A ressignificação do cozinhar - Um caminho para a comida de verdade
Postado 10/02/2017

 
Postado por
Ideias na Mesa

Brasília - DF
(61) 3107-0087
http://fs.unb.br/opsan/

Organização/Instituição Promotora da Experiência : Observatório de Políticas em Segurança Alimentar e Nutrição (OPSAN/UnB)
Área da Experiência: Educação, Saúde
Niveis Atuacao: Federal/Nacional
Setor da Organização/Instituição: Organização não governamental, Público
Sujeito Idade: 20 a 59 anos,
Número Aproximado de Participantes da Experiência : 0-50
Sujeito Caracteristica : Estudantes, Conselheiros ou gestores de programas públicos , Profissionais da saúde, Professores
Tipo Local: Outros
Tipo Experiência: Dinâmica em Grupo, Oficina/Workshop, Roda de Conversa
Temática: Produção agroecológica, Alimentos ultraprocessados / alimentos industrializados, Patrimônio e cultura alimentar, Promoção da Alimentação Adequada e Saudável, Sistema alimentar / sustentabilidade


Sobre A Iniciativa:

Esta oficina tem como proposta gerar reflexões e incentivar a mobilização para promover o cozinhar como prática emancipatória baseado nos princípios do Marco de Referência de Educação Alimentar e Nutricional para Políticas Públicas e nas diretrizes do Guia Alimentar para a População Brasileira.

A atividade tem duração de aproximadamente 3 horas, contendo seis estações com dinâmicas e temáticas próprias, possibilitando que os participantes discutam aspectos distintos durante a atividade.  

A oficina foi idealizada e desenvolvida pela equipe do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição – Universidade de Brasília (OPSAN/UnB) e aplicada em parceria com a Organização Panamericana da Saúde (OPAS/OMS) durante o XXIV CONBRAN 2016 em Porto alegre.  



Passo A Passo:

DINÂMICA INICIAL

Primeiramente, uma dinâmica de quebra-gelo foi aplicada para propiciar um contato inicial entre os participantes e para que eles se dividissem em grupos conforme o perfil. Para esta atividade, foi realizada a dinâmica do colar, na qual os próprios participantes confeccionam crachás utilizando materiais de papelaria com informações como a comida e hobby preferidos. Depois de terminados os crachás, os participantes  interagiram pelo espaço buscando formar seis grupos reunindo a maior diversidade possível com base nas informações do crachá, e a partir delas, criaram um nome que identificasse o  coletivo formado. Os nomes foram anotados em cartolinas que seguiram com os grupos para registrar os produtos de cada estação: 1. Mistura Fina; 2. De norte a Sul; 3. Arte e Cozinha; 4. Diversidade; 5. Equilíbrio; 6. Germinar. 

Findada a dinâmica inicial, os facilitadores explicaram a oficina e apresentaram a metodologia proposta na qual cada grupo circula pelas 6 estações propostas permanecendo 20 minutos em cada uma delas. Seguindo dinâmicas e gerando produtos próprios, as estações abordaram  as seguintes discussões:

ESTAÇÃO 1 -       A mulher e o cozinhar

Na primeira estação, foi elaborado um “varal de fotos” contendo uma seleção de imagens, cartazes e frases com retratos de chefes de cozinha do sexo masculino e fotos de merendeiras do sexo feminino. Também foram expostas propagandas de alimentos com discursos machistas além de alguns dados e reflexões.  Os elementos serviram para subsidiar as discussões em grupo sobre o tema central da estação que é “A mulher e o cozinhar”, com questões como a exaltação do prestígio e predominância de Chefs de cozinha do sexo masculino enquanto as atividades ligadas a alimentação doméstica e com menos “glamour” recaem sobre a mulher. Ao facilitador coube o papel de orientar as discussões e contribuir com questionamentos possibilitando a criação do produto final da estação que foi uma colagem que resumisse os argumentos discutidos no grupo ou propusesse uma nova forma de compartilhar essa responsabilidade.

ESTAÇÃO 2 - Tempo x Cozinhar

O objetivo dessa estação foi discutir a questão do tempo x cozinhar - um dos grandes desafios da atualidade, e a necessidade de encontrar um tempo para desenvolver habilidades culinárias e evitar os alimentos ultraprocessados, como o Guia Alimentar para a População Brasileira preconiza. Assim, não buscou-se resolver ou dar respostas a este complexo problema, mas refletir e pensar em estratégias.

 O cenário dessa estação foi composto com um calendário mensal grande com diversas atividades e compromissos, sem nenhuma programação para compras ou para cozinhar. Além deste elemento, o facilitador também exibiu alguns vídeos, para a partir da análise de discursos, aprofundar as discussões sobre as estratégias de propaganda  que a indústria alimentar utiliza:

   

 

    

Coube ao moderador da estação identificar um voluntário de cada grupo para registrar palavras-chave das discussões em post-its, que depois foram colados no cartaz como resumo e produto final da estação gerando uma “nuvem de tags”. Assim, a discussão girou em torno de duas questões: O papel da indústria e como a publicidade cria contextos de estímulo ao consumo de alimentos ultraprocessados se aproveitando do discurso da falta de tempo; Estratégias de como superar esse obstáculo.

A discussão foi moderada por meio de algumas perguntas reflexivas para o grupo, estimulando a discussão e depoimentos dos participantes, como:

  • O que vocês acharam dos vídeos?
  • É possível cozinhar em tempos de “correria”?
  • Cozinhar pode ser divertido?
  • Será que todo mundo que quer ter uma alimentação saudável está disposto a desenvolver habilidades culinárias?
  • Cozinhar: falta de tempo ou falta de priorização?

Para refletir e complementar a estação, usamos também  uma entrevista da chefe de cozinha Rito Lobo para Revista do Idec que pode ser acessada através do link.

ESTAÇÃO 3- Tradição e Memória

Para compor essa parte da oficina, foram selecionados e dispostos em forma de varal, vários alimentos característicos de todas as regiões brasileiras, como por exemplo cuscuz, sagu de vinho, galinhada, bacalhau, tapioca, milho, peixe frito, além de  frutas como pitanga, acerola, caju entre outras. Ademais, também foram colocadas no varal frases inspiradoras sobre alimentação e imagens que representavam a comensalidade, comidas típicas de datas comemorativas entre outras.

Com o objetivo de trabalhar a temática “tradição e memória”, foi proposto que os participantes de cada grupo escolhessem uma imagem ou frase que os representassem ou que remetesse alguma história pessoal. Após a escolha, cada um deveria contar para todos motivo da sua escolha.

Essa primeira parte foi importante para estimular a reflexão sobre como a história da humanidade é cercada por símbolos e representações relacionados com os alimentos. Além disso, essa parte também serviu  para resgatar as boas memórias da relação dos indivíduos com os alimentos.

Na segunda parte, foi proposto que os participantes brincassem de “Qual é a música?” com o intuito de lembrar de letras de músicas que contenham alimento, como por exemplo café e frutas. A descontração tomou conta de todos os grupos, possibilitando também uma troca de boas lembranças em relação aos alimentos e as músicas.

ESTAÇÃO 4- Sistema alimentar sustentável através do cozinhar

A estação 4 teve como proposta discutir alternativas e caminhos sustentáveis a partir das escolhas alimentares e fazendo uma interface com o cozinhar. Para tanto, foram disponibilizados 6 “kits” para que os participantes escolhessem com qual trabalhar (um pra cada grupo) contendo um alimento in natura e um produto industrializado correspondente, foram eles: Tomate x molho de tomate enlatado; frango caipira x nuggets; leite tipo A x achocolatado; laranja x suco industrializado de caixinha; limão x picolé de limão; milho x pipoca de microondas. No intuito de tornar a identificação mais real do ponto de vista sensorial, os alimentos foram levados para o local, com exceção do frango que foi substituído por um frango de borracha. Para os ultraprocessados, foi tomado o cuidado de tampar a parte correspondente às marcas dos produtos.       

Para os alimentos in natura, os participantes eram convidados a criar um caminho, desde a produção até o consumo e destinação final de eventuais cascas e bagaços, que fosse inclusivo, saudável e sustentável. Já para os industrializados,  a proposta foi de criar uma lógica oposta, identificando os impactos negativos para o meio ambiente, o agricultor e a saúde humana. O intuito foi propiciar uma reflexão sistêmica acerca dos impactos das nossas escolhas alimentares e contrapor diferentes modelos de produção Também foram disponibilizadas imagens de diferentes etapas do sistema alimentar para auxiliar na elaboração do produto final (em anexo).                             

ESTAÇÃO 5 - Comensalidade

Nesta estação, os participantes foram convidados a compartilharem de uma refeição juntos e construírem o conceito de comensalidade (ato de comer junto) com um jogo de palavras - disponível em anexo.

A cenografia contava com toalha de piquenique, flores, preparações regionais, frutas, sucos e livros de contos, crônicas e outros estilos literários que abordam a alimentação. Isso proporcionou um ambiente agradável e convidativo para a participação.

O facilitador era como um anfitrião que convidava todos a comerem juntos e conversarem sobre o tema. No jogo era possível formar diferentes frases, poesias, esquemas com palavras que iam desde tipos de refeições, pessoas, verbos, características, lugares e emoções.

ESTAÇÃO 6 - Conflito de interesses    

Para trabalhar a temática “Conflito de Interesse” a equipe decidiu que traria à tona a discussão sobre um caso real, atual e polêmico, a recente associação do chefe de cozinha Jamie Oliver, que ganhou projeção internacional ao promover uma alimentação adequada e saudável (AAS), à empresa Sadia.

A dinâmica utilizada foi a simulação de um julgamento sobre a conduta do chefe e o questionamento do julgamento era: “Há conflito de interesses na associação de um chefe de cozinha, promotor mundial da alimentação adequada e saudável, com uma multinacional, produtora de alimentos ultraprocessados, responsável por 20% da produção mundial de frangos?”. O caso dizia respeito ao Chef Jamie Oliver, mas a ideia principal era julgar o conflito de interesses e discutir a conduta de um chefe, ou qualquer outro profissional que constrói a sua imagem promovendo AAS mas, que em um determinado momento, se entrega aos interesses da indústria de alimentos.

Para o julgamento, os participantes eram divididos da seguinte forma: um grupo de acusação (defendiam que existe conflito de interesse), um grupo de defesa (defendiam que não existe conflito de interesse) e um juiz. Ao escolher o juiz, antes mesmo de saber o caso, a pessoa era informada de que deveria contar com a imparcialidade para exercer esse papel.

O produto final dessa estação era o veredicto final do juiz, dizendo se existiu ou não conflito de interesse e justificando o seu posicionamento.

Encerramento

Depois que todos os grupos passaram pelas 6 estações, eles foram convidados a apresentar os cartazes e fazer um breve relato sobre as discussões que tiveram. Os facilitadores da oficina encerraram a atividade destacando a correlação de cada estação com o tema principal da atividade, e a importância da compreensão desses elementos para promoção da Alimentação Adequada e Saudável.             



Considerações:

DISCUSSÃO FINAL

Apesar de os participantes da Oficina já estarem familiarizados, em algum nível, com a temática da Alimentação Adequada e Saudável, a forma como o tema foi abordado e suas interfaces foram inovadoras para muitos participantes que disseram que descobriram novos conceitos e novas formas de pensar.

A oficina foi conduzida dentro do ambiente de uma sala de aula, pois era o espaço disponível durante o congresso, o que limitou a condução da oficina de uma forma mais integrada. A ideia inicial era que os participantes entrassem em um contexto de discussão, vivenciando um cenário que traria aspectos relevantes para a construção de cada grupo. Ainda assim, os cenários criados proporcionaram uma imersão ainda que em menor escala. É importante considerar ainda que as estações devem estar dispostas de forma que a discussão de uma não atrapalhe a outra por conta do barulho, já que elas acontecem simultaneamente. Por isso, sugere-se que esse aspecto seja levado em consideração ao replicar a Oficina, assim, um espaço ao ar livre ou uma sala mais ampla por exemplo pode possibilitar uma experiência mais completa.

Na estação sobre “Tempo x Cozinhar”, alguns participantes comentaram o fato de que a discussão poderia ter sido mais profunda, trazendo mais questões do dia-a-dia e envolvendo o cartaz com o calendário disponível no cenário que, por falta de tempo, não pode ser trabalhado. No entanto, foi comentado a importância desta estação estar presente na oficina e como a questão do tempo é uma das principais barreiras a serem vencidas. Sugere-se  que o moderador auxilie o grupo a identificar as palavras chaves para compor o produto final.  

Na estação sobre “Conflito de Interesses”, apesar de ter um tempo estipulado para a fala, cada grupo se comportou de maneiras diferentes. Enquanto alguns extrapolaram o tempo e até se exaltaram no debate, outros foram mais tímidos e acharam óbvia a conclusão sobre a existência do conflito de interesse. A partir das diferentes reações, percebeu-se que a dinâmica permitiu que os participantes saíssem da sua zona de conforto e discutissem o porquê da existência do conflito. Tentar “defender” a associação conflituosa do Jamie Oliver foi de fato um exercício complicado para quem já conhecia a questão e acredita na promoção de uma alimentação adequada e saudável. Mas olhar pela perspectiva do chefe e tentar encontrar novas soluções e novos meios de apresentar a incoerência no posicionamento dele, tornaram a atividade interessante, permitindo que os participantes aprendessem a partir de uma nova perspectiva.

Outro aspecto que pode ser melhorado é a questão de distribuição de tempo entre as estações. Enquanto algumas em algumas estações sobrou tempo, em outras os participantes saíram com a sensação de que não haviam encerrado a discussão. Isso também variou da composição de cada grupo, pois enquanto alguns discutiam mais, outros ficavam mais contidos.

Ao fim das atividades, percebeu-se que o tempo destinado à realização da oficina foi  muito construtivo e agregador para todos os participantes.

Resultados observados:

As inscrições na oficina foram feitas por e-mail, e após a atividade 11 dos 50 participantes responderam espontaneamente à pesquisa de opinião com impressões sobre a atividade. Em resposta a experiência de participação na oficina, 8 pessoas deram nota máxima para atividade em uma escala de 0-10, enquanto 3 pessoas deram notas entre 8 e 9. Os mesmos números foram observados para aprovação da metodologia utilizada. A oficina atendeu às expectativas de 90% e parcialmente de 10% dos que responderam à pesquisa. E ainda, 100% dos que responderam ao questionário gostaram da escolha do tema principal da oficina e também julgaram os temas das estações como pertinentes.

Para além dos dados quantitativos, alguns comentários também foram observados como:

“Continuem disseminando essa oficina. Eu gostei muito, aprendi muito, reforcei muitos entendimentos e levarei esse conhecimento para a vida e para a minha prática profissional” e “Considero a temática essencial para todos os nutricionistas e acho que a oficina poderia ser mais longa, para aprofundarmos nas discussões. Acho muito importante esse resgate do ato de cozinhar e sugiro que vocês selecionem multiplicadores para fazer a oficina em outras cidades. Estes multiplicadores poderiam receber treinamento e fazer parcerias nas instituições federais e privadas, para replicar a oficina para nutricionistas do SUS, CRN, alunos e professores de nutrição...”.




Custo da Experiência (R$): 150,00

Origem do Recurso/Fonte Financiadora da Experiência: Recursos próprios


Álbum de Fotos da Experiência



Biblioteca da Experiência
1 - Jogo de Palavras
2 - Jogo de Palavras
3 - Sistema Alimentar


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