão do assunto. Primeiro, seguem algumas diferenças importantes que muitas vezes são usadas de forma equivocada como sinônimos, mas não são: EAN versus aconselhamento versus orientação.

Educação Alimentar e Nutricional – campo de conhecimento e de prática contínua e permanente que visa promover a prática autônoma e voluntária de hábitos alimentares saudáveis. Faz uso de abordagens que favorecem o diálogo, a formação de valores, a atitude crítica, o despertar do autocuidado e da responsabilidade do paciente sobre si mesmo, sem limitar sua liberdade.

Aconselhamento nutricional – uma abordagem da educação alimentar e nutricional, direcionada para o atendimento individual em consultório ou ambulatório, no qual se estabelece um diálogo – e não monólogo – entre o cliente/paciente, considerando-o como portador de uma história de vida e o nutricionista. Cabe a este profissional desvelar o contexto biopsicossocial do indivíduo a sua frente, identificando soluções para superar problemas alimentares de forma harmônica com a rotina e a saúde do interessado.

Orientação nutricional – aponta para o que fazer de forma imediata, abrange as instruções propriamente ditas que são oferecidas com certo rigor ao paciente, como a prescrição de uma dieta, com seus horários e especificações dos alimentos.

 

Outro aspecto fundamental que deve ser abordado nas aulas de EAN é a estrutura de uma consulta de Nutrição. É possível que isso seja trabalhado em outras disciplinas, mas é difícil limitar-se na orientação sobre o que se deve fazer de EAN dentro de uma consulta, sem falar do contexto global desta. A geração de um ambiente cordial e de confiança, no qual irão se estabelecer os acordos realizados no aconselhamento alimentar e nutricional, inicia-se no momento de abrir a porta do consultório para o paciente/cliente entrar. Rodrigues et al. (2005) apontam para as etapas que compõem uma consulta, as quais exigem diferentes habilidades do nutricionista, a saber:

Descoberta inicial – o nutricionista deve:

- Formar o vínculo entre nutricionista e cliente/paciente.

- Ter empatia, autenticidade, considerações positivas.

- Captar o estado emocional do cliente, declarado verbalmente ou por gestos, posturas, exposições faciais, silêncio.

- Saber ouvir e saber aceitar.

- Criar um ambiente favorável no atendimento.

 

Exploração em profundidade – o nutricionista deve:

- Encorajar o cliente para a formação de “insight”, de forma a criar uma condição de discernimento e discussão sobre os problemas.

- “Despir-se” da figura de autoridade.

- Ser sensível para perceber a necessidade de encorajar o paciente para desvelar os temas relacionados ao seu problema.

- Usar questões abertas e fechadas, diretivas (incentivos quando o cliente não formula a ideia), estímulos não verbais que indicam atenção e compreensão.

 

Preparação para a ação – o nutricionista deve:

- Minimizar a ansiedade em clientes não acostumados a identificar estratégias próprias para solucionar seus problemas.

- Apoiar o cliente ao decidir quanto aos objetivos e ações.

- Oferecer feedback, por meio de elogios, por exemplo.

- Dedicar tempo e ter paciência.

- Avaliar em conjunto as estratégias selecionadas.

 

Na prática, é comum perguntar para o paciente/cliente: qual é o seu objetivo vindo a esta consulta? Para trabalhar com EAN no atendimento ao indivíduo, é fundamental também ter em mente o objetivo do nutricionista com a consulta. O que o nutricionista quer mudar?

Independentemente de o paciente/cliente citar se está lá para a perda de peso, a adoção de uma dieta mais equilibrada ou o controle de uma doença, o objetivo permanecerá sendo comum a todas as situações: o que se quer é mudar comportamentos e atitudes. E aí surgem outras definições importantes, como a diferença entre atitudes e comportamentos, as quais apresentam muitos conceitos distintos na literatura, mas podem aqui ser sucintamente e superficialmente apresentados da seguinte forma:

Atitudes se referem a uma avaliação global que um indivíduo tem sobre determinada prática, como a alimentação. Envolvem as crenças, as emoções e o conhecimento que o indivíduo tem sobre isso. É algo “interno”, não observável. As atitudes podem (mas nem sempre) explicar ou predizer um determinado comportamento.

Exemplo 1: A senhora acredita que frutas orgânicas têm mais nutrientes.

Exemplo 2: O aluno tem o costume de comer pão de queijo porque é de Minas Gerais.

comportamento é uma resposta observável a um estímulo, é uma ação do indivíduo. É algo “externo”, isto é, todos podem ver.

Exemplo 1: A senhora se desloca até uma feira de orgânicos para comprar suas frutas.

Exemplo 2: O aluno sempre come pão de queijo nos intervalos entre suas aulas.

 

Pensando em uma mudança a longo prazo, o foco deve ser as atitudes, que se espera que gerem mudanças nos comportamentos. É algo mais demorado, que exige mais persistência da dupla paciente/cliente e profissional, tendo em vista que implica em mudar valores que fazem parte do indivíduo às vezes há muitos anos. Porém, em situações críticas, em que é necessária uma mudança imediata, o foco do nutricionista pode ser no comportamento, no fazer, no que é observado, isto é, na mudança conjuntural, que, pode, em alguns casos, até levar a mudanças nas atitudes. Mas não cabe aqui esperar uma mudança estrutural, e sim mais pontual.

 estudanteNo ensino da EAN, seja nas disciplinas de Educação Nutricional e de Nutrição da Saúde Pública, assim como nos campos de estágio em saúde coletiva, cabe ao professor e orientador de prática permitir que os alunos aprendam que o nutricionista tem um papel crucial de facilitar a mudança de comportamento, mas ele, por si só, não fará a mudança. Conforme visto no conceito de EAN, a mudança deve ser voluntária e autônoma. Ou seja, depende fundamentalmente do indivíduo. Contudo, para favorecer isso, o nutricionista deve auxiliar o paciente/cliente a definir problemas presentes na sua alimentação e sugerir comportamentos para lidar com eles. Deve-se estabelecer um vínculo, uma relação de confiança com o cliente/paciente, esclarecendo que este não deve esperar que o nutricionista diga o que ele deve fazer, pois será necessário seu envolvimento e trabalho em conjunto para avançar no acompanhamento nutricional.

Na parte 2, serão descritos determinantes que devem ser valorizados na relação nutricionista-paciente/cliente e que são fundamentais no processo de tomada de decisão para a ação.

 


 

Professora Dra. Natacha Toral

Graduada em Nutrição pela Universidade de Brasília (2002), especialista em Adolescência para Equipe Multidisciplinar pela Universidade Federal de São Paulo (2003), Mestre e Doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (2006 e 2010). Atuou como consultora técnica da Coordenação Geral da Política de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde de 2006 a 2010. Atualmente, é professora adjunta do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de Nutrição, com ênfase em Nutrição em Saúde Pública, atuando principalmente nos seguintes temas: comportamento e consumo alimentar, adolescentes, Modelo Transteórico e perfil nutricional de populações.

Bibliografia desta parte:

Rodrigues EM, Soares FPTP, Boog MCF. Resgate do conceito de aconselhamento no contexto do atendimento nutricional. Rev. Nutr. 2005; 18(1):119-128.

 



postado por Equipe Ideias na Mesa em Quinta-feira, 30 de Abril de 2015

caixa d frutas A partir do texto “Novo guia alimentar para a população brasileira e as repercussões na Formação do Nutricionista em Educar”, postado dia 18.03.15, continuamos a sugerir atividades que nossos alunos possam construir abordando cada um dos tópicos destacados. Como sugestão de atividade de EAN que pode ser desenvolvida a partir do segundo tópico do texto (O sistema alimentar atual deve ser avaliado, em diferentes realidades, debatido em sala de aula e repensado pelos alunos e professores no contexto da sustentabilidade), tem-se:

Sugestões de atividades a serem desenvolvidas para o público infantil:

Podemos utilizar o conceito dos sistemas alimentares para trabalhar a temática “neofobia alimentar” em pré-escolares, por exemplo. Percebemos que a neofobia alimentar tem ligação com a falta de conhecimento e/ou interação com os alimentos, portanto podemos propor uma atividade cooperativa entre as crianças que forme ao final um grande painel (unido pelas partes de um quebra-cabeça) para explicar o desafio “Como a cenoura chega em nossa casa?”. Para tal, o moderador deverá distribuir várias peças gigantes de um quebra-cabeça e solicitar que duplas/trios de crianças representem cada etapa do sistema alimentar, destacando o que deve ser feito de melhor para não estragar os alimentos produzidos pela mãe terra. Depois da construção, os alunos podem ser convidados a preparar alguma receita com o alimento trabalhado e este pode ser degustado pelos que se interessarem. Como dica, seria interessante que este alimento fosse disponibilizado frequentemente no cardápio, para aumentar a probabilidade de experimentação do mesmo ao longo dos dias. Seria interessante também que a cor e a palavra do alimento fossem trabalhadas transversalmente durante a semana.

Sugestões de atividades a serem desenvolvidas em ambulatório:

Propor uma reflexão com pacientes sobre os sistemas alimentares atuais e seus impactos para a saúde e meio ambiente. Como o acesso à internet está cada vez maior entre a população brasileira, podem ser sugeridos que assistam vídeos como “O veneno está na mesa” para posterior discussão. Em outras oportunidades pode-se orientar o paciente a procurar feiras orgânicas perto de sua residência, acessando o site do IDEC e também estimula-lo a fazer mini hortas caseiras para temperos e ervas. Conversar sobre esta temática pode desenvolver um senso crítico e uma maior mobilização em busca da garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada, pois acreditamos que um indivíduo empoderado pode disseminar práticas e conhecimentos aos que lhe cercam.

capa guia cor Acesse também: 

- Novo guia alimentar para a população brasileira e as repercussões na Formação do Nutricionista em Educar

- Escolha Alimentar em foco: Sugestão de atividades com indivíduos e coletividades baseadas no Guia Alimentar


 

Imagens retiradas do Guia Alimentar para a População Brasileira (2014)


 



postado por Maína Pereira em Quinta-feira, 09 de Abril de 2015

guia

A partir do texto “Novo guia alimentar para a população brasileira e as repercussões na Formação do Nutricionista em Educar”, postado dia 18.03.15, pensamos em sugerir atividades que nossos alunos possam construir abordando cada um dos tópicos destacados. Como sugestão de atividade de EAN que pode ser desenvolvida a partir do primeiro tópico do texto (A escolha alimentar deve ser pelos alimentos locais e culturais, tendo como base práticas promotoras da saúde para o completo bem-estar físico, social e mental), tem-se:

- Em coletividades: Realização de uma roda de diálogo sobre cultura alimentar tentando resgatar com os participantes quais alimentos os remetem à identidade alimentar e quais os alimentos locais mais apreciados pelo grupo.

  • Para garantir um bem estar físico: Estimular a busca por informações sobre a sazonalidade de cada alimento e a construção de um mural/panfleto para orientar a escolha de compra e colheita de alimentos no período mais apropriado. Estimular o consumo de alimentos orgânicos e a construção de uma horta comunitária. Na impossibilidade de adoção destas medidas, explicar que o consumo de alimentos “de época” provavelmente trará menos agrotóxicos para o corpo. Propor um “passeio à feira” para orientar o grupo a selecionar os alimentos e debater sobre a cadeia produtiva dos mesmos. Ao retornar, criar uma oficina de higienização e acondicionamento de alimentos;
  • Para garantir um bem estar social e mental: propor a realização de concursos de receitas que utilizem alimentos locais e culturalmente aceitos pela comunidade, ou que resgatem a cultura alimentar, e se possível, realizar oficinas culinárias para o aprimoramento destas receitas, tentando torna-las ainda mais nutritivas adicionando ingredientes naturais comprados nas feiras ou reduzindo alguns ingredientes processados/ultraprocessados.

- Em ambulatório:

  • Para garantir um bem estar físico: Estimular os pacientes a descobrirem os determinantes atuais de suas escolhas alimentares e auxilia-los no entendimento que muitas vezes a pressão social e econômica influencia na perda gradativa da identidade cultural da alimentação. Estimular o resgate desta cultura alimentar e a busca pela aquisição de alimentos em feiras, preferencialmente feiras orgânicas, valorizando a produção local de alimentos e um consumo ambientalmente sustentável.
  • Para garantir um bem estar social e mental: Estimular a elaboração conjunta de refeições tradicionais de família, em família ou com amigos, mobilizando o envolvimento de todos, como uma opção de lazer alternativa ao famoso “sair para comer fora”. Propor que se faça um rodízio deste evento na casa de todos os participantes.
refeicao companhia
Imagens retiradas do Guia Alimentar para a População Brasileira (2014)



Texto elaborado pela Equipe Ideias na Mesa


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