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postado por Equipe Ideias na Mesa em Quarta-feira, 29 de Julho de 2015

Nos meses de junho e julho, a equipe do Fórum de Professores universitários escolheu o tema “Comportamento alimentar”, atualmente destacado pelo Novo Guia Alimentar da População Brasileira, como determinante no processo de autonomia dos indivíduos para a escolha das refeições.

Para tal, uma das professoras participantes do Fórum e reconhecida em publicações e pesquisas sobre o tema, Dra. Natacha Toral escreveu a respeito deste assunto. Acompanhe a última parte do texto que trata das barreiras e dos estágios motivacionais no aconselhamento nutricional:

 

Após identificar a série de determinantes que interferem nas escolhas alimentares dos indivíduos na Parte 2, professores, estudantes de Nutrição e nutricionistas devem refletir quanto à necessidade de se identificar os benefícios e barreiras presentes para a adoção de um comportamento, na visão do paciente/cliente. Assim como no caso dos determinantes, é válido um exercício identificando os benefícios e barreiras vislumbrados para enfrentar a mudança de um comportamento da sua própria alimentação. Recomenda-se o uso de uma matriz, na qual, após identificar o que se quer mudar na alimentação, sejam preenchidas as vantagens e desvantagens de realizar ou não tal modificação. Essa matriz estimula a reflexão do paciente/cliente (e, no caso, do aluno/nutricionista em formação) sobre seu próprio comportamento alimentar, sendo que o professor/nutricionista pode colaborar no seu preenchimento.

 

matriz 

          Já na década de 90, Assis e Nahas apontaram para a necessidade de inclusão de modelos teóricos na atuação do nutricionista em EAN. Na época, pouco se falava sobre o assunto, mas alguns avanços importantes têm surgido nos últimos anos. Vários estudos têm descrito teorias de comportamento que podem ser aplicadas à Nutrição, de forma a explicar e prever como se dá o comportamento alimentar dos indivíduos. Várias já foram descritas, como a teoria do ciclo da vida, a teoria social cognitiva, entre outras, que tem sua interface com a Nutrição. 

Outro exemplo é o Modelo Transteórico, que permite, entre outros aspectos, identificar cinco fases, chamadas de estágios, em que os indivíduos manifestam diferentes graus de motivação para mudar um comportamento de saúde, que pode ser sua alimentação. São elas: pré-contemplação, quando não pretende modificar sua alimentação num futuro próximo; contemplação, quando reconhece suas práticas alimentares como inadequadas, mas ainda visualiza diversas barreiras para modificá-las; preparação, quando está decidido a alterar sua dieta nos próximos dias; ação, quando alterou determinadas práticas alimentares nos últimos meses; e manutenção, quando manteve sua mudança por mais de seis meses.

Apesar de esta teoria ter surgido com foco voltado para indivíduos, no caso, tabagistas, grande parte da literatura científica sobre o assunto que trata da teoria voltada para a alimentação aponta para resultados de pesquisas com grupos. Essa situação gera a dúvida: vale a pena falar de teorias como essa na formação dos Estudantes de Nutrição e Nutricionistas? Como fica a parte prática, como usar isso no dia a dia do nutricionista que atende em consultório? Para cada estágio, cabem ser adotadas estratégias diferentes numa intervenção nutricional. Em sala de aula, os alunos podem tentar identificar o que fazer em cada estágio, considerando as características dos pacientes classificados em cada fase. De forma geral, o quadro a seguir mostra o que fazer com a abordagem individual em cada estágio de mudança.

tabela estágios

           Muitas das dificuldades do professor em trazer esses temas para as aulas de EAN na graduação em Nutrição e dos próprios nutricionistas no campo profissional estão relacionadas com a dificuldade de trabalhar com conceitos de outra ciência, a Psicologia. Contudo, é inevitável passar por ela se o tempo todo estamos falando de comportamento, isto é, do comportamento alimentar dos indivíduos. O receio não exige que o nutricionista se torne um psicólogo, mas que este saiba aspectos importantes que devem ser trabalhados nos indivíduos para que novas atitudes sejam geradas e que comportamentos sejam mudados para adotar uma alimentação mais saudável por mais tempo. Cabe ainda ressaltar que o atendimento multiprofissional, em que o nutricionista, com o apoio de um psicólogo para discutir casos ou pelo menos indicar seus pacientes/clientes e saber sua evolução, é também um ponto muito positivo.


 

Professora Dra. Natacha Toral

Graduada em Nutrição pela Universidade de Brasília (2002), especialista em Adolescência para Equipe Multidisciplinar pela Universidade Federal de São Paulo (2003), Mestre e Doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (2006 e 2010). Atuou como consultora técnica da Coordenação Geral da Política de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde de 2006 a 2010. Atualmente, é professora adjunta do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de Nutrição, com ênfase em Nutrição em Saúde Pública, atuando principalmente nos seguintes temas: comportamento e consumo alimentar, adolescentes, Modelo Transteórico e perfil nutricional de populações.

Bibliografia completa das 3 partes:

Amparo-Santos L. Avanços e desdobramentos do marco de referência da educação alimentar e nutricional para políticas públicas no âmbito da universidade e para os aspectos culturais da alimentação. Rev. Nutr. 2013; 26(5):595-600.

Assis MAA, Nahas MV. Aspectos motivacionais em programas de mudança de comportamento alimentar. Rev. Nutr. 1999; 12(1): 33-41.

Brasil. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Marco de referência de educação alimentar e nutricional para as políticas públicas. Brasília, DF: MDS, 2012.

Esperança LMB, Galisa MS. Empowerment: Magia do Poder na Comunicação. In: Galisa MS. Educação Alimentar e Nutricional - Da Teoria à Prática. São Paulo, SP: Roca, 2014.

Monteiro RA. Influência de Aspectos Psicossociais e Situacionais sobre a Escolha Alimentar Infantil. 2009. [Tese de Doutorado]. Brasília, DF: Universidade de Brasília. Instituto de Psicologia; 2009.

Rodrigues EM, Soares FPTP, Boog MCF. Resgate do conceito de aconselhamento no contexto do atendimento nutricional. Rev. Nutr. 2005; 18(1):119-128.

Story M, Neumark-Sztainer D, French S. Individual and environmental influences on adolescent eating behaviors. J. Am. Diet. Assoc. 2002; 102 (3 Supplement), S40-S51.

 



postado por Equipe Ideias na Mesa em Terça-feira, 07 de Julho de 2015

Nos meses de junho e julho, a equipe do Fórum de Professores universitários escolheu o tema “Comportamento alimentar”, atualmente destacado pelo Novo Guia Alimentar da População Brasileira, como determinante no processo de autonomia dos indivíduos para a escolha das refeições.

Para tal, uma das professoras participantes do Fórum e reconhecida em publicações e pesquisas sobre o tema, Dra. Natacha Toral escreveu a respeito deste assunto. Acompanhe a 2ª parte de três que serão divulgadas ao longo deste período pelo Fórum, que trata das práticas e simulações de atendimento nutricional e os determinantes do comportamento alimentar:

 

Para exercitar as etapas da consulta citadas na Parte 1 do texto (descoberta inicial, exploração em profundidade e preparação para a ação) com os graduandos, é interessante criar roteiros para simulação de consultas de Nutrição em sala de aula e também atendimentos em ambulatórios e comunidades, por meio de projetos de extensão ou estágio. O roteiro deve apresentar um caso clínico de baixa complexidade, como uma orientação para um paciente fictício que tem alta ingestão de sódio e foi diagnosticado recentemente com hipertensão arterial, ou se envolver em campo prático com indivíduos portadores de hipertensão ou outras doenças crônicas. É possível executar a consulta considerada ideal, no qual o nutricionista segue todas as fases previstas e cria um ambiente favorável para o diálogo, e pode exercitar pontos que devem ser evitados na entrevista.

Além de abordar as etapas de uma consulta de Nutrição, o exercício dos acadêmicos pode ser útil para desenvolver habilidades entre os alunos com técnicas de comunicação. Nesse momento, deve-se orientar os graduandos quanto à necessidade de falar com voz audível, num tom adequado e suave, expressando-se claramente, sem o uso de termos técnicos desnecessários e evitando vícios de linguagem.

          Também é interessante apresentar um roteiro para outro aluno, que irá adotar o papel de observador da consulta ou simulação da consulta. Obviamente não é possível determinar como um paciente vai ou deve se portar numa consulta de Nutrição, mas a experiência é válida para que os alunos possam identificar aspectos da comunicação não-verbal. Este é um aspecto fundamental num atendimento individual, considerando que apontará a receptividade do cliente e sua motivação para seguir as orientações transmitidas, interferindo diretamente no sucesso da intervenção.

          Seguem exemplos de roteiros para o exercício das encenações em sala de aula, caso não seja possível o desenvolvimento de uma atividade prática real, ou quando se adota a encenação como parte de um treinamento para a prática:

Papel do nutricionista com atitudes e ambiente inadequados: o aluno deve simular que é um nutricionista e receberá o paciente em seu consultório. Ao receber o paciente, não o olha nos olhos, não o saúda ao chegar e sequer se levanta da cadeira para cumprimentá-lo. Confunde o nome do paciente e mesmo após ser corrigido pelo paciente, continua chamando-o repetidamente pelo nome errado. Enquanto o paciente fala, verifica o relógio e o celular várias vezes. O ambiente também está disposto de modo a que haja uma distância considerável entre o paciente e o nutricionista, com uma mesa grande contendo vários objetos e papéis entre eles.

Papel do paciente que não demonstra interesse na consulta: o aluno deve se portar como o paciente que vai a uma consulta de Nutrição. Responde de forma monossilábica, fala baixo e rápido, não presta atenção no que o nutricionista diz por estar distraído com o celular, consulta o relógio diversas vezes durante a consulta e pergunta se vai demorar muito para terminar, senta-se com os braços cruzados e refere que não conseguirá seguir as orientações do nutricionista.

Podem ser utilizados vídeos gravados previamente sobre tais encenações ou mesmo vídeos desenvolvidos com ferramentas eletrônicas, como o GoAnimate. Para as encenações, sejam estas realizadas em sala de aula ou apresentadas nos vídeos, deve-se adotar um roteiro para análise dos mesmos pelos alunos. Esta análise deve apresentar pontos a serem observados pelos alunos, quanto à postura, receptividade, ambiente e diálogo estabelecidos entre nutricionista e paciente.

Durante esta dinâmica de atendimento, todo comportamento envolve diferentes determinantes, e com a alimentação não é diferente. O aluno de Nutrição deve ser estimulado a identificar os diferentes determinantes presentes em sua própria alimentação como exercício para uma prática que deve ocorrer em qualquer atendimento individual. A pergunta é: por que este indivíduo come assim ou come isto ou come desta forma? A resposta abrangerá uma gama de fatores, sejam estes econômicos, físicos, sociais, culturais, etc. Inúmeras influências podem ser listadas e a literatura as classifica de diferentes maneiras. Story et al. (2002), por exemplo, sugerem a seguinte classificação:

Determinantes intrapessoais: são aqueles relativos ao indivíduo, abrangendo aspectos biológicos, psicossociais e de comportamentos ou estilos de vida, como valores pessoais, crenças, atitudes a respeito dos alimentos, conhecimento e preferências.

Determinantes interpessoais: refere-se ao ambiente social, abrange os processos de relacionamentos com amigos, família e outros atores de relevância para a vida do indivíduo.

Determinantes situacionais: refere-se ao ambiente físico, abrangendo a acessibilidade e a disponibilidade de locais de compra e de escolha de alimentos.

Determinantes societais: inclui aspectos ligados indiretamente ao comportamento alimentar, como a mídia, a propaganda, os sistemas de produção e distribuição de alimentos e políticas públicas de saúde e regulamentação.

          Assim, acredita-se que quanto mais os estudantes, por meio de práticas e simulações de atendimentos, conseguirem se aprofundar nos determinantes da alimentação que estão presentes na vida de um determinado paciente/cliente, maiores as chances de sucesso no atendimento e no processo de mudança de comportamento.

Na última parte do texto, serão explorados os estágios motivacionais para a mudança de comportamento de um indivíduo ou grupo de pessoas numa comunidade. Até breve!

 


Professora Dra. Natacha Toral

Graduada em Nutrição pela Universidade de Brasília (2002), especialista em Adolescência para Equipe Multidisciplinar pela Universidade Federal de São Paulo (2003), Mestre e Doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (2006 e 2010). Atuou como consultora técnica da Coordenação Geral da Política de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde de 2006 a 2010. Atualmente, é professora adjunta do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de Nutrição, com ênfase em Nutrição em Saúde Pública, atuando principalmente nos seguintes temas: comportamento e consumo alimentar, adolescentes, Modelo Transteórico e perfil nutricional de populações.

Bibliografia desta parte:

Story M, Neumark-Sztainer D, French S. Individual and environmental influences on adolescent eating behaviors. J. Am. Diet. Assoc. 2002; 102 (3 Supplement), S40-S51.

 



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