Ideias na Mesa - Blog


postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016

As falas de abertura deram o tom da Nobel Week Dialogue - Semana de Dialogo Nobel, 2016 - que aconteceu no dia 8 de dezembro em Estocolmo, Suécia. Ela teve como principal tema o "futuro alimentar" com vistas a responder a pergunta "É possível prover a todas as pessoas alimentos produzidos de maneira sustentável?".

Com um pouco mais de 7 horas de duração resultante de dois dias de exposições, os diálogos foram gravados e apesar de não terem legendas em português, podem ser assistidos diretamente da página do evento. Essa é uma oportunidade de assistir discussões intrigantes, estimulantes e riquíssimas sobre o futuro dos alimentos. O evento reuniu ganhadores de Prêmios Nobel, cientistas e especialistas, líderes mundiais, principais líderes de opinião, formuladores de políticas e público em geral. Cabe destacar a participação de Marion Nestle, autora do blog “Food Politics” e de Eduardo Nilson, da Coordenação Geral de Alimentação e Nutrição, do Ministério da Saúde.

Tara Garnett, fundadora da "Rede de Pesquisa de Alimentação e Clima" da Universidade de Oxford fez a primeira das três exposições de abertura que contou também com as falas de Johan Rockstrom - Centro de Resiliência de Estocolmo - e o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2015 Angus Deaton. Os três palestrantes apresentaram diferentes perspectivas sobre como o sistema e as escolhas alimentares podem tanto influenciar o abastecimento da população e distribuição de renda, quanto levar à impactos negativos ou à proteção de ecossistemas ambientais.

Garnett trouxe o exemplo de seus mais de 25 anos de experiência trabalhando em ONGs e setores acadêmicos e foca suas pesquisas nas interações entre alimentos, clima, saúde e problemas ambientais mais amplos. Ela se dedica a investigar os impactos gerados pela pecuária e como o conhecimento é comunicado e interpretado por gestores, sociedade civil, indústrias e suas diferentes formas de pensar sobre os problemas e soluções alimentares. Já o PhD e principal pesquisador do Centro de Resiliência de Estocolmo, Johan, apresentou o acumulado de seus estudos que resultaram mais recentemente nas "Nove Fronteiras Planetárias". Seu trabalho tem sido utilizado em diferentes painéis e grupos de trabalho da ONU como subsídio para solucionar problemas como os relacionados ao aquecimento global e seus agravos sociais, econômicos e ambientais, por exemplo, a insegurança alimentar. Fechando este bloco, o Prêmio Nobel e PhD, Angus Deaton, falou sobre a pesquisa que lhe rendeu a premiação em 2015, "Análise do consumo, pobreza e riqueza". Ele aborda, entre outros aspectos, a insegurança alimentar como resultante não apenas da falta de acesso aos alimentos, mas destaca também a importância da renda para evitar esse fenômeno. 

Ao longo dos dois dias de exposições, no entanto, foi possível observar em alguns diálogos um debate de opiniões que se traduz também na aplicação e elaboração de ações e estratégias para solucionar problemas globais como a segurança alimentar e nutricional e a produção sustentável de alimentos. Nesse sentido, outros dois Prêmios Nobel, Muhammad Yunus e Richard J. Roberts apresentaram visões, ainda que sobre temas pontuais, destoante da maioria dos que participaram do evento.  

O indiano Yunus citou a parceria de um de seus projetos com a Danone, a qual segundo ele se caracteriza como um exemplo de "social business". O projeto consiste na fortificação de um iogurte específico da marca Danone com micronutrientes e proteína, para que eles sejam comercializados a preços baixos para crianças pobres de Bangladesh com o intuito de combater a fome e desnutrição. Já o químico Richard Roberts, defendeu a utilização de organismos geneticamente modificados (transgênicos) para que a produção de alimentos consiga "atender a demanda de crescimento populacional dos próximos anos".

Essas duas visões vão à contramão dos outros expositores no sentido de reduzir à micronutrientes e à engenharia genética alimentícia os determinantes da fome, desigualdade e distribuição, insegurança alimentar  e produção ecológica. Ademias, nas duas situações os caminhos propostos continuam a terceirizar as soluções mantendo a tomada de decisões e a mercantilização dos insumos nas mãos de multinacionias e indústrias enquanto os interesses da sociedade civil, assim como seu protagonismo na elaboração e tomada de decisões, continuam secundarizados.   

Nesse sentido, Marion Nestle recebe o desafio de responder à seguinte questão: “Quem decide o que comemos?”.

A partir da perspectiva de quem trabalha e pesquisa sistemas alimentares, o foco de sua resposta estava no “advocacy”por uma alimentação adequada e saudável. Para contextualizar, Marion problematiza como fazemos nossas escolhas alimentares e como ambiente em que vivemos influencia nossas escolhas. Ela lembra que a desnutrição afeta 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo, a obesidade afeta 2 bilhões e os danos ambientais afetam o mundo inteiro. Muitos dos danos ambientais foram causados pelo sistema alimentar que construímos ao longo dos anos, quando adotamos dietas baseadas em alimentos ultraprocessados, produzidos pela indústria de alimentos. Hoje vivemos com problemas de saúde e problemas ambientais, relacionados a essas escolhas, mas as orientações para resolução de alguns dos nossos problemas vão contra os interesses da indústria alimentícia. Isso nos mostra algumas ironias encontradas no nosso sistema alimentar e representa uma grande dificuldade que é pensar na contradição que existe quando o Governo diz que metade do seu prato deve ser composto por frutas e vegetais, mas incentiva a produção de soja e milho, produtos que não estão presentes na nossa alimentação.

A professora questiona ainda, a produção norte americana, que produz quase duas vezes mais alimentos do que a população de fato precisa. Para dar evasão a essa produção a indústria criou algumas estratégias, uma delas é aumentar os tamanhos das porções oferecidas. Marion Nestle diz que como educadora alimentar e nutricional, se pudesse ensinar uma coisa ao mundo, seria: “porções maiores têm mais calorias”. Segundo ela, essa informação que parece óbvia, não é.

Além dos produtos de má qualidade nutricional, em porções absurdamente grandes, investe muito dinheiro em estratégias de Marketing, que contribuem para aumentar a venda de seus produtos. Especificamente, a indústria de bebidas doces é muito transparente quanto aos bilhões de dólares investidos no Marketing de seus produtos. A Coca-Cola, por exemplo, tem o plano de investir 17 bilhões de dólares em Marketing dos seus produtos, na África, entre 2010 e 2020.

Então, quando unimos esses fatores que têm construído o nosso ambiente alimentar, é muito difícil fazermos boas escolhas. É aí que entra o “advocacy”, que segundo a Forbes, é a nova ameaça à industria alimentícia. A noticia diz que pessoas relevantes na alimentação saudável direcionam as estratégias de Marketing e o desenvolvimento dos produtos da industria. Marion não concorda com a notícia, diz que as coisas ainda não são bem assim, mas de fato temos percebido algumas mudanças, como o movimento pela taxação das bebidas açucaradas, em alguns lugares do mundo. Marion finaliza sua fala relembrando que comer é um ato político, por isso é tão importante termos um sistema alimentar que nos  permita fazer escolhas alimentares saudáveis.

Depois dessa fala, seguindo com os painéis que discutiam “Porque comemos o que comemos?”, Eduardo Nilson, do Ministério da Saúde, falou um pouco sobre como o Brasil tem caminhado para tentar mudar o sistema alimentar e criar ambientes que favoreçam escolhas alimentares saudáveis. Para isso, nada mais atual e inovador que o Guia Alimentar para a População Brasileira, que não resume a alimentação à ingestão de nutrientes, mas abrange a perspectiva das refeições e da importância da comida de verdade. Isso é muito inovador porque ajuda as pessoas a verem o sistema alimentar, já que mostra para as pessoas o nível de processamento dos alimentos e estabelece um novo padrão de dieta, baseado em alimentos naturais, além de incentivar que as pessoas saibam o que elas estão escolhendo comer ou não.

Os diálogos estão incríveis e vale apena dedicar um tempo para acompanhar essas discussões e refletir sobre as suas escolhas e o ambiente em que vive:



postado por Marina Morais Santos em Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2016

Com o Ideias na Prática, a equipe do Ideias na Mesa também realiza experiências de Educação Alimentar e Nutricional! Em parceria com a webtv Na Calçada, o Ideias realizou na Universidade de Brasília (UnB) em setembro uma intervenção chamada "Tenda da Felicidade".

O objetivo da ação foi sensibilizar as pessoas sobre alimentação saudável e sobre a influência da publicidade nas escolhas alimentares. A medida que a tenda foi sendo montada alguns passantes observavam com curiosidade, e ao longo de três horas, a ideia foi surpreendê-los com a pergunta: "Você conhece a receita da felicidade?", convidando-os a viver uma experiência cheia de conteúdo, ironia e bom humor.

A ação se propôs a mostrar o que realmente está sendo vendido por trás dessas imagens emocionais que cativam os consumidores, ou seja, a bebida em si e as complicações que seu consumo em excesso pode causar. Baseada em uma ação já realizada e divulgada pelo Center for Science in the Public Interest (CSPI) (veja aqui), ela consistiu em uma simulação, de forma interativa, do conteúdo de uma lata de refrigerante (para tal utilizou-se água com gás, corante e açúcar) seguido da explanação de informações sobre o produto e o marketing associado. Após cada apresentação, foram entregues panfletos informativos sobre açúcar e sua associação à obesidade e doenças crônicas não transmissíveis, marketing publicitário e a importância da taxação de bebidas açucaradas e experiências nesse sentido em outros países. Confira o vídeo da Tenda da Felicidade!

 

Como resultados, cabe citar as reações dos participantes durante a ação, que em sua maioria foram positivas e de surpresa: além de conseguir chamar a atenção de várias pessoas que passavam no local, houve grande interesse pelas informações passadas, e também um feedback positivo pela iniciativa. Muitas pessoas pararam para pensar sobre a questão e algumas classificaram como impactantes as informações passadas durante a Tenda. Quer saber mais sobre essa eperiência? Confira o passo a passo, fotos e resultados aqui.

Em 2016 buscamos valorizar ainda mais as experiências de Educação Alimentar e Nutricional cadastradas na rede. Você pode ter a oportunidade de ter sua experiência divulgada aqui no Blog. Cadastre suas experiências de EAN e compartilhe com outros usuários suas vivências, ideias e desafios. Vamos fortalecer e qualificar nossas ações pelo Brasil!



postado por Rafael Rioja Arantes em Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2016

O documentário americano "Food Choices" (Escolhas Alimentares) é a mais recente produção relacionada ao sistema e escolhas alimentares. Lançado em setembro de 2016 e dirigido e escrito pelo Produtor e Cineasta vencedor de prêmios Emmy Awards Michal Siewierski, o filme com duração de 91 minutos busca problematizar os impactos de nossas escolhas alimentares não apenas no nosso corpo e saúde, mas também no  planeta terra.

Michal Siewierski documentou durante três anos a sua "jornada em busca da verdade" sobre as nossas escolhas alimentares. Este documentário quebra paradigmas ao explorar o impacto das nossas atitudes em relação ao consumo e como isso influencia na nossa saúde, na saúde do planeta e na vida de outras espécies animais. A desinformação relacionada à determinados aspectos alimentares e das dietas também é abordado, oferecendo uma nova perspectiva para refletir sobre os temas. Mais de 25 especialista de diferentes campos foram entrevistados incluindo nutricionistas, doutores, pesquisadores ambientais, bioquímicos, atletas e chefes.        

Dentre as principais reflexões levantadas estão fenômenos que a maior parte das pessoas nunca pensou que poderia ter alguma relação com alimentação. A emissão de gases do efeitos estufa que influenciam no aquecimento global por exemplo não é gerada apenas pela combustão de combustíveis fósseis, mas de igual ou proporções ainda maiores pela atividade pecuária. O desmatamento de florestas, perda da biodiversidade e a contaminação de ambientes aquáticos e reservas hídricas é uma outra consequência que determinadas escolhas alimentares retroalimentam.

O documentário pode ser assistido no Netflix e nas plataformas indicadas na página oficial. Confira o trailer com legendas: 



postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2016

O ano de 2016 foi recheado de polêmicas, brigas, amizades desfeitas no facebook, manifestações ... Enfim, muitas coisas. Mas o Ideias na Mesa vai lembrar de 2016 com carinho, pois apesar das dificuldades, nossos 4 anos de existências foram repletos de boas realizações!

O post de hoje é um pouco nostálgico, mas tenho certeza que você também vai adorar relembrar os melhores momentos da Rede conosco!

Em 2016 nos despedimos e recebemos pessoas muito queridas! Entre chegadas e partidas, tivemos estagiários nas áreas de antropologia e de comunicação social. Além dos nossos parceiros Marujos, contamos com a entrada de um novo designer para compor a equipe, que já contava com jornalista, administradoras, nutricionistas e professoras de nutrição.

                         

Começamos o ano com o concurso da Beleza Interior dos Alimentos, lembra?!

Quem deveria ter ganhado em sua opinião?

 

Tivemos ainda três publicações incríveis do Ideias!

A primeira delas, no primeiro semestre, foi a nossa Revista de Regulação de Alimentos, tema fundamental para a realização do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) e promoção da alimentação adequada e saudável. Tema complexo, que requer engajamento e compromissos por parte da sociedade civil e Estado, a regulação no campo da alimentação é realizada em áreas como a da rotulagem de alimentos, a da publicidade, principalmente para o público infantil e medidas diversas para o controle sobre o uso de substâncias como açúcar e sal nos alimentos, que têm contribuído fortemente para a escalada mundial de obesidade e de doenças crônicas não transmissíveis.

 

A segunda Revista, lançada em outubro de 2016, tratou, com muito carinho das experiência em Educação Alimentar e Nutricional realizadas ao redor do Brasil. Para dar ênfase a essa parte tão importante da Rede, selecionamos experiências realizadas com faixas etárias e em ambientes distintos, realizadas nos 4 cantos do país, com estratégias e metodologias diferenciadas.

 

Ainda em outubro, lançamos o livro de receitas mais queridinho do ano! O pré lançamento no Congresso Brasileiro de Nutrição e o lançamento em Brasília mostraram uma reunião de receitas incríveis que contribuem parta que as pessoas comam Comida de Verdade e conheçam formas mais sustentáveis de se relacionar com os produtores e com o meio ambiente!

 

Nesse ano o Ideias também saiu da mesa e foi para prática! Sensibilizados com a discussão sobre o que pode ser feito para reduzir o consumo de bebidas adoçadas, montamos uma tenda no meio da Universidade de Brasília, para mostrar que uma lata de refrigerante não é felicidade, mas sim água, açúcar e bilhões de dólares gastos com publicidade.

E por fim, lançamos dois cursos que foram criados com muito cuidado e carinho, com o objetivo de qualificar ainda mais as ações de EAN que acontecem no Brasil. O curso, Metodologias participativas para ações de EAN tem o objetivo de estimular o uso dessas metodologias em ações de Educação Alimentar e Nutricional; já o curso Jogos na Mesa oferece um guia básico para a criação de jogos para apoiar ações de promoção da alimentação adequada e saudável.

 

Bom, e claro deixando o nosso 2016 ainda mais especial teve você! Que participou com a gente o ano inteiro e trocou muitas ideias, experiências, receitas e informações conosco. Esperamos que em 2017 tenhamos muitos novos melhores momentos juntos!

Caso não tenha participado ainda, não deixe de responder nossa pesquisa de opinião.



postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2016

“Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”.

Manoel de Barros.

O [Biblioteca do Ideias] de hoje apresenta o Caderno Metodológico para formação de multiplicadores em Segurança Alimentar e Nutricional e Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável. O material foi produzido a partir de uma parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário, que selecionou 9 universidades brasileiras para apoiar e assessorar estados, em um arranjo regional, para a implementação do Sistema de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN), no ano de 2014. O Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília, OPSAN/UnB,foi selecionado para este acompanhamento na região Centro-Oeste. Os diferentes cenários políticos da região tecem uma teia de 7 contradições para a construção da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) e do Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável (DHAAS) nos territórios: os desafios relacionados ao avanço do agronegócio, o uso abusivo de agrotóxicos, a violação de direitos e acesso a terra das populações indígenas e a regulação de publicidade de alimentos, são alguns exemplos. 

O Caderno de Metodologia trabalha em “parceria direta” com o conteúdo de “O Direito Humano à Alimentação Adequada e o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional”, publicação de 2013 feita pela Ação Brasileira pela Nutrição e Direitos Humanos (ABRANDH).

Esse material apoiou um curso e agora, a RAIS/CO transformou o conteúdo teórico, em um material que dá suporte a um curso presencial participativo. Portanto, as aulas descritas se aproveitam do conteúdo desta publicação, que dá as bases conceituais para o desenvolvimento das atividades e diálogos propostos.

A apostila não está totalmente atualizada para ser um parâmetro de conteúdo para o curso proposto nessa apostila, pois o processo de implementação da política de Segurança Alimentar e Nutricional é contínuo, progressivo e permanente. A expectativa de criação e aplicação desse caderno é criar caminhos e condições críticas de aprendizado para que participantes e facilitadores atualizem as informações necessárias. Assim, o conteúdo do livro-texto serve mais para consulta e estudo do facilitador e/ou facilitadora, do que para os(as) participantes do curso. Estes poderão ter acesso, se desejarem, ao arquivo em PDF, mas não é obrigatório que o estudem. 

O desafio de um curso de formação de multiplicadores nessa temática passa pela lacuna existente sobre o que é e para que precisamos da Segurança Alimentar e Nutricional e do Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável –SAN/DHAAS. Esses conceitos possuem grande capacidade de transformação quando reconhecidos pelos sujeitos envolvidos na construção e execução da Política de SAN. Importante lembrar que a Política articula processos intersetoriais, intra e interdependentes e, muitas vezes, já existentes. 

Entende-se que não há SAN/DHAAS sem a disseminação de uma cultura afirmativa de direitos. Diferente do Sistema Único de Saúde, construído a partir de ações e tensões em relação às necessidades de saúde da população brasileira nos territórios, a SAN e o DHAAS vem sendo trabalhados a partir do nível central que optou por estruturar um Sistema: Sistema Nacional de SAN com vistas a assegurar o DHAAS.

Mas onde está a insegurança alimentar e nutricional “de fato e de direito”?

Onde podemos ver suas demandas e necessidades?

Por que caminho podemos acolher as denúncias de violações do direito humano à alimentação adequada e saudável?

Qual a rede de equipamentos públicos e serviços que constituem o SISAN?

Como revelar à sociedade que a alimentação, assim como a saúde e a educação no Brasil, são direitos sociais e como tal, devem ser monitorados pela sociedade para sua garantia?

Estas e outras tantas perguntas, são provocações deste curso para que os sujeitos e atores sociais do cenário nacional possam buscar caminhos e se juntar a esta luta. O curso propõe 15 encontros presenciais e suas atividades foram desenvolvidas pensando no mínimo custo para aplicação.

Conheça essa apostila aqui.

 



postado por Maína Pereira em Terça-feira, 13 de Dezembro de 2016

aprender a cozinhar

Se a cozinha fosse uma língua, qual seria o seu nível de fluência ou o seu sotaque? O desenvolvimento de habilidades culinárias tem sido recomendado como estratégia de superação dos obstáculos para se obter uma alimentação mais adequada e saudável. Além disso, o ato de cozinhar pode ser um momento prazeroso e de muitas descobertas que marcam histórias e gerações.

Para refletir um pouco sobre a linguagem da cozinha, delicie-se com esta crônica de Nina Horta:

“Só conseguindo reunir as peças da comida em alguma coisa bem aceitável quando se aprende as técnicas básicas, quando se lê muito (melhor dizendo, quando se vive muito), quando se tem o olho vivo e a língua curiosa, quando o erro é o melhor condutor, quando se quebra a cabeça misturando os ingredientes com muita obediência e outras vezes com liberdade total.

Quem se lembra do primeiro semestre da faculdade, quando o sociologês, o filosofês, o antropologês eram um obstáculo desolador, quase impossível de ser resolvido? E, dois anos depois, Deus nos perdoe de jargões tão feios, falávamos felizes em epistemologia, doxa, duração, hubris, como se fosse a lista do supermercado? Ou uma língua como o alemão, que se apresenta como muralha e vai ver é a mais fácil de todas?

A linguagem oculta da cozinha também pode ser um obstáculo. É preciso estuda-la como estudamos qualquer outra matéria. Claro que alguns terão mais facilidade do que outros, alguns vão parecer que nasceram sabendo, alguns vão desistir e mudar de rumo, tudo igualzinho às outras disciplinas do vestibular. É preciso estudo, experiência, memória, imaginação, abertura, prazer, ritmo, astúcia e visão da comida como uma língua a se aprender e que devemos interpretar segundo nossas possibilidades e vivências.

E não é maravilhoso que não exista um cozinhês? Grande vantagem. Um bom feijão grosso todo mundo entende. Quase todo mundo.” (Linguagem da Cozinha, Nina Horta)

E que tal estudar essa matéria tão saborosa? Já parou para pensar em como a cozinha torna-se um ambiente de aprendizagem repleto de ferramentas e materiais para experimentar? Estar na cozinha e se aventurar é uma forma de se conectar com a comida e toda sua simbologia, envolve afeto, emoções, histórias, pessoas em uma variedade de ingredientes culinários. É uma prática que quanto mais exercida gera mais autonomia. E não existe um cozinhês, você vai descobrindo e se expressando da sua maneira, no seu ritmo, do seu jeito. Por isso, vale a pena se arriscar e descobrir sua própria linguagem da cozinha!



postado por Marina Morais Santos em Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2016

"Dentre os fatores de risco para as Doenças Crônicas Não-Transmissíveis (DCNT), o consumo inadequado de lipídios, caracterizado principalmente pela ingestão excessiva de ácidos graxos saturados e trans, possui destaque no âmbito da saúde pública, devido à sua alta prevalência." Foi a partir disso que surgiu a ideia da ação "Sua Veia: Sua Melhor Saída" realizada pelos alunos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A ação, realizada com com os idosos de uma UBS do Distrito Sanitário de Venda Nova em Belo Horizonte (MG), teve como objetivo sensibilizar os participantes sobre a importância do consumo adequado de lipídios. Para isso, os alunos utilizaram instrumentos imagéticos e interativos com figuras e símbolos para apresentar os tipos de lipídios, a atuação deles no corpo humano e as consequências do consumo inadequado de gorduras para a saúde cardiovascular, orientando também sobre modos saudáveis de vida. 

A experiência contou com muita criatividade dos colaboradores e incluiu um instalação que representava uma veia, por onde os participantes podiam caminhar. O interior da veia tinha diferentes elementos que representavam as consequências do consumo inadequado de gorduras e também os efeitos dos hábitos saudáveis na saúde cardiovascular. Em outro momento, os organizadores utilizaram mangueiras para representar um esquema da evolução da placa arteriosclerótica e explicar para os participantes a relação entre o consumo de gorduras saturadas ou instaturadas com o processo saúde-doença.

O resultado da experiência foi muito positivo! Segundo Maíra Caroline Ferreira Braga, uma das organizadoras da ação, os usuários da UBS tiveram grande interesse pela atividade. "Foi identificado que os conteúdos apresentados foram problematizados e apreendidos pelo público. A utilização de estratégias que empreguem métodos demonstrativos e lúdicos e linguagem simples pode possibilitar uma melhor compreensão dos usuários do SUS, favorecendo e estimulando a adoção de hábitos alimentares saudáveis." contou Maíra.

Você quer saber mais sobre essa experiência? Então acesse-a aqui e dê uma olhada mais de perto no passo a passo e nos resultados dessa ação tão bacana!  

 

Em 2016 buscamos valorizar ainda mais as experiências de Educação Alimentar e Nutricional cadastradas na rede. Assim como a Maíra Caroline Ferreira Braga, você pode ter a oportunidade de ter sua experiência divulgada aqui no Blog. Cadastre suas experiências de EAN e compartilhe com outros usuários suas vivências, ideias e desafios. Vamos fortalecer e qualificar nossas ações pelo Brasil!



postado por Maína Pereira em Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

Um filme que gera uma boa conversa e reflexões a respeito da relação das pessoas com a comida e com o corpo. Maus Hábitos é um filme, do ano de 2007, de produção mexicana que aborda a temática dos transtornos alimentares entre mulheres de diferentes idades e contextos e que permanece atual e relevante para a sociedade.

“Elena é uma mulher magra, perfeccionista e frustrada por não conseguir convencer a filha rechonchuda a fazer dieta. "Ninguém gosta de gordos", diz à menina, sem saber que o marido está interessado mesmo é na aluna que esbanja curvas e come sem culpa. Outra personagem, Matilde, é uma freira que se recusa a comer por acreditar que o sacrifício é capaz de salvar a cidade de uma enchente.”*

Em tempos que o comer se associa na busca pelo corpo perfeito e que o nutricionismo se fortalece com o boom de dietas restritivas da moda, o prazer e afeto como símbolos imprescindíveis na multidimensionalidade de uma alimentação adequada e saudável são colocados de lado.

A anorexia é a principal problemática das narrativas apresentadas no filme que se expressa pelo estabelecimento de padrões de beleza e na culpabilização por não fazer parte deste padrão, além da evidente associação do ato de comer como um ato punitivo ou profano.

Como o próprio trailer diz: “Deixamos de comer porque estamos muito cheios ou muito vazios.” 

E quando estar cheio ou estar vazio se torna um mau hábito?

 

 

 

*Trecho de matéria de Tatiana Pronin da Editora UOL (2008)



postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

O post do [Biblioteca do Ideias] de hoje apresenta uma publicação com enfoque holítico com o seguinte tema "“O Direito Humano à Alimentação Adequada e à Nutrição do povo Guarani e Kaiowá – um enfoque holístico”. 

Lançado em agosto de 2016, o documento traz a análise das violações de direitos e suas diferentes causas, que são responsáveis pela situação de insegurança alimentar e nutricional dos Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Iniciada em 2013, a pesquisa socioeconômica e nutricional, com abordagem em direitos humanos, foi realizada em 96 domicílios de três comunidades indígenas: Kurusu Ambá, Ypo’i e Guaiviry.

A pesquisa e sua releitura foram bastante extensas, mas no Resumo Executivo, encontrase uma forma mais amigável de apresentar os principais resultados do trabalho.

Uma das constatações da pesquisa é que em 76% dos domicílios a pessoa entrevistada afirmou que, no mês anterior a setembro de 2013, houve ocasião em que crianças e jovens da casa passaram um dia todo sem comer e foram dormir com fome, porque não havia comida na casa. Já em 82% dos domicílios havia a afirmação de que esse grupo comeu menos quantidade de comida do que julgava ser necessário, porque não dispunham de recursos para obter alimentos.

Ainda, outro dado aponta que as famílias procuram proteger suas crianças desta terrível situação: em cerca de 80% das residências a pessoa entrevistada afirma ter comido menos para deixar comida para as crianças.

As causas das violações identificadas na pesquisa estão assentadas, além da negação do direito ao território e as disputas que daí decorrem, na discriminação que o povo Guarani e Kaiowá sofre. “Geralmente, as violações de direitos dos povos indígenas acontecem em razão de sua identidade cultural. Esta violação abre portas para negação de outros direitos, incluindo o direito à alimentação e à nutrição adequadas. Estas violações são históricas, estão associadas ao processo de exploração econômica do Estado e são de responsabilidade das três funções do Estado brasileiro, como procuramos evidenciar no documento”, ressalta a secretária geral da FIAN Brasil, Valéria Burity.

Para ter acesso a publicação completa acesse aqui.



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016

O livro Geografia da Fome escrito pelo Médico Sanitarista e premiado estudioso Josué de Castro em 1946 continua a trazer contribuições de extrema relevância para as discussões de Segurança Alimentar e Nutricional na atualidade.

Nesse sentido, o Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares (OBHA) que foi inaugurado recentemente, realizou atividade intitulada "70 anos da obra Geografia da Fome - Josué de Castro" que compartilhamos no [Pensando EAN] de hoje. O Observatório surgiu no sentido de revelar o cenário da alimentação atual e melhor compreender os contextos que envolvem os hábitos alimentares. Ele busca também integrar uma produção acadêmica e ações em sintonia com os anseios da sociedade de forma a cooperar no fortalecimento de políticas públicas e na agenda de Soberania e Segurança alimentar e Nutricional.

Em uma das colunas do blog - "Pitada de Opinião" - a Geógrafa Beatriz Carvalho estabelece um paralelo entre a obra de Josué e o desenvolvimento de práticas sustentáveis. Beatriz sintetiza o pioneirismo de Geografia da Fome que analisou de maneira profunda o fenômeno da fome no território brasileiro, e levou em consideração as especificidades regionais de um país com proporções continentais. Já naquela época, Josué de Castro propunha um debate mais amplo sobre a desnutrição da população, e elevou o debate sobre o grave problema a uma discussão não reducionista sob a perspectiva de falta de nutrientes, mas um problema decorrente da falta de acesso e má distribuição de alimentos.

O diagnóstico e as discussões propostas ainda em 1946 possibilitaram avanços, ainda que os resultados tenham demorado a aparecer. O Brasil recentemente saiu pela primeira vez do Mapa da Fome, de acordo com a ONU, ao adotar políticas e programas que interferiram diretamente nos determinantes da fome. Não por acaso, as conquistas comprovaram o que há mais de meio século já era problematizado.

No contexto atual, temas como a transição agroecológica, agricultura familiar e periurbana e a aproximação entre os produtores e consumidores se mostram como caminhos para continuar os avanços problematizados por Josué de Castro. Pensada sob uma perspectiva mais ampla, a garantia da Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional pressupõe relações socioeconômicas mais justas e ecológicas do ponto de vista ambiental.                   

Assista também ao vídeo do professor Malaquias Batista de Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco que comenta sobre o tema:


 

 



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