Ideias na Mesa - Blog


postado por Marina Morais Santos em Quarta-feira, 19 de Abril de 2017

Você já deve ter notado que o principal assunto deste mês de Abril aqui do Ideias na Mesa é o de Conflito de Interesses, certo? E apesar da existência destes conflitos no campo da alimentação e nutrição não ser recente, ela tem se intesificado e sido bastante documentada na última década. Desde os anos 1970, foram publicados mais de oito mil artigos sobre conflitos de interesse em bases de dados bibliográficas de ciências da saúde (MEDLINE e LILACS).No entanto, há poucas dezenas de publicações sobre a temática relacionadas à alimentação e/ou nutrição, e elas se restringem apenas às últimas duas décadas, das quais.

O aumento recente na documentação sobre conflitos de interesse em alimentação e nutrição é proporcionalmente maior do que o observado para o total de publicações nas mesmas bases de dados. Isso indica uma possível intensificação de conflitos, ampliação do reconhecimento de conflitos como tais e da inconformação frente a eles e/ou uma maior motivação para visibilizá-los. O artigo de destaque do [Biblioteca do Ideias] dessa semana aborda justamente este assunto.

O artigo, de autoria de Fabio da Silva Gomes, foi publicado no Caderno de Saúde Pública em outubro de 2015 e identifica e discute diversos conflitos de interesse nos setores da alimentação e nutrição. Vale a pena a leitura deste material, que já está diponível na nossa Biblioteca



postado por Rafael Rioja Arantes em Segunda-feira, 17 de Abril de 2017

 

A experiência de hoje foi aplicada por estudantes da disciplina de "Ações de Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva" da Universidade Federal de Lavras e teve como objetivo conscientizar moradores de Lavras sobre o conteúdo dos alimentos ultraprocessados e a Diabetes.

Os alunos destacaram o alto consumo de alimentos industrializados pela população brasileira e as doenças crônicas não transmissíveis, em especial a diabetes, como os principais motivadores e referenciais para realizar a ação. A atividade aconteceu nos supermercados da cidade de Lavras, já que este é o principal ambiente de comercialização de produtos processados. Um cartaz contendo as quantidade de açúcar presente em produtos alimentícios foi exibido para os frequentadores do mercado, e na ocasião, também foi distribuído um panfleto explicando sobre o diabetes.     

Durante a ação, as alunas aproveitaram para conversar sobre os benefícios de uma alimentação saudável com as pessoas que paravam para observar o cartaz. Ele continha embalagens de alguns produtos industrializados, como achocolatado, refrigerante cola, biscoito recheado,  e um saquinho mostrando a quantidade de açúcar em cada produto. Além disso, todos os que passavam pela atividade  receberam folders com conteúdos sobre Diabetes, os tipos de açúcar descrito nas embalagens de alimentos, e dicas para a leitura de rótulos.

A equipe que aplicou a experiência observou alguns pontos em relação ao processo:

"Foi uma ótima experiência pois as pessoas que passavam por ali mesmo com muita pressa tinham interesse em saber mais sobre rotulagem de alimentos, como prevenir o Diabetes e outras doenças, e várias outras dúvidas relacionadas a alimentação. Foi muito interessante perceber que as crianças tinham muito interesse em saber mais sobre o assunto, porque geralmente são alimentos que elas consomem, e muitas falaram que ia tentar mudar seus hábitos e falar para os pais."

"Outro ponto relevante foi o susto que as pessoas tinham ao ver a alta quantidade de açúcar que elas consomem com frequência. Portanto essa ação foi muito importante para mostrar pra população que a industria de alimentos é muito enganadora dizendo que seus alimentos são cheios de vitaminas quando na verdade fazem mais mal à saúde do que bem."

  

 

Confira a experiência completa e outras imagnes clicando aqui.


 

Em 2017 vamos continuar valorizando as experiências de Educação Alimentar e Nutricional cadastradas na rede. Assim como a Grayce Kelly de Andrade você pode ter a oportunidade divulgar uma experiência aqui no Blog. Cadastre suas experiências de EAN e compartilhe com outros usuários suas vivências, ideias e desafios. Vamos fortalecer e qualificar nossas ações pelo Brasil!  

 



postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Quarta-feira, 12 de Abril de 2017

Durante o mês de abril, o Ideias na Mesa tem trazido algumas discussões relacionadas aos Conflitos de Interesse em Alimentação e Nutrição. Por isso, hoje o [Biblioteca do Ideias] vai apresentar um relatório produzido pela OMS, em 2015.

Esse relatório surgiu de uma discussão entre especialistas na área de Conflito de Interesses em Alimentação e Nutrição, sobre como atingir um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que recomenda a criação de:

"Um ambiente propício para a implementação de políticas globais de alimentação e nutrição" e exorta os Estados Membros a "estabelecer um diálogo com os partidos nacionais e internacionais relevantes e formar alianças e parcerias para expandir as ações de nutrição com o estabelecimento de mecanismos adequados para proteger contra potenciais conflitos de interesse".

Esses especialistas vieram de Universidades, sociedade civil, Ministros da Saúde e representantes do Sistema das Nações Unidas.

Como primeira etapa no desenvolvimento de ferramentas de avaliação, divulgação e gestão de risco de conflitos de interesses, esta reunião teve como objetivo estabelecer a discussão, identificar áreas-chave de trabalho e iniciar a coleta de melhores práticas e estudos de caso de cada país.

Os objetivos desta consulta foram:

(i)                  desenvolver definições, critérios e indicadores para ajudar a identificar e priorizar conflitos de interesse no desenvolvimento e implementação de políticas recomendadas pelo Plano Integral de Implementação sobre nutrição materno infantil e infantil a nível nacional;

(ii)                identificar situações em que o desenvolvimento e a implementação dessas políticas envolvam interações entre governos e atores não-estatais (com foco no setor privado) que podem levar a conflitos de interesse;

(iii)               identificar uma lista de ferramentas, metodologias e abordagens que possam ajudar a identificar e gerenciar conflitos de interesse. Este foi visto como um primeiro passo essencial antes de outras ações poderem seguir.

Para subsidiar as discussões apresentadas nesse relatório, foi entregue aos participantes um documento com uma série de definições.

O primeiro define um conflito de interesses como "um conjunto de condições nas quais o julgamento profissional relativo a um interesse primário [...] tende a ser indevidamente influenciado por um interesse secundário".

 Segundo o autor do documento de base, esta definição se aplica igualmente a indivíduos e a instituições. É importante notar que, com esta definição, o julgamento de um funcionário ou instituição não precisa, de fato, ser influenciado por um interesse secundário indevido para que haja um conflito, simplesmente tem que haver o potencial para uma influência indevida ocorrer.

A definição abrange tanto os conflitos de interesses reais, como os percebidos. Ele também especifica que um conflito surge quando um interesse privado tem o potencial de influenciar indevidamente o julgamento - ou seja, introduzindo outros fatores além dos relativos ao interesse público.

O documento também propôs algumas definições mais específicas:

1. Ocorre um conflito de interesses real quando um interesse adquirido tem o potencial de influenciar indevidamente o julgamento ou ação do funcionário ou agência através dos benefícios monetários ou materiais que confere ao funcionário ou agência.

2. Um conflito de interesses aparente surge quando um interesse adquirido tem o potencial de influenciar indevidamente o julgamento ou ação do funcionário ou agência por meio das influências não monetárias ou não materiais que ele exerce sobre o funcionário ou agência.

3. Um conflito de interesses baseado em resultados surge quando um interesse adquirido, envolvido no processo de definição de políticas ou de implementação de políticas, procura resultados que são inconsistentes com o interesse público demonstrável. Isto aplica-se a questões em que há consenso sobre o interesse público e onde um interesse particular, pela natureza de sua missão, persegue objetivos que estão em contradição com esse interesse.

Os resultados esperados com o encontro e descritos nesse relatório foram encontrar:

1. Definições, critérios e indicadores para ajudar a identificar conflitos de interesse no desenvolvimento e implementação de políticas a nível nacional;

2. Exemplos de situações em que o desenvolvimento e a implementação de políticas defendidas envolvem interações entre governos e Intervenientes não estatais (sobretudo do setor privado) susceptíveis de gerar conflitos de interesses;

3. Exemplos de ferramentas, metodologias e abordagens que podem ajudar a identificar e gerenciar conflitos de interesse.

Os principais assuntos tratados pelo documento são amamentação, fortificação e suplementação e sobrepeso infantil. 

 

A discussão final reforçou pontos, como a necessidade de se concentrar na prevenção de influência indevida e conflitos de interesses.

Embora ainda exista a necessidade de mais discussões para distinguir melhor entre a identificação de riscos de influência indevida de conflitos de interesses de indivíduos e instituições, destacou-se que o objetivo final de todas as medidas deve ser a preservação da integridade institucional, independência, credibilidade e confiança pública.

Para saber mais sobre esse relatório acesse aqui.



postado por Marina Morais Santos em Terça-feira, 11 de Abril de 2017


postado por Rafael Rioja Arantes em Segunda-feira, 10 de Abril de 2017

No começo deste ano compartilhamos a experiência aplicada pela equipe do OPSAN com o título "A ressignificação do cozinhar - Um caminho para a comida de verdade", relembre aqui. Durante o mês de abril, estaremos discutindo o conflito de interesses em nossa rede, e por isso, destacamos na publicação de hoje uma das estações onde a temática foi trabalhada.

A oficina foi conduzida durante o Congresso Brasileiro de Nutrição 2016 em Porto Alegre, e contou com a participação de 50 inscritos entre nutricionistas, educadores e estudantes. Dentre as seis estações que discutiram assuntos diversos, uma foi dedicada a problematizar o conflito de interesses.

Para conduzir essa estação, a equipe decidiu que traria à tona a discussão sobre um caso real, atual e polêmico, a recente associação do chefe de cozinha Jamie Oliver, que ganhou projeção internacional ao promover uma alimentação adequada e saudável (AAS), à empresa Sadia.

A dinâmica utilizada foi a simulação de um julgamento sobre a conduta do chefe e o questionamento do julgamento era: “Há conflito de interesses na associação de um chefe de cozinha, promotor mundial da alimentação adequada e saudável, com uma multinacional, produtora de alimentos ultraprocessados, responsável por 20% da produção mundial de frangos?”. O caso dizia respeito ao Chef Jamie Oliver, mas a ideia principal era julgar o conflito de interesses e discutir a conduta de um chefe, ou qualquer outro profissional que constrói a sua imagem promovendo AAS e a utiliza associada aos interesses financeiros e mercadológicos da indústria de alimentos.

Para o julgamento, os participantes eram divididos da seguinte forma: um grupo de acusação (defendiam que existe conflito de interesse), um grupo de defesa (defendiam que não existe conflito de interesse) e um juiz. Ao escolher o juiz, antes mesmo de saber o caso, a pessoa era informada de que deveria contar com a imparcialidade para exercer esse papel.

O produto final dessa estação era o veredicto final do juiz, dizendo se existiu ou não conflito de interesse e justificando o seu posicionamento.   

Durante o julgamento coube ao facilitador moderar os grupos que passaram pela estação, e observou-se um bom engajamento da maioria dos grupos que se envolveram para embasar as argumentações de ambos os lados.

Confira a experiência completa.

  


Em 2017 vamos continuar valorizando as experiências de Educação Alimentar e Nutricional cadastradas na rede. Assim como o Ideias na Mesa, você pode ter a oportunidade divulgar uma experiência aqui no Blog. Cadastre suas experiências de EAN e compartilhe com outros usuários suas vivências, ideias e desafios. Vamos fortalecer e qualificar nossas ações pelo Brasil! 



postado por Maína Pereira em Sexta-feira, 07 de Abril de 2017

Uma série para redescobrir o prazer em comer. Samurai Gourmet é uma série japonesa da Netflix lançada no último mês cuja produção é uma adaptação do mangá Manga-han Nobushi Gourmet.

A produção conta a história de um japonês recém-aposentado que diante desse novo momento da sua vida busca descobrir alguma nova forma de aproveitar melhor seu tempo livre depois de anos de intenso trabalho.

É aí que a comida entra. Ao fazer uma caminhada sem roteiro, o protagonista permite se deliciar com uma boa refeição e percebe que pode fazer isso sempre que desejar. E mais do que isso: agir como um samurai que se deleita sem limites ou regras em um bom prato de comida.

Os doze episódios da primeira temporada falam dos aprendizados que levamos na vida, da relação de afeto que adquirimos com o tempo, de saudades, liberdade, convivência e muito prazer! Como disse Nina Horta em sua recomendação sobre a série: “Se não se puder comer do jeito que se gosta do que adianta comer?”

Confira o trailer da série:

Em tempos que vivemos uma rotina que muitas vezes deixa de lado a alimentação, a série vem enfatizar o que nosso guia alimentar estimula e nos convida a valorizar o ato de comer com atenção desfrutando com todos os nossos sentidos, além de compartilhar em companhia esse momento tão prazeroso.  

Que tal despertar o samurai que há dentro de você também?



postado por Marina Morais Santos em Quinta-feira, 06 de Abril de 2017

A Escola Pública Capital City, localizada na capital americana Washington, é uma boa representação da mistura de culturas dos Estados Unidos. Muitos de seus 981 estudantes são a primeira geração de americanos de suas famílias, que vieram de várias partes do globo. Por isso, quando a ONG 826DC decidiu publicar um livro colaborativo escrito pelos alunos do segundo ano do ensino médio, a escolha do tema da obra precisava aproveitar toda essa diversidade. O tema escolhido foi algo com o qual todos os alunos podiam se identificar, além de deixar espaço para sua expressão cultural: comida. 

Os instrutores e professores de escrita que acompanharam os alunos pediram que eles pensassem em uma receita de família com história e depois escrevessem uma redação sobre este prato. As 81 receitas e suas respectivas histórias resultaram em um Livro de Receitas de culinária mundial com um toque afetivo, revelando que a contação de histórias pode ser o passo mais importante de uma receita. 

Alguns alunos compartilharam contos de preparações que amavam e, assim, acabaram descrevendo pratos de dar água na boca "E à medida que o vapor do macarrão subia, o aroma parecia ter caído do Céu," escreveu Mark St. John Pete sobre a receita de macarrão com queijo de sua avó.

Outros acabaram escolhendo preparações que não gostavam tanto assim... "Eu acho que tamales não apodrecem, eles podem ficar na geladeira por semanas e continuarem com a mesma aparência," disse Rolando Fuentes, que acabou enjoando de tamales de tanto comer os bolinhos de milho típicos de El Savador feitos por sua mãe.

Escrever essas histórias foi de grande benefício para os alunos, que se preparam para ir para a faculdade ainda neste ano. Além de se tornarem escritores melhores, os estudantes acabaram tendo também a oportunidade de mergulhar em suas identidades e passarem tempo com suas famílias, reforçando relacionamentos antes da saída deles de casa. 

Para preencher lacunas em suas narrativas, muitos dos jovens escritores tiveram que procurar pelos membros mais velhos de sua família para obter informações. Quando eles não sabiam algum detalhe ou ingrediente da receita, os seus professores os encorajavam a conversar som sua família. "Nós dizíamos 'Vá falar com seu pai sobre isso' e quando eles voltavam nos contavam 'Eu falei com meu pai. Nós conversamos e ele me contou um monte de coisas. Eu não fazia ideia de tudo isso!'" disse Lacey Dunham, que faz parte da ONG 826DC.

No último dia do projeto, os alunos celebraram seu sucesso com um almoço comunitário - cada um levou o prato sobre o qual escreveu com tanta dedicação. Alguns até mesmo leram suas histórias para os outros. "É uma maneira divertida de fazer com que os alunos pensem criticamente sobre quem eles são," disse Zachary Clark, diretor executivo da 826DC, "contar as histórias deles por meio de um mecanismo cujo resultado é algo que todos podem comer." 

Abaixo, seguem três das receitas e histórias dos alunos que escreveram a obra Delicious Havoc!

Sopa de Quiabo, por Chidinma Lantion - Receita da Nigéria

"Minha mãe chegou a este país na noite de Haloween de 1990 (ela ainda não entende o propósito deste feriado); foi uma experiência. Ela era uma garota nigeriana de 18 anos, pequena e com olhos grandes que nunca tinha saído de seu país, mas era corajosa o bastante para ir em direção ao inesperado. Ela estava lutando por outra vida, fora das expectativas de seus pais em seu país-natal. Estava escuro e frio, e ela se sentiu como se as pequenas crianças de máscaras fossem uma projeção do que ela sentia por dentro. Ela foi para a casa de sua prima, em Rockville, Maryland, e a primeira coisa de comer que tentaram dar a ela foi pizza, mas ela não quis. Havia um excesso de sabores novos e não familiares para ela, tudo em uma fatia com a qual ela não soube lidar. O sabor era artificial. Então ela os obrigou a sair no meio da noite para comprar um pouco de Sopa de Quiabo, porque, depois de uma longa jornada para um país estranho, ela precisava de algo que a lembrasse de casa. Ela precisava da leveza do quiabo e da textura da carne de vaca para fazer com que ela soubesse que, não importava o quão longe ela estava de casa ou o quanto as coisas tinham mudado, ela teria o conforto de que a comida continuaria a mesma." 

Atole de Elote (Atole de Milho), por Jose Ricas - Receita de El Salvador

"Por mais que eu tenha nascido em 26 de Março de 1999, eu sinto que a minha vida só realmente começou quando eu tinha 5 anos de idade. Apesar de muitas pessoas dizerem que lembram de tudo desde que estavam no útero - o que, aliás, eu acho um pouco duvidoso - eu tenho algumas lembranças de quando eu era um menininho. Uma das minhas memórias mais vívidas é de beber arole de elote em um pequeno restaurante em El Salvador perto da vizinhança onde eu costumava morar. Atole de etole é feita de milho e leite. Existem algumas crenças culturais sobre o preparo do atole de elote. Crê-se que apenas uma pessoa pode misturar o atole de elote, se não o sabor será ruim, e que mulhereres grávidas e pessoas de mal humor não podem misturar a bebida também porque isso faz com que o atole de etole fique amargo."

Cháo Bòa, por Ana Nguyen - Receita do Vietnã

"Em um país cheio de várias culturas diversas, eu sempre me senti como uma exilada na escola. Quando aconteciam refeições comunitárias no Natal ou Dia de Ações de Graça, eu era aquela criança que levavam um saco de batata frita, não porque eu não podia levar um prato de comida, mas porque eu, de cultura vietnamita, vivia em uma cultura ocidental. Estou em um país principalmente dominado por comidas que minha família não tem o costume de cozinhar. Quando eu era pequena, nunca comida cereal no café da manhã. Eu o comia em raros lanches, sem leite. Nas poucas vezes que levei minha cultura para a escola, eu recebi comentários como "Tem uma cara estranha," "Me deu vontade de vomitar," e "O que é isso?"...

Um dia, dois bons amigos meus vieram a minha casa. Eles eram americanos-hispânicos comuns. Estávamos no meio de julho, em um calor de 32 graus, e era perto de meio dia. Nós três nos sentamos ao redor de uma pequena mesa de jantar na sala adjacente à cozinha. Então, minha mãe trouxe cháo para comermos. As preparações começaram em minha mente: inventei uma desculpa para minha mãe para explicar porque eles não comeriam o prato, e porque eu comeria quase tudo, e o porque eu pediria para ela não cozinhar comida vietnamita para meus amigos. Eu observei enquanto os meus amigos tomavam um pouco da 'sopa alien'. Um longo silêncio encheu a sala - na realidade, foram muitos segundos - e eu perguntei hesitante, "Como está o prato?" Para a minha surpresa, eles amaram." 

Você sabia que o Ideias na Mesa também tem livros colaborativos? O "Mais que Receitas" já tem duas edições: a primeira é composta por receitas de família e lindos relatos e a segunda traz deliciosas receitas e reflexões sobre o Sistema Alimentar. Acesse e baixe ambas gratuitamente na nossa Biblioteca! 

O post acima foi inspirado e adaptado do The Salt. 



postado por Marina Morais Santos em Quinta-feira, 06 de Abril de 2017

O Biblioteca do Ideias de hoje traz mais uma novidade na nossa Rede: a publicação "Estudos socioculturais em alimentação e saúde: saberes em rede". A publicação é uma coletânea de estudos organizada pela Rede Ibero-Americana de Pesquisa Qualitativa em Alimentação e Sociadade (a REDE NAUS) e é composta por textos que derivam de diversas pesquisas realizadas por docentes, estudantes e profissionais de variadas formações.

A publicação correponde ao quinto volume da Série Sabor Metrópole e nela estão presentes expressões do pensamento que se voltam para as relações sociais construídas em torno de discursos e práticas alimentares e corporais, tendo como objetivo central e final a saúde. A coletânea se tornou, portanto, um espaço de reflexões sobre a comunicação dirigida à comida e ao corpo, compreendidos na cultura, na sociedade e na história.

Na publicação, encontra-se textos em português e em espanhol. Ela dirige-se a estudantes, docentes, pesquisadores e profissionais que atuam nos campos da Alimentação e Nutrição, Saúde e Humanidades.

Para acessar esta publicação e baixá-la, clique aqui e visite a nossa Biblioteca.



postado por Marina Morais Santos em Quarta-feira, 05 de Abril de 2017

Comida não nutre apenas o corpo, mas também a alma, as memórias, o coração. Mas o que alimenta a sua alma?

Para mim, filha de goianos que sempre gostaram da culinária tradicional e de explorar sabores de outras culturas, comfort food é um frango ao molho de açafrão da terra servido com um angu de milho bem quente e uma saladinha de tomate com repolho picadinhos. Não, espera, acho que comfort food mesmo é um belo prato de macarrão com molho de tomate e carne moída bem temperadinha, minha mãe sempre fez muito esse prato quando eu era criança. Ou melhor aquele carinho que um mingau de aveia com maçã e canela faz na gente colherada por colherada? A verdade é que não sei escolher apenas um prato que represente o meu jeito de comer. Já até tentei.

"Se tivesse que escolher um prato para comer o resto da vida, qual seria?" Já ouviu essa pergunta? Me fizeram este questionamento uma vez, em tom de brincadeira obviamente, mas eu devo confessar que levei a pergunta à sério. Me veio uma sensação de pânico ao tentar escolher uma resposta, um sentimento de terror em ter que abrir mão de sabores, aromas e texturas que formam minha identidade para resumir tudo em um só prato. Concluí que é um trabalho impossível (e torturante).  

O que cozinhamos e o que comemos é uma acumulação de experiências, já pensou nisso? O que aprendemos, a nossa família, os lugares onde moramos ou destinos que visitamos, os amigos acumulados durante os anos são todos formadores do nosso conhecimento e do nosso gosto. Ao longo da vida, construímos o nosso jeito de pensar, o nosso jeito de vestir e também o nosso jeito de comer.

Na infância, quando somos apresentados aos primeiros sabores, começamos o nosso repertório. Entram as frutas cheirosas e maduras comidas depois do almoço de baixo do pé, o feijão com caldo grosso e tão quente que chega sai "fumacinha"  da panela quando tira-se a tampa, as verduras batidinhas e refogadas com bastante cheiro verde para colorir... Comida simples, comida de mãe e de vó, comida que tem afeto e que faz carinho do estômago quando a gente come.

Quando deixamos a casa da nossa infância e passamos a integrar o grande mundo que nos esperava, começamos a deixar de lado um pouco dessa nossa "cultura-mãe". De acordo com Jennifer Berg, pesquisadora do assunto na Universidade de Nova York, alguns aspectos dessa cultura-mãe perdem-se mais rápido do que outros: "O primeiro a ser influenciado é a maneira como nos vestimos, porque queremos nos misturar ou ser parte de uma cultura maior. As coisas que são mais visíveis são as mais facilmente modificadas." Segundo ela, com a comida a história é diferente: "Comer é algo que se faz pelo menos três vezes ao dia, existem mais oportunidades de se conectar com a memória, família e lugar. É mais difícil abrir mão disso."

Eu diria ainda mais: a comida da nossa infância, que formou nosso paladar e nossas memórias nunca serão deixadas de lado, elas são a base da construção do nosso gosto e hábitos alimentares. O que experimentamos mais tarde e adicionamos ao repertório são feitos sobre essa fundação de memórias alimentares afetivas, ligadas a nossa identidade como família, comunidade e povo. Comer é cultura, porque comer é um ato social também. A primeira experiência social que temos é quando somos amamentados. O ato social do comer é parte do que nos faz humanos e assim aprender a comer é aprender a ser humano.

Escolher o que vamos comer, preparar os alimentos, aprender receitas com a família e comer ao redor de uma mesa com outros é exercer essa identidade. É trazer a tona quem somos, quem fomos e o quem esperamos ser também. Abrir mão da sua herança alimentar, das receitas da sua família, das escolhas alimentares que você faz com consciência, da partilha da comida com outras pessoas é abrir mão de um pedacinho da gente. E, infelizmente, isso tem ficado cada vez mais comum. 

As escolhas alimentares do dia a dia têm ficado cada vez mais distantes deste desejo de expressar identidade, de agradar o estômago e também a alma. Ao invés disso, muitas vezes, as escolhas alimentares do nosso povo estão mais ligadas à praticidade e ao apelo publicitário daquela refeição. Trocamos o feijão com arroz por um sanduíche em um fast food ou por uma lasanha congelada, comidas essas que não expressam nem a nossa cultura brasileira nem a de ninguém. Esquecemos que cada refeição realizada é uma oportunidade de expressar nossa identidade e até mesmo descobrirmos algo novo em nós mesmos. 

Se você se vê nessa posição, não precisa se preocupar: existe solução. E ela começa na reflexão, passando pela memória e chegando a escolhas alimentares mais verdadeiras. O resultado é uma alimentação cheia da comida que não alimenta apenas o seu corpo, mas também a sua alma. 

Por isso, eu pergunto de novo: o que alimenta a sua alma? É massa fresca feita pela nonna? É açaí e farinha de peixe? Moqueca com urucum ou com dendê? É roubar um pé de moleque ainda morno do tabuleiro? Ou o cheirinho da cuca saindo do forno? É a receita que você aprendeu com um amigo em um intercâmbio? Ou será que é a velha e incansável dupla de feijão com arroz? 



postado por Rafael Rioja Arantes em Sexta-feira, 31 de Março de 2017

Quem acompanha o Ideias na Mesa sabe que sexta feira é dia de unir comida, entretenimento e uma boa pitada de reflexão. Na coluna de hoje, compartilhamos a série de vídeos elaborada pelo "Comer Pra Quê?".

O nome é instigante por si só, afinal de contas pra quê nos alimentamos? De relance, a resposta para essa pergunta parece simples, e pode até ser  dependendo da percepção e vivência de cada um. O que passa desapercebido por grande parte das pessoas no entanto, é que as nossas escolhas alimentares são determinadas por fatores que nem nos damos conta, e que através do comer podemos influenciar relações que beneficiem à saúde, o meio ambiente e formas de comércio socialmente justas.   

Dentro deste cenário, foi iniciado no Rio de Janeiro o Movimento Comer Pra Quê?. A partir da ação de diferentes parceiros e universidades, o movimento é: "direcionado  à juventude brasileira com objetivo de gerar consciência crítica sobre as práticas alimentares. Pensar a comida de verdade além de seus aspectos nutricionais é descobrir as dimensões ambiental, psicossocial, cultural, econômica e biológica do alimento. É um pensar que vai do sabor ao saber, do quintal à mesa".

Foram desenvolvidos dez vídeos a partir dos temas mobilizadores problematizados colaborativamente entre os jovens e a equipe técnica do movimento. Eles apresentam o formato de entrevistas e animações, e abordam desconhecidos em diferentes capitais brasileiras para conversar sobre conteúdos relacionados à alimentação de maneira descontraída. As temáticas variam desde questionar o "por que cozinhar?" ou "de onde vem nossa comida?", passando pela influência do marketing e publicidade nas nossas escolhas, até a dimensão política do ato de comer.

Assista: 

Por que cozinhar?                                                                                            De one vem nossa comida? 

      

Comer é um ato político 

Para acessar os outros vídeos e materiais elaborados pelo movimento acesse o link e curta a página no facebook.  




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